quarta-feira, 26 de março de 2008

A aluna

Dos Contos Secretos, de Alma Welt

Recebo o telefonema de Luiza, moça de voz agradável, que diz admirar e acompanhar-me a carreira. Pede-me que lhe dê aulas de pintura. Reajo um pouco inicialmente, pois não estava nos meus planos ocupar-me de alunos, dedicar-me ao talento alheio ou à falta dele. Sei que isso é importante a certa altura da vida de um artista, mas ainda não estou preparada psicologicamente para esse desprendimento, esse tipo de doação. Ainda sinto que preciso todo meu tempo para dividir-me, como o faço, entre a literatura e a pintura. O fator de dispersão, em minha vida, advém de um insidioso sentimento de solidão, um tanto doloroso, que me faz procurar o amor, e freqüentemente sendo vítima da paixão. A embriagadora e desastrosa paixão.
Entretanto antes de declinar do pedido dessa moça, peço-lhe seu telefone para o caso de eu mudar de idéia. Bastou eu depositar o fone, para começar a considerar o assunto com mais condescendência. Sua bela voz ainda ressoava em meus ouvidos e aguçava minha curiosidade, instigando-me. Mas resolvi esperar uns dias para retornar-lhe o telefonema, para ter tempo de meditar no assunto e não me precipitar, sob o influxo de uma sugestão de caráter sensual, essa é que é a verdade. Todavia eu, já estava contaminada... e ansiava, depois de meia hora, por telefonar-lhe, e aceder ao seu pedido. Naturalmente com a expectativa de defrontar-me com uma jovem tão bela, pelo menos, quanto a sua voz. Foi o que fiz. Telefonei a ela, encontrando a sua alegria imediata, que me comoveu. Pareceu-me perceber, pelo telefone, as lágrimas nos seus olhos, em sua emoção. Ao desligar, caí num pranto copioso, constatando a minha profunda fraqueza, solidão... e a minha vulnerabilidade .
Após dois dias de expectativa, afinal o telefone toca, e é Luiza, avisando-me que está a caminho e que chegará dentro de poucos minutos, no horário combinado. Custo a controlar a minha ansiedade. Ao soar o interfone eu escancaro a porta de entrada, para receber esse novo raio de sol em minha vida.
Quando a porta do elevador se abre, tenho a mais doce visão, e o maior alívio de que me lembro. Luiza é bela! Não me enganei. Loura natural, olhos azuis claros, e pele quase tão branca quanto a minha, e um ar de menina, é recebida com o meu mais doce sorriso e o meu abraço carinhoso, talvez um tanto precipitado, eu penso. Assim vou espantar a guria... Ou ela não respeitará a sua mestra. Sim, porque eu estou, ao mesmo tempo, predisposta a levar a sério esse novo papel em minha vida e até faço planos de transmitir-lhe tudo que acumulei de conhecimentos, e se for possível, de experiência, em minha vida. E a ser uma dedicada preceptora artística, honrando a minha profissão. Não sou uma hipócrita, vocês sabem.
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Assim, esse ser encantador, entra em minha vida. Passo horas ensinando-a a preparar telas, a mexer com as tintas, enquanto entre pausas de silencio concentrado, transmito-lhe, aos poucos, conhecimentos sobre história da arte, vidas de pintores, técnicas e conceitos, insinuando em tudo o que digo a minha visão pessoal do mundo, que não se pretende, a priori, original , mas antes de tudo, sensível e profunda (perdoem-me a imodéstia).
Ah! Alma, não és hipócrita, mas incorrigível. Já estás apaixonada. A beleza te domina, e te seduz de uma maneira quase infantil, não é mesmo? Não! A verdade é a beleza, e a beleza,a verdade, dizia o poeta*. Não deves pois te envergonhares de ser tão suscetível a ela. E depois, e isso por si só já justificaria tudo, Luiza já está apaixonada por mim, talvez há mais tempo. Às vezes, quando toco sua mão para conduzi-la, na correção eventual de uma pincelada, sinto-a tremer ligeiramente, emocionada. Nesses momentos tenho de me controlar para não abraçá-la, em plena aula.
Hoje decido terminar a aula mais cedo, e convidá-la para um chá, para que compartilhemos um outro tipo de momento sensível, de “desconcentração”, próxima do zen, para podermos fruir a pura companhia uma da outra. Ela está encantada com o convite.
Coloco a minha mais bela toalha de bilro do Ceará, sobre a minha
prancheta de desenho depois de ajustá-la na perfeita horizontal, para transformá-la em mesa de chá, já que não tenho uma e a grande mesa de trabalho vive entupida, de tralha e materiais. Não se esqueçam que isto não é uma casa burguesa, é a oficina de uma artista, um ateliê, embora dentro de um condomínio. Digo isso, também para que tu, leitor, não me avalies por teus padrões convencionais, que não aceitarei. Mas, se aceitas o meu mundo, a ponto de te debruçares sobre ele, lendo o que escrevo, aqui nesta espécie de diário secreto, prepara-te , e se possível, não me julgues. Antes, seja o sensível voyeur que espero de ti.
Dito isso, convido–te, pois, a acompanhares o suave balé dos nossos gestos lentos, harmônicos, nesta espécie de cerimônia do chá.
Coloco sobre a mesa uma espécie pouco conhecida de cafeteira, um suporte que sustém uma esfera de cristal refratário, cheia d’água, aquecida por baixo por uma espiriteira de pavio, à álcool. Isso nos coloca, às duas, contemplativas do belíssimo fenômeno da lenta fervura, até a ebulição vaporosa. A esfera de cristal sobre a chama, produz lindos reflexos, com pontos alaranjados e azuis, além daquele cristalino, do vidro e da água. Faz-me pensar, num momento, num aparelho de alquimista ou na bola de consulta das ciganas, e julgo avistar por um segundo, o meu destino, insinuando-se sem que eu nada pergunte. Tenho um ligeiro estremecimento, e Luíza, pousa sua mão sobre a minha como para me tranqüilizar. Arrepio-me toda, prazerosamente, com este toque de sua linda mão. E tomo-a, para não mais soltá-la. A cerimônia do chá para mim está completa. Não precisamos prepará-lo, muito menos sorvê-lo. Para nós, tacitamente, ele consiste nesta contemplação da fervura, no seu milagre, em que reconhecemos uma delicada metáfora do nosso encontro, deste nosso momento. Agarramo-nos por sobre a mesa, perigosamente próximas da chama e do cristal, com os nossas bocas ávidas de nossos beijos, tão esperados. Circundamos a mesa improvisada, numa estranha dança, mágica, em que nossos lábios não se descolam, e rodopiando assim, seio contra seio, púbis contra púbis, em espiral cada vez mais aberta, em direção ao quarto, ao leito que irá ser nosso.
Dispo-a, lentamente, a ela e a mim, simultaneamente, revelando o seu lindo corpo branco, a delicada curva do ventre, e um minúsculo e ralo tufo de sedosos pelos louros. Deito-a, suavemente, enquanto percorro as suas formas com as palmas de minhas mãos, sentindo a extraordinária maciez de sua pele iluminada de juventude. Ao mesmo tempo eu sinto que essas minhas manobras são legítimas, por poder dizer as mesmas coisas do meu próprio corpo. Embora experiente, vivida, meu corpo ostenta a mesma juventude e beleza, e isso faz com que eu sinta a igualdade das nossas trocas, de nossas mútuas oferendas. Num momento sublime como este, eu queria fazer o tempo parar, mas não repetiria a exclamação perigosa de Fausto*, apenas para não perder a minha alma imortal. Ao mesmo tempo agradeço aos deuses...ou a Deus, pela beleza eterna do momento, e seu indizível prazer.

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“Luiza, minha pequena Psiqué, como vou amar-te, como já te amo! Acordas do meu lado, e mostras, a preocupação no teu semblante. Eu sei, eu imagino, não avisaste os teus pais. Mas ainda é cedo, minha querida, não te preocupes, não passaste a noite aqui, passou-se apenas uma hora, em que velei teu lindo sono, contemplando o teu perfil. Agora vou ligar para teus pais, para avisá-los que amanhã sendo sábado, convido-te para dormires aqui hoje, na casa de tua mestra, que estamos pintando um grande painel e não podemos parar. Agora sorris, novamente, meu anjo... esta noite, volto a cobrir de beijos cada centímetro de teu corpo e tuas mucosas rosadas, como pétalas. Será a noite de nossa mútua fruição, da apoteose de nossa desejosa e pura juventude. Podes confiar, não preciso te dizer, já o fazes. Homens e mulheres me desejam, e eu, agora, só desejo a ti, minha pequena ninfa, reflexo materializado de minha própria anima.”
Levanto-me, tomo as prosaicas providências que interrompem o nosso devaneio. Seus pais já estão preocupados, alternam-se ao fone e crivam-me de perguntas, mas percebo que diante da minha voz suave, e ao mesmo tempo séria, infundindo credibilidade, parecem mais tranqüilizados. Chamam-na ao telefone, claro. E percebo que questionam e tentam mais uma vez dissuadi-la de passar a noite na casa dessa desconhecida para eles, apesar do tanto que Luiza vem falando de mim em sua casa. Afinal cedem, a contragosto, chamando-me uma vez mais ao telefone e fazendo recomendações sobre os cuidados à sua filhinha. Luiza, que tem dezenove anos, irrita-se com os pais, como boa adolescente. Desliga meio abruptamente, envergonhada de ser assim tratada diante de mim. Espero por uma nova ligação que sei que virá com algum pretexto, para conferirem a veracidade do local onde ela está, a ovelhinha que ameaça desgarrar-se. Este é o lado previsível da nossa história, paciência, há sempre um preço a pagar pelo amor, pelo prazer. Mas tenho certeza que conseguirei apaziguar estes pais, quando for visitá-los amanhã, para devolver-lhes Luiza.

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É sábado, por volta das onze. Estou diante dos pais de Luiza, sérios, que camuflam sua simpatia, no papel de pais cuidadosos e severos. Percebo que movo-me em terreno perigoso, no meio deste casal burguês, e começo a me sentir ligeiramente discriminada diante de tantas perguntas, levemente marginalizada. Como flashes, intrometem-se em minha mente as imagens de nossa adorável noite de luxúria e de amor, mas entremeadas, penosamente, de outras, aquelas da minha infância: eu e Rôdo, nuzinhos, apanhados em flagrante de amor e inocente curiosidade, sob a nossa macieira, arrastados pelos pulsos por nossa mãe, anatematizados, expulsos do nosso paraíso infantil. Meus olhos, de súbito, enchem-se de lágrimas, e quase caio em prantos, desastrosamente, diante deste casal. Mas algo em mim os enternece, e já estão me tratando, afinal, como uma amiguinha de sua filha, graças a Deus.
Estamos salvas. Livres... por enquanto.

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Luiza, Luiza, temo perder-te, escapas-me entre os dedos, não por ti, mas pela tua juventude, e suas exigências. Não quero acompanhar–te a danceterias, a festas dos teus amigos. Sou jovem ainda, tenho trinta anos, mas sinto a antigüidade da minha alma, e não posso evitar as comparações, e esse deslocamento, a sensação de inadequação quando estou entre os teus amigos. Eu sei, eles me acham bonita, mas olham-me com curiosidade e estranheza e sinto-me um pouco ridícula, de estar ali, sendo, para todos os efeitos, tua professora. Além disso, ser encontrada por aí, contigo, deixa-me mais suspeita diante da tua família, eu o sinto. As más línguas...tu sabes. Já falam de nós. Tu não te conténs e pegas-me na mão e beijas-me nos lábios (eu também) a todo momento. Estamos dando na vista. Eu sei, estou parecendo uma reprimida. Temerosa. Mas sim, eu temo, minha querida, Vão reprimir-nos, vão descriminar-nos. Vamos sofrer, meu amor. Tu, em tua pureza, não imaginas o quanto podem fazer-nos sofrer. Sim, porque começarão por malbaratar o nosso amor, caluniar-nos, chamando-nos daqueles nomes horríveis. Ai, Luiza, minha pequena Luiza, queria arrebatar–te do mundo, levar-te comigo, para longe daqui, à minha estância, que recuperei com minhas forças, da maldade do mundo*.
Ali no Pampa infinito, quero estar contigo até minha alma dissipar-se no vento, no minuano, no pampeiro. Quero arrebatar-te numa cavalgada sem fim, onde o mundo não nos alcance, ele não merece a nossa beleza, não nos merece... não este mundo. Foge comigo, minha ninfa, voaremos no vento das pradarias do Sul, nos alimentaremos dos nossos beijos inesgotáveis, das nossas carícias, da eterna juventude de nossas almas. Ou então, quero morrer em teus braços, chamando-te “o meu amor!”
Eu sei, sou romântica, e até melodramática, mais ainda que tu, que és uma guria “moderna”, mas não posso evitar tais pensamentos... e queria viver assim, ou morrer. As vezes me sinto tão cansada! De carregar o fardo, a benção... ou a maldição de amar assim, tanto, e a tantos, através da minha vida de poeta, de incorrigível amorosa.

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Abro a porta para a mãe de Luiza, que entra severa, majestosa. Olha em torno, rapidamente, e, por um segundo, eu espero que tanta beleza a comova. Mas, ela está sentada agora, a meu convite, e depois de sintomaticamente recusar um café ( e ainda um chimarrão, que a fez dar uma careta), começa o discurso que eu temia:
—Senhorita Alma, vou ser franca. Não gosto dessa relação de vocês. Isso está, no mínimo, dispersando Luiza, de seus estudos. Ela está faltando à faculdade. Suas notas caíram. É verdade que algumas subiram, mas são as daquelas matérias que não dão o pão a ninguém. Mas, naturalmente, isso não é o que mais me preocupa. É a sua beleza, a sua, senhorita Alma, ela é que me preocupa. Ela dá demasiado na vista, as pessoas falam, é... quase...escandalosa. Sim, é escandalosa. Não se justifica minha filha andar com uma moça mais velha, e assim tão bela, me desculpe. Você vê, eu própria estranhei, desde o primeiro dia em que nos vimos, lá em casa. Meu marido, também. Ele ficou indignado. Disse: “aí tem coisa!” porquê uma moça assim, perderia tanto tempo com uma menina? A senhorita nem sequer é formada, como professora, digo. Enfim, as pessoas falam, começam a dizer coisas maldosas. Você compreende. A reputação de Luiza está em jogo. Enfim, resumindo, vim pedir-lhe que afaste-se de minha filha.
Senti uma punhalada no peito. Minha respiração ficou opressa. Faltava-me o ar. Uma memória ancestral, muito antiga, me tirava o fôlego. Roubavam-me o alento. Roubavam-me o meu amor! Quis reagir. Mas antes que falasse alguma coisa, a mãe de Luiza, vendo o meu estado, acudiu-me temendo que eu desmaiasse. Amparou-me, um pouco perplexa. Eu lhe disse:
-–Dona Maria, farei o que a senhora quiser, serei mais discreta. Não sairei com Luiza, mas deixe-a continuar com as aulas de pintura. Ela está aproveitando tanto. Ela tem tanto talento! A senhora sabe o quanto isso é importante para ela, deixe-a continuar...com as aulas.
—Minha querida, –ela disse— esse não é o ponto. Isto... essa relação está comprometendo o futuro de minha filha. Ela teve um noivo, você sabia? . Foi antes dela lhe conhecer, mas eu esperava, meu marido também, que eles se reconciliassem. Agora vejo isso cada vez mais difícil. Luiza está muito mudada. Aquele ar sonhador. A senhorita enche-lhe talvez a cabeça de sonhos absurdos. O mundo não é assim, o mundo não é isso! Não, isso tem que parar. Quero que Luiza se case, tenha filhos, e que tenha também uma carreira profissional, séria. A senhorita me entende. Se gosta dela, afaste-se, eu lhe peço. Não a prejudique.
Explodi em lágrimas comprometedoras, finalmente. Eu desabara Sentia uma forte dor no peito e a dor na alma era maior ainda.
—Dona Maria. Não me peça isso. Não me peça. Isso vai me matar. A senhora não sabe... não conhece... os artistas. Nós, sofremos, de um outro jeito, por outras razões, ou, mais fortemente. Que estou dizendo? Não é isso, que quero dizer. A senhora não sabe o que é pedir-me isso (eu soluçava).
Dona Maria olhou-me profundamente, e eu vi que ela enxergou o meu coração, ela pareceu apiedar-se, e com um semblante grave, triste, mas humano, disse:
—Minha querida, agora vejo, claramente, que ama a minha filha, e que ela a ama. Quanto a isso nada posso fazer, o estrago já está feito. Mas insisto, que se afastem... se a amas faça isso. Você sabe que isso é o que deve ser feito. E sei, também, que o fará. Eu lhe serei eternamente grata.
Ela afastou-se lentamente, eu não a acompanhei até a porta, e ela saiu, como uma sombra, deixando-a aberta.
Eu soluçava alto. Creio que também gritei.

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Notas:
*“a verdade é a beleza...”- fragmento dos últimos versos do
famoso poema de poeta romântico inglês John Keats,
“Ode a uma urna grega”.

*No Fausto de Goethe,
aquele diria, afinal, ao minuto que passa:
“ Pára, és tão belo!”, e sua alma estaria perdida para sempre,
sendo esta a senha pactuada com Mefistófeles.

* Alma se refere ao seu romance autobiográfico “A Herança”,
a sair pela Editora Palavras & Gestos.

terça-feira, 25 de março de 2008

A marchande

(dos Contos secretos de Alma Welt)

Recebo um telefonema inesperado: minha amiga Giulia chegou dos States e tem urgência em me ver.
Arrumo o ateliê com aquela bagunça organizada típica. Tiro algumas manchas de tinta do assoalho e dos móveis e deixo outras. Escondo algumas telas inacabadas e deixo as mais bem resolvidas bem à mostra, estrategicamente. Tudo isso é de praxe entre pintores e suas visitas... Mas algo me diz que alguma mudança chegará em minha vida, para alterar a rotina de trabalho e criação (se é que há alguma rotina na criação...) em que vivo nos últimos meses. Estou cansada, desmazelada e maltratada, fisicamente. Tenho manchas de tinta nas mãos, nos braços, no rosto e até nos meus cabelos loiros, que estão esverdeados. Olho no espelho. Estou horrível. Nada que um bom banho não melhore. Afinal, thank God, sou uma mulher bonita e disso não abro mão. Esqueço-me disso por longas temporadas de trabalho árduo na pintura. Mas basta que me liguem ou pretendam me visitar e a vaidade volta como uma segunda natureza. Felizmente não é a primeira, pois me levo muito a sério como pintora. Não estou brincando em serviço, nem vim ao mundo a passeio, como dizem alguns sobre si mesmos. Arre, hoje estou cheia de lugares-comuns!
Agora, banhada, penteada e “linda” permaneço em repouso esperando minha amiga.
Afinal toca a campainha, um suave toque de sinos chineses bem natureba, resquício de uma fase new age já superada (agora voltei à música clássica, com pausas para ouvir Elomar, o grande menestrel do sertão brasileiro). Mas falamos disso depois...
Corro a abrir a porta e minha amiga cai-me nos braços, apertando-me e beijando-me loucamente, aos gritinhos as duas. Depois de mãos dadas afasta-se para olhar-me o rosto e o corpo. (Por que nós mulheres fazemos sempre isso?). Põe o dedo em minhas olheiras e depois brande-o em censura frente ao meu rosto. É sempre assim. Estou farta.
— Minha amiga, ela diz, isto não é vida para você! Se tivesse ido comigo para os States (o tanto que insisti) estaria rica agora, cheia de dólares! Os americanos são loucos pelas suas gravuras. Vendi-as todas, caríssimas. Mas afinal eu as tinha comprado de você e precisava de dinheiro para instalar-me e tudo mais. O começo é sempre duro no estrangeiro. Mas você!... Estaria agora numa mansão com piscina ou num imenso loft em New York”. Patati patatá...
Estou enfadada ao mesmo tempo que contente por vê-la, a minha amiga Giulia. Louca pela Audrey Hepburn, sua “ídala”, como ela diz. Também gosto da Audrey, mas engraçado, isso não me aproxima de Giulia, tão fútil, coitadinha.
Agora ela faz uma pausa e um olhar de suspense e diz:
— Tenho uma surpresa para você. Um presente. Uma pessoa. Vou lhe dar uma pessoa de presente. É o melhor que posso fazer para retribuir-lhe a sorte que o seu trabalho, a sua arte me proporcionou. Você é uma grande artista (já não a achei tão fútil...). Vamos buscar essa pessoa no aeroporto amanhã às 18h.
Giulia estendeu-se mais em detalhes periféricos, afinal, pois não pode parar de falar. No entanto noto que sutilmente esconde pormenores e dados justamente sobre o “presente”, “a pessoa”, como ela diz. Haverá alguma intenção nisso? Mero acaso ou decorrência daquela mesma futilidade que vislumbro em sua personalidade?
Esperemos. Ela se despede. O silêncio volta a reinar no ateliê. Como amo minha solidão! Já não me pesa mais, como em outros tempos. Fui muito amada, saciada. Meu corpo e minha alma agora estão em recesso. Hesito em conhecer novas pessoas, elas me solicitam e eu acabo me entregando muito. Sou salva sempre pela fidelidade suprema a minha própria arte. E disso me orgulho.
Entretanto, continuo sonhando com um grande amor, como uma menina-moça. À noite meus sonhos são terrivelmente eróticos e não posso nem contá-los para ninguém. Mas acordada sou romântica, como uma donzela, esta que é a verdade.
Passo a noite sob a influência daquelas palavras: “Uma pessoa! Vou lhe dar uma pessoa de presente!” Porque minha amiga colocou as coisas assim, nestes termos? Estranho... Há algum mistério nisso. Não esperava algo assim de Giulia, afinal, sempre tão previsível... Mas isto?... Será apenas mais uma leviandade dela? Não sei, não faz parte do seu estilo.
No dia seguinte acordo bem cedo e tento me concentrar no trabalho. Até o consigo por algumas horas. Mas o pensamento plantado por Giulia em minha cabeça insiste em instalar-se, incompleto, tomando aos poucos a feição perigosa de uma obsessão.
Jogo os pincéis sobre a mesa, lavo as mãos em solvente antes do sabonete (minhas pobres mãos tão belas e ressecadas por tanta química...).
Deito-me no divã e sonho de olhos abertos diante das minhas telas. Elas sempre me fazem sonhar. É assim que elas voltam a mim desde o seu esboço, quando captadas de algum plano astral, se insinuam, exigem e se mostram. Não faço mais do que obedecê-las.
Afinal, perto da hora combinada, o interfone toca, o porteiro me avisa para descer, que o carro de minha amiga me espera frente ao prédio. Desço, agradeço ao porteiro bisbilhoteiro, que me olha de maneira acintosa sempre que passo na portaria. Esse homem odioso olha-me o traseiro de uma maneira que devia ser proibida. Pelo menos à gente de sua estirpe...
Entro no carro de Giulia, beijamo-nos e “toca para o aeroporto”. No caminho, Giulia, em silêncio, olha-me de vez em quando, fazendo suspense. De repente diz:
— Amiga, quero preveni-la sobre essa pessoa que vamos buscar. Ela vem especialmente para isso, para lhe conhecer. Falei maravilhas a seu respeito, como artista. Mas fiz também um certo mistério sobre a sua pessoa. Afinal, você também será um presente para ela. Sabe por que? Por isso, minha amiga: Mariliese é a mulher mais bela do mundo! E é uma marchand de mão cheia. Quer conhecer o seu trabalho e talvez levá-la para a Europa, com uma exposição sua, sei lá... Se tudo der certo, como espero. Mas quis prevenir você para que o impacto da beleza de Mariliese não lhe paralise ou tire o seu savoir-faire, se isso for possível. Porque, você vai ver, a reação que ela causa, você poderá observar logo no aeroporto, ao redor. É algo incrível!...
Mais curiosa ainda, e com o coração ligeiramente acelerado por essas palavras, dispus-me a observar. Ia colocar-me na minha posição preferida, de observadora da vida, que sempre me poupa uma parte das emoções dolorosas que a minha sensibilidade tende a me oferecer. (Talvez isso seja desculpa para um certo medo da vida, o que não me impede de meter-me em encrencas, já que a minha curiosidade e sede de viver são bem maiores).
No grande saguão, atrás de vidros, aguardo, como diante de uma vitrine ou palco, a entrada da estrela.
Mariliese entra no saguão e o aeroporto pára. Literalmente.
Olhares se voltam, cabeças se voltam. Mulheres e homens param por alguns segundos. Acreditem, eu observei apesar de estar também paralisada, impactada, deslumbrada. As mulheres em geral, olhavam-na de maneira diferente dos homens. Meio de baixo para cima, ao mesmo tempo que meio de lado. É curioso.
Era alta, como uma deusa, cabelo loiro natural, flamejante como o ouro do Reno, olhos azuis com reflexos de água-marinha, pele clara, corpo perfeito, deslumbrante e andar felino, firme, seguro e ao mesmo tempo deslizante, sem nenhuma oscilação, sem hesitação, como se tivesse nascido em cima daqueles saltos, incorporados pelos seus belíssimos pés. A perfeição, em suma. Um “pacote de inteligência física”, genialidade da natureza, do corpo, da espécie, na expressão de um jornalista.
Pensei imediatamente em Helena de Tróia: “o rosto que lançou ao mar mil navios”. Assim eu também logo não teria mais defesa. Minha posição de observadora caía diante da impossibilidade de crítica. Meu poder de análise estava prostrado subserviente como um súdito diante de sua rainha. Eu já estava apaixonada.
Ela me olhou, sorriu e avançando para mim, seguida por um carregador que lhe arrastava a bagagem como um pagem. Antes mesmo de cumprimentar Giulia, abraçou-me calorosamente dizendo com linda voz cristalina e suave:
— Você é a pintora! Como é bonita! Sei que vou amar sua pintura...”
Por uma fração de segundo eu quis morrer. Como Fausto eu diria ao minuto que passa: “Pára, és tão belo!” E minha alma estaria perdida por vontade.
Senti o calor e o perfume do seu corpo, as batidas do seu coração atrás do volume suave e macio dos seus seios junto aos meus e a seda do seu cabelo no meu rosto, num abraço que me incorporou como uma criança. Tive uma súbita vontade de chorar.
Tinha uma comovida sensação, como uma exilada que reentra em sua pátria, imagino. É isso! A beleza! Ela era a minha pátria. Não, não exagero.
No caminho de volta, Giulia falava pouco, o que era notável. Dirigindo, observava-nos pelo espelhinho do carro, alternadamente, a mim e a outra. Mariliese falava, mas eu já não percebia o conteúdo de suas palavras. Apenas a música de sua voz, que me embalou durante todo o percurso. Sinceramente, não sei o que ela dizia. Seus planos, sua galeria, suas impressões em sua volta ao Brasil? Jamais saberei. Somente o som, as inflexões, o ligeiro sotaque, a música permanecem em mim até hoje.
Giulia deixou-nos frente ao meu prédio. Tinha outro compromisso como buscar uma criança etc. Como ela agüentou a curiosidade? Bem, ela já tinha observado o impacto do seu “presente”, sobre mim, sobre nós. Estávamos entregues por ela, uma à outra. Não, Giulia não era fútil.
Entramos no ateliê. Sua bagagem seguira com Giulia. Ela estava livre. Ao entrar, sorriu diante da placa: “Pintor, pinta!” e passou a mão em minha cabeça, num gesto muito raro entre mulheres adultas. Senti-me como uma menina, com sua aprovação inicial. Continuava com vontade de chorar, mas de estranha felicidade. Aliás, somente a beleza e a felicidade, que para mim são a mesma coisa, me arrancam lágrimas. Sou assim desde criança. Por isso meus familiares diziam: “essa menina é estranha, só chora quando está feliz”. E eu raramente estava feliz. Somente quando ouvia música; Chopin, por exemplo, cuja beleza, e não tristeza, me comovia.
Mas chorava mesmo, copiosamente, de prazer, diante da explosão de alegria de um ser humano puro e ingênuo. Isso me derrotou sempre. Agora derramo lágrimas mais discretas, pelas mesmas razões. “A dor diz: passa e acaba. Mas toda alegria quer eternidade, a profunda eternidade”. Lembram-se de Nietzsche?
Pus-me, logo, a mostrar-lhe as telas, mas não conseguia quase falar delas, como costumo. Minha atenção reclamava o meu olhar só para ela. Queria absorvê-la, pintá-la na minha alma. Eu a amava já e a amaria para sempre.
Ela percebeu, pegou minha mão trêmula e levou até o seu coração, em silêncio. Estremeci ouvindo com os dedos as batidas.
Sem retirar a mão aproximei meus lábios dos seus e beijei-a trêmula de emoção. Ela me envolveu com seus braços num amplexo de rainha ou de deusa. Assim o senti: E explodi em lágrimas, soluçando. Essa era a “marchande”, ela tinha chegado. Não era filha de Mercúrio, mas de Vênus mesmo. E eu já não queria nenhuma relação comercial: queria amá-la e ser amada por ela. Meu corpo ansiava pelo dela, como a minha alma...
Deixei-me levar por ela em minha própria casa para o meu leito. Ela me conduziu. Seu “animus” era mais forte.
Deitou-me suavemente, despiu-me lentamente. Depois, de pé, sempre me olhando, nua, exposta, entregue sobre a cama, despiu-se por sua vez também devagar, com gestos harmoniosos, como num ritual antigo, sagrado. E apareceu diante de mim em toda a glória de sua beleza radiosa, incomparável. Helena de Tróia! Era ela.
Deitou-se vagarosamente sobre mim e colou sua boca sobre a minha. Seus lábios perfeitos, rosados ao natural, sem batom. Derreti-me toda em líqüidos, perfumes, prazer indizível, entrega absoluta. Senti-me igualmente bela. Ela me amava, eu sentia.
Acordamos afinal, após uma noite de suaves delírios e sono de deusas. “Como é belo o ser humano”, pensei, logo ao despertar. Juro que pensei exatamente isso. Estranho? Não, a felicidade transfigura o mundo, vocês sabem. Fui fazer o café da manhã para nós, para minha deusa. Estava disposta a servi-la, como sua escrava. Não me envergonho disso. Meu amor tinha o timbre da veneração e isso aumentava o meu prazer.
Depois, nuas, tomamos o café da manhã. Brincamos, acariciamo-nos e voltamos a fazer amor. Tomamos banho juntas. Eu queria explodir de felicidade. Não estava mais só. Encontrara minha ânima corporificada. Eu queria tudo. Inclusive pintá-la, fazer o seu retrato, mas não sei se conseguiria algo digno dela.
Ao anoitecer ela me deixou para ir à casa de Giulia, precisava trocar de roupa. Prometeu voltar logo. Despedimo-nos em silêncio com um beijo enquanto ela passava a mão na tabuleta junto à porta. Depois brandiu o dedo com um sorriso. Chamou o elevador e saiu.
Nunca mais a veria.

O sedutor

(dos Contos Secretos de Alma Welt)

Rôdo convidou um amigo francês, que conheceu em Paris, que é um bom filósofo e escritor, inédito, segundo meu irmão. Para sobreviver, esse francês trabalha numa livraria como simples vendedor, embora seja um homem de grande cultura. Isso me fez pensar na diferença entre os nossos países, pois aqui os livreiros parecem não ler nada, tal como os editores.
Mathieu chegou à estância num fim de tarde, tendo Rôdo e eu ido buscá-lo na estação. É um homem interessante, com rosto tipicamente francês, com um grande e belo nariz, e testa ampla. Um tipo de intelectual, com um olhar inteligente, que não se encontra facilmente por aqui.
O francês botou esse olhar agudo sobre mim, logo de saída, como um estudioso, ou teórico da beleza feminina, e pôs-se logo a filosofar sobre o tema. Ah! O mistério da beleza, dizia ele, “o eterno feminino” goetheano, era a motivação maior de toda a literatura, a seu ver. Apenas dez por cento dos livros editados tratavam de outros temas, como política, violência, guerra, crime e auto-ajuda. É claro, ele exagerava, e percebia-se sua tendenciosidade com vias a lisonjear-me, como um plano de sedução, indireto, paciente, em seu primeiro estágio. Os franceses são mestres da sedução, tradicionalmente. Lembrei-me das “Liaisons dangereux”, de Choderlos de Laclos, e resolvi deixá-lo tentar me conquistar, sem sabotá-lo, mas avaliando cuidadosamente seus passos, suas palavras.
Entretanto, devo reconhecer que no verdadeiro processo de sedução, não há esse recurso, essa prerrogativa. A arte consiste em minar as defesas, sutilmente, da vítima ou alvo desses esforços, que logo se vê à mercê, como uma ovelhinha diante do lobo, ou a mosca diante da aranha, sem falar da rã diante do olhar mesmérico da serpente.
Pois foi o que começou a acontecer, comigo, apesar de estar tão prevenida. Mas quem, na verdade, não quer ser seduzido nesta vida? Ah! A volúpia de ser enredada, envolvida, e finalmente tomada, invadida, possuída! Eu pagaria para ver-me assim.
Mas logo, e ainda nos primeiros dias de sua estadia, o francês mostrou-se estranhamente desinteressado, tranqüilo, como se tivesse perdido o interesse por minha pessoa. Eu fiquei inquieta. De novo, entretanto, ele recomeçou o seu cerco, displicente, esse era o seu charme, como se estivesse muito acostumado a encontrar moças com o meu “tipo”. Comecei a ficar insegura, depois indignada. Voltava ao meu quarto, desabafando, falando sozinha ao espelho, contra aquele blasé, que me insultava com sua negligência, como se eu fosse uma mulher comum, igual às outras. Então esse machista não percebia que sou uma artista, e uma “musa”? Eu ria também, às vezes.
Mas eu era continuamente obrigada a reconhecer a inteligência, a sagacidade, e mesmo a originalidade da maioria de suas observações. Elas eram indescritíveis, por isso não vou reproduzi-las aqui. Ou eu já estaria sob o efeito de sua sedução, que me fazia perder o critério? Eis aí uma questão...
Então, ele finalmente atraiu-me ao galpão, meu próprio galpão de feno, ferramentas e arreios. E ali, ele não precisava mais de palavras, eu estava à sua mercê. Diante dele, no silêncio daquela vetusta construção de madeira, invadida pelas réstias de luz, com sua poeira dançarina, deixei cair meu vestido, e eu já estava previamente livre da calcinha, que não vestira prevendo este momento. E permaneci extática em sua frente, de pé, tangida pelos fachos de luz como numa gaiola baconiana”*, mas que contivesse uma odalisca de Ingres, nua, de pé.
Mathieu, parado, sem pestanejar, olhou-me longamente, depois abaixou-se, pegou o meu vestido e entregou-me, pondo-o na minha mão, que pegou delicadamente. Disse apenas:
—As deusas e as ninfas não são para serem tocadas. A verdadeira beleza é intangível, pois sagrada. Eu u te reverencio, Alma, mas não sou digno de tua beleza. Prefiro levá-la assim, na minha memória para sempre, com esta suave dor do impossível.
E afastou-se, enquanto o meu coração, confuso, se apertava, com a consciência súbita de minha solidão, de minha trágica condição de mulher inatingível no cerne de sua beleza, fugaz e eterna como o pó que dançava na luz.
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Nota*: “gaiola baconiana – Alma assim designa aqueles enquadramentos cúbicos de traços luminosos sobre as figuras do grande pintor irlandês Francis Bacon.

O adolescente

(dos contos Pampianos de alma Welt )


Patrícia, minha sobrinha, traz amigos para um feriado prolongado em nossa estância. Entre eles, o seu namoradinho, que veio acompanhado de um colega, um guri menos tímido que ele, com um charme precoce, irresistível. Um malandrinho, que logo de saída botou os olhos sobre a tia Alma aqui. No início tive vontade de rir, com as manobras do rapazinho para chamar-me a atenção, mas confesso que o guri é jeitoso, e não desastrado como costumam ser os adolescentes. Admirei-me de ver que os seus gestos, movimentos e pequenos ardis para me cortejar, eram encantadores, com um timbre precoce e sobretudo competente. Alair é um portento social, e me admira que todas as gurias não estejam apaixonadas por ele. Talvez isso aconteça por não ser facilmente compreendido, e sua sofisticação não ser atingida pelos guris e gurias de sua idade, que o consideram estranho. Será certamente um diplomata, um espião ou aventureiro internacional, no futuro, é o meu prognóstico, um tanto infantil, na verdade, reconheço.
O guri faz-me a corte, trazendo-me taças de vinho branco gelado, uma maçã polida como um espelho, ou um buquê de flores bastante bem composto, colhido por ele, muito eficaz, vocês sabem, com as mulheres. Achei graça no início, mas o belo jovem procura esmerar-se em seu charme, e começo a reparar em seus olhos, seu nariz, sua boca, e sobretudo seu cabelo, tão bonito. Além disso é alto e magro, o que é meio caminho andado, ao meu ver.
Uma manhã, enquanto passeava no jardim com Patrícia, o jovem galã se aproximou e disse, surpreendentemente:
—Patrícia, peço-te o favor de me deixares um instante a sós com tua tia, pois tenho de falar-lhe em sigilo. Pode ser, minha amiga?
Espantei-me mais uma vez com a sua segurança, seu aplomb. Patrícia deu-me um beijinho no rosto e afastou-se com naturalidade. Eu olhava para Alair , intrigada.
—Senhorita Alma, quero fazer-lhe uma proposta. Meus pais têm uma estância, em Livramento, e temos um problema: a beleza nos abandonou, há coisa de cinco anos, e tudo se desarranjou por lá. Não há flores, as árvores, antigas, têm cupim e estão morrendo. A piscina tem limo e ninguém quer entrar nela. A casa é triste apesar de ter sido bela no passado. Os quadros são retratos escuros, e parece um museu tenebroso, ou a pinacoteca do solar de Usher. Entretanto eu te garanto que não há fantasmas por lá, pois tenho a certeza que tua alegria e beleza salvariam nossa estância dessa espécie de maldição que a assola. A falta de motivação de beleza é o seu mal. E a senhorita seria a sua cura, rápida, tenho certeza.
Fiquei boquiaberta, jamais poderia esperar um galanteio tão elaborado e requintado, da parte de um adolescente, mesmo como esse. Não sabia se ria, ou se levava a sério. Seria verdade essa estória quase gótica, ou tudo não passaria de imaginação de um guri bem dotado, uma artimanha criativa, de um jovem inteligentíssimo, embora imaturo?
–Alair, estou surpresa. Essa estória é muito estranha. Queres que eu devolva a beleza à sua estância. Alguém tem esse poder? Não estás sonhando, meu jovem? E teus pais, sabem disso. Tua mãe por acaso quer redecorar o “castelo”? Não sou decoradora, sabes muito bem, e sim artista plástica (eu me fazia de desentendida, pois aceitar o sonho desse menino, era cair na sua incrível armadilha, de um requinte inacreditável de imaginação).
—Não, senhorita Alma, creio que não entendeste a minha proposta. A senhorita nada teria que fazer, nem sequer um conselho ou uma sugestão. A senhorita apenas se hospedaria em nossa casa e passearia por lá, dentro e fora da casa. Só isso. Tenho a certeza que a beleza voltaria aos poucos ao nosso lar, a começar pelos corações e mentes dos meus pais, que a esqueceram, faz tempo. Tenho absoluta certeza da eficácia do meu plano.
Eu estava estupefata. Creio que corei. Esse guri me atingira em cheio. A sua idéia era... incrivelmente poética. Passei a mão no seu rosto imberbe, olhando-o fundo nos olhos. Ele nem pestanejou. Esse menino soberbo. Eu afinal fiquei confusa, e hesitei:
—Alair, Alair, tu és surpreendente, meu guri. Não estás brincando comigo? Olha que não se faz isso com uma moça... Tua proposta é bela e me lisonjeia demais. Passear por lá... como uma “fada primavera”, daquelas da suíte Quebra-Nozes, hem? Seu safadinho, tu queres te divertir às minhas custas, ou tens uma alma parecida demais com...a minha. Isso é, de todo modo, .incrível!.
—Alma—( ele parou de usar o senhorita)—Não custa nada pensar. Minha proposta é séria. Amanhã terei que voltar à minha estância, e queria submeter essa proposta aos meus pais, que certamente a aceitarão, principalmente se levarmos Patrícia e meu amigo, como pretexto. Eles ficarão mais tranqüilos se formos nós quatro, como retribuição à magnífica hospedagem que vocês nos proporcionaram.
Eu fiquei olhando o rosto de Alair, boquiaberta, enquanto ele se afastava, estranhamente seguro de si, como sempre.
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No dia seguinte, de manhã bem cedo, eu já tomara minha decisão, depois de uma estranha noite, agitada, de sonhos intrigantes que se passavam em salões e corredores de um castelo, que certamente fora evocado pela minha imaginação, pela sugestão de Alair, e à descrição de sua casa. No meu sonho os jardins, de árvores e arbustos secos, retorcidos, floriam à minha passagem, e os quadros sombrios dentro da casa, brilhavam mais coloridos ao meu olhar sobre eles.
Esperei por Alair, à mesa do café da manhã, e ele logo apareceu com a sua mochila de viagem, para tomar a refeição matinal antes de partir. Saudou-me com naturalidade, enquanto eu sondava seu rosto para ver se encontrava ali alguma marotice. Não, esse guri era absolutamente honesto, embora galante. Tomamos o café em silêncio, enquanto eu o servia com esmero, passando patê em suas torradas, fazendo um café com leite e até sugerindo-lhe um chimarrão, que ele recusou.
—Alair, já tenho a resposta para ti—(eu subitamente disse, sem que ele me cobrasse).
—Sim, Alma, qual é?
–Alair, pensei muito, e descobri que a tal proposta que me fizeste só poderia nascer na mente de um poeta. E cabe a esse poeta, portanto, devolver a beleza à sua estância. Só os poetas têm esse poder. E se és, como penso, filho da poesia, saberás fazê-lo por ti mesmo. E quando conseguires, pela tua bela alma, pela criatividade maravilhosa de tua mente e pela pureza evidente do teu coração, me convidarás então a visitar-te, para fruir o teu belo castelo e os jardins floridos de tua alma, que estarão em volta de ti , para sempre. Espere-me lá, quando o teu cenário ideal estiver pronto. Eu passearei com Patrícia e teu amigo, felizes os quatro, lá, quando chegar esse tempo.

domingo, 23 de março de 2008

O colecionador

(Conto de Alma Welt)

Terminei meu primeiro auto-retrato, no qual trabalhei muitos meses. Estou tremendamente satisfeita com o resultado. Consegui captar a mim mesma por fora e por dentro e ainda saí lisonjeada com isso, surpreendentemente.
O mistério de um retrato pintado, quando ele é uma obra de arte, é a sua autonomia e, às vezes, crueldade. O espelho de vidro só nos devolve o que queremos, mas a pintura estará sempre diante de nós como um olhar, não como uma coisa olhada.
Acabo de pendurá-lo na galeria, a pedido do meu marchand. O quadro tem me rendido elogios rasgados, a começar pelos do próprio dono da galeria, e, com o seu entusiasmo, não será difícil conquistar clientes para novos retratos.
Passados alguns dias, recebo a visita de um homem que se diz colecionador e que viu o retrato na galeria, ficando muito impressionado.
Homem insinuante, de um charme vagamente suspeito, jovem, mas de têmporas brancas. Um homem belo, na verdade um tanto misterioso. Diz ter-se apaixonado pelo quadro e que quer adquiri-lo para sua coleção. Teve a franqueza de dizer-me não estar seguro de que a poderosa impressão que lhe ficou do quadro não se deva à beleza da modelo sobrepondo-se à da pintura.
Não apreciei o comentário e protestei em defesa da minha pintura em si, e declarei não estar interessada em vendê-lo e que o quadro estava exposto a instâncias do marchand para render eventuais encomendas.
O colecionador, que se chamava Aldo, desculpou-se prontamente, desdizendo-se. Disse estar arrependido do comentário, que sabia que os pintores são muito suscetíveis sobre sua arte. E que sua intenção fora fazer um despretensioso galanteio, uma pequena fraqueza diante de uma mulher bonita (ele insistia com aquilo...).
Revelou-se um homem hábil retirando-se rapidamente, a pretexto de compromisso urgente de trabalho. Plantara sua semente de tentação (devia pensar) e só lhe restava esperar. Era isso, deduzi.
Tentei não pensar mais nele. Era caso encerrado. Sua proposta não estava em linha de conta. Quanto a uma encomenda, ele não fizera nenhuma...
Retomo o meu trabalho e, sentindo a necessidade de desenhar, lanço sobre a prancheta na horizontal dois desenhos simultâneos, a pincel, com a técnica Zen, que venho desenvolvendo. Diante dos meus olhos surge um espantoso duplo retrato de alguém desconhecido. Um dos desenhos, o da esquerda, representa uma mulher bela, exótica, com seus olhos rasgados e ligeiramente prognata. Um rosto característico, marcante, desconhecido. Está seminua, no ato de tirar a roupa. O desenho da direita representa um fauno, com chifres enrolados na testa, e o peito peludo, mas com exatamente o mesmo rosto do primeiro desenho, só que em outro ângulo. Isto é surpreendente, pois ao nível da razão, este pincel, de cerda fina e comprida, manejado na vertical, é incontrolável. Ao nível dos reflexos, flui o inconsciente profundo, e os arquétipos se projetam sem bloqueio.
Dois dias depois, toca a campainha em meu ateliê e, abrindo a porta, deparo-me com um casal desconhecido. Ele, homem ainda jovem, com ar intelectual, declara-me que acaba de sair da galeria tão siderado com o meu retrato, que, pegando meu endereço com o marchand, veio direto ao meu ateliê com a intenção de encomendar-me o retrato de sua mulher.
Olhei-a, então, tive um arrepio, mas calmamente disse-lhe:
— Entrem, o retrato está pronto...
Confusos, sem entender, acompanharam-me ao ateliê, onde mostrei-lhes sobre a mesa o duplo retrato em desenho. Estávamos os três perplexos. A semelhança era absoluta e o fauno, no mínimo, a reforçava. Por uma fração de segundo, percebi no olhar do rapaz, que deslocou-se rapidamente de mim para sua mulher, uma instantânea suspeita que se desvaneceu.
Disse-lhes que não se chocassem, que isso era um fenômeno possível, embora raríssimo, quando se desenha assim, com a “mente em branco”, sob os reflexos da alma.
Acabei por presentear o casal com o par de desenhos, e eles saíram encantados. Um dia haveriam de ser meus amigos.
Mais alguns dias se passaram e Aldo voltou a procurar-me. Dizia não estar conseguindo dormir à noite, assombrado pelo meu retrato com o qual sonhava. Tinha de possuí-lo, dizia, ou acabaria definhando.
Após muita conversa, em que mostrou-se encantador, pois comentava os quadros que via à sua volta, com interesse e paixão, estava começando a amolecer-me. O que um pintor não suporta é a visita que não olha para as paredes, concentrando-se apenas na conversa com o dono da casa, no caso um artista que fala através dos seus quadros. É quase ofensivo, e o pintor certamente não abrirá mais a sua porta para um tipo assim. Mas Aldo revelou-se o contrário, atestando sua verdadeira paixão pela pintura. Comecei, pelo meu lado, a prestar mais atenção nele. Percebi-lhe um quê de menino grande, apesar do seu toque misterioso e das suas têmporas brancas. Na verdade, o processo de sedução começara sem eu perceber, ai de mim!...
Daí por diante, Aldo apareceria quase todos os dias. Sua intenção parecia ser acostumar-me com sua proximidade. De fato, às vezes passava rapidamente no horário do almoço, dizendo querer ver o que eu andava pintando. Era cuidadoso com as palavras, julgando-me ser mais melindrosa do que eu realmente era. Mas pequenas amabilidades me pegavam, como flores, cartões delicados, pequenos presentes sugestivos. Um dia convidou-me para ficar uma semana em seu sítio. Passaria dentro de uma hora para buscar-me. Como não perco oportunidades de curtir a natureza, estava pronta quando o interfone tocou. Lá fui eu com a minha sacola, passando pelo zelador invejoso que pareceu encolher-se ao ver o Jaguar de Aldo, azul como um cometa, e só teve tempo de estender-me o boleto do condomínio atrasado.
Chegamos, depois de uma agradável viagem no carrinho aberto, sob um céu maravilhoso, a um sítio encantador, um verdadeiro paraíso.
Ao entrar na bela casa térrea, espaçosa e de madeiramento à mostra, encantei-me com vê-la forrada de quadros primitivos, lindos, de alta qualidade: José Antonio da Silva, Poteiro, Agostinho, Dila etc. e um maravilhoso Miguel dos Santos, pintura e cerâmica. Aldo realmente estava me cativando. Levou-me até o seu quarto, que parecia esperar por mim, com as minhas cores preferidas nos lençóis e cortininhas das janelas, sem falar nas flores sobre a cômoda, um maravilhoso buquê de flores do campo.
Esqueci de dizer-me que Aldo era solteiro e que seu passado era um mistério, pois não se referia nunca a pai, mãe ou parentes. Tinha brotado da terra, brinquei com ele, sem que protestasse por essa expressão...
Passamos um dia agradabilíssimo, entre árvores e flores, e à beira da piscina. Ao vestir meu biquini, percebi-me intimidada, como se fosse ficar nua, coisa que me intrigou ao mesmo tempo. Por que será que tive estes escrúpulos? Meu corpo é tão belo que nunca antes tive esse receio. Será que é porque insisto em ser vista apenas como artista por este colecionador arguto? Mas aquelas flores e cartões? Não sei...
Como sou muito branca, evito queimar-me ao sol. Mergulho na piscina e logo ponho uma saída de banho e óculos escuros. Aldo observa-me com um olhar examinador. Logo a caseira chama-nos para o almoço. A comida é deliciosa e exatamente do meu gosto. Elogio a caseira, que se chama Mariana, mulher de uns quarenta anos, com um rosto forte, mas que se move como uma sombra, sem ruído. Ela olhou-me profundamente com um ligeiro sorriso e pareceu-me querer falar comigo mais tarde, eu percebi.
Quando Aldo, após o almoço e uma agradável palestra, pediu licença para uma sesta, aproveitei para procurar Mariana na cozinha. A sombra se revelou ponderada e sábia, mas tudo o que queria era sondar-me como uma possível noiva para o seu patrão, cuja solidão a preocupava. Ela o acompanhava há muito tempo, vinda de uma sua fazenda que nem sequer mencionara em suas conversas. Disse-me também que o seu patrão era um homem muito bom, mas realmente ninguém, nem ela mesma, conhecia a sua origem.
Mais intrigada que nunca, retirei-me para o meu quarto para ler e escrever o meu diário, amplamente desenhado. Escrevi: “Querido diário (resquício da infância...), estou embevecida, mas curiosa com esta minha estadia, neste sítio onde tudo é perfeito, e as flores parecem não murchar. Mariana move-se como uma sombra, diligente e hábil, mantendo tudo limpo sem que eu a veja trabalhar ou mesmo cozinhar. Este pequeno paraíso está me envolvendo e neste momento ouço as músicas de minha preferência, baixinho, vindo não sei de onde. Um piano tocando Satie suavemente... Agora a Pavane, opus 50 de Gabriel Fauré. Estou sendo seduzida, suspeito..
No segundo dia, a procissão de prazeres se sucedeu novamente. Aldo resplandecia cada vez mais bonito, logo ao amanhecer de traje de montaria, chibata na mão convidando-me para cavalgar. Disse-lhe que não tinha um traje de montaria, à sua altura. Ele então levou-me até um armário e tirou um belo culote feminino, botas de montaria e até um bonezinho inglês. Disse que nunca tinham sido usados, e que ele os comprara pensando apenas numa hóspede especial. Vesti-os (eles me serviram como uma luva) e saímos para montar nos belos cavalos puro-sangue. Enfim, tudo muito perfeito, a ponto de me inquietar.
No meio de um bosque, cheio de cogumelos, samambaias, flores e tantas maravilhas que não me admiraria de avistar um unicórnio, apeou e, colhendo uma magnífica orquídea, colocou-a no meu cabelo. Ficamos nos olhando um pouco, quando subitamente meu cavalo assustou-se com o gesto de Aldo, de tirar os óculos escuros, e saiu galopando comigo, de volta à casa. Ele nos alcançou e, segurando a rédea do meu cavalo que queria empinar, domou-o e retirou-me da sela com uma força e destreza impressionantes. Permaneceu segurando-me a cintura por um momento, como se estivéssemos num filme americano dos anos 40. Desvencilhei-me com delicadeza e fui acariciar o focinho do meu cavalo para acalmarmo-nos.
Daí por diante, todos os dias algum incidente inquietante interpunha-se aos arroubos do meu hospedeiro. Ele começou a ficar impaciente e armou um estratagema para capturar-me pela curiosidade. Disse-me que o procurasse no escritório do chalé contíguo à casa, à meia-noite, que me mostraria algo que me interessaria muito. O segredo da sua origem me seria revelado, em confiança. Não pude sossegar até a hora aprazada. Perto da meia-noite, entre o ruído dos grilos e o coaxar dos sapos, atravessei o jardim com um candeeiro na mão e penetrei no chalé, que estava estranhamente às escuras.
Apenas a lareira crepitava na sala, com sua luz bruxuleando nas sombras. Percebi ser um chalé de caça, coisa que me desagradava. Não suporto ver uma cabeça empalhada de animal. Parece-me uma desumanidade. Ou se trata de humanidade mesmo? A perfeição se quebrava ali. A escuridão e o silêncio do chalé também me atemorizavam. O que Aldo pretendia, assustar-me? Tateando, apesar da lanterna, encontrei um quarto contíguo, tive medo de transpor a porta, temia ser agarrada por alguém. Mas a luz da lanterna caiu sobre um leito e lá estava ele, Aldo, dormindo, nu, extraordinário em sua beleza corporal, que eu não tinha percebido totalmente até então. Suas formas eram tão perfeitas, sua pele tão clara e homogênea que não se viam pêlos, manchas ou uma pinta sequer. O semblante sereno, seus cabelos encaracolados levemente brancos nas têmporas, brilhavam sob a luz do meu lampião. Não era musculoso demais, como sua força me fizera imaginar. A harmonia que irradiava dele inebriou-me e, aurindo seu perfume de homem, desequilibrei-me e caí sobre o seu peito, tocando o vidro quente do lampião em seu ombro. Ele deu um pulo e um grito, assustado, e agarrou-me no escuro. Em menos de um segundo, sua boca estava colada à minha e, virando-se por cima de mim, jogou-me na cama quente, cobriu-me com seu corpo e engolfou-me toda. Não custou a desvencilhar-me do peignoir leve, e penetrou-me até o êxtase. Durante uma eternidade de prazer fui imortal em seus braços ou então morri neles, não sei. Ao alvorecer, acordei sozinha no leito e, vestindo o peignoir, saí para procurar Aldo. Esperava encontrá-lo na cozinha pelo menos, ou catando flores para mim, como seria de seu feitio, mas não o encontrei em lugar nenhum. A casa estava vazia. Encontrei Mariana, a sombra, que interpelada disse-me que não me estava entendendo, que eu viera sozinha para este sítio. Há uma semana seu patrão lhe tinha telefonado de São Paulo, recomendando-lhe cuidar, “como se fosse sagrada”, da hóspede solitária que chegaria. E que quando eu quisesse ir-me, me acompanhasse até a aldeia e me pusesse no ônibus.
Fiquei absolutamente perplexa, confusa, revoltada. Uma angústia apertou-me o peito como uma saudade! E Aldo, onde estava ele? Mariana não respondeu, preparando o café. Disse então:
— Dona Alma, a senhora devia estar acostumada. As coisas com a senhora se passam assim... Há coisas que não convêm sondar demais... A senhora não gostou da estadia?

sábado, 15 de março de 2008

Alma e o lobo


Alma e o lobo- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 150x150cm, coleção do pintor, São Paulo, Brasil


(dos Contos Pampianos de Alma Welt)


O Pampa sempre foi para mim uma caixa de surpresas. O elemento insólito está presente no meu cotidiano, embora essa impressão não seja compartilhada pelas pessoas que me cercam, a quem a monotonia do cotidiano é especialmente cara. A passagem muito lenta das horas e dos dias, e o vento constante, os embalam numa doce e aconchegante existência pressuposta, ou melhor, previsível, que lhes dá segurança, mesmo ao mais valente peão, macho, laçador, e contador de vantagens. Mas vou lhes contar, meus queridos leitores, a pequena aventura que tive aos dezessete anos, quando passeava sozinha pela minha amada pradaria, um tanto distante do nosso casarão.
O dia estava magnífico, era primavera e as florinhas do campo me atraíam para cada vez mais longe à medida que as colhia fazendo um farto buquê, pousado em meu braço esquerdo. Então, subitamente me veio aquela vontade de ficar nua, que vocês já conhecem e que aparece em mim sempre que me vejo só. Ultimamente me ocorreu que isso acontece justamente por causa de vocês, meus leitores. Devo ser uma exibicionista...
Uma vez despida, com meu vestido longo abandonado sobre a relva, eu continuei a caminhar com uma nova volúpia, que me era tão conhecida e que para mim sempre rimava com o ato de colher flores, e de coroar-me com elas, pensando talvez na deusa primavera do quadro de Boticelli, embora, no quadro do Ufizzi, ela esteja vestida de maneira diáfana. Foi então que aconteceu.
De repente, senti uma presença atrás de mim, e voltando-me topei com a maravilhosa figura de um lobo guará, fulvo, de longas pernas, rosto de raposa, e olhos quase doces, embora atentos. Fiquei imóvel, encantada, e por alguma razão, sem medo algum, estendi lentamente o braço para ele, girando mais lentamente ainda a palma da mão para cima num gesto de convite, que ele acompanhava atentamente, não sei se temeroso, ou simplesmente curioso. Então permaneci muito tempo nessa posição, imobilizada, com a respiração lenta e suave, que depois eu entendi, era o motivo da aproximação, da atração que eu despertara no animal. A ausência de medo em mim o atraíra, também sem medo, senão confiante. Minha beleza muito alva... não, não falarei nela. Seria ir longe demais nas conjeturas.
Foi então, que o mais surpreendente se deu. O guará se aproximou lentamente com o pescoço estendido, com passadas quase felinas, e ergueu o focinho para cheirar a minha mão, que eu supunha, recendia à flores. Meu coração acelerou-se ligeiramente, e meu seio palpitou, ofegante de emoção em que me vi, afinal, com aproximação de seu focinho negro e de sua boca, de minha alva e delicada mão. O belo animal, a farejou e, acreditem, deu-lhe uma única e doce lambida! Depois aproximou-se mais ainda, enquanto eu me curvava para ele e... auriu os meus seios! Minha emoção então atingiu o auge, mas numa alegria que me acompanharia por muito tempo. Ele se afastou, a seguir, dando-me as costas, e partindo num trote tranqüilo, enquanto eu o seguia com o olhar, muito tempo, até ele sumir no horizonte.
Procurei meu vestido e com uma sensação de plenitude, como... de uma noiva após as bodas, voltei ao casarão, para contar somente ao Rôdo, a minha aventura. Mas, no caminho, com um sorriso, me ocorreu que nem ele, o amado irmão de minha alma, acreditaria nela.
Ah! Pampa, pampa de minha vida! O quê, de mais belo, me reservarás?

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30/10/2005


E o lobo veio a mim

(continuação de Alma e o lobo)


Matilde foi a primeira a dar o alarme. Tinha um lobo guará rondando o nosso casarão, e havia sumido uma galinha. Logo foram encontradas suas penas e outros vestígios de devoramento. Imediatamente me pus em defesa do lobo. Devia ser o meu guará, eu o conhecia, sim, só podia ser ele. Quem leu a minha crônica (dos Contos Pampianos) “Alma e o lobo”, que coloquei há uns meses aqui no Recanto, sabe do que estou falando. Meu querido lobo, aquele que farejou a minha mão e... o meu seio nu. Ele era meu desde então! Que ninguém tocasse nele! Matilde abanou a cabeça, dizendo:

–Alma, Alma, agora essa! Atraíste o lobo para cá, não é? Com o teu cheirinho, princesa? Só tu mesma, guria. E agora como vamos fazer para proteger as galinhas?

Eu disse: –Matilde, nem que o lobo comesse o galinheiro inteiro! Ele é intocável, não sabes? Ele é um animal magnífico, raro e defendido pelo Ibama. Já ouviste falar disso, cumadre? (eu chamo Matilde de “cumadre’, quando quero censurá-la).

–“Ibama ou não Ibama, afasta o lobo da tua cama”, diz o povo, sabias? (Matilde era rápida e sempre admirei o seu dom de improviso. Desta vez foi admirável, pois era evidente que ela inventou aquilo na hora, e eu caí na gargalhada, abraçando-a ).

Matilde sentiu inconscientemente a alegoria daquele lobo rondando a Alma aqui, desde que contei a ela, há meses, o episódio a que me referi. Eu agora devia afastar o lobo ou domesticá-lo. Isso! Seria possível? O guará é tímido demais, e tido, por isso, como animal covarde, arisco, que nunca se aproxima dos humanos. Pobre animal. Ainda assim responsabilizado como predador de ovelhas e galinhas foi quase dizimado e está em vias de extinção. Galdério e uns peões já falavam em caçar o bicho e eu percebi a animação dos “machos” quando se trata de caçar um “predador”. De igual para igual... E eu tinha, pois, que salvá-lo. Eu declarei:

–Que ninguém ouse matar esse animal. Vai ter que se haver comigo. Ele é meu! Veio me procurar e só comeu uma galinha porque está com fome e ela estava no seu caminho. Vocês vão ver: esta noite eu o esperarei na pradaria, no limite do jardim. Vou fazer serão ali, vou fazer fogo, levarei chaleira, bomba, cuia e mate, e ficarei sob o meu pala, se esfriar. Ninguém se aproxime... vou conversar a sós com o meu guará .

Matilde só abanou a cabeça, e Galdério tocou a aba do chapéu, como quem acata uma ordem. Tudo certo.

Naquela noite eu fiz o meu “fogo de bivaque” e tomei meu chimarrão, esperando meu lobo. E, como eu acreditava, ele veio.

Aproximou-se lentamente, os olhos brilhando tão intensamente no escuro, que a princípio tive medo, pensando tratar-se de um outro, feroz, lobo-mau mesmo. Mas a curta distância, quando eu estava prestes a vergonhosamente correr (ó mulher de pouca fé) eu o reconheci. Em lágrimas de alegria estendi os dois braços para ele, que ficou muito tempo parado, me pareceu, depois se achegou lentamente e deixou-me tocá-lo. Eu acariciei sua cabeça, seu pescoço, seu lombo. Ele deixou, imóvel. Então eu o abracei, sua cabeça junto ao meu seio. Ele fechou os olhos profundamente e eu... tive uma imensa alegria, mista de ternura, um êxtase tal que se confundiu com um orgasmo... da alma.

Depois eu beijei o seu focinho, ele lambeu meu rosto como um cão fiel e amoroso. Eu tinha ganho a minha noite, o meu dia, o meu mês. Que digo? Meu lobo me consagrara no seu Pampa, príncipe das pradarias que ele é, apesar da injusta fama de covarde e ladrão de galinhas. Ele era o meu príncipe. Ai de quem ousasse fazer-lhe mal!

Não foi preciso dizer isso quando voltei para dentro da casa, com todos me esperando. Meu olhar, meu corpo, meu aspecto diziam tudo. Nunca mais tocariam no assunto de caçar um lobo.

E as espingardas não saíram das paredes.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Pernoite

(crônica de Alma Welt)


Quando o sol se põe aqui no Pampa eu me sento na varanda e fico toda uma hora em silêncio a observar os tons que se sucedem com espantosa sutileza para o olho apurado que pretendo desenvolver (se é que isso é possível) para a minha pintura. Digo isso porque a verdade é que minha intimidade maior, desde a infância, é com as letras, isto é, com as palavras e o pensamento poético. E talvez também com a música.
Mas hoje fui interrompida pela chegada de um peão desconhecido, homem maduro, de grandes bigodes grisalhos caídos e olhar penetrante. Aproximou-se no seu cavalo a passo, lentamente, e pôs-se bem diante de mim, que não me levantei da cadeira de balanço, e saudou:
- Buenas! É a dona Alma, pois não? Já ouvi falar da patroa... coisas boas, se me permite.

- Buenas- respondi.- Em que posso servir vosmecê?

O peão pareceu quase surpreso da minha boa acolhida motivada principalmente pelo seu “coisas boas” que me comprou de saída.. Então apeou com calma, tirou o chapéu e continuou:

- Pois bueno, patroa, meu nome é Mateus, preciso de guarida, um pernoite somente, pois amanhã uns pau-mandados me alcançarão se não partir bem cedo. Querem a minha pele, a senhora já viu. Estou na dianteira, mas já semeei uns dois ou três pelo caminho, que me mordiam os tacões. Quero evitar plantar alguns nestes prados pra não “le” dar aborrecimento, que a patroa não merece.

Surpresa por minha vez, hesitei um pouco, mas retruquei:
- Está bem, Mateus, tua franqueza já ganhou a minha acolhida. Vá procurar o Galdério que ele te mostrará o galpão onde poderás descansar, e te levará a ceia e o chimarrão.
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Passei parte da noite no salão lendo na mesa de jantar com um candeeiro sobre ela. Mas não consegui me concentrar na leitura. Meu pensamento vagava e ia até o galpão espiar o meu hóspede inesperado. Eu o temia? Quase... Mas ao mesmo tempo estava fascinada e intrigada. Ele não me pareceu perigoso, pois era a própria imagem da força e da segurança. Um homem assim nunca faria mal a uma mulher. Mas os maus que se cuidassem, pois esse homem tinha a marca de um justiceiro, era o que eu intuía.
Não pude mais me conter. Eu não poderia ficar encerrada numa noite assim no casarão, na sala, e muito menos em meu quarto, tão íntimo e falsamente protegido. Resolvi ir ao galpão para espionar meu hóspede. Eu tentaria manter-me escondida, eu conhecia de longa data as frestas daquela construção de madeira.
Atravessei o jardim sem lume algum, eu não deveria ser avistada de longe. Esgueirei-me no pomar e no trecho de campina. Rodeei a vetusta construção de pinho que apresentava uma luminescência interna: ele devia estar acordado!
Aproximei-me pé ante pé da minha fresta predileta de onde podia ver quase todo o interior do galpão e... fiquei estarrecida!
Dentro, sentado em sua sela no chão, diante de seu cavalo cabisbaixo, Mateus chorava. Soluçava o peão com a cabeça baixa entre as enormes mãos. Tinha remorsos ou medo?
Jamais saberei. O peão sofria...

16/05/2006

quinta-feira, 13 de março de 2008

Eu e os mágicos

(crônica de Alma Welt)


Desde guria sou fascinada pela arte dos mágicos prestidigitadores. Desde o dia em que presenciei o show de um deles numa festa de fim de ano da escola primária em Novo Hamburgo, em que me emocionei com a pomba tirada de uma cartola. Daí por diante, emocionalmente pelo menos, eu veria todos chapéus como esconderijos potenciais de pombas, patos e coelhos, e portanto, o verdadeiro refúgio da ternura dos seus portadores.
As imagens do mundo, que forjamos na infância, nos acompanharão pra sempre intactas, no terreno afetivo. Mas eu sei que isso é verdade somente para aqueles que se mantêm fiéis à sua infância e seus ocultos pactos com o mundo, com a vida.
Havia na nossa estância um velho peão, o mais antigo, que era o preferido de meu pai, que o considerava um venerável exemplo de sabedoria popular. Meu pai, que além de extremamente culto, erudito, tinha também, ele próprio enorme sabedoria, a ponto de reconhecê-la num simples peão semi-analfabeto, por seu apreço pelo velho boiadeiro me fez também perceber e aproximar-me daquele homem de barbas e cabelos brancos bem menos tratados.
Um dia, no inverno, guria ainda, fui visitá-lo sozinha, e encontrei-o na varanda de seu chalé de madeira, onde aposentado, ficava horas, mirando o horizonte e fumando o seu cachimbo. Levei-lhe um poema meu, como único presente que me ocorreu oferecer-lhe como prova de meu afeto e respeito.
O velho peão recebeu a folha de papel, e depois de retirar uma espécie de touca de lã que eu tinha na cabeça, colocada por minha mãe, passou a mão rapidamente no alto e em seguida abrindo a folha em suas mãos grossas e calosas, me fez ver uma borboleta pousada sobre meus versos, em que ele mal deitara os olhos. Então, ele pegou a borboleta, que me pareceu trêmula, e com uma delicadeza insuspeitada, pela ponta das asas a colocou no meu ombro, olhando-me profundamente, com seus olhos gastos azulados, com um sorriso que percebi sob os imensos bigodes brancos caídos. Aquilo me pareceu mágico, e ao mesmo tempo uma espécie de recado cifrado, vago, que eu não saberia decifrar naquele momento.
Alguns dias depois aquele homem estaria morto, e eu recebi a notícia com extrema emoção. Fui vê-lo em seu caixão, cercado de peões e algumas mulheres, peonas velhas e jovens, além da nossa chorosa Matilde, na pequena sala de sua querência, como ele dizia.
E ali, cercada de lágrimas e alguns sorrisos, depositei, com toda a minha inocência, sobre o seu peito, acima de suas mãos cruzadas, um novo poeminha meu, para que ele o transformasse numa borboleta que o acompanharia em sua nova jornada no pampa longínquo do horizonte que o aguardava.

quarta-feira, 12 de março de 2008

A Hospedeira, ou Ao sul de mim mesma

Crônica de Alma Welt (1972-2007)


Quando estou aqui na estância, às vezes bate-me aquela angústia, e eu peço para o Galdério selar a minha égua baia e saio por estas pradarias em direção ao nada, ao sul... de mim mesma. E ponho minha montaria num galope doido, até a pobre ficar exausta e recusar-se a prosseguir nesse compasso. Aí, já estou muito longe do casarão, e meio perdida. Mas minha égua, Altamira sabe sempre retornar, e eu solto a rédea para ela nos conduzir, voltamos a passo, lentamente e chegamos em casa ao cair da noite.
Entretanto, antes de ontem fui parar numa propriedade desconhecida para mim, com árvores frutíferas, macieiras, pereiras e cerejeiras em volta de um chalé modesto, mas encantador, com um ar acolhedor, com a chaminé fumegando, denunciando proximidade do jantar. Apeei, amarrei a rédea da minha égua na balaustrada da varandinha onde havia uma cadeira de balanço austríaca, bati à porta, esta abriu-se e uma senhora idosa, de cabelos brancos, rubicunda, de aspecto bondoso, com uma cara redonda vermelhaça, polonesa ou russa, me acolheu com olhinhos azuis e um sorriso que não se desfez mais. Como é que eu nunca soubera dessa vizinha?
Ela fez-me sentar à sua mesa e imediatamente, sem nada perguntar ou falar, colocou um prato fundo na minha frente e com uma concha, de um caldeirão, começou a me servir sopa. Eu nada disse, e sempre sorrindo também, comecei a tomar. E era deliciosa a sopa, tomei-a com prazer, acompanhada de um grande pedaço de pão. Ao terminar, agradeci, e ela imediatamente pegou-me pela mão e levou-me a um quarto, que tinha uma acolhedora cama arrumada, com uma linda colcha de retalhos coloridos e um grande travesseiro. Ela fez um gesto de dormir com as duas mãos do lado do rosto, sempre sorrindo. Eu já estava convencida que a boa senhora era muda. Então pedi um telefone, gesticulando como se ela fosse também surda e a senhora me levou de volta à sala, até um aparelho de madeira, antigo, de parede, em que consegui a duras penas ligar para estância, e avisei a Matilde que eu pernoitaria na casa de uma vizinha nossa e que só voltaria de manhã. Matilde quis saber mais detalhes, meio alarmada, mas eu logo desliguei, sem muitas explicações.
A senhora então me pegou novamente pela mão, levou-me de volta ao quarto, e de pé diante da cama ela começou a despir-me com desvelo, meticulosa e carinhosamente como se faz com uma guria, uma filha, e estando eu somente de calcinha, ela enfiou-me pela cabeça uma camisola branca bordada, e colocou-me na cama para dormir. Eu permanecia curiosa com tudo aquilo, respeitando e retribuindo a mudez e o sorriso permanente daquela criatura, tanto que fechei logo os olhos enquanto ela apagava a vela, e realmente adormeci.
Acordei bem cedinho, com o cantar de um galo, e sentindo-me maravilhosamente bem, repousada e sem vestígio da angústia da tarde anterior. Levantei-me e saí do quarto, de camisola, para ver a minha hospedeira. Não a encontrei. Procurei na casa, em torno dela, no pomar e... nada. Ela não aparecia. Esperei uma hora e... nada. Então chegou a Matilde na charrete, abanando a cabeça e dizendo: —“Guria, tu és doida mesmo. Pensei que se tratava da outra chácara, vizinha, da dona Estela. Lá estive e disseram-me que não sabiam de nada, que não estiveste lá. Que fazes aqui? Não sabes que esta casa está vazia ? A moradora faleceu há quase um ano. Como pudeste entrar e dormir aqui? A casa permanece fechada e deve estar uma sujeira aí dentro. Deixe-me ver.
Matilde entrou comigo, viu o prato de sopa vazio ainda na mesa, o caldeirão sobre o fogão de lenha, o quarto com a cama desarrumada, e se pôs mais assombrada. Enquanto eu despia a camisola e vestia minhas roupas, ela dizia, inconformada:
—Que estranho, a casa não está suja como eu pensava! Então dormiste aqui, nesta cama,com esta camisola? Quem te acolheu, Alma? Que mistério é esse, guria? Com era a pessoa que te acolheu?
Eu descrevi a minha amável e nada loquaz hospedeira, sobretudo sua face “rubicunda”. Matilde empalideceu, fez o “em nome do pai”, caiu de joelhos, de mãos postas e começou a tremer.
Voltamos na charrete, puxando a Altamira pelo cabresto atrás e tremendo as duas.
Meu corpo tremia, sim, mas durante todo o trajeto, meu coração, eu sentia, estranhamente, preferia continuar sorrindo.

Safira, eu e os ciganos

(crônica de Alma Welt)


Na minha pré-adolescência, na estância, ganhei de presente de meu pai, uma vaquinha, a Safira, que ordenhada todas as manhãs, fornecia o leite para o nosso café, compartilhado com meus irmãos, naturalmente.
Nessa época, eu já estava empenhada em aperfeiçoar-me no desenho, quer dizer, nas artes plásticas, e passava horas desenhando, principalmente retratos a lápis, para os quais posavam meus irmãos(com exceção da Solange) e outras pessoas da casa. Eu ficava horas esboçando, apagando com borracha e retocando, a fim de atingir a semelhança perfeita com o modelo. Para isso eu era incentivada, como sempre, pelo Vati.
Aconteceu que passou pela estância um povo de ciganos, que fez acampamento próximo ao bosque, com permissão de meu pai, que de um modo geral aceitava a entrada de alguns estranhos, lastreado na sagrada lei da hospitalidade, cujo critério e regras eram para mim, ainda, um mistério. Custei a perceber que eram
simplesmente baseadas na sua intuição de homem experiente, vivido e sábio.
Curiosa e fascinada por esse povo, do qual só sabia alguma coisa pelos livros, como, por exemplo, o “Notre Dame de Paris”, de Victor Hugo ( romance conhecido popularmente como “O Corcunda de Notre Dame”) que continha a maravilhosa figura da cigana Esmeralda e sua cabrinha, eu resolvi ir ao acampamento para observá-los de perto, para conhecê-los melhor. Sendo uma guria aventureira e destemida até certo ponto, dirigi-me sozinha, uma manhã, com um lápis, borracha e uma folha de papel, para o acampamento cigano.
Fui recebida entre as tendas e os carroções, logo de saída, por várias gurias, de diferentes idades, que me pareceram muito “guapas” embora um pouco sujas, eu percebi. Elas sorriam muito e logo agarraram minhas mãos para lê-las, estendendo as suas para cobrar, simultaneamente, numa espécie de confusão.
Entre elas havia uma, de extraordinária beleza morena, misteriosa, que sorria
de maneira enigmática, um pouco irônica, me pareceu. Fascinada, pedi-lhe que posasse para mim, para um retrato que eu faria ali mesmo, na hora, no papel, com o lápis que empunhava. Ela aceitou, sempre sorrindo, com um simples movimento de cabeça, e isso motivou uma verdadeira festa momentânea, atraindo a atenção de muitos que estavam por ali e que me rodearam, sentada num tamborete que me ofereceram, para observar o nascimento do retrato.
Eu me senti inspirada e desenhei mais rapidamente que o normal, embora apagando e retocando alguns traços. O resultado me pareceu magnífico, a folha de papel me foi retirada e circulou de mão em mão, ente exclamações, risadas e sinais de aprovação. A seguir voltou às mãos da retratada, que levantou-se de sua banqueta, e com a folha nas mãos aproximou-se de uma mesa que estava ali perto, ao ar livre, e colocando uma espécie de salsichão sobre ela, com uma grande faca afiada, começou a fatiar, engordurando o papel que imediatamente ficou cheio de cortes e nódoas, sobre o meu lindo retrato, minha “obra-prima”. Eu estava horrorizada, e comecei a protestar. A cigana (eu a chamarei Rafisa), sempre sorrindo, respondeu-me simplesmente:
–“Tu já fizeste o desenho, agora o papel serve para outras coisas.”
Os ciganos já circulavam e dispersavam-se, desinteressados. Saí dali, meio desnorteada, e voltei para o casarão, meditando muito, embora ainda chocada.
Vocês devem estar pensando: o que tem a haver a vaquinha que ganhei com essa estória, não é mesmo? Bem, apesar do meu choque e confusão com a experiência do meu primeiro contato com os ciganos, eu resolvi voltar ao acampamento para conhecê-los melhor. E na segunda visita, sempre escondida de minha mãe, claro, eu percebi que algumas crianças estavam muito desnutridas e com manchas esbranquiçadas na pele. Elas me olhavam com grandes olhos que me pereceram tristes, e, condoída eu tomei uma decisão. Fui até o nosso estábulo e voltei
puxando a minha vaquinha por uma corda em seu pescoço e a presenteei à mãe da crianças para que fornecesse leite para elas todas as manhãs.
Era um final de tarde e permaneci por ali, percebendo a festa que se armava, com rabecas e um “fole” ou gaita que se reuniam, e vestidos coloridos mais vistosos, com muitas “jóias” nos pescoços, orelhas, testas, pulsos e tornozelos das gurias.
Começaram as danças, e eu me senti inebriada pelas evoluções ondulantes das dançarinas ao som de rabecas tocadas de maneira pirotécnica, virtuosística..
Então (ai de mim!) puxada pelas mãos e instada a dançar com elas, eu me percebi arrastada em farândola, até próxima a uma grande fogueira sobre a qual de repente percebi, à contra-luz, em silhueta negra, horizontal, girando num espeto, algo que me pareceu um novilho, ou coisa parecida. Um arrepio entretanto me tomou, e um pressentimento. Apontei e perguntei, quase gritando: “O quê é isso?”
E alguém me respondeu: “Bueno, é uma vaca, ora, vamos churrasquear, é festa de Santa Sara Kali.”
Dei um grito e desmaiei.
Acordei em minha cama e desatei imediatamente em pranto, inconsolável, cheia de remorso, dor, confusão. Minha mãe aproximou-se do leito e com ar severo (ela já sabia de tudo pelo Galdério que me vigiava sempre à distancia, e que me trouxera nos braços) e ralhou:
–Já sei, já sei, querias o bem daquelas crianças, não é? Mas já te disse muitas vezes: “de boas intenções o Inferno anda cheio!”
Caí num pranto maior ainda. E quereria morrer naquele momento, se não fosse o medo de ir para o Inferno. Afinal, adormeci soluçando, e tive um sonho em que realmente estava no meio do fogo, com a Safira, as duas, dançando e chorando nas chamas, ela girando na horizontal e eu, bem... rodopiando dolorosamente pela eternidade.
Ao amanhecer fui despertada pelo Vati, que afagava meu rosto segurando a minha mão, e com aquele jeito manso disse-me, pausadamente:
–Alma, tu cometeste um erro de avaliação, deste uma criatura viva que te era cara, e que acabou vítima, eu sei. Mas consola-te, não leve em consideração o que tua mãe disse, pois na hora da pesagem, o teu grande coração pesará como um rebanho na balança de Deus. Não te atormentes mais.
Meu coração distendeu-se e eu sorri grata ao meu Vati, virei-me de lado e novamente adormeci.