quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Anagramas (de Alma Welt )

08/05/2006

Para Renina, e também para Rhena e Nina


De repente, há poucos dias, tive o súbito impulso de fazer anagramas.
Tudo começou após a visita ao meu atelier, de uma nova amiga, a grande artista plástica Renina Katz, gravadora emérita: xilógrafa, litógrafa e água- fortista soberba. Grande dama da gravura brasileira, Renina é uma mulher madura e bela. Soube que despertou inúmeras paixões em sua juventude. O pobre do Pancetti, grande pintor e um homem simples, tinha-lhe adoração, não correspondida, claro. Soube que quase duelou por ela, acreditando-a ofendida por alguém. Renina apenas admirava-lhe a obra, havendo um abismo social e cultural entre eles. Naturalmente Renina não me falou nada sobre isso. Descobri essas curiosidades de sua biografia, num antigo número de uma revista extinta, numa excelente matéria sobre o marinheiro pintor. Refinada e culta, muito viajada, Renina honrou-me com a sua visita e fiquei horas a ouvi-la, prazerosamente.
A uma certa altura de nossa conversa, citou o anagrama famoso de Salvador Dali: Avida Dollars, descoberto por André Breton. A propósito, Renina comentou: –“ O anagrama do meu nome parece difícil de encontrar. Alguém, uma vez, descobriu o seguinte: ZENIT KRANA. Mas não sei o que significa...”
Após a sua saída, e com aquele anagrama ressoando em meus ouvidos, resolvi tentar. Sentei-me com caneta e papel e surgiu imediatamente:
ANKRANZEIT
A seguir:
ANANKE RITZ
Fiquei tremendamente intrigada. Mas, com a presença da palavra Katz ( gato), o anagrama só poderia mesmo ser em alemão, já que o K , nem existe em nossa língua. E o segundo anagrama, com a presença de uma palavra grega?.
Resolvi fazer uma pesquisa para encontrar o nexo destas palavras enigmáticas em alemão e grego. Descobri o seguinte:

AN= perto de, junto ou quase.
KRANZ= coroa
ZEIT= tempo

ANKRANZEIT = PERTO DA COROA DO TEMPO

Consultando diversos tratados de filosofia pré-socrática, cruzando suas rarefeitas informações sobre a filosofia grega dos tempos arcaicos, e ainda rejeitando a Teogonia poética de Hesíodo, que coloca o Caos e Noite como princípios, encontro, afinal, em teogonistas ainda mais antigos, como Jerônimo e Helânico, a seguinte teogonia órfica (aqui resumida):

ANANKE = Princípio teogônico feminino da Necessidade( na Doutrina Órfico–Pitagórica) . Tinha inúmeras naturezas, como Fado (Destino), Moira( Morte), Dyke (Justiça), Nyke (Vitória).
TEOGONIA (Geração dos Deuses) :
No Início era Kronos (Zeit), o Tempo. A seguir, Kronos se acasala com Ananke (a Necessidade) para produzir uma “tríplice prole” ( para isso ele rejeita Adrastéia, princípio da Necessidade incorpóreo, disseminado no espaço ...(Conceito esse extremamente obscuro ).
Do casamento de Kronos e Ananque ( o Tempo com a Necessidade) é gerado : o ÉTER úmido, o Kaos infinito, e o Érebo nebuloso ( região subterrânea , que mais tarde gerará o Hades.)
Mas o que significava tudo isso em relação à Renina? E o que significava ANANKE RITZ, esse segundo anagrama completo que surgira?
RITZ ( alemão)= fenda, racha, arranhão, ferida .
ANANKE RITZ= a fenda de Ananke
Continuei minhas pesquisas, e sabendo que Platão ( séculos V e IV aC ) era um órfico tardio ( Orfismo= religião de Mistérios, a mais antiga doutrina reencarnacionista do Ocidente, com origem anterior ao século VII aC, relacionada aos Mistérios de Elêusis), procurei rever os Mitos narrados em seus Diálogos. Passei ao largo do famoso Mito da Caverna, tão caro aos psicanalistas, e acabei me concentrando no Mito de Er ( o Armênio), que fala do “Fuso de Ananke”, nas dez últimas páginas da REPÚBLICA . Estudando esse mito, tudo começava a se esclarecer: FENDA, era o próprio sentido etimológico da palavra Ananke, que deriva de uma raíz presente no egípcio antigo. Em termos visuais era, também a reversão gestáltica do FUSO ( a coluna de luz que une o Céu à Terra , dento da qual girava o fuso em forma de oito “pesos” ou cones de metal, invertidos, girando em torno de um eixo, formando órbitas circulares. Os bordos circulares dos cones, formavam círculos concêntricos, que rodavam com um jogo complexo de cores e números pelo movimento impresso a eles pela mão das três Parcas: Láquesis, Cloto e Atropos, respectivamente, o Passado, o Presente e o Futuro. Esse movimento de números e cores, colocado em tabelas pelos matemáticos do século XX , produz maravilhas matemáticas em torno do número 9,( numero perfeito para eles). Além disso, essas órbitas , descreviam as dos planetas do nosso sistema solar, isto é, somente as dos conhecidos no tempo de Platão.
Resumindo, eu estava diante da Teogonia Órfica a mais secreta, somente acessível aos iniciados ( tenho medo de estar revelando-a aqui ). Tudo se esclarecia para mim . A estrutura arquetípica das gravuras da Renina ficava clara :


ÉTER —zona superior da gravura
KAOS —zona intermediária
ÉREBO—base, zona mais densa da gravura
Suas gravuras tinham a estrutura espacial de aparentes paisagens abstratas, que eram assim divididas e o círculo que, muitas vezes ela inseria na região intermediária entre o Éter e o Kaos, era a representação gráfica do Ovo Primogênito do qual nascia ZEUS, o Princípio Ordenador do Universo, que daria início aos Protágonos, isto é, os outros primeiros deuses. Por isso , Renina, quando lhe perguntavam sobre esse círculo, se era a Lua , o Sol, ou a Terra vista de um outro planeta, árido, respondia : “ Não, isso está aí por uma “necessidade” plástica de “ordenar” o espaço”. Estava aí o segredo.
A estrutura arquetípica de suas obras, continha ainda outros mistérios: na Doutrina Órfica, as Almas estavam encerradas nos corpos dos TiTÃS raça de gigantes, da qual Prometheu seria o mais famoso representante), quando estes se insurgiram contra ZEUS . Durante a formidável batalha ( TEOMAQUIA, ou Titanomaquia ) entre eles e os deuses, os Titãs estraçalharam e devoraram Dionisos criança. Os Titãs foram vencidos e Zeus fulminou-os com seus raios, e atirou-os à Terra. Das cinzas dos Titãs, Zeus criou o Homem , cuja alma é Dionisos encerrado no corpo titânico pecaminoso que busca recuperar as asas para retornar ao EMPÍREO, a morada dos Deuses e das Almas purificadas , após “dez ciclos de mil anos de reencarnações”.
Prosseguindo nas minhas pesquisas esotéricas, encontro uma raríssima referência àquela COROA:
Nos sepulcros órficos de Thuri, na Magna Grécia, foram encontradas, junto dos corpos de fiéis, “lamínulas” de ouro onde estavam inscritas orações das almas dirigindo-se à PERSÉFONE, ( rainha do HADES e intercessora das almas ). Havia uma que dizia :
“... e voando cheguei perto da ambicionada coroa.” E a Deusa responde:
“ abençoada cara Alma , serás transformada em Nume.”
Descobri então que coroa era como os órficos chamavam o circulo que cingia o ponto mais alto do Empíreo, que as almas que recuperavam as asas , tentavam atingir , afim de descortinar “um maravilhoso vale , nunca descrito por nenhum poeta.” O círculo, nas gravuras, comportava, portanto, esta segunda interpretação.
Estava claro, agora, para mim o significado das obras da Renina. Pequenos grafismos, parecendo asas , que se aproximavam do círculo que ela inscrevia na região intermediária de suas obras, nessa fase, como aves noturnas aproximando-se do círculo da Lua, eram , na verdade isso: as almas aladas tentando chegar perto( AN ) da ambicionada coroa ( KRANZ) de KRONOS ( ZEIT ).
Agora ficava fácil, também , descobrir o significado do anagrama anterior que lhe fizeram : ZENIT KRANA
ZÊNIT: palavra persa que significa um determinado lugar no espaço, culminante. KRANA, (o mesmo que Akarana) : conceito do Tempo Infinito no ZEND AVESTA ( religião filosófica da antiga Pérsia), equivalente ao KRONOS grego. Quando perguntavam à Renina o quê ela desenhava, ela dizia, instintivamente: “ESPAÇO e TEMPO.” ( Zenit Krana)
Remeti o novo duplo anagrama , e o resultado da análise dos três, à Renina, que ficou encantada, transcrevendo-os num lindo álbum de anotações e esboços.
Na verdade, essa pesquisa deixou-me exausta. Eu penetrara nas imediações dos Mistérios de Elêusis e isso não se faz impunemente. Tinha uma dor persistente na base do crânio, na região do cerebelo, onde se origina o pensamento espiritual. Eu puxara muito por ele. Agora estava exaurida e temerosa, embora intrigada. Porquê o Orfismo, religião secreta da Antigüidade grega, se apresentara a mim através do anagrama da Renina? Bem, sabemos que tais coisas estão no nosso inconsciente coletivo, mas trazê-las à tona pode ser perigoso...
Passei uns dias de molho. Sentia-me exaurida, ao mesmo tempo que enriquecida ( contradição em termos ). Foi quando recebi um telefonema que iniciou todo um processo similar. Tratava-se do pintor Guilherme de Faria , que, amigo da Renina, e ouvindo-a falar do fenômeno do seu duplo anagrama feito por mim, resolveu me contatar. Marcou dia e hora para sua visita e no dia combinado, um pouco mais cedo, tocava o interfone, denunciando sua ansiedade em consultar-me. Cheguei a pensar em dali por diante cobrar consultas anagramáticas, já que isso me custava tanto, mas...
Abri a porta, e o pintor, extremamente conhecido, adentrou o meu atelier. Tratava-se de um homem de meia idade, simpático, de cabelos e barba branca, com uma aparência patriarcal e bonachona, logo desmentida por sua voz que evidenciava , talvez, uma imaturidade emocional que lhe dava um ar de garotão quando falava.
Simpatizei imediatamente com ele. Na verdade, atraiu-me muito, mas tomei um ar distante, inatingível, profissional, de vidente ou coisa parecida. A situação me divertia.
Guilherme botou seus olhos agudos de pintor sobre mim, como se quisesse me devorar. Mas ao mesmo tempo percebia-lhe a doçura. Era uma coisa contraditória... Em poucos minutos sentíamos, como se nos conhecêssemos há gerações... Quando afinal entramos no assunto dos anagramas, já estávamos íntimos o suficiente para ele começar a narrar o sonho que o trouxera aqui para esta consulta. Ele disse:
“Tive um sonho, mais real que a realidade circundante. Isto é, quando acordei, as coisas e as pessoas não me pareciam tão nítidas e reais como o que eu vi no sonho. Entretanto, não houve transição, na passagem do sono para a vigília e a memória não desvaneceu. O sonho continuava nítido, fresco e real na memória e assim está passado já dois meses. Foi o seguinte:

"Ví-me a bordo de uma nau, de velas, típica do século XVII, assim como tudo que me rodeava. Minha roupa era simples, de soldado, um gibão cingido por um grande cinto de couro, calções bufantes e botas de cano dobrado com saltos altos e grandes fivelas, punhos grandes virados, um grande chapéu com uma pluma e uma espada na cintura. Eu conversava com o capitão do navio, figura terrível, calvo, com grandes bigodes de pontas reviradas para cima, grotescamente enfeitado, com tranças que lhe saiam dos lados da calva. Brincos nas orelhas e um olhar sarcástico e mau. A figura típica de um capitão pirata. Nós estávamos no tombadilho, e ele me perguntava o que eu queria como minha parte no botim ( no saque de uma nau, que estava ainda longe no horizonte e que certamente o capitão pretendia atacar.) Eu lhe respondi que queria, das obras de arte que houvesse a bordo, somente os quadros. O capitão, com uma risada mais sarcástica ainda, disse-me que sim , que os quadros seriam meus. Aquilo aguçou ainda mais a minha cobiça e eu não via a hora de botar os olhos e as mãos naqueles quadros. Afinal, o galeão, à medida que se aproximava, mais evidenciava sua origem nobre e a riqueza potencial de sua carga".

"No momento seguinte do sonho, após um corte cinematográfico, me vi no meio de um terrível combate de abordagem , com os marujos piratas
lançando ganchos nas amuradas do outro navio para puxarem-no perfilando-o e saltando para ele pendurados nas cordas que pendiam dos mastros. Tiros, fumaça, odor de pólvora, gritos e sangue. Terríveis golpes mutilantes de sabre, de lado a lado. Quanto a mim, estava apavorado. Eu tinha minha espada na mão e lutava o menos possível, esquivando-me e pondo-me sempre atrás dos companheiros, fazendo o possível para evitar confrontos diretos, disfarçando e poupando-me ao máximo, com grande medo de ser ferido, mas avançando dessa maneira escusa, movido apenas pela cobiça e avidez pelas obras de arte prometidas pelo capitão. Afinal, para meu alívio, houve outro corte cinematográfico no sonho e eu me vi, o combate terminado, o navio abordado, dentro de um camarote luxuosíssimo, que seria o do capitão do navio vencido. Havia corpos mutilados e sangue por toda parte, dentro daquele camarote. Eu estava, afinal, diante dos quadros que forravam as paredes, desde o roda-pé até o teto baixo, passando pelos lados e por cima de uma belíssima cama de dossel. Cercavam-me vários marinheiros e o Capitão que me olhava sempre com aquele sorriso irônico, cofiando os grandes bigodes. Vi-me observando um grande quadro que retratava um nobre, de pé, nitidamente um Velazquez. Havia também pequenos quadros da escola holandesa: Vermeer e Rembrandt, bem reconhecíveis ali. Uma cena religiosa de El Greco. Uma natureza morta de Zurbarán , bem como uma sua Santa Ágata , servindo seus próprios seios, como pêssegos em calda, numa bandeja. Quando os admirava, cheio de cobiça, percebia, com dor, os furos e cortes que havia naquelas telas como resultado dos combates dentro daquele camarote. Mas eu pensei imediatamente nuns potes de pigmentos e pincéis que eu tinha visto, de relance, insolitamente num canto do tombadilho do navio tomado. Pensava num jeito instintivo de salvar aquelas telas puxando o tecido por trás, colando-o sobre pedaços de velame e retocando com aquelas tintas. Eu apontei, escolhendo a primeira obra: Esse aqui!,
Nesse momento ouvi atrás de mim, bem alto uma voz que disse: Não! Esse é meu! Tive um aperto no coração, disfarcei, e sem voltar-me, prossegui: Esse aqui!. Novamente ouvi a voz atrás de mim: Não, esse também é meu! Voltei-me afinal e vi-me diante de um fidalgo ou coisa parecida, ricamente vestido, como um nobre, com um gibão prateado e um colar de ouro e pedras que lhe ornava o peito, e calções bufantes cheios de laçarotes, fitas e fivelas. Botas reviradas maravilhosas mas exageradas, com enormes saltos e fivelas de prata imensas. Punhos de renda, bem como a ampla gola faziam supor gestos amaneirados, entretanto ele se mantinha numa única postura, ameaçadora: as costas do punho esquerdo apoiada na cintura acima do cinto que sustentava a espada. A perna direita avançada, e a mão destra empunhando a espada sem sacá-la ainda. Tive um arrepio de medo, que aumentou quando pude ver que seu rosto era... o meu! Apenas com os cabelos mais longos repartidos no meio, ( parecido ao que eu usava nos anos 70). Os bigodes finos com pontas reviradas para cima, e um olhar ainda mais sarcástico do que o do capitão. Disfarcei e continuei a minha escolha, sempre contestada por ele com o seu: “Não, é meu!” Eu sentia a minha parte no botim esvair-se por entre meus dedos. O pior: os marujos e o capitão estavam às gargalhadas, e insuflavam o conflito iminente. Gritavam: “vamos ver, vamos ver, para quem vão ficar esses quadros!”Alguns rolavam no chão do camarote, com as mãos na barriga de tanto rir. O capitão tinha um esgar malévolo, esfregando os punhos com os seus olhos brilhantes de demônio. Eu via claramente que não poderia me esquivar a esse combate. Eu teria que duelar pelos quadros com aquele homem, que devia ser um corsário, e um terrível espadachim, a julgar pela sua postura. O meu tesouro se esvaía. A angústia que me tomou, foi subindo, subindo e me fez acordar, interrompendo a cena e talvez salvando-me da visão de um terrível vexame.
Alma, Alma diga-me, você pode desvendar esse sonho para mim? Tenho ouvido falar de seus dons de interpretação e de análise de anagramas. Você pode me ajudar. Continuo sob o efeito humilhante desse sonho, se é que isso foi um sonho...”

– Guilherme, –disse eu– Posso tentar fazer o seu anagrama. Mas não
posso prometer nenhum resultado, pois não sei se saberei interpretar as palavras, ou frases que surgirem. Mas vamos lá...
Peguei papel e caneta, sentei-me à mesa e escrevi o seu nome pondo-me num estado de abstração, com a mente em branco, que uso para desenhar com a técnica Zen. Surgiram imediatamente as palavras:
GUILHERME DE FARIA
FEIG MURALHA DE REI
A seguir um novo anagrama :
DARA EFIGIE MULHER
E mais outro: ILHA GERME DE FURIA

Guilherme acompanhava tenso minha mão que colhia as palavras rapidamente. Estava muito sério e emocionado. Parecia pressentir-lhes o significado, como eu, antes mesmo de decifrarmos o sentido delas ou das frases.
Comecei a analisá-las, intuitivamente assim:
FEIG, nome alemão que significa homem vil, covarde. Tratava-se do personagem em que ele se via no sonho. Podia ao mesmo tempo tratar-se de um típico sobrenome alemão como Veiga em português que tem nitidamente a mesma raiz etimológica: o V como abrandamento do F germânico, e um A, vogal eufônica, adicionada ao G final ( gutural germânico ) e a leitura fonética
direta EI, em vez da pronúncia alemã “FAIG”. Assim, também , o nome Viegas tem a mesma etimologia, bem como Faio. À propósito, Guilherme lembrou de um seu antepassado, português do século XVII, aventureiro mercenário, um tipo picaresco de anti-herói, chamado Lourenço Dias Viegas.
Prosseguindo:
FEIG ( junto à )MURALHA ( de um )REI
Ou : FEIG sentinela do REI
DARÁ um retrato(EFIGIE) de MULHER
A uma ILHA, originando(GERME) a Guerra (FURIA)
Enfim:
O soldado alemão Feig, dará á sua Ilha natal, o retrato de mulher roubado ao castelo do rei (da Prússia?), do qual foi sentinela antes de desertar (Feig= covarde= desertor). Isso o tornou proscrito, fazendo-o juntar-se a outros apátridas, isto é, piratas. Daí por diante, obcecado por aquela imagem do retrato (efígie ), pela qual se apaixonou, a ponto de roubá-lo; estendeu sua obsessão por aquela pintura, à grande arte em si e com a perspectiva de restaurá-las ou refazê-las ( isto está subentendido no sonho). Deduzi que o sonho significava a origem, no século XVII, da vocação de sua ANIMA PICTORICA, isto é, da sua alma de pintor.
Transmitia-lhe essa análise, um tanto especulativa, que Guilherme ouvia, extremamente emocionado. Neste momento interrompeu-me:
—E o duelo? Quem era aquele homem terrível, com o meu próprio rosto, como um irmão gêmeo, mas com aquela expressão... O que aconteceu depois? O que ia ocorrer quando despertei? Consulte o Anagrama, Alma. Prossiga, por favor!
Instada por ele, retomei a caneta e as palavras surgiram como resposta à sua pergunta, num novo Anagrama perfeito:
UA MA LIDE HERR FEIG
( UA= maneira arcaica de evitar o cacófato UMA MÁ )
LIDE= palavra feminina que equivale a DUELO
HERR= “Senhor” em alemão
UM MAU DUELO, SENHOR FEIG
O Anagrama nos respondera irônicamente!
Guilherme insistiu: –E depois? E depois?
Minha mão continuou, achando mais um Anagrama, em resposta:
HERDAR GUME E FILIA
—O que significa isso, Alma? Não estou agüentando de curiosidade, disse Guilherme.
Respondi: —Certamente estes dois últimos Anagramas explicam o que estava para ocorrer: você iria herdar a espada ( GUME ), e o caminho, (descendência) ou mesmo a filha daquele homem( FILIA).Trata-se do duelo entre você e sua sombra, duplo ou alter-ego: o seu lado mau e corajoso, contra o seu lado bom, mas tímido ( Feig ). O duelo filosófico que produziu a fusão equilibradora entre esses extremos. Estou certa?
—Sim, Alma, sim , é prodigiosa a sua interpretação. Por isso, agora entendo, havia uma dissociação nestes dois extremos quando eu tomava porres em minha juventude. Ora um, ora outro, aparecia. Como será que se chamava, ou se chama meu alter ego? Tenho agora esta nova curiosidade. Você pode me dizer?
—Guilherme, –disse eu— para isso ainda faltam elementos, mas certamente encontraremos a resposta nos próximos dias. Agora preciso descansar. Estou com uma tremenda dor de cabeça. Isso sempre ocorre. Preciso parar e ficar com a mente quieta, me desculpe. Agora vá, e ligue-me dentro de uns dias, sim?
Guilherme desculpou-se, responsabilizando-se por esse meu estado, beijou-me as mãos e partiu, meio siderado. Fui direto para a cama. Só o sono profundo poderia me restabelecer de tanto esforço mental, despendido no processo misterioso daquele desvelar dos nossos inconscientes em sintonia.
No dia seguinte acordei com o telefonema do Guilherme. Ele não agüentara esperar nem um dia quanto mais três como eu lhe pedira:
—Alô, Alma, bom dia! Você está bem ? Ótimo, preciso vê-la. Tive outro sonho. Descobri um pouco mais daquela história. Feig reapareceu em novos fragmentos de sua vida aventurosa. Já sei o seu nome todo: Thomas Feig .— ( Tive um arrepio, lembrando-me do pobre Thomas Veiga, meu falecido marido...) — Alô, Alma, receba-me logo, por favor, preciso de você!
Ainda estremunhada de sono, concordei em recebê-lo às três da tarde. Eu precisava da manhã para meditar e depois ter um forte almoço antes de gastar novamente tanta energia mental.
Pouco depois de desligar, o telefone tocou novamente. Era Renina dizendo carinhosamente, rindo:
—Alma, querida, o que você fez com o Guilherme? Ele está mais doido que nunca. Telefonou-me ontem à noite e falou-me uma hora, de você. Está obsecado. Trata-a como uma pitonisa ou Vestal sagrada. Ou, melhor, como Musa. É bem dele isso! É um homem muito apaixonado, por tudo. É sua maneira de ser. Mas quando ele canalisa sua paixão vital sobre alguém, sai debaixo! A mulher dele, Eliana, que se cuide. Ela é uma grande mulher, mas suspeito que irá sofrer ou que já sofre muito com um marido assim. Bem, isso é comum nos artistas, não é mesmo? Nós sabemos disso. Mas, você está bem, Alma? Tenho pensado em você e nos seus espantosos anagramas. Eles não me deixaram dormir por uns dias. Mas depois tudo voltou ao normal. Os tesouros do inconsciente devem permanecer onde estão, é o meu parecer. É ali que eles tem a sua vida , e dirigem indiretamente a nossa vida consciente a uma distancia segura, como do porão das máquinas. Querida, pare de mexer com isso. Pode fazer mal a você. Não sente isso?
—Sim, Renina,—respondi— Creio que você tem razão. Tenho tido umas dores de cabeça na base do crânio, na intercessão da primeira vértebra cervical. Como se estivesse forçando alguma coisa. Esse tipo de pensamento desvelador, dos arquétipos profundos, trabalhando assim, em estado de vigília, parece não fazer bem. Talvez , a consciência desses arquétipos, e também a memória de nossas vidas passadas seja algo proibido. Não estou muito segura da validade do que estou fazendo. É tudo muito interessante, mas mexe muito comigo e com as pessoas envolvidas também. Suponho que a única justificativa é um aumento do auto-conhecimento. Mas, nesse momento, lembro-me do Eclesiastes: “ quanto maior o conhecimento, maior a dor...”
Renina ficou uns segundos calada, comovida, eu senti. Depois disse:
— Alma, você é tão jovem, e sabe tanto... Cuidado, sua mente é prodigiosa...e frágil. Cuide do seu equilíbrio, acima de tudo. Você me preocupa. Desde que a conheci, tenho-lhe a maior estima. Não tive filhos, mas a senti como uma filha, não sei porquê. Talvez a filha que eu gostaria de ter tido. Uma artista, sensível e apaixonada... pela vida e pelas pessoas em geral. Você me faz lembrar de mim mesma em minha juventude. Mas a vida me ensinou um distanciamento mais prudente. O seu envolvimento emocional com todas ou quase todas as pessoas que se aproximam de você, pode lhe causar um imenso desgaste, pondo em risco seu equilíbrio e até essa felicidade de onde emana, visivelmente, a sua arte. Mas... estou me imiscuindo muito em sua vida. Desculpe-me.
—Não, não, Renina, sou-lhe imensamente grata. Vou me lembrar sempre de suas sábias palavras. Sinto, às vezes, que preciso ser detida. Minha sensibilidade se torna exagerada ou mórbida, e eu piro. Não posso conhecer ninguém mais a fundo, que passo a amar essa pessoa. E só quero conhecer as pessoas a fundo. Não sei, não sei se terei jeito.
— Querida, —finalizou Renina—não se preocupe. Não exageremos. Quero vê-la logo. Depois você me contará esse anagrama do Guilherme. Que loucura! Na verdade estou curiosa. Até logo, Alma, cuide-se, hem?!
Renina desligou, e eu fiquei um bom tempo pensativa. Depois fui tomar o meu café da manhã para continuar a pintura da grande tela que tenho no cavalete e que chamarei “Anagramas”.

De tarde, à hora combinada, recebi Guilherme, que entrou com aquele seu olhar agudo e obsessivo. Entrou já ofegante, dizendo:
—Alma, você não imagina! Reencontrei o Feig num novo sonho ou fragmento de sua vida. Ele realmente pertencia a uma ilha, sua terra natal. Ali escondeu-se após o furto do retrato e sua deserção do serviço do rei da Prússia. Ouvi seu nome na boca de um interlocutor: Thomas... Thomas Feig . Ele apaixonou-se por um retrato, você viu isso no anagrama, espantosamente. Esse retrato apareceu, nítido, no sonho desta manhã.
Era...você, Alma. Uma donzela idêntica a você. Eu roubei essa tela da coleção real e tive que desertar, fugir. Tive toda uma tropa no meu encalço. Mas eu conhecia profundamente as muralhas onde servia como sentinela. Sabia de um túnel secreto muito antigo e desconhecido do próprio rei e de seus soldados. Permaneci num subterrâneo sinistro, cheio de ratos, toda uma noite, usando o archote para percorrer o túnel e olhar o seu retrato naquelas profundezas. Ao alvorecer, saí por uma toca, no meio de uma floresta e não fui percebido. Depois, através de muitos percalços, minha associação temporária com piratas, e um duelo em que milagrosamente sobrevivi matando traiçoeiramente meu oponente, tomando-lhe a espada e com ela fazendo-me passar por ele diante de sua filha, uma menina chamada Rena, consegui com sua ajuda, chegar à minha ilha natal. Meu pai, recebeu-me como filho pródigo, com uma grande festa, perguntando-me por Lorenz, meu irmão. Respondi-lhe: “Não sei, pai, acaso sou eu o guarda de meu irmão? Meu pai ficou silencioso e suspendeu a festa. Olhou bem o retrato e disse:—“ Thomas, meu filho, quero que vá embora. Temo que esse retrato nos trará desgraças. Quem é a modelo? Se não é sua noiva , virão buscá-lo e minha casa cairá. Deixe aqui comigo a minha neta, e vá procurar Lorenz, seu irmão. Ele é um grande guerreiro e nos protegerá dos nossos inimigos. Sim, porque sinto que esse retrato nos ocasionará uma multidão deles, que se chocarão contra os nossos portões.” Nesse momento senti uma angústia e meu sonho se interrompeu, acordando-me. Alma, está tudo claro. Na verdade não vim mais para consultá-la, mas para participar-lhe minha descoberta. O retrato era seu, Alma. Eu me apaixonei por você através do seu retrato...mas não sei se a conheci pessoalmente, o que na verdade não importa. Mas queria saber, por curiosidade, e para que o círculo se feche. Quem era você? Porquê o seu retrato estava ali, no castelo do rei da Prússia, pendurado numa parede do seu quarto? Como tive acesso a esse quarto,eu, um simples soldado, sentinela? Seria você uma filha do rei, uma princesa? Certamente que sim. O rei era velho, em meu sonho, e apareceu vagamente, sem rosto . Mas você, o seu retrato, era deslumbrante. Alma, precisamos achar esse retrato. Uma tão grande obra de arte, de tal beleza, com tal modelo, deve ainda existir. Algo me diz isso. Pressinto que o acharemos, de um jeito ou de outro se nos empenhar-mos... numa pesquisa. Sei que ela parece supérflua, uma vez que você está aqui, diante dos meus olhos. Ainda assim, sinto que preciso desse quadro, eu cobiço ainda esse quadro, não sei porquê. Para devolvê-lo, talvez, a você?
— “Guilherme,”— disse eu —“parece-me claro que você pode pintar esse quadro. Cabe a você pintá-lo. Para isso você saqueou quadros e mais quadros, restaurou-os e repintou-os. Agora você está pronto para a sua obra prima. Pinte meu retrato, eu lhe peço. Eu lhe conclamo”. ( Calei-me, embargada. Como eu dissera aquilo? Num impulso? Fiz mais: depositei uma paleta, pincéis e tintas sobre a mesa. Retirei meu quadro do cavalete, o inacabado “Anagramas”, coloquei uma grande tela em branco e, em seguida, desnudei-me no meio da sala, deixando minha roupa cair aos meus pés ).

Guilherme, emocionado, empunhou a paleta e os pincéis.


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Nota da editora:

Alma incluiu nos seus "Sonetos Pampianos" este que transcrevo aqui abaixo, por curiosidade, onde ela cita nos dois tercetos o epísódio narrado no conto Anagramas:


Minhas vidas (de Alma Welt)

(134)

Tenho certeza de que um dia voltarei
Assim como voltei já muitas vezes
No corpo de mulheres e de um rei
Que não perdeu seu trono mas as rezes*.

Fui poeta, pintora e não matrona
Mas me orgulho mesmo da D’Affry*,
Adèle, a Castiglione, a Colonna
Que descobri ao ver a sua Pithie*.

Mas no século das luzes e “de Ouro”*
Fui princesa com retrato no castelo
Pintada tão real e sem desdouro

Que tive o meu “portrait” então roubado
Por um Feig que embora também belo,
Era soldado, desertor e desastrado.

17/01/2007