<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252</id><updated>2011-09-14T17:34:12.057-07:00</updated><title type='text'>A prosa de Alma Welt</title><subtitle type='html'>Este blog é destinado à divulgação da obra em prosa da grande poetisa gaúcha Alma Welt, falecida em 20 de Janeiro de 2007. Aqui os seu amigos e leitores fiéis encontrarão contos, crônicas, pensamentos, cartas, e trechos de seus romances inéditos.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>79</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-7634878231276628894</id><published>2009-01-21T20:00:00.000-08:00</published><updated>2010-11-23T04:11:02.986-08:00</updated><title type='text'>Anagramas (de Alma Welt )</title><content type='html'>08/05/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Renina, e também para Rhena e Nina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, há poucos dias, tive o súbito impulso de fazer anagramas.&lt;br /&gt;Tudo começou após a visita ao meu atelier, de uma nova amiga, a grande artista plástica Renina Katz, gravadora emérita: xilógrafa, litógrafa e água- fortista soberba. Grande dama da gravura brasileira, Renina é uma mulher madura e bela. Soube que despertou inúmeras paixões em sua juventude. O pobre do Pancetti, grande pintor e um homem simples, tinha-lhe adoração, não correspondida, claro. Soube que quase duelou por ela, acreditando-a ofendida por alguém. Renina apenas admirava-lhe a obra, havendo um abismo social e cultural entre eles. Naturalmente Renina não me falou nada sobre isso. Descobri essas curiosidades de sua biografia, num antigo número de uma revista extinta, numa excelente matéria sobre o marinheiro pintor. Refinada e culta, muito viajada, Renina honrou-me com a sua visita e fiquei horas a ouvi-la, prazerosamente. &lt;br /&gt;A uma certa altura de nossa conversa, citou o anagrama famoso de Salvador Dali: Avida Dollars, descoberto por André Breton. A propósito, Renina comentou: –“ O anagrama do meu nome parece difícil de encontrar. Alguém, uma vez, descobriu o seguinte: ZENIT KRANA. Mas não sei o que significa...”&lt;br /&gt;Após a sua saída, e com aquele anagrama ressoando em meus ouvidos, resolvi tentar. Sentei-me com caneta e papel e surgiu imediatamente: &lt;br /&gt;ANKRANZEIT&lt;br /&gt;A seguir: &lt;br /&gt;ANANKE RITZ &lt;br /&gt;Fiquei tremendamente intrigada. Mas, com a presença da palavra Katz ( gato), o anagrama só poderia mesmo ser em alemão, já que o K , nem existe em nossa língua. E o segundo anagrama, com a presença de uma palavra grega?. &lt;br /&gt;Resolvi fazer uma pesquisa para encontrar o nexo destas palavras enigmáticas em alemão e grego. Descobri o seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AN= perto de, junto ou quase.&lt;br /&gt;KRANZ= coroa&lt;br /&gt;ZEIT= tempo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANKRANZEIT = PERTO DA COROA DO TEMPO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consultando diversos tratados de filosofia pré-socrática, cruzando suas rarefeitas informações sobre a filosofia grega dos tempos arcaicos, e ainda rejeitando a Teogonia poética de Hesíodo, que coloca o Caos e Noite como princípios, encontro, afinal, em teogonistas ainda mais antigos, como Jerônimo e Helânico, a seguinte teogonia órfica (aqui resumida):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANANKE = Princípio teogônico feminino da Necessidade( na Doutrina Órfico–Pitagórica) . Tinha inúmeras naturezas, como Fado (Destino), Moira( Morte), Dyke (Justiça), Nyke (Vitória). &lt;br /&gt;TEOGONIA (Geração dos Deuses) :&lt;br /&gt;No Início era Kronos (Zeit), o Tempo. A seguir, Kronos se acasala com Ananke (a Necessidade) para produzir uma “tríplice prole” ( para isso ele rejeita Adrastéia, princípio da Necessidade incorpóreo, disseminado no espaço ...(Conceito esse extremamente obscuro ). &lt;br /&gt;Do casamento de Kronos e Ananque ( o Tempo com a Necessidade) é gerado : o ÉTER úmido, o Kaos infinito, e o Érebo nebuloso ( região subterrânea , que mais tarde gerará o Hades.)&lt;br /&gt;Mas o que significava tudo isso em relação à Renina? E o que significava ANANKE RITZ, esse segundo anagrama completo que surgira? &lt;br /&gt;RITZ ( alemão)= fenda, racha, arranhão, ferida . &lt;br /&gt;ANANKE RITZ= a fenda de Ananke&lt;br /&gt;Continuei minhas pesquisas, e sabendo que Platão ( séculos V e IV aC ) era um órfico tardio ( Orfismo= religião de Mistérios, a mais antiga doutrina reencarnacionista do Ocidente, com origem anterior ao século VII aC, relacionada aos Mistérios de Elêusis), procurei rever os Mitos narrados em seus Diálogos. Passei ao largo do famoso Mito da Caverna, tão caro aos psicanalistas, e acabei me concentrando no Mito de Er ( o Armênio), que fala do “Fuso de Ananke”, nas dez últimas páginas da REPÚBLICA . Estudando esse mito, tudo começava a se esclarecer: FENDA, era o próprio sentido etimológico da palavra Ananke, que deriva de uma raíz presente no egípcio antigo. Em termos visuais era, também a reversão gestáltica do FUSO ( a coluna de luz que une o Céu à Terra , dento da qual girava o fuso em forma de oito “pesos” ou cones de metal, invertidos, girando em torno de um eixo, formando órbitas circulares. Os bordos circulares dos cones, formavam círculos concêntricos, que rodavam com um jogo complexo de cores e números pelo movimento impresso a eles pela mão das três Parcas: Láquesis, Cloto e Atropos, respectivamente, o Passado, o Presente e o Futuro. Esse movimento de números e cores, colocado em tabelas pelos matemáticos do século XX , produz maravilhas matemáticas em torno do número 9,( numero perfeito para eles). Além disso, essas órbitas , descreviam as dos planetas do nosso sistema solar, isto é, somente as dos conhecidos no tempo de Platão. &lt;br /&gt;Resumindo, eu estava diante da Teogonia Órfica a mais secreta, somente acessível aos iniciados ( tenho medo de estar revelando-a aqui ). Tudo se esclarecia para mim . A estrutura arquetípica das gravuras da Renina ficava clara :&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÉTER —zona superior da gravura&lt;br /&gt;KAOS —zona intermediária&lt;br /&gt;ÉREBO—base, zona mais densa da gravura&lt;br /&gt;Suas gravuras tinham a estrutura espacial de aparentes paisagens abstratas, que eram assim divididas e o círculo que, muitas vezes ela inseria na região intermediária entre o Éter e o Kaos, era a representação gráfica do Ovo Primogênito do qual nascia ZEUS, o Princípio Ordenador do Universo, que daria início aos Protágonos, isto é, os outros primeiros deuses. Por isso , Renina, quando lhe perguntavam sobre esse círculo, se era a Lua , o Sol, ou a Terra vista de um outro planeta, árido, respondia : “ Não, isso está aí por uma “necessidade” plástica de “ordenar” o espaço”. Estava aí o segredo. &lt;br /&gt;A estrutura arquetípica de suas obras, continha ainda outros mistérios: na Doutrina Órfica, as Almas estavam encerradas nos corpos dos TiTÃS raça de gigantes, da qual Prometheu seria o mais famoso representante), quando estes se insurgiram contra ZEUS . Durante a formidável batalha ( TEOMAQUIA, ou Titanomaquia ) entre eles e os deuses, os Titãs estraçalharam e devoraram Dionisos criança. Os Titãs foram vencidos e Zeus fulminou-os com seus raios, e atirou-os à Terra. Das cinzas dos Titãs, Zeus criou o Homem , cuja alma é Dionisos encerrado no corpo titânico pecaminoso que busca recuperar as asas para retornar ao EMPÍREO, a morada dos Deuses e das Almas purificadas , após “dez ciclos de mil anos de reencarnações”. &lt;br /&gt;Prosseguindo nas minhas pesquisas esotéricas, encontro uma raríssima referência àquela COROA: &lt;br /&gt;Nos sepulcros órficos de Thuri, na Magna Grécia, foram encontradas, junto dos corpos de fiéis, “lamínulas” de ouro onde estavam inscritas orações das almas dirigindo-se à PERSÉFONE, ( rainha do HADES e intercessora das almas ). Havia uma que dizia : &lt;br /&gt;“... e voando cheguei perto da ambicionada coroa.” E a Deusa responde: &lt;br /&gt;“ abençoada cara Alma , serás transformada em Nume.”&lt;br /&gt;Descobri então que coroa era como os órficos chamavam o circulo que cingia o ponto mais alto do Empíreo, que as almas que recuperavam as asas , tentavam atingir , afim de descortinar “um maravilhoso vale , nunca descrito por nenhum poeta.” O círculo, nas gravuras, comportava, portanto, esta segunda interpretação.&lt;br /&gt;Estava claro, agora, para mim o significado das obras da Renina. Pequenos grafismos, parecendo asas , que se aproximavam do círculo que ela inscrevia na região intermediária de suas obras, nessa fase, como aves noturnas aproximando-se do círculo da Lua, eram , na verdade isso: as almas aladas tentando chegar perto( AN ) da ambicionada coroa ( KRANZ) de KRONOS ( ZEIT ). &lt;br /&gt;Agora ficava fácil, também , descobrir o significado do anagrama anterior que lhe fizeram : ZENIT KRANA&lt;br /&gt;ZÊNIT: palavra persa que significa um determinado lugar no espaço, culminante. KRANA, (o mesmo que Akarana) : conceito do Tempo Infinito no ZEND AVESTA ( religião filosófica da antiga Pérsia), equivalente ao KRONOS grego. Quando perguntavam à Renina o quê ela desenhava, ela dizia, instintivamente: “ESPAÇO e TEMPO.” ( Zenit Krana) &lt;br /&gt;Remeti o novo duplo anagrama , e o resultado da análise dos três, à Renina, que ficou encantada, transcrevendo-os num lindo álbum de anotações e esboços. &lt;br /&gt;Na verdade, essa pesquisa deixou-me exausta. Eu penetrara nas imediações dos Mistérios de Elêusis e isso não se faz impunemente. Tinha uma dor persistente na base do crânio, na região do cerebelo, onde se origina o pensamento espiritual. Eu puxara muito por ele. Agora estava exaurida e temerosa, embora intrigada. Porquê o Orfismo, religião secreta da Antigüidade grega, se apresentara a mim através do anagrama da Renina? Bem, sabemos que tais coisas estão no nosso inconsciente coletivo, mas trazê-las à tona pode ser perigoso... &lt;br /&gt;Passei uns dias de molho. Sentia-me exaurida, ao mesmo tempo que enriquecida ( contradição em termos ). Foi quando recebi um telefonema que iniciou todo um processo similar. Tratava-se do pintor Guilherme de Faria , que, amigo da Renina, e ouvindo-a falar do fenômeno do seu duplo anagrama feito por mim, resolveu me contatar. Marcou dia e hora para sua visita e no dia combinado, um pouco mais cedo, tocava o interfone, denunciando sua ansiedade em consultar-me. Cheguei a pensar em dali por diante cobrar consultas anagramáticas, já que isso me custava tanto, mas... &lt;br /&gt;Abri a porta, e o pintor, extremamente conhecido, adentrou o meu atelier. Tratava-se de um homem de meia idade, simpático, de cabelos e barba branca, com uma aparência patriarcal e bonachona, logo desmentida por sua voz que evidenciava , talvez, uma imaturidade emocional que lhe dava um ar de garotão quando falava. &lt;br /&gt;Simpatizei imediatamente com ele. Na verdade, atraiu-me muito, mas tomei um ar distante, inatingível, profissional, de vidente ou coisa parecida. A situação me divertia.&lt;br /&gt;Guilherme botou seus olhos agudos de pintor sobre mim, como se quisesse me devorar. Mas ao mesmo tempo percebia-lhe a doçura. Era uma coisa contraditória... Em poucos minutos sentíamos, como se nos conhecêssemos há gerações... Quando afinal entramos no assunto dos anagramas, já estávamos íntimos o suficiente para ele começar a narrar o sonho que o trouxera aqui para esta consulta. Ele disse:&lt;br /&gt;“Tive um sonho, mais real que a realidade circundante. Isto é, quando acordei, as coisas e as pessoas não me pareciam tão nítidas e reais como o que eu vi no sonho. Entretanto, não houve transição, na passagem do sono para a vigília e a memória não desvaneceu. O sonho continuava nítido, fresco e real na memória e assim está passado já dois meses. Foi o seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Ví-me a bordo de uma nau, de velas, típica do século XVII, assim como tudo que me rodeava. Minha roupa era simples, de soldado, um gibão cingido por um grande cinto de couro, calções bufantes e botas de cano dobrado com saltos altos e grandes fivelas, punhos grandes virados, um grande chapéu com uma pluma e uma espada na cintura. Eu conversava com o capitão do navio, figura terrível, calvo, com grandes bigodes de pontas reviradas para cima, grotescamente enfeitado, com tranças que lhe saiam dos lados da calva. Brincos nas orelhas e um olhar sarcástico e mau. A figura típica de um capitão pirata. Nós estávamos no tombadilho, e ele me perguntava o que eu queria como minha parte no botim ( no saque de uma nau, que estava ainda longe no horizonte e que certamente o capitão pretendia atacar.) Eu lhe respondi que queria, das obras de arte que houvesse a bordo, somente os quadros. O capitão, com uma risada mais sarcástica ainda, disse-me que sim , que os quadros seriam meus. Aquilo aguçou ainda mais a minha cobiça e eu não via a hora de botar os olhos e as mãos naqueles quadros. Afinal, o galeão, à medida que se aproximava, mais evidenciava sua origem nobre e a riqueza potencial de sua carga". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"No momento seguinte do sonho, após um corte cinematográfico, me vi no meio de um terrível combate de abordagem , com os marujos piratas&lt;br /&gt;lançando ganchos nas amuradas do outro navio para puxarem-no perfilando-o e saltando para ele pendurados nas cordas que pendiam dos mastros. Tiros, fumaça, odor de pólvora, gritos e sangue. Terríveis golpes mutilantes de sabre, de lado a lado. Quanto a mim, estava apavorado. Eu tinha minha espada na mão e lutava o menos possível, esquivando-me e pondo-me sempre atrás dos companheiros, fazendo o possível para evitar confrontos diretos, disfarçando e poupando-me ao máximo, com grande medo de ser ferido, mas avançando dessa maneira escusa, movido apenas pela cobiça e avidez pelas obras de arte prometidas pelo capitão. Afinal, para meu alívio, houve outro corte cinematográfico no sonho e eu me vi, o combate terminado, o navio abordado, dentro de um camarote luxuosíssimo, que seria o do capitão do navio vencido. Havia corpos mutilados e sangue por toda parte, dentro daquele camarote. Eu estava, afinal, diante dos quadros que forravam as paredes, desde o roda-pé até o teto baixo, passando pelos lados e por cima de uma belíssima cama de dossel. Cercavam-me vários marinheiros e o Capitão que me olhava sempre com aquele sorriso irônico, cofiando os grandes bigodes. Vi-me observando um grande quadro que retratava um nobre, de pé, nitidamente um Velazquez. Havia também pequenos quadros da escola holandesa: Vermeer e Rembrandt, bem reconhecíveis ali. Uma cena religiosa de El Greco. Uma natureza morta de Zurbarán , bem como uma sua Santa Ágata , servindo seus próprios seios, como pêssegos em calda, numa bandeja. Quando os admirava, cheio de cobiça, percebia, com dor, os furos e cortes que havia naquelas telas como resultado dos combates dentro daquele camarote. Mas eu pensei imediatamente nuns potes de pigmentos e pincéis que eu tinha visto, de relance, insolitamente num canto do tombadilho do navio tomado. Pensava num jeito instintivo de salvar aquelas telas puxando o tecido por trás, colando-o sobre pedaços de velame e retocando com aquelas tintas. Eu apontei, escolhendo a primeira obra: Esse aqui!,&lt;br /&gt;Nesse momento ouvi atrás de mim, bem alto uma voz que disse: Não! Esse é meu! Tive um aperto no coração, disfarcei, e sem voltar-me, prossegui: Esse aqui!. Novamente ouvi a voz atrás de mim: Não, esse também é meu! Voltei-me afinal e vi-me diante de um fidalgo ou coisa parecida, ricamente vestido, como um nobre, com um gibão prateado e um colar de ouro e pedras que lhe ornava o peito, e calções bufantes cheios de laçarotes, fitas e fivelas. Botas reviradas maravilhosas mas exageradas, com enormes saltos e fivelas de prata imensas. Punhos de renda, bem como a ampla gola faziam supor gestos amaneirados, entretanto ele se mantinha numa única postura, ameaçadora: as costas do punho esquerdo apoiada na cintura acima do cinto que sustentava a espada. A perna direita avançada, e a mão destra empunhando a espada sem sacá-la ainda. Tive um arrepio de medo, que aumentou quando pude ver que seu rosto era... o meu! Apenas com os cabelos mais longos repartidos no meio, ( parecido ao que eu usava nos anos 70). Os bigodes finos com pontas reviradas para cima, e um olhar ainda mais sarcástico do que o do capitão. Disfarcei e continuei a minha escolha, sempre contestada por ele com o seu: “Não, é meu!” Eu sentia a minha parte no botim esvair-se por entre meus dedos. O pior: os marujos e o capitão estavam às gargalhadas, e insuflavam o conflito iminente. Gritavam: “vamos ver, vamos ver, para quem vão ficar esses quadros!”Alguns rolavam no chão do camarote, com as mãos na barriga de tanto rir. O capitão tinha um esgar malévolo, esfregando os punhos com os seus olhos brilhantes de demônio. Eu via claramente que não poderia me esquivar a esse combate. Eu teria que duelar pelos quadros com aquele homem, que devia ser um corsário, e um terrível espadachim, a julgar pela sua postura. O meu tesouro se esvaía. A angústia que me tomou, foi subindo, subindo e me fez acordar, interrompendo a cena e talvez salvando-me da visão de um terrível vexame. &lt;br /&gt;Alma, Alma diga-me, você pode desvendar esse sonho para mim? Tenho ouvido falar de seus dons de interpretação e de análise de anagramas. Você pode me ajudar. Continuo sob o efeito humilhante desse sonho, se é que isso foi um sonho...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Guilherme, –disse eu– Posso tentar fazer o seu anagrama. Mas não&lt;br /&gt;posso prometer nenhum resultado, pois não sei se saberei interpretar as palavras, ou frases que surgirem. Mas vamos lá...&lt;br /&gt;Peguei papel e caneta, sentei-me à mesa e escrevi o seu nome pondo-me num estado de abstração, com a mente em branco, que uso para desenhar com a técnica Zen. Surgiram imediatamente as palavras: &lt;br /&gt;GUILHERME DE FARIA&lt;br /&gt;FEIG MURALHA DE REI&lt;br /&gt;A seguir um novo anagrama :&lt;br /&gt;DARA EFIGIE MULHER &lt;br /&gt;E mais outro: ILHA GERME DE FURIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme acompanhava tenso minha mão que colhia as palavras rapidamente. Estava muito sério e emocionado. Parecia pressentir-lhes o significado, como eu, antes mesmo de decifrarmos o sentido delas ou das frases.&lt;br /&gt;Comecei a analisá-las, intuitivamente assim:&lt;br /&gt;FEIG, nome alemão que significa homem vil, covarde. Tratava-se do personagem em que ele se via no sonho. Podia ao mesmo tempo tratar-se de um típico sobrenome alemão como Veiga em português que tem nitidamente a mesma raiz etimológica: o V como abrandamento do F germânico, e um A, vogal eufônica, adicionada ao G final ( gutural germânico ) e a leitura fonética &lt;br /&gt;direta EI, em vez da pronúncia alemã “FAIG”. Assim, também , o nome Viegas tem a mesma etimologia, bem como Faio. À propósito, Guilherme lembrou de um seu antepassado, português do século XVII, aventureiro mercenário, um tipo picaresco de anti-herói, chamado Lourenço Dias Viegas. &lt;br /&gt;Prosseguindo:&lt;br /&gt;FEIG ( junto à )MURALHA ( de um )REI&lt;br /&gt;Ou : FEIG sentinela do REI &lt;br /&gt;DARÁ um retrato(EFIGIE) de MULHER&lt;br /&gt;A uma ILHA, originando(GERME) a Guerra (FURIA)&lt;br /&gt;Enfim: &lt;br /&gt;O soldado alemão Feig, dará á sua Ilha natal, o retrato de mulher roubado ao castelo do rei (da Prússia?), do qual foi sentinela antes de desertar (Feig= covarde= desertor). Isso o tornou proscrito, fazendo-o juntar-se a outros apátridas, isto é, piratas. Daí por diante, obcecado por aquela imagem do retrato (efígie ), pela qual se apaixonou, a ponto de roubá-lo; estendeu sua obsessão por aquela pintura, à grande arte em si e com a perspectiva de restaurá-las ou refazê-las ( isto está subentendido no sonho). Deduzi que o sonho significava a origem, no século XVII, da vocação de sua ANIMA PICTORICA, isto é, da sua alma de pintor.&lt;br /&gt;Transmitia-lhe essa análise, um tanto especulativa, que Guilherme ouvia, extremamente emocionado. Neste momento interrompeu-me:&lt;br /&gt;—E o duelo? Quem era aquele homem terrível, com o meu próprio rosto, como um irmão gêmeo, mas com aquela expressão... O que aconteceu depois? O que ia ocorrer quando despertei? Consulte o Anagrama, Alma. Prossiga, por favor!&lt;br /&gt;Instada por ele, retomei a caneta e as palavras surgiram como resposta à sua pergunta, num novo Anagrama perfeito:&lt;br /&gt;UA MA LIDE HERR FEIG&lt;br /&gt;( UA= maneira arcaica de evitar o cacófato UMA MÁ ) &lt;br /&gt;LIDE= palavra feminina que equivale a DUELO&lt;br /&gt;HERR= “Senhor” em alemão&lt;br /&gt;UM MAU DUELO, SENHOR FEIG &lt;br /&gt;O Anagrama nos respondera irônicamente!&lt;br /&gt;Guilherme insistiu: –E depois? E depois?&lt;br /&gt;Minha mão continuou, achando mais um Anagrama, em resposta: &lt;br /&gt;HERDAR GUME E FILIA &lt;br /&gt;—O que significa isso, Alma? Não estou agüentando de curiosidade, disse Guilherme.&lt;br /&gt;Respondi: —Certamente estes dois últimos Anagramas explicam o que estava para ocorrer: você iria herdar a espada ( GUME ), e o caminho, (descendência) ou mesmo a filha daquele homem( FILIA).Trata-se do duelo entre você e sua sombra, duplo ou alter-ego: o seu lado mau e corajoso, contra o seu lado bom, mas tímido ( Feig ). O duelo filosófico que produziu a fusão equilibradora entre esses extremos. Estou certa?&lt;br /&gt;—Sim, Alma, sim , é prodigiosa a sua interpretação. Por isso, agora entendo, havia uma dissociação nestes dois extremos quando eu tomava porres em minha juventude. Ora um, ora outro, aparecia. Como será que se chamava, ou se chama meu alter ego? Tenho agora esta nova curiosidade. Você pode me dizer? &lt;br /&gt;—Guilherme, –disse eu— para isso ainda faltam elementos, mas certamente encontraremos a resposta nos próximos dias. Agora preciso descansar. Estou com uma tremenda dor de cabeça. Isso sempre ocorre. Preciso parar e ficar com a mente quieta, me desculpe. Agora vá, e ligue-me dentro de uns dias, sim?&lt;br /&gt;Guilherme desculpou-se, responsabilizando-se por esse meu estado, beijou-me as mãos e partiu, meio siderado. Fui direto para a cama. Só o sono profundo poderia me restabelecer de tanto esforço mental, despendido no processo misterioso daquele desvelar dos nossos inconscientes em sintonia. &lt;br /&gt;No dia seguinte acordei com o telefonema do Guilherme. Ele não agüentara esperar nem um dia quanto mais três como eu lhe pedira: &lt;br /&gt;—Alô, Alma, bom dia! Você está bem ? Ótimo, preciso vê-la. Tive outro sonho. Descobri um pouco mais daquela história. Feig reapareceu em novos fragmentos de sua vida aventurosa. Já sei o seu nome todo: Thomas Feig .— ( Tive um arrepio, lembrando-me do pobre Thomas Veiga, meu falecido marido...) — Alô, Alma, receba-me logo, por favor, preciso de você!&lt;br /&gt;Ainda estremunhada de sono, concordei em recebê-lo às três da tarde. Eu precisava da manhã para meditar e depois ter um forte almoço antes de gastar novamente tanta energia mental. &lt;br /&gt;Pouco depois de desligar, o telefone tocou novamente. Era Renina dizendo carinhosamente, rindo:&lt;br /&gt;—Alma, querida, o que você fez com o Guilherme? Ele está mais doido que nunca. Telefonou-me ontem à noite e falou-me uma hora, de você. Está obsecado. Trata-a como uma pitonisa ou Vestal sagrada. Ou, melhor, como Musa. É bem dele isso! É um homem muito apaixonado, por tudo. É sua maneira de ser. Mas quando ele canalisa sua paixão vital sobre alguém, sai debaixo! A mulher dele, Eliana, que se cuide. Ela é uma grande mulher, mas suspeito que irá sofrer ou que já sofre muito com um marido assim. Bem, isso é comum nos artistas, não é mesmo? Nós sabemos disso. Mas, você está bem, Alma? Tenho pensado em você e nos seus espantosos anagramas. Eles não me deixaram dormir por uns dias. Mas depois tudo voltou ao normal. Os tesouros do inconsciente devem permanecer onde estão, é o meu parecer. É ali que eles tem a sua vida , e dirigem indiretamente a nossa vida consciente a uma distancia segura, como do porão das máquinas. Querida, pare de mexer com isso. Pode fazer mal a você. Não sente isso?&lt;br /&gt;—Sim, Renina,—respondi— Creio que você tem razão. Tenho tido umas dores de cabeça na base do crânio, na intercessão da primeira vértebra cervical. Como se estivesse forçando alguma coisa. Esse tipo de pensamento desvelador, dos arquétipos profundos, trabalhando assim, em estado de vigília, parece não fazer bem. Talvez , a consciência desses arquétipos, e também a memória de nossas vidas passadas seja algo proibido. Não estou muito segura da validade do que estou fazendo. É tudo muito interessante, mas mexe muito comigo e com as pessoas envolvidas também. Suponho que a única justificativa é um aumento do auto-conhecimento. Mas, nesse momento, lembro-me do Eclesiastes: “ quanto maior o conhecimento, maior a dor...”&lt;br /&gt;Renina ficou uns segundos calada, comovida, eu senti. Depois disse:&lt;br /&gt;— Alma, você é tão jovem, e sabe tanto... Cuidado, sua mente é prodigiosa...e frágil. Cuide do seu equilíbrio, acima de tudo. Você me preocupa. Desde que a conheci, tenho-lhe a maior estima. Não tive filhos, mas a senti como uma filha, não sei porquê. Talvez a filha que eu gostaria de ter tido. Uma artista, sensível e apaixonada... pela vida e pelas pessoas em geral. Você me faz lembrar de mim mesma em minha juventude. Mas a vida me ensinou um distanciamento mais prudente. O seu envolvimento emocional com todas ou quase todas as pessoas que se aproximam de você, pode lhe causar um imenso desgaste, pondo em risco seu equilíbrio e até essa felicidade de onde emana, visivelmente, a sua arte. Mas... estou me imiscuindo muito em sua vida. Desculpe-me. &lt;br /&gt;—Não, não, Renina, sou-lhe imensamente grata. Vou me lembrar sempre de suas sábias palavras. Sinto, às vezes, que preciso ser detida. Minha sensibilidade se torna exagerada ou mórbida, e eu piro. Não posso conhecer ninguém mais a fundo, que passo a amar essa pessoa. E só quero conhecer as pessoas a fundo. Não sei, não sei se terei jeito. &lt;br /&gt;— Querida, —finalizou Renina—não se preocupe. Não exageremos. Quero vê-la logo. Depois você me contará esse anagrama do Guilherme. Que loucura! Na verdade estou curiosa. Até logo, Alma, cuide-se, hem?! &lt;br /&gt;Renina desligou, e eu fiquei um bom tempo pensativa. Depois fui tomar o meu café da manhã para continuar a pintura da grande tela que tenho no cavalete e que chamarei “Anagramas”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tarde, à hora combinada, recebi Guilherme, que entrou com aquele seu olhar agudo e obsessivo. Entrou já ofegante, dizendo: &lt;br /&gt;—Alma, você não imagina! Reencontrei o Feig num novo sonho ou fragmento de sua vida. Ele realmente pertencia a uma ilha, sua terra natal. Ali escondeu-se após o furto do retrato e sua deserção do serviço do rei da Prússia. Ouvi seu nome na boca de um interlocutor: Thomas... Thomas Feig . Ele apaixonou-se por um retrato, você viu isso no anagrama, espantosamente. Esse retrato apareceu, nítido, no sonho desta manhã. &lt;br /&gt;Era...você, Alma. Uma donzela idêntica a você. Eu roubei essa tela da coleção real e tive que desertar, fugir. Tive toda uma tropa no meu encalço. Mas eu conhecia profundamente as muralhas onde servia como sentinela. Sabia de um túnel secreto muito antigo e desconhecido do próprio rei e de seus soldados. Permaneci num subterrâneo sinistro, cheio de ratos, toda uma noite, usando o archote para percorrer o túnel e olhar o seu retrato naquelas profundezas. Ao alvorecer, saí por uma toca, no meio de uma floresta e não fui percebido. Depois, através de muitos percalços, minha associação temporária com piratas, e um duelo em que milagrosamente sobrevivi matando traiçoeiramente meu oponente, tomando-lhe a espada e com ela fazendo-me passar por ele diante de sua filha, uma menina chamada Rena, consegui com sua ajuda, chegar à minha ilha natal. Meu pai, recebeu-me como filho pródigo, com uma grande festa, perguntando-me por Lorenz, meu irmão. Respondi-lhe: “Não sei, pai, acaso sou eu o guarda de meu irmão? Meu pai ficou silencioso e suspendeu a festa. Olhou bem o retrato e disse:—“ Thomas, meu filho, quero que vá embora. Temo que esse retrato nos trará desgraças. Quem é a modelo? Se não é sua noiva , virão buscá-lo e minha casa cairá. Deixe aqui comigo a minha neta, e vá procurar Lorenz, seu irmão. Ele é um grande guerreiro e nos protegerá dos nossos inimigos. Sim, porque sinto que esse retrato nos ocasionará uma multidão deles, que se chocarão contra os nossos portões.” Nesse momento senti uma angústia e meu sonho se interrompeu, acordando-me. Alma, está tudo claro. Na verdade não vim mais para consultá-la, mas para participar-lhe minha descoberta. O retrato era seu, Alma. Eu me apaixonei por você através do seu retrato...mas não sei se a conheci pessoalmente, o que na verdade não importa. Mas queria saber, por curiosidade, e para que o círculo se feche. Quem era você? Porquê o seu retrato estava ali, no castelo do rei da Prússia, pendurado numa parede do seu quarto? Como tive acesso a esse quarto,eu, um simples soldado, sentinela? Seria você uma filha do rei, uma princesa? Certamente que sim. O rei era velho, em meu sonho, e apareceu vagamente, sem rosto . Mas você, o seu retrato, era deslumbrante. Alma, precisamos achar esse retrato. Uma tão grande obra de arte, de tal beleza, com tal modelo, deve ainda existir. Algo me diz isso. Pressinto que o acharemos, de um jeito ou de outro se nos empenhar-mos... numa pesquisa. Sei que ela parece supérflua, uma vez que você está aqui, diante dos meus olhos. Ainda assim, sinto que preciso desse quadro, eu cobiço ainda esse quadro, não sei porquê. Para devolvê-lo, talvez, a você?&lt;br /&gt;— “Guilherme,”— disse eu —“parece-me claro que você pode pintar esse quadro. Cabe a você pintá-lo. Para isso você saqueou quadros e mais quadros, restaurou-os e repintou-os. Agora você está pronto para a sua obra prima. Pinte meu retrato, eu lhe peço. Eu lhe conclamo”. ( Calei-me, embargada. Como eu dissera aquilo? Num impulso? Fiz mais: depositei uma paleta, pincéis e tintas sobre a mesa. Retirei meu quadro do cavalete, o inacabado “Anagramas”, coloquei uma grande tela em branco e, em seguida, desnudei-me no meio da sala, deixando minha roupa cair aos meus pés ). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme, emocionado, empunhou a paleta e os pincéis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota da editora:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma incluiu nos seus "Sonetos Pampianos" este que transcrevo aqui abaixo, por curiosidade, onde ela cita nos dois tercetos o epísódio narrado no conto Anagramas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Minhas vidas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(134)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho certeza de que um dia voltarei&lt;br /&gt;Assim como voltei já muitas vezes &lt;br /&gt;No corpo de mulheres e de um rei&lt;br /&gt;Que não perdeu seu trono mas as rezes*.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui poeta, pintora e não matrona&lt;br /&gt;Mas me orgulho mesmo da D’Affry*,&lt;br /&gt;Adèle, a Castiglione, a Colonna&lt;br /&gt;Que descobri ao ver a sua Pithie*.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas no século das luzes e “de Ouro”*&lt;br /&gt;Fui princesa com retrato no castelo&lt;br /&gt;Pintada tão real e sem desdouro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que tive o meu “portrait” então roubado&lt;br /&gt;Por um Feig que embora também belo,&lt;br /&gt;Era soldado, desertor e desastrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/01/2007&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-7634878231276628894?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/7634878231276628894/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=7634878231276628894' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7634878231276628894'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7634878231276628894'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2009/01/anagramas-de-alma-welt.html' title='Anagramas (de Alma Welt )'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-3750285718654672805</id><published>2008-11-16T01:37:00.000-08:00</published><updated>2011-03-04T05:23:46.006-08:00</updated><title type='text'>Stradivarius  no sótão ( conto de Alma Welt )</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Stradivarius  no sótão&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Sentindo o meu apartamento nos Jardins completamente saturado , entulhado de telas,  materiais e livros , resolvi procurar um sobradinho na região próxima, de Pinheiros,  para estabelecer um novo ateliê, “clean”, para poder manejar e pintar grandes telas. Tendo encontrado a casa que me serviria, vi-me novamente envolta por uma vida de bairro, mais comunitária, a que estava desacostumada. Não tardei a conhecer um personagem destas ruas , que me faria participar de um extravagante episódio de sua vida. &lt;br /&gt;            O senhor Robledo, apesar de sua discrição e aspecto apagado, seu ar digno e um pouco distraído, teve seu tempo de notoriedade, há alguns anos atrás, nestes quarteirões, nos bares  ociosos das adjacências, quando cometeu a publicação de um compêndio de sua autoria. Uma brochura,  impressa numa tipografia próxima, por sua conta, e titulada, para gáudio da vizinhança e dos boêmios e bebedores de cafezinhos, nada mais nada menos que : “Romantismo e Vida Fiscal.” Não é preciso dizer que os gozadores não ultrapassaram o título em seus comentários, e que poucos se deram ao trabalho de folheá-lo. Confesso também minha total ignorância quanto ao seu conteúdo, quem sabe de notáveis ponderações, visto que o seu autor  parece impregnado de uma certa aura de humanismo, que envolve toda a sua pessoa , de uma maneira um tanto arcaica. &lt;br /&gt;               O senhor  Robledo contou-me que  parou diante de um sobrado, tocou a campainha e foi imediatamente recebido pelo senhor de cabelos brancos e aspecto saudável que o conduziu por dependências já completamente esvaziadas e convidou-o a sentar-se numa das duas cadeiras que se avistavam no meio da sala. Este senhor teria dito mais ou menos isto:&lt;br /&gt;                 -“ Meu caro senhor Robledo , conforme está no contrato, entrego-lhe a casa inteiramente vazia,  mas com a condição de que o senhor suporte o meu despejo no sótão da casa. É afinal, a única dependência que me reservo, pois não tenho como me ocupar dessas velharias, nem quero perder tempo em livrar-me      delas. Peço-lhe muitas desculpas por alugar-lhe a casa em tais condições , mas quero aproveitar a liberdade com que a vida subitamente  me presenteou, com o afastamento dos meus filhos e parentes, que seguiram seus rumos, casaram-se e mudaram-se, e visto que sou viuvo já há muitos anos...Vejo-me enfim livre para uma última viagem pelo mundo, da qual talvez nem regresse , não posso esperar da vida tantos retornos, apesar de tudo. Gozo de boa saúde, pretendo dar um  bom giro pela velha Europa, e passar pela minha região de nascença, minha pequena cidade natal . Peço-lhe, entretanto , que não se preocupe, absolutamente&lt;br /&gt;não se preocupe com aqueles trastes lá em cima. Deixe-os empoeirar-se, se isso não o incomodar. Na verdade não queria incomodar um inquilino como o senhor , apenas rogo-lhe que suporte esses despojos, dos quais não tenho forças para livrar-me. Não creio, por outro lado, que o sótão lhe possa fazer falta não é mesmo? O senhor sendo solteiro, e visto que o senhor assim me afiançou com tanta generosidade. Enfim, fico-lhe grato. Não, não exagero. Um inquilino como o senhor é uma preciosidade, a essa altura da vida , quando não se pode mais aborrecer-se com ninharias e tudo o que se quer é partir, partir, sabe-se lá por quê, num ultimo giro pelo mundo, antes de aportar de vez, não é mesmo?  &lt;br /&gt;           –“Naturalmente, sem dúvida, senhor”– o senhor Robledo se aprestou em afirmar, já com um zelo de guardião prestativo e fiel a desabrochar-lhe nos olhos, em todo o seu corpo aprumado, mas que anos e anos de serviço público faziam suspeitar pequenas reverências, movimentos imperceptíveis de coluna.     &lt;br /&gt;              Na verdade, tudo isso eu deduzi, a partir de uma convivência esporádica que estabeleci com o protagonista desta história, das observações que pude fazer da janela do meu sobradinho, e a seguir, das insólitas cenas que me foram dadas a presenciar em sua casa, e que tentarei relatar por mais dolorosas e grotescas que pareçam. Por enquanto, ainda estamos naquele prólogo narrado pelo querido senhor Robledo, numa determinada visita que lhe fiz no sanatório.&lt;br /&gt;            O diálogo com o proprietário prosseguiu, um pouco mais, girando sobre estes mesmos pontos e afinal despediram-se cordialmente , quase efusivamente. O senhor Robledo cheio de inexplicável entusiasmo e com a melhor das disposições retornou à sua residência, distante apenas uma quadra  dali, afim de tratar da sua mudança, considerável bagagem de homem civilizado, razoavelmente livresco( uma pequena e eclética biblioteca, onde predominava a boa literatura do século XIX ). &lt;br /&gt;           A mudança do novo inquilino foi acompanhada por uma dezena de pares de olhos atentos, entrincheirados nas janelas da vizinhança, nas imediações do poste da esquina, e sobretudo nos bancos do boteco em frente. O sr. Robledo não era estranho a esses olhos, mas devia estar se aproximando considerável e inadvertidamente, com as entranhas de sua antiga residência à mostra , nessa &lt;br /&gt;situação de terrível despudor em que uma mudança coloca as pessoas. &lt;br /&gt;          Dispostos o móveis em seus lugares, tarefa que tomou alguns dias ao sr. Robledo, que , por sinal, teve de despachar amavelmente alguns curiosos que sempre teimam nessas ocasiões em prestar uma mãosinha de ajuda, afim de pôr um pesinho dentro da nova moradia. Prestativos e bisbilhoteiros, olhares ávidos de tédio e curiosidade vã, vocês sabem, os bons vizinhos freqüentadores do boteco, a gorda e faladeira senhora da esquina; o inesperado anão provavelmente vendedor de bilhetes de loteria, o aposentado senhor de olhos empapuçados de alcoólatra, o moço espinhudo jogador de sinuca, talvez conhecido pelo apelido de Zé Galinha, a magérrima semi-louca da direita, em seu vestido de brim estilo sanatório, etc. Ah! Uma indefectível professora de música, outrora, segundo ela mesma, cantora lírica no Municipal. Pessoas amáveis e atenciosas, ligeiramente marginalizadas, é verdade, solitárias e solidárias a seu modo.               &lt;br /&gt;             A porta trancada, o sr. Robledo, exausto, percorreu com o olhar cada centímetro quadrado do seu novo cenário, na verdade idêntico ao antigo, com as mesmas disposições e um restinho da velha poeira; os objetos metodicamente recolocados sobre as mesas e os consoles, e encerrou para si mesmo o assunto mudança, não sendo, afinal, um homem de demasiadas idiossincrasias, dessas que costumam assolar os solteirões. &lt;br /&gt;             Predispôs-se a dormir , não sem antes dar a primeira vista d’olhos no famoso sótão, objeto de sua crescente curiosidade, o que fez com ligeiro ar de displicência, de pijama, pensando sem querer num paninho de pó e na sua faxineira diarista. Não, não caberia a mais ninguém entrar naquele sótão tão íntimo, afinal, toda uma vida acumulada ali , nos seus visíveis recados, na sua linguagem cifrada de móveis, quadros e objetos, poltronas rotas e pó, provavelmente.  &lt;br /&gt;             “É preciso ser sensível,” pensava ele, “à linguagem muda dessas coisas. Não, empregada jamais , talvez o esquecimento vigilante, isto sim, vejamos...”                              &lt;br /&gt;              Subiu o pequeno lance de escada e penetrou pela porta que ostentava&lt;br /&gt;chave, e viu-se numa pequena  alcova sob o telhado, entulhada de toda a sorte de móveis desmontados, comuns, bastante usados, vividos, sobre os quais pousavam quadrinhos empilhados e álbuns de fotografias de família. Com a ponta dos dedos, o sr. Robledo abriu um álbum, desinteressadamente, folheou timidamente outro mais adiante, retomou os ares de guardião zeloso e voltou-se para sair atritando os dedos empoeirados, quando seus olhos caíram sobre um instrumento pousado  sobre uma cômoda bloqueada por todos os lados, displicentemente  jogado, fora da caixa, sem cordas: um violino bastante belo, lhe pareceu, razoavelmente conservado,  apesar de tudo. O sr, Robledo pegou-o com reverente cuidado, com as pontas dos dedos, examinou-o, com atenção e respeito. Admirou-lhe as formas barrocas que lhe pareceram perfeitas, advinhou-lhe as peças desaparecidas, que lhe completariam a harmonia: o cavalete e o suporte; intrigou-se com a queixeira negra que lhe pareceu abstrusa; percorreu com os dedos a voluta onde faltava uma chave, e em seguida espiou pelas frestas sinuosas e leu, inclinando adequadamente para a luz da pequena janela empoeirada: ANTONIUS STRADIVARIUS CREMONENSII – 1692.&lt;br /&gt;              Com um leve sobressalto íntimo, o sr. Robledo, pestanejando, depositou subitamente o instrumento, exatamente no espaço delineado pela sua forma na poeira da cômoda e tratou de afastar-se, num estado semi-sonhador, hipnagógico. &lt;br /&gt;              Trancou a porta com a chave e retirou-se, descendo até a sala, dirigiu-se até  a sua estante, percorreu  com os olhos as lombadas da sua Enciclopédia... “S”, retirou o volume, folheou-o, compulsou-o, até encontrar o verbete esperado: “Stradivari ( Antônio ), dito Stradivarius, de Cremona, Itália, célebre “maestro liutaio”( luterista ), discípulo de Amati, etc...”&lt;br /&gt;            O sr. Robledo soltou um gemido, enquanto seus pensamentos turbilhonavam sem forma, despontando aqui e ali uma censura em meio à  surpresa: “Como puderam deixá-lo assim, abandonado, ali na poeira, mutilado, sem cordas, sem sua caixa, etc..?  Tanto descaso... Um mistério. É preciso vigiá-lo, de algum modo...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;                &lt;br /&gt;          Os dias se passaram e o sr. Robledo permanecia com aquele olhar sonhador, que agora lhe assentava como a definição verdadeira da sua personalidade, de modo que não foi notado conscientemente nem mesmo pela sua faxineira, embora isso o deixasse mais vulnerável às tentativas de aproximação dos vizinhos, pois já não reagia às pequenas invasões do cotidiano do bairro, na verdade por não estar atento. Tinha agora um ar mais vago, doce, os gestos mais lentos.   &lt;br /&gt;         Um dia  fez uma viagem ao interior, Taubaté, e trouxe um violino tosco, uma rabeca popular comprada na feira da cidade. Daí pra diante as rabecas se multiplicariam no seu caminho com curiosa facilidade. Violinos de feira, de bric-a-brac, de criança, quebrados, empenados, mutilados, feitos a canivete, primitivos&lt;br /&gt;uns, belos, outros nem tanto, violinos de fábrica, cópias de bela aparência. Proliferavam pela casa como coelhos. O sr. Robledo os tangia, passava-lhes o arco uma vez ao chegarem, e logo os pendurava. Sim, porque, estranhamente, ele não suportava pousá-los pelos móveis, achando que a trepidação da rua, pelo movimento dos carros e caminhões, os prejudicaria de alguma forma. Pendurava-os em varais que se estendiam pelos cômodos da casa, sempre acompanhados dos seus respectivos arcos, pendentes pelas volutas, como enforcados, acima das cabeças das visitas. Sim porque, vulnerável como estava o nosso sonhador, a casa agora era constantemente invadida pelos vizinhos: o Zé Galinha, a louca da esquina, dona Magda, a cantora, o anão de terno, o poeta Aragipe, queixoso e impublicado, o aposentado alcoólatra na ativa, e outros. Até mesmo essa sua criada aqui, que ele convidou amavelmente, ao encontrar-me eventualmente na padaria do nosso quarteirão. Pude testemunhar o espantoso entra-e-sai de sua casa devassada. Entravam a qualquer hora do dia e da noite, sentavam-se à mesa com seus baralhos, em longas partidas demenciais, entremeadas de cafezinhos que movimentavam simultaneamente a cozinha, em confidencias, tagarelices, gracejos, fofocas. Sobretudo fofocas. &lt;br /&gt;            Um dia, em meio a essa balbúrdia, o sr. Robledo, de repente bateu palmas e pediu atenção. Tinha um comunicado a fazer. Olhamo-no em silêncio, surpresos e curiosos. &lt;br /&gt;             —Senhores, senhoras, meus amigos, e você, Alma , sobretudo você, minha nova querida amiga! Tenho uma revelação a fazer. Uma grande descoberta! Mas, primeiro um convite. A todos vocês. Façamos um grande almoço. Conto, para isso, com a colaboração das senhoras. Quero todos presentes. Durante esse repasto, amanhã,  farei a minha revelação. Compartilharei com vocês, meus amigos, a minha grande descoberta. Fundamental, eu creio, vocês verão! Conto com vocês. Até amanhã!&lt;br /&gt;             Na verdade, poucos deixaram a casa, e as mulheres puseram-se logo a fazer planos para o promissor almoço. Frango assado!, decidiram. &lt;br /&gt;             No dia seguinte, ainda cedo , começaram os preparativos. A cozinha movimentou-se, com as incursões ao boteco da esquina para comprar os frangos. Na verdade, pré assados na máquina giratória, já prontos, faltando somente os condimentos, guarnições, etc.&lt;br /&gt;              Ao meio dia em ponto a mesa estava aberta, crescida e posta com a toalha de renda, os talheres e baixelas desenterrados do passado nebuloso e neutro dos baús do nosso amável anfitrião. As mulheres atarefadas, traziam os frangos fumegantes da cozinha, acompanhados aos saltos pelo anão e o Zé Galinha, que se faziam de bufões. O poeta Aragipe fazia o menestrel, tangendo como um alaúde, um dos violinos arrancado ao varal que se estendia acima da mesa, de parede a parede. O sr. Robledo estava um pouco desconcertado e incomodado com a feição de Festim que o almoço tomava, eu percebi. Mas mantinha o olhar sonhador e vago, à espera do momento de compartilhar sua Revelação. &lt;br /&gt;              Todos sentados à mesa, o sr. Robledo à cabeceira, os convidados buliçosos faziam pirraças, arrulhavam feito pombas, grasnavam, latiam, batiam palmas e atacavam as entradas e aperitivos, atiravam azeitonas, casquinando.&lt;br /&gt;               De repente, ao entrarem os frangos, em meio ao vapor e aroma que se desprendiam, o sr. Robledo pôs-se de pé, hesitante, e pediu silêncio, batendo discretamente um garfo no cristal.&lt;br /&gt;             –Senhores, senhoras, um momento! Eu lhes peço. Quero dizer-lhes algo... que me parece sumamente importante. Assim, obrigado. Senhores, quero fazer-lhes uma revelação... Quero compartilhar a enorme alegria da minha descoberta, com vocês, meus amigos!...( o sr. Robledo balbuciava ). O  Segredo... o segredo!&lt;br /&gt;              Fez-se um profundo silêncio. Desconcertado, o sr, Robledo hesitou mais um pouco, todos os olhos pousados nele, mas subitamente, num gesto rápido, agarrou pelo braço e arrancou ao varal o violino mais próximo de sua cabeça e com um golpe seco, espatifou-o contra a quina da mesa. &lt;br /&gt;            Diante da estupefação dos presentes, abriu o tampo e com dois dedos, pinçou um pequeno pino de madeira, uma espécie de suporte ou espinho, no ventre do instrumento e mostrando-o à malta, anunciou: &lt;br /&gt;          — Eis o Segredo, senhores. Eu descobri! Eu descobri! O segredo do maravilhoso som do Stradivarius! Senhores, está aqui, isto se chama Alma! Compreendem? Estão vendo? Tudo está aqui! Vejam!&lt;br /&gt;               Nesse momento, passada a surpresa, os convidados levantaram-se e agarraram os violinos que pendiam acima de suas cabeças, o varal despencou, os instrumentos foram disputados, estraçalhados, desmembrados. O anão subiu à mesa, e munido da tesoura de destrinchar, pôs-se a abrir os tampos, metendo as pontas pelas frisas. Volutas eram arrancadas e brandidas como coxinhas, enquanto o Zé galinha arrancava cravelhas e fingia palitar os dentes com elas. Dona Magda trinava a ária Libiamo! Libiamo!, da La Traviata, enquanto o poeta Aragipe com o dedinho enroscado num pesinho de cavalete, disputava com o senhor aposentado a sorte no rompimento do ossinho. E uivos, cacarejos, gargalhadas, enquanto cordas eram tangidas como nervos retesados, tampos eram destrinchados, volutas enfiadas nos molhos e lambidas em meio a gritos de: “Está na alma! O segredo está na alma! Passe o frango! Hi, hi,hi! Quá! Quá! Quá!  &lt;br /&gt;              O  sr. Robledo, recoberto pelos pinos que lhe atiravam, coberto de molho como sangue, subitamente revira os olhos e estende a mão para mim, horrorisada que estou, e paralisada a um canto da sala. Parecendo querer agarrar-se às lágrimas que divisou nos meus olhos, subitamente tem uma apoplexia, os olhos esbugalhados, e desfalece, derrubando a cadeira para trás e rolando aos pés da mesa.&lt;br /&gt;             O  banquete acaba aqui. Também não vi mais nada. Não tenho mais detalhes dos acontecimentos depois disso. Tudo se desvanece...&lt;br /&gt;                         &lt;br /&gt;                                                  FIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         &lt;br /&gt;01/10/2002&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Stradivarius no Sótão (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um vizinho no bairro de Pinheiros&lt;br /&gt;A quem deu a mania de comprar&lt;br /&gt;Violinos e rabecas sem parar&lt;br /&gt;Que lhe levavam falsos companheiros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um carteado fútil, sem sentido,&lt;br /&gt;Vilipendiado em sua inocência&lt;br /&gt;Em seu lar doce lar mais que invadido,&lt;br /&gt;Já estava à beira da demência...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me convidando especialmente &lt;br /&gt;Com a presença dos falsários&lt;br /&gt;No meio de um jantar beneficente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Destrincharam violinos como frangos &lt;br /&gt;E até o seu falso Stradivarius,&lt;br /&gt;A pinçar-me-lhes a alma ao som de tangos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Este soneto inédito que acabo de descobrir na Arca da Alma, sintetisa de maneira prodigiosa o conto inteiro entitulado Stradivarius no Sótão, dos Contos da Alma, de Alma Welt, livro publicado em 2004 (o qual ainda se encontra à venda), com contos que correspondem ao período em que Alma morou em São Paulo nos Jardins, e em Pinheiros, para onde mudou seu ateliê para uma casa, para ampliá-lo. (Lucia Welt)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-3750285718654672805?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/3750285718654672805/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=3750285718654672805' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/3750285718654672805'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/3750285718654672805'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/11/stradivarius-no-sto-conto-de-alma-welt.html' title='Stradivarius  no sótão ( conto de Alma Welt )'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-3261446041950737266</id><published>2008-06-22T14:17:00.000-07:00</published><updated>2008-06-22T14:24:05.727-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SF7B7RZD3tI/AAAAAAAABFk/k7nyTFc4D-I/s1600-h/Untitled-1b.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SF7B7RZD3tI/AAAAAAAABFk/k7nyTFc4D-I/s320/Untitled-1b.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5214818642566569682" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Alma e Aline- Esta pintura de 100x100cm, óleo s/ tela de autoria de Guilherme de Faria está exposta e à venda na Exposição temática coletiva NUS, na Jo Slaviero &amp; Guedes Galeria, na rua Gabriel Monteiro da Silva 2074, Jd. Paulistano, SP Tel 3061 9856, até dia 28 de junho de 2008.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-3261446041950737266?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/3261446041950737266/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=3261446041950737266' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/3261446041950737266'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/3261446041950737266'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/06/blog-post.html' title=''/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SF7B7RZD3tI/AAAAAAAABFk/k7nyTFc4D-I/s72-c/Untitled-1b.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-6936012060152970304</id><published>2008-05-17T09:23:00.000-07:00</published><updated>2008-06-22T14:21:13.632-07:00</updated><title type='text'>Aline   (de Alma Welt)</title><content type='html'>Do livro publicado CONTOS DA ALMA, de Alma Welt&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Sinto-me solitária. Não estou agüentando, preciso fazer alguma coisa a respeito... Estou começando a parecer uma solteirona inconformada.&lt;br /&gt;                      Tento localizar Rodo, meu irmão caçula, que amo tanto. Penso em convidá-lo a morar comigo, apesar dos problemas que isso pode me acarretar. Mas não consigo localizá-lo. Está praticamente desaparecido. Conversando com minha irmã mais velha sobre isso, nada consegui saber sobre o seu paradeiro, e só obtive um sermão chatíssimo sobre o desperdício da minha vida (do seu ponto de vista), de que deveria procurar um marido que cuidasse de mim, enquanto é tempo, enquanto ainda  sou jovem  e bonita, porque depois...blá, blá, blá...Etc.etc.&lt;br /&gt;                     Bato o telefone e ponho-me praticamente a gritar. Olho-me no espelho, o rosto riscado de lágrimas, congestionado. Assim, vou me acabar. &lt;br /&gt;                    Tomo, afinal, uma decisão. Ligo para uma agência de modelos, famosa, que encontro na lista amarela. Falo com a atendente, e apresento-me como a artista plástica Alma Welt. Ela parece saber quem sou. Digo-lhe que preciso de uma modelo de ateliê, que seja linda, nada menos que isso, e que aceite se despir como “modelo vivo”, para uma pintora famosa, que sou eu. A funcionária achou muito natural, e consultou seu cadastro de modelos. Perguntou-me se não quero um rapaz, também. Eles os têm belíssimos e com boas referências. Digo que não, que prefiro uma modelo para nu artístico feminino. Ela percorre as fichas, e parece puxar uma, pela fotografia. Diz: “Tenho uma aqui que faz esse tipo de trabalho. Chama-se Aline.” Pergunto-lhe “Ela é bela?” Ela responde: “ Muito. É morena clara, de cabelos cacheados e olhos azuis. Uma beleza, e o corpo, então, perfeito.” Digo-lhe que me mande essa modelo. Ela me pede todos os meus dados, e o número do meu cartão de crédito. Diz-me o preço da hora dessa modelo, as condições, e tudo mais. Diz-me que me mandará um contrato para eu assinar. Concordo com o preço, com tudo. Quando afinal desligo, sinto-me aliviada. &lt;br /&gt;                   Deito-me no meu sumiê, no espaço cercado pelas minhas telas. Ajeito um grande espelho antigo, de modista, que tenho para auto-retratos. Desnudo-me, e volto a deitar-me em pose de odalisca de Ingres. Sempre fui um tanto voyeuse de mim mesma. O que me resta, afinal? Preciso apreciar a minha beleza, enquanto ela existe, já que ela é tão elogiada pelas pessoas. Isso me deixa um tanto erotizada, e começo a exibir-me em todos os ângulos, alguns até mesmo um tanto pornográficos. Mas logo me canso da brincadeira, e caio de bruços, com a cara na almofada, soluçando. Adormeço ali mesmo, nua e descoberta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;         &lt;br /&gt;          Na manhã seguinte, perto das 10 horas, toca o telefone. É Aline, a modelo. Notei-lhe a bela voz, doce, ao mesmo tempo direta e prática. Gostei do que ouvi. Ela combina vir ao meu ateliê às três da tarde, para começar as poses. Ao desligar, ponho-me a rodopiar pelo estúdio, como uma louca,  apaixonada. Eu sou assim. Já estou predisposta a amar. Não quero saber se dará certo, se serei correspondida. Isso de amar, é antes de tudo uma questão de querer, de entregar-se, de predispor-se. Ainda penso assim. Somente sei, que, depois de disparado o processo, perdemos o controle. Ah! Como eu haveria de comprovar isso!...    &lt;br /&gt;                   &lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;                 &lt;br /&gt;               Toca o interfone. O seu Ermírio anuncia Aline. Abro a porta do apartamento e deixo-a escancarada. Assim, ela sairá do elevador e eu a estarei esperando (como se estivesse de braços abertos). Aliás, os abro rapidamente, fechando-os pouco antes da porta do elevador abrir-se. A moça olha-me surpresa, enquanto abro o meu mais receptivo sorriso. Ela é bela, meu Deus! Mais do que eu imaginava. &lt;br /&gt;                   Aline estende-me a mão, comprida, perfeita, como a minha. Eu reparo em tudo. Seguro-lhe a mão e não a solto, para conduzi-la para dentro do apartamento. Ela olha, curiosa, para mim, e logo lança os olhos ao redor. Desprende sua mão da minha e rodopia um pouco de braços abertos, com um lindo sorriso. E diz, parando e cruzando as pernas, de pé, graciosamente:&lt;br /&gt;                –Alma Welt, a pintora...Que lindo tudo aqui, a começar por você !&lt;br /&gt;                  Adorei ela dizer isso, meu coração disparou mais ainda. Eu pensei:&lt;br /&gt;“Ela já foi fisgada. Ou, pelo menos começou bem...”&lt;br /&gt;               –Obrigada, Aline, tu também és linda, e ...acho que vamos nos dar bem. Tu queres alguma coisa antes de começar-mos a trabalhar? Um café, por exemplo, ou um suco? &lt;br /&gt;              –Não, Alma, obrigada. Pode preparar seu material. Começamos assim que você quiser.&lt;br /&gt;               Coloquei uma grande tela quadrada, no cavalete. Não pintarei nenhuma “odalisca” na horizontal. Vou enquadrá-la numa composição contemporânea, que não sei ainda como será. Mas ela estará de pé, ou acocorada. Talvez no ato de despir-se. &lt;br /&gt;                Aline começa a tirar a roupa, muito simples: a camiseta sobre os seios que despontam, sem sutiã. Que belos! Senta-se no chão e tira o tênis, depois a calça jeans. Fica um instante de calcinha e olha em torno onde botar a roupa. Coloca-as sobre um banco, ergue os olhos, fita-me e abaixa a calcinha. Tira-a com infinita graça. Percebo que ela se esmera na graciosidade dos gestos. Isto é um bom sinal. De sua elegância natural, que eu já notara à sua entrada, ou de uma intenção inconsciente de sedução: melhor ainda...&lt;br /&gt;                 Fica então imóvel, os braços caídos, esperando. Aproximo-me e toco seus braços. Ergo-lhe um e deixo-o em determinada posição, depois o outro. Em seguida ponho minhas mãos em seu rosto e viro-o suavemente para um lado. Noto que ela é uma profissional: tem prática. Fica imóvel, congelada, exatamente na posição em que a deixo. Afasto-me e olho-a inteira. Como é bela! Que corpo! Morena clara, formas suaves, esguias. Pernas longas e bem torneadas. Que pés! Que mãos! E o seu púbis! A maravilhosa curva suave do seu ventre encontrando um montículo de pelos que deixam descobertos a vulva perfeita, como uma concha rosada, nada para fora, como uma adolescente. Uma promessa de prazer. Sacudo a cabeça como para espantar um pensamento, e ela com o rabo dos olhos parece perceber esse meu gesto. Capto uma curva quase imperceptível nos cantos dos seus lábios. Ela está sorrindo por dentro. Safadinha! Ela sabe... ou ela quer provocar-me. Começo a manuseá-la profissionalmente, mas com muita delicadeza. Observo seus seios, seu peito que começa a ofegar. Isso ela não saberá disfarçar... Seu coração, sua respiração a trairá. Ela está excitada. Ou, de alguma forma, emocionada. Afasto-me, olho-a com atenção profissional, mas sempre com um laivo de doçura, que ela captará. Viro-me e vou procurar um CD. Fico de costas para ela por alguns segundos, escolhendo entre a pilha, e ao mesmo tempo saboreando o seu olhar pelas minhas costas, que adivinho. Que sinto, na verdade. Demoro-me quase um minuto antes de voltar-me subitamente para ela, a tempo de pegar os seus olhos voltados para mim, que então, quase assustados, se desviam! Essa garota é adorável. Fui maravilhosamente sorteada. Ela será o meu amor. Eu me prometo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................      &lt;br /&gt;            &lt;br /&gt;                  Continuo pintando desde cedinho, todos os dias. Mas enquanto Aline não chega, percebo que o meu trabalho tem o timbre da espera. Quando ela entra, ainda pela manhã, meu dia realmente começa. A vida começa... Caí na minha própria armadilha. Passo muito tempo esperando-a. Ela chega e me ilumina. Não terei então luz própria? Suspeito que não. Essa é a qualidade do amor... iluminar-se do amado. Preciso de Aline. Necessito Aline. Meu amor. Meu amor...Como é belo o seu nome, Aline, como é perfeito o seu som. Olho seus olhos, sua testa, seu narizinho, sua boca carnuda na medida certa. Seus cachos... como é bela, meu Deus! Queria engoli-la . Queria-a dentro de mim, para sempre. Mas ela... está fora de mim. Ela é um pouco rebelde. Ela se irrita, às vezes. Ela é brusca, em certos momentos. Ela percebe que eu a desejo... que eu a quero. Vai começar a tiranizar-me. Ai, meu Deus... Vou sofrer. Ela vai fazer-me  sofrer. Ela já o faz... Ela joga charme. Ela se exibe ao posar. Ela se excita ao ver como a olho, como a desejo. Em certos momentos enquanto posa, percebo um ligeiro brilho na portinha de sua vulva, que ela não pode  esconder. Ela fica molhada. Ela se trai. Ah! querida, tu já estás caindo na minha teia... ou eu na tua, não sei mais. &lt;br /&gt;                   E os seus seios, meu Deus! Apontados para a frente, perfeitos, brotam na horizontal como se estivessem na vertical, como uma menina. Ainda não sentiram o peso da gravidade. Seu corpo é uma obra de arte, como o meu também é, essa é que é a verdade. Pintá-los é tão somente registrá-los, conservá-los assim para sempre. É um dever que sinto. Não, não seja hipócrita, Alma. É teu prazer, é tua luxúria. O gozo do espelho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.............................................................          &lt;br /&gt;             &lt;br /&gt; Aline dorme ao meu lado nua, neste verão escaldante. Fico horas a olhá-la, a degustar a sua imagem, com as minhas retinas de “expert”. Não! Com o meu olhar amoroso, isto sim. Quantas vezes ponho-me a beijar cada centímetro de sua pele, e também de algumas mucosas mais acessíveis. Oh! Meu Deus, meu Deus. Estou ficando louca de amor. E de paixão. Já começo a sofrer por antecipação. Sofro de tanto amá-la, de tanto desejá-la. Serei eu uma doente? Carente? Não sei mais. Nada me faltou na infância. Fui tão amada... Mas, e minha mãe? Talvez esteja aí a razão dessa minha febre amorosa. Minha mãe não me amava do jeito que eu queria, pois não aceitava plenamente meu jeito de ser. Ela não me queria artista. Isso a assustava. Ela tinha medo disso: da artista. Ela não compreendia o meu  excessivo amor pela beleza. Ela não aceitava ver-me chorar pelo belo, pela poesia. E muito menos pela alegria. Para ela isso era uma espécie de aberração... Uma heresia... no seu acinzentado mundo interior, cristão, igrejeiro.  Ela tinha gerado uma pequena rebelde, pagã, dionisíaca, germânica por um lado, lusa nostálgica pelo outro; ambos os lados temidos e rejeitados por ela.  &lt;br /&gt;                  Ah! Como ela quis, sutilmente ou não, reprimir-me! O que foi pior: tentar reprimir-me com sutileza. Como me magoava, às vezes! Como me decepcionava, desapontava, ou me fazia envergonhar-me após um momento de euforia...&lt;br /&gt;                  Mas, também ela me amava...à sua maneira. Um dia abraçou-me, dizendo: “Alma, Alma, o quanto vais sofrer, minha filha. O mundo não é belo com tu pensas. Estamos no vale de lágrimas, tu pareces não saber, minha filha. Mas tu verás. Tu perceberás que viemos a este mundo para sofrer pelos nossos pecados. Alma, Alma... A vida não é prazer, a vida não é uma festa, minha filha.”&lt;br /&gt;                   Ah! Mamãe, tu nunca pudeste me convencer disso. Não, ainda não acredito em ti. Tenho pena de ti, mamãe. Tu não soubeste viver. Não soubeste amar, rir e gozar plenamente. Tu acreditaste num velho catecismo. Os padres...eles te enganaram, ou foram teus pais, meus avós portugueses, que o fizeram. Mamãe, mamãe, eu sinto tanto por ti! Talvez fosses muito infeliz com o Vati. Eu nunca soube direito, mas, talvez, ele não fosse o teu verdadeiro amor. Isso explicaria tudo. Essa tua amargura, esse teu estoicismo espartano, essa austeridade na casa compartilhada com Dioniso, o grande bode luxurioso que era o Vati. Só isso explicaria tanta contradição...&lt;br /&gt;                   Quanto a mim, tomei o partido da alegria vital, e do prazer, representado por meu pai. Sinto muito, Mutti, nunca estive do teu lado. Talvez devesse ter ido mais fundo, para te compreender  melhor. Mas agora é tarde, não te beijei o rosto em tua agonia, e não derramei muitas lágrimas ao pé do teu caixão, como o fiz, mais tarde, diante do caixão do velho. Eu sinto muito...    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.............................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             Desperto mais uma manhã ao lado de Aline. Espreguiçamo-nos como duas gatas preguiçosas, mas logo quero tocá-la, acariciá-la um pouco. Preciso certificar-me de que ela é real, e não um produto materializado da minha fantasia. Então, beijo-a e logo me levanto para preparar o café da manhã para nós. Quero sempre trazer-lhe o café na cama. Quero servi-la. Ela se admira um pouco disso, pois estava preparada para ser somente uma modelo, e portanto, de algum modo servir-me em troca de um salário, ou cachê. Mas não, ela  ainda não sabe o quanto vou amá-la. O quanto, portanto já a amo. Preciso tomar cuidado para não assustá-la com a voracidade da minha paixão. Aline é ligeiramente arisca, não muito. Tive sorte. Se ela não se rebelou, e não rejeitou as minhas carícias logo de saída.... a coisa está bem encaminhada. Como é bela! E como é graciosa!  Ai! meu Deus, preciso controlar-me para não desenvolver ciúmes dessa garota em relação àquele seu namorado, o tal de Pedro. Mas... precisamos traí-lo. Sim, nós mulheres temos esse direito. Não sei porquê, mas algo me diz que é o que nós mulheres deveríamos sempre fazer. Isso representaria uma certa rebelião em relação à nossa subserviência ancestral aos homens. Porquê não? Oh! meu Deus, tudo isso são justificativas. O que me impulsiona é o meu desejo. Somente isso. Sou uma faminta...&lt;br /&gt;                   Por outro lado, meu desejo reveste-se das tintas do verdadeiro amor. Sim, eu tenho tanto amor para dar!. Preciso derramá-lo ou ele me consumirá. Esta moça, esta mulher, é como eu, mas pode ser mais que um espelho. Terei todo cuidado para diferenciá-la do meu reflexo. Ela merece toda a atenção. Ela é delicada, feminina como poucas. Por isso escolheu essa profissão. Ela sabe,  adora ser olhada, devorada mesmo com os olhos. Não, isso não é apenas profissional. Tem a ver com a sua libido, sua pulsão exibicionista. Quer dizer, o seu desejo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.........................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  Aline já está enredada na minha teia. Percebo que já a seduzi completamente. Ela revela uma disposição voluptuosa em dar-se, em ser amada, admirada, acarinhada sensualmente. Quando demoro em tocá-la ela se aproxima, como uma gata, ronronante, e toca seu rosto, começando por sua testa, em qualquer parte do meu corpo, arbitrariamente, de maneira insólita. Se estou muito ocupada, tira por exemplo a paleta das minha mão e pegando-a nas suas, passa-as no seu rosto, nos seu cabelos, com um olhar lânguido, irresistível. Então, largo os pincéis, largo tudo e a abraço, conduzindo-a numa dança exótica, meio tango, meio pas-de-deux, ao nosso leito. Fico então a beijá-la, a lambê-la dos pés à cabeça, por horas. Depois detenho-me sobre o seu púbis, ralo, cuja penugem negra, macia, tem um cheiro peculiar, um perfume adorável, e banho-a com a minha língua, demoradamente. Titilando o seu clitóris, que desponta com uma cabecinha, de um pênis minúsculo, mas túrgido em toda a sua possibilidade. Fico enternecida com esse pequeno membro que quer mostrar-se potente, pobrezinho, e medito por um segundo na sua natureza ancestral, do tempo em que éramos unos, homem e mulher. Lembro-me que sempre me espantei com os mamilos dos homens e reparava, ainda na infância, como eles se tornavam tesos, nos peões sem camisa, quando lidavam com as rêses. Eles nunca me enganaram. Quanto aos seus grandes membros, sim, eu reparava neles, bem disfarçados sob as folgadas bombachas. Bem que eles me chamavam “chinoquinha”, entre eles, eu ouvi, algumas vezes. Talvez percebessem a minha atenção, a minha sensualidade que aflorara tão cedo.  Não foi à toa que ocorreu aquele incidente com meu irmãozinho Rodo. Não contarei por hora, esse segredo... da minha infância. Quero concentrar-me em Aline, minha doce Aline, que agora dança o mais belo balé do mundo em minhas mãos. Como nos amamos! Sim, porque ela me ama, eu percebo. E não mais conseguimos disfarçar em público, agarradas, abraçadas. De mãos dadas a todo minuto. Por outro lado, percebo uma certa condescendência nos estranhos, somente talvez porque somos jovens e belas. Não ousariam chamar-nos por aqueles nomes pejorativos, que não repetirei, frutos da vulgaridade das mentes banais.&lt;br /&gt;                   Sim, o que sempre me chocou foi a vulgaridade do homem comum. Prometi a mim mesma, nunca mencioná-lo, nunca sequer descrever o homem vulgar, nos meus escritos, nos meus poemas. Ele não entra em linha de conta. É como se não existisse. A minha vingança, sutil, é omiti-lo completamente. “Você vive numa torre de marfim”... dirão alguns. Não, a vida somente é verdadeira em seus termos ideais, e o mito a perpassa cotidianamente, sem que esse homem comum sequer o perceba. Como poeta sempre vivi em sintonia com o mito, percebendo a alegoria riquíssima dos acontecimentos aparentemente simples da minha vida, nada banais, pois que na minha vida o banal não existe, já que o desvelo, ao seu sentido mais profundo, em cima mesmo do momento. Tenho pena das pessoas que não sabem ler as entrelinhas de suas vidas, o significado oculto de tudo que lhes acontece, sem perceberem que a vida é muito mais rica para todos, e o herói e a heroína estão dentro de nós, assim como todas as grandes aventuras, até mesmo as epopéias.     &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             Aline revelou-me hoje, que continua seu namoro com Pedro, o que não chegou a  me surpreender. Eu já previa isso. Eles tem se encontrado em dias alternados entre os dela comigo. Na verdade, houve dias em que esteve com ele... e comigo em seguida. Ela confessou-me que isso a erotisa duplamente. Deixar-se manipular por mim, após ter sido possuída por Pedro, menos de uma hora antes... Bem que eu percebia o cheiro e os resquícios do macho. Mas, eu também me erotisava com isso. Agora ela se abre e conta tudo. Ela costuma descrever para ele o seu idílio comigo e nossas ardentes tardes ou noites. Ele se excita e exige dela detalhes, de preferência obcenos. Está participando à distância, de uma espécie de ménage-a-trois imaginária. Agora quer me conhecer pessoalmente, já que faço parte, sem querer, de suas fantasias. Quer que nos encontremos, os três, num barzinho, que escolheu, para conhecer-me. Garante, disse ela, que não será invasivo, e que me respeitará. Manda dizer que me admira como artista e que tem imensa curiosidade em conhecer-me, pelo que Aline tem revelado, e pela felicidade crescente dela, que não lhe passou despercebida, e sobretudo não os afastou, e sim uniu-os ainda mais. Assim, dissera ele.&lt;br /&gt;                      Aceito, intrigada. Como será esse Pedro? Aline mal o mencionava, essa é que é a verdade. E essa discrição de sua parte, em relação a ele, faz-me supor uma enorme cumplicidade entre eles. Como não pensei nisso antes? Bem, vamos lá. Aceito o encontro, e ainda pego-me arrumando-me e enfeitando-me com esmero, para esse evento.     &lt;br /&gt;                      No dia e hora combinados, encaminho-me para o tal barzinho, e ali encontro-os já instalados numa mesa, de mãos dadas. Ruborizo imediatamente contra minha vontade, ao vê-los assim. Pedro levanta-se e puxa gentilmente a cadeira para mim. Reparo que é um belo homem de seus trinta e poucos anos, de cabelos  pretos anelados e barba espessa, curta, cerrada. Um rosto, assim... de fotógrafo. Ou de voyeur ? Esse pensamento arrepiou-me. Senti-me imediatamente observada, medida, eu diria mesmo devassada pelo seu olhar observador. Ele sabia tanto de minha intimidade, pelos relatos de Aline, desde o seu primeiro dia de pose, das impressões de Aline sobre a minha pessoa, naquele primeiro encontro, do qual ela fizera para ele um relato completo que o intrigara, que isso me deixava agora, ali, terrivelmente exposta.  Sua imaginação já percorrera o meu corpo todo, e agora, ele ali, naquela mesa conferia-me sob as minhas roupas, eu percebia. Sentia-me nua, e instintivamente apertava meus braços contra os meus seios, os cotovelos sobre a mesa e as mãos tocando o meu longo pescoço. Que bobagem! Sou uma adulta, preciso me lembrar disso, e não um adolescente. Ele, o macho, não me intimidará. Eu sei como eles são, os homens... Ah! Aline, porque você fez isso com a gente? Porque aceitei, também, esse encontro, que me coloca numa situação tão vulnerável? Esse rapaz já conhece tanto sobre mim, e eu quase nada sobre ele. Que sei eu do seu caráter? É verdade que seu aspecto não me desagradou, muito menos o seu olhar, em que vislumbrei uma certa doçura, e muita inteligência. Mas...o que quererá ele?&lt;br /&gt;                     Após a apresentação e as  primeiras palavras de conversação gratuita, canhestra a princípio, Pedro começou logo o seu jogo. Um jogo de provocações, na verdade. Perguntou-me pelo meu namorado, ou marido, e ouviu a revelação da minha viuvez precoce. “Ah!” exclamou ele. “E depois?’- “Depois o quê?” repliquei eu. “Não houve outros homens?” “Ah! sim, houve, alguns”, eu respondi com um ar casual.&lt;br /&gt;                       Pedro pediu bebidas. Parecia acreditar que o álcool o ajudaria a arrancar-me a verdade que procura Mas, o que procura? Ele é esperto. Faz pausas desinteressadas para disfarçar o caráter de interrogatório que essa conversa pode tomar. Logo mudou o jogo, e começou a exercitar o seu charme, tornando-se galante comigo, ao mesmo tempo que intensificava as carícias em Aline. Percebo o seu jogo. Ele quer excitar-me, ou provocar o meu ciúme. Sim, ele tem a fantasia tão comum nos homens, da ménage-a-trois, e já percebo o seu desejo sobre mim. Ele me achou bonita, claro, e gostaria de ver-me na sua cama, juntamente com Aline. Nós mulheres somos alimento, somos iguarias para o homem. Essa é que é a verdade. Como disse André Breton: “A mulher é o alimento corporal mais elevado”. Sim, é preciso aceitar isso, até mesmo com orgulho. E com volúpia. Aquela situação começava real mente a instigar-me. E eu não rejeitaria a idéia dessa relação a três, se de repente, Pedro não começasse a revelar o seu machismo, e a afirmar sua posse sobre Aline. Começou a agir assim, logo que percebeu que eu era uma mulher inteligente, talvez mais inteligente que ele. Ah! Isso ele não podia suportar...&lt;br /&gt;                  Estabeleceu-se afinal uma situação de antagonismo. Pedro, percebendo que eu não seria manipulável, uma mulher-objeto, e que meu amor por Aline tinha ultrapassado o ponto aceitável (para ele), isto é, era perigoso por ser muito mais que simples desejo, passei a ser uma espécie de ameaça realmente, a rival que ele, no início, não temera. A guerra estava declarada.&lt;br /&gt;                   Levantei-me na primeira oportunidade, antes que começassem as hostilidades. Suas últimas palavras, contudo, ressoariam mais tarde,  dolorosamente, em meu espírito: “ Alma, você precisa de um homem que a dome, ou você perderá logo logo a sua beleza.” &lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Aline encontra-me no ateliê, algumas horas depois. Está estranha, olha-me meio de esguelha. Quer saber se estou magoada, se Pedro machucou-me muito com suas agressões veladas. Está em cima do muro. Não quer perder-me, nem a ele também. Agarro-a subitamente e prenso-a contra a parede, num gesto decidido, mas nem por isso viril. Beijo-a ardentemente, e agarro-lhe os seios com força. Ela geme, assustada. Eu grito-lhe:&lt;br /&gt;                   -“Tu também pensas, Aline, que eu sou menos mulher porque te desejo? Não vês que eu te desejo assim, porque te amo? Quem é aquele homem, para me julgar? Que sabe ele do meu amor, do nosso amor? Ai! Aline, eu sofro. Eu sofro de te amar tanto assim...e nada poder. Não poder ser completa para ti. De ter que dividir-te com aquele idiota. Ah! Quase fiz o seu jogo!... e pensar que acreditei, por momentos, que poderia dividir-te com ele... na mesma cama!. Não, não é possível. Quero-te inteira, Aline, e ouso pedir-te agora que o deixe. Venha, venha, Aline, vamos para o nosso leito. Eu te possuirei, de algum modo! Eu te possuirei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;..................................................................&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                Ai, Rodo, como me lembro de ti. Nestes dias de depressão, transporto-me em espírito para a nossa estância, para o nosso pomar. Ali, sob aquela macieira onde fomos flagrados, nuzinhos, tão crianças. Eu tinha a mão sobre o teu pequeno membro... teu pintinho, como dizíamos. E a tua mão sobre a minha conchinha, eu a sinto ainda hoje. Se tivéssemos tido tempo, consumaríamos o nosso maravilhoso pequeno incesto. Teria sido uma solução? Às vezes penso que sim. Eu não me sentiria para sempre assim carente, incompleta. Eu não amaria assim mulheres, tanto quanto a homens, e minha vida seria, talvez, mais fácil. A minha vida amorosa, pelo menos.&lt;br /&gt;                Bem, não posso me queixar. O Vati defendeu-nos, filosoficamente, e com o seu maravilhoso senso de humor  minimizou os danos. Neutralizou o drama que a Mutti fez do caso, depois de traumatizar-nos tanto com aquele flagrante humilhante. Nunca esquecerei que fomos arrastados pela mão, os dois, peladinhos e chorando, obrigados a cobrirmo-nos com a outra mão, pequenos Adão e Eva, expulsos do paraíso, afastados da nossa macieira querida, que ostentava o nosso coração e iniciais ingenuamente gravados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;..............................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  Aline  está dividida. Perdeu sua espontaneidade comigo. Parece sentir-se culpada agora, na nossa relação. O Pedro conseguiu envenenar o seu espírito. È o seu recurso, sua arma desleal, para arrastá-la para si. Eu sei: “no amor e na guerra, vale tudo”, diziam os antigos. Mas, ai, não posso lutar com armas assim. Vou perder-te, Aline. Estou te vendo escorrer entre os meus dedos, e sinto o vazio instalar-se no meu peito. &lt;br /&gt;                   E o meu amor? Ele não deveria bastar-me? Ah! Não, isso não existe. É ideal demais. Quero-te inteira, Aline, quero teu corpo, tua beleza, tuas carícias. Teu cheiro Aline, teu perfume! Vou morrer à mingua, meu corpo sofre, como a minha alma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;..................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  Enfeito o ateliê com flores. Aline vem encontrar-me. Sei que vai despedir-se. Ela chorou muito ao telefone. Diz que precisa ver-me uma vez mais. Eu sei que me ama, e a espero com as flores que o meu amor merece.&lt;br /&gt;                   Ao tocar a sineta, abro imediatamente a porta e ela cai-me nos braços, aos prantos. Agarramo-nos desesperadamente, como se mãos invisíveis tentassem nos separar. Nossos beijos são ávidos, nossas línguas se enroscam, nossas lágrimas se misturam. Jogamo-nos no chão, arrancando nossas roupas, no centro do ateliê, em meio às telas, num ardoroso sessenta e nove. Queremos entrar uma dentro da outra. Ah! Porquê querem nos separar?&lt;br /&gt;Não deixaremos. Não deixaremos! Entraremos uma na outra. Seremos uma só! Ai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    Estou no fundo, em meio às trevas. Meu corpo está pesado como meu espírito. Movo-me lentamente nas sombras, no subterrâneo da alma.&lt;br /&gt;                    Volto à estância, em pleno inverno dentro de mim. Aqui sopra o minuano frio que corre no Pampa, com a minha chegada. Sinto que trago o pampeiro comigo. Ele me segue. Arrasto-me em meio às brumas, entre as árvores do meu pomar. Procuro a minha macieira. Preciso chorar, meu rosto colado ao seu tronco, sentindo com meus dedos a cicatriz do coração com os as nossas iniciais gravadas. Rodo e Alma.&lt;br /&gt;                     Nosso casarão está deserto, a sala vazia, o piano mudo. Perambulo à noite pela nossa biblioteca, olhando as lombadas das obras outrora  tão queridas. Um instinto me faz erguer a mão em direção a um grande tomo, e puxá-lo, pesadíssimo: “AS AVENTURAS DO BARÃO DE MÜNCHAUSEN”, ilustrado por Doré, e abri-lo a esmo, justamente numa página ilustrada: o barão, alçado no ar, de um poço de areia movediça, com seu cavalo abarcado pelas suas pernas, pela força do seu braço que o puxa pelo rabicho de sua nuca. Ó visão inspiradora! Ó emulação salvadora! Sinto que vou puxar-me igualmente pelo cabelos, também para cima, para cima!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;............................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  Volto a São Paulo, ao meu ateliê nos Jardins, ainda muito lenta, como em começo de convalescença. Ao entrar, a visão dos meus quadros, das muitas telas, prontas ou inacabadas, me consola. Como amo este ateliê! Este pequeno universo que construí sozinha (se é que isso é possível). Na verdade, ele é fruto da minha bagagem de infância, de sonhos, e de meu ideal de arte e beleza, herdados do Vati, sonhador como eu, mas que tinha, talvez, os pés mais firmes no chão da nossa estância. Ah! Vati, tu voavas era na música, ao teu piano que dedilhavas tão bem! Ainda ouço as sonatas, Vati, e os prelúdios, mas não mais as sinfonias cuja marcialidade agora me repugnam....&lt;br /&gt;                    Torno a colocar os meus CDs preferidos no aparelho, escolhendo primeiramente o Trio em mi bemol maior, Opus 100, de Schubert. Ouvindo novamente essa obra-prima, começo a compreender algo inexprimível dentro de mim mesma, algo que atribui sentido à minha paixão perdida, e me reconcilia comigo mesma, nesta espécie de fracasso que senti em minha vida, com essa experiência à primeira vista desastrosa. Sei que vou desfiar em seguida uma série de obras musicais queridas, chegando afinal àquela “Ária da Campainha”, da Lakmé de Léo Delibes, que produz em mim uma estranha identificação com a estória da pequena jovem pária da Índia, que atravessa a floresta fazendo soar o seu sininho. Esta ária cantada pela personagem Lakmé, na interpretação superlativa da soprano chinesa Ondine Diu Ber, me deixa como que purificada, limpa espiritualmente, talvez pela pura ação da beleza, em meu espírito. Somente a grande música é capaz de agir assim, despojando-nos de nossas paixões talvez supérfluas, pela ação catártica daquelas já sublimadas pela Arte. Para finalizar coloco no aparelho uma versão para piano e grande orquestra sinfônica, do Feitiço da Vila, de Noel Rosa. Isso acaba de me fazer querer viver novamente, sorrir, desabrochar... Pressinto que, em menos de um mês, na certa, voltarei a amar .            &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;..................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Lanço um quadro novo, uma imensa tela cuja superfície imaculadamente branca me sugeriu uma espécie de virgindade selvagem, se posso assim dizer. Estou novamente lançada à  uma aventura que nunca me decepcionou. Tudo é possível no espaço ideal de uma tela, onde o espírito se funde com o acaso para permitir todos os vôos. Neste estado de exaltação, altamente prazerosa, passo a achar tudo o mais, fútil, menor, mesmo as minhas mais dolorosas e recentes paixões. Mas... não renego nada. Posso amar Aline agora já sem dor. Posso amar tudo e todos, bastando que me mantenha fiel à minha arte, nunca a renegue ou me afaste perigosamente dela, ou de mim mesma como o fiz. Reconcilio-me com o imenso privilégio de ser artista, esse ser caro aos deuses, a ponto deles, amiúde o atormentarem, para testarem seu amor... e sua coragem. Sim, coragem é a suprema virtude exigida do artista, para criar e para viver, eu sei. E ai daqueles que cospem e blasfemam sobre o dom supremo de criar, espelho da divindade. Esses sim, não escapam ao seu próprio Hades interior. Esse é o segredo da vida, e da Alegria, nessa nossa passagem... Mas, chega de filosofar. Quero viver, viver, amar e gozar novamente, usufruindo os dons com que fui cumulada .Ah! alegria criadora, volto para ti!  &lt;br /&gt;                  Após algumas bravas pinceladas, sou obrigada a interromper o trabalho: o interfone toca insistentemente.          &lt;br /&gt;                             &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                      FIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;04/06/2004&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-6936012060152970304?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/6936012060152970304/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=6936012060152970304' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6936012060152970304'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6936012060152970304'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/05/aline-de-alma-welt.html' title='Aline   (de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-6573606130148668033</id><published>2008-05-01T09:55:00.000-07:00</published><updated>2008-05-01T10:00:57.105-07:00</updated><title type='text'>Memória de meu pai morto</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SBn228pgB0I/AAAAAAAABC0/oBf3DNDwOyE/s1600-h/AAA+Crep%C3%BAsculo.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SBn228pgB0I/AAAAAAAABC0/oBf3DNDwOyE/s320/AAA+Crep%C3%BAsculo.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5195455069002139458" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Crepúsculo- óleo s/ tela de 30x40cm, de Guilherme de Faria, paradeiro desconhecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;02/09/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho do romance "O sangue da terra", de Alma Welt &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando há cinco anos atrás iniciou-se a doença de meu pai eu senti que estes céus que nos cobriam escureceram-se, perderam o brilho. Recolhido ao seu leito, com as janelas sempre cerradas pelas cortinas numa semi penumbra, a tristeza que o devorava parecia vir de fora para dentro e por sua própria vontade. Ele deixara de querer viver. O que o corroía? Tenho uma vaga suspeita. Um amor que ele não realizara, e que não era o de minha mãe. Meu pai, herdeiro do romantismo alemão, tardio embora, acabara sendo vítima de um amor perdido, irrealizável? Eu me pergunto ainda hoje. Quem tocava como ele Chopin e Schumann, com tal delicadeza...e tristeza, deveria certamente saber do que estava tocando. Eu sempre suspeitara disso em minha infância, e minha ternura por ele fazia-me, às vezes imaginar-me como uma amante, adulta, acariciando-o apaixonadamente, beijando seus lábios. Hoje sei que esse devaneio é comum nas meninas, embora profundamente recalcado. Não era à toa que minha mãe irritava-se quando me via sentada em seu colo. Ela temia, ela suspeitava da natureza profunda, carnal e anímica da nossa relação. E no entanto essa mulher não conseguia ser para ele a ninfa, a musa, a deusa, que ele merecia, sendo somente a mãe de sus filhos. Um caso, afinal, comum. Mas ele não. Ele não era comum. Seus dotes eram excepcionais, e um homem assim merecia a numinosa figura de mulher que nunca pudemos descobrir, e que habitou os seus sonhos até o fim. Ainda hoje imagino que a descubro, encontro o seu paradeiro e peregrino até ela, linda mulher madura, que me recebe quase maternalmente. Sim, maternalmente, me abraçando e dizendo: “-Alma, leva o meu abraço ao Werner, que se lembrará dele. Leva o meu beijo em teus lábios, e pousa-o sobre os dele. Eu ficarei afinal com ele, através de ti.” Ai! Quero morrer quando lembro disso, tenho até vergonha, eu que não tenho mais vergonha de nada. Tenho pudor de tanto amor que nutri pelo Vati sem nada poder, sem nada saber, tudo imaginando, tudo projetando... e absorvendo o seu maravilhoso mundo mental e anímico. Sou sua herdeira, incuravelmente romântica, e me orgulho disso. Mas as feridas abertas por tanto amor, na finíssima pele da alma, que esbarram nas arestas do cotidiano, não se fecham, não cicatrizam mais... e eu sangro. Eu sangro. Vati, eu fugi daqui, desta estância, do nosso salão com teu caixão entre quatro tocheiros, como de um cavaleiro morto, como um grão-mestre de uma ordem teutônica, cuja solenidade na morte me acachapou. Senti, então, que não podia arcar com o peso da tua herança, e fugi daqui, correndo, a esmo, e fui parar naqueles Jardins anódinos para mim, daquela cidade imensa de São Paulo, a “Paulicéia desvairada”, que pouco ou nada tem a haver comigo. Mas ali, afinal, encontrei o meu amor, atraí-o para o belo ateliê que montei, apesar de tudo, de toda a dor. Ali, Aline veio ao meu encontro, e hoje eu a trago para ti, para apresentá-la a ti, que a desfrutarás através do meu amor. Ela não pode saber disso. Ou já sabe? Ela não se ofenderia... Ela sabe que cultuo os meus deuses, e que és o maior deles, logo abaixo de Deus. Ela é dócil nas minhas mãos, e eu mais a amo por isso, adorável pequena ninfa, que sabe, apesar de tudo, da pureza do meu coração. Nada disso faz de mim uma manipuladora. Tenho direito aos meus amores, e os junto a todos em minha alma: Rôdo e Aline, e a ti, Vati. Acrescentarei Patrícia, minha criança sublime. E até mesmo Vânia, que me amou tanto, quase virilmente. Mas também os gêmeos Hans e Christian, e Pedrinho, meus sobrinhos. Matilde e Gaudério, todos os que me amam ou amaram, são dignos de mim. Alex e Irma, o Duo trágico. Josué, no sertão, levando-me para encontrar o Pavão Misterioso; Jean Baptiste em Paris e Corinne, que me exorcisaram Adèle D’Affry, a Pítia em mim. Todavia quando penso nesta última, vejo que a pitonisa ainda está dentro de mim, e é ela, talvez, que me faz acender piras diante da minha ara. Vati, deposito Aline aos teus pés. Abençoa-a, Vati, de onde estiveres. Quero ser feliz, como talvez não foste nunca. Serei feliz por ti, com o meu amor. Por nós, por nós! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;02/09/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-6573606130148668033?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/6573606130148668033/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=6573606130148668033' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6573606130148668033'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6573606130148668033'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/05/memria-de-meu-pai-morto.html' title='Memória de meu pai morto'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SBn228pgB0I/AAAAAAAABC0/oBf3DNDwOyE/s72-c/AAA+Crep%C3%BAsculo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-7438836557321228497</id><published>2008-04-12T08:15:00.000-07:00</published><updated>2008-04-12T08:17:21.477-07:00</updated><title type='text'>Nossa verdadeira vida</title><content type='html'>(das Crônicas da Alma, de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acaba de ocorrer-me que a nossa vida compõe-se de extratos superpostos, com maior ou menor representatividade, sendo que o plano sexual, representa a parcela mais sugestiva, o extrato superior, o mais significativo de nossa existência. Bem, nós sabemos que Freud já dizia isso com outras palavras. Mas parece que essa evidência continua a ser negada ou abafada até hoje, nesse começo de milênio, como se a sexualidade fosse uma potencialidade menor, ou obscura, que deve permanecer escondida, marginalizada em nossa vida. E nisso consiste a maior hipocrisia do ser humano.&lt;br /&gt;O poderoso instinto de procriar se manifesta acompanhado da pulsão do prazer, um profundo prazer, cuja permanente lembrança se sobrepõe a tudo, por isso há quem tenha o sexo como uma idéia fixa, subjacente a tudo, durante todos os dias de sua vida. Isso, na maioria das pessoas, a julgar pelos estudos modernos sobre a sexualidade. No entanto, há quem negue essa verdadeira hegemonia do sexo, em nossas vidas, em nome de uma suposta “espiritualidade”.&lt;br /&gt;Vocês, meus queridos leitores, já notaram a importância que atribuo ao sexo, como ponto de partida de todas as minhas experiências relevantes. O desejo. Motivação e porto de chegada de tudo, e tema básico ou residual de todas as minhas narrativas e poemas. Não preciso, evidentemente, justificar-me, a essa altura da minha obra, tão natural e espontânea em mim. Entretanto, acabo de ouvir algo desagradável, da parte de uma senhora de idade, bastante culta, que, não por acaso, e surpreendentemente, leu alguns dos meus contos. Ela disse: “A Alma tem, o que, no meu tempo, chamávamos de “furor uterino”. Trata-se de uma ninfomaníaca”. Fiquei, a princípio, chocada com essa observação, sentindo-me, no mínimo injustiçada ou incompreendida. Mas, a seguir, olhando bem nos olhos da tal senhora, não vi maldade nela, ou censura. Mas, sim, um risinho maroto. Percebi, então, que o meu texto levanta, talvez, nas mulheres principalmente, sentimentos ambíguos, contraditórios, despertando-as para a sua própria sexualidade, para os seus próprios “segredos”, tão recalcados. .&lt;br /&gt;Aqui, no meu ateliê paulistano, que nos últimos anos eu sinto como uma base, de onde a minha imaginação parte, na poesia, no conto e... nas minhas memórias amorosas, muito pouco do que narro vem da pura imaginação. Por incrível que pareça, sou uma cronista de mim mesma, do meu próprio cotidiano. Se a tônica dos meus textos é a narrativa amorosa e... erótica, é porque esse é o verdadeiro território da minha alma: a procura incessante do amor, e do prazer. Dito isso, passo a narrar a minha última aventura.&lt;br /&gt;Espero a visita de uma senhora, que telefonou marcando hora para hoje, a partir das três. Ela se diz uma grande admiradora de meus poemas, e quer conhecer-me. É um fato inusitado, raro mesmo. Em geral sou procurada em meu ateliê por conta de minhas pinturas. Todavia, lembro-me agora do desastrado encontro do poeta Umberto, sonetista daquela malfadada “Confraria dos Poetas do Soneto Triste”, da qual contei a patética estória no conto homônimo, dos meus “Contos da Alma”, já publicado em livro.&lt;br /&gt;A doutora Lídia foi tão simpática e reverente ao telefone, que aceitei recebê-la, embora um tanto receosa de me aborrecer, por conta de mal-entendidos. Será que essa senhora leu realmente a minha obra poética, tão confessional que me faz evitar palestras e reuniões sociais, onde posso ser confrontada pelos leitores com perguntas indiscretas no plano pessoal, quando feitas diretamente, pessoalmente? Sempre me refiro aos meus “fiéis leitores sem rosto”, que quero manter assim, anódinos, como sombras servidoras do meu ego, um tanto narcisista, reconheço. Essa maneira de me colocar, sem peias, de maneira total e desabrida, no papel, funciona como uma análise permanente, senão uma terapia. Repasso os meus amores, e meus prazeres, minhas delícias mesmo, que incluem detalhes escabrosos para alguns moralistas. Ali, confesso até mesmo a nota de masoquismo de minha personalidade sexual, que assim assumo e administro, para que não me tome completamente e... me destrua, como ocorreu, por exemplo com aquelas personagens do magnífico filme japonês “ O Império dos Sentidos”.&lt;br /&gt;O interfone soou, Lídia afinal chegou, subiu, tocou a campainha, abri, e me encantou. Deixei de lado imediatamente o “doutora”, como vocês perceberam, diante da encantadora figura à minha porta. Uma moça madura, de quarenta e poucos anos, de rosto interessantíssimo, talvez não bonita, mas atraente e com expressão muito inteligente. Abriu os braços, emocionada, e me abraçou, como se fôssemos velhas amigas, que há muito não nos víssemos. Segurou-me muito tempo, apertada a si, a ponto de eu estranhar, ainda ali na soleira, sob a porta. Então peguei-a pela mão e introduzi-a na grande sala-ateliê enquanto reparava no seu olhar deslumbrado, brilhante de emoção. Seu seio arfava, comovida e grata por estar ali, e de ter-me abraçado, de estar com sua mão na minha. Por minha vez, comovi-me também e abracei-a mais uma vez. Depois fi-la sentar-se, e olhos nos olhos, ela me contou sua estória:&lt;br /&gt;“Alma, você não imagina o que foi a descoberta de sua obra poética, em minha vida. Sou professora de literatura e vivi sempre para os estudos, cultuando os autores clássicos e dedicada à orientação do gosto dos meus alunos na Faculdade de Letras, da USP. Mas ao descobrir na Livraria da Vila, o seu Kit de poemas, aquela graciosa caixinha recheada de maravilhas, com aqueles desenhos lindos do Guilherme de Faria, do qual, por sinal, eu tenho em minha parede, há muitos anos, uma litografia, eu comecei a folhear ali mesmo os livrinhos, e percebi estar diante de uma poetisa lírica de grande estro, e que evita metáforas e imagens artificiais, usando uma linguagem quase coloquial, embora culta, que me encantou. Lembrei-me do estilo de Withman, embora o seu universo seja diferente do dele. Você é talvez mais romântica, e ao mesmo tempo, erótica, o que me parece uma conjunção rara. Mas o timbre de sua expressão poética bateu-me na alma, como se fosse eu mesma, que dissesse aquelas coisas. Decidi imediatamente, ali mesmo, que devia conhecê-la, e me tornar sua amiga e divulgadora, já que você está sendo publicada de uma forma artesanal, encantadora, mas muito rarefeita em termos de público, me parece.”&lt;br /&gt;Ela falou tudo isso muito depressa, devido à sua excitação, segurando a minha mão nas suas e devorando-me com seus grandes olhos cor de mel. Percebi que seu olhar ia dos meus olhos... para os meus lábios. De repente ela parou, arfando, e disse:&lt;br /&gt;—Ah! meu Deus! Ainda por cima, você uma mulher linda! Eu não esperava isso, confesso. Pensava em você de uma maneira, digamos, mais abstrata. Como a poetisa maior, que eu descobrira, por acaso. Coisa raríssima, pois não entendo por quê não saiu ainda nenhum artigo sobre a sua literatura. Mas chega de falar disso, não é? É você que eu preciso ouvir, você, mulher linda e que tem tanto a dizer! Perdoe-me, estou impressionada, não consigo parar de olhá-la. Você...é um bálsamo para os olhos! ( ela não se conteve e tocou a palma de sua mão no meu rosto, num carinho que me surpreendeu).&lt;br /&gt;Eu estava comovida, e lisonjeada. Jamais recebera elogios que fundiam ao mesmo tempo minha figura e minha poesia, e com essa autoridade, de uma professora da USP. Eu estava tão encantada quanto ela. De repente senti o perigo... em mim mesma! Devia eu aproveitar-me, acabar de seduzi-la, fisicamente? Mas o “fisicamente” não é sempre uma extensão do espírito, e por isso uma decorrência natural do processo de sedução mútua, que é o que sempre acontece no encontro amoroso? Vejam, meus leitores, eu já estava pensando em termos dessa palavra! Sou realmente incorrigível! Mas como não pensar nisso, se um encontro assim tão raro, de almas, impõem-se, e estende-se naturalmente aos corpos? Tudo o mais: reservas, prudência, soavam falsos, a partir do seu toque em meu rosto e de suas palavras.&lt;br /&gt;Então aproximei meus lábios, lentamente, dos seus, e beijei-os profundamente. Dei-me conta, ao mesmo tempo, no meio de nossa profunda comoção, que eu não abrira a boca, desde a sua chegada. Eu não dissera uma palavra sequer. Tudo já tinha sido dito antes, nos meus poemas, e ela percebera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fora seduzida, e eu... consagrada como poeta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/06/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-7438836557321228497?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/7438836557321228497/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=7438836557321228497' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7438836557321228497'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7438836557321228497'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/nossa-verdadeira-vida_12.html' title='Nossa verdadeira vida'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-4361796395598264448</id><published>2008-04-12T08:09:00.000-07:00</published><updated>2008-04-12T08:13:16.068-07:00</updated><title type='text'>Tudo o que faremos quando tu voltares</title><content type='html'>(dos Contos Pampianos de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estás a caminho, Aline, eu já te vejo voltando. Recebeste minha carta, e respondeste com um lacônico bilhete, mas tão sugestivo, que foi o suficiente: meu coração se iluminou. Estarei sonhando? Interpretei tuas poucas palavras pela ótica da minha apaixonada esperança? Não creio. Eu sinto teus passos na estrada, na longa estrada que nos separou. E meu coração segue o compasso dessa tua caminhada em direção aos meus braços, à minha alegria recuperada.  &lt;br /&gt;Lembra, Aline, nossas noites infinitas, quando derramávamos lágrimas de embevecimento, e da pura alegria do nosso encontro nesta vida? Como apertávamo-nos em nossos braços esmagando nossos seios, aréola contra aréola. Como nossos púbis se colavam, nossos ventres, nossos lábios? Como trocávamos nossos fluidos, como irmãs-amantes? Como definir senão assim, nossa intensa simbiose, nossa paixão indescritível? E, no entanto, partiste... quase me matando, pelo tanto que eu me confundira, me perdera ou... me ganhara em ti. O êxtase, Aline, o êxtase, nos o conhecemos nesta vida. E isso é santidade, Aline, a verdadeira santidade! Nada faltou no nosso amor carnal: lançamos mão de tudo, sem reservas, e nos possuímos como mulher a mulher, homem a homem, homem à mulher e andrógino a andrógino, com ajuda de artefatos, imaginação e ardor, Aline. Paixão anímica e carnal! &lt;br /&gt;Vem Aline, estou de braços abertos e assim ficarei como uma crucificada, em espera, e esperança, na soleira de minha porta, na varanda do casarão de minha estância, até chegares, e te colocares entre meus braços, endurecidos e... adormecidos, que se dobrarão, afinal, sobre ti. Já querem me internar, Aline, mas não se atrevem. Algo em mim, no meu olhar, talvez, faz crer que tenho razão, que estás a caminho. E os outros esperam a comprovação de um milagre anunciado, como aqueles que querem ver para crer. Ó, seres de pouca fé! Então não ouvem teus passos? Pensam que estou louca...&lt;br /&gt;Quando voltares, te levarei nos meu braços, para que conheças meu florido jardim, meu pomar e minha macieira gravada a canivete AR, onde acrescentarei o teu A, transformando ar, em pedra sagrada. Ara dos Pampas, será o teu capítulo. Eu te levarei comigo com a maçã afinal colhida, ao meu rio, e ao meu bosque. E montarás na garupa do meu pampeiro, numa disparada infinita, pelas coxilhas, agarrada a mim por trás, que sentirei o teu corpo para sempre, mesmo apeadas, nuas, tu colada a mim, na frente, atrás. Eu não te deixarei mais! Tu não me deixarás, porque eu te farei tão feliz que não mais te arriscarás a perder-me! Eu te possuirei e me possuirás até o sangue, até formarmos o Hermafrodita sagrado, com nossos corpos e nossa mentes incendiadas. A salamandra regerá as noites das nossas fogueiras, em plena pradaria preparando o mate que compartilharemos, o amargo, que nos saberá doce e que nos esquentará sob um pala compartilhado na noite sagrada e fria do minuano. &lt;br /&gt;Não poderão mais apartar-nos; não ousarão mais, embora estarrecidos! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! Tudo o que faremos, Aline, quando tu voltares!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21/04/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-4361796395598264448?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/4361796395598264448/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=4361796395598264448' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4361796395598264448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4361796395598264448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/tudo-o-que-faremos-quando-tu-voltares.html' title='Tudo o que faremos quando tu voltares'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-8055884616595364277</id><published>2008-04-12T08:01:00.000-07:00</published><updated>2008-04-12T08:08:08.342-07:00</updated><title type='text'>O Guerreiro</title><content type='html'>(Dos Contos Secretos de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preparo-me para pintar, ou, como costumo dizer, para atacar uma nova tela. É um momento de grande tensão, e confesso que tenho a tendência a procrastinar, fazendo “cera” por muitos minutos, antes de criar a coragem da primeira pincelada. Afinal, num impulso um tanto vertiginoso, semelhante ao apertar do gatilho numa “roleta russa” (imagino), lanço a primeira mancha, como quem corta as amarras de um navio lançado à aventura. Zarpar!&lt;br /&gt;Quando me volto para a mesa, para buscar mais tinta, o telefone toca. Não sei se isso me causa alívio ou irritação: a sensação é dúbia. Atendo, deparando-me com uma voz máscula, grave, e bonita, que após apresentar-se me faz elogios, ao mesmo tempo que me pede para ser recebido num dia próximo, ou de preferência hoje mesmo, num horário de aceitação comum a ambos. Prefiro assim, não suporto expectativas prolongadas, e se tenho que receber alguém, que venha logo!&lt;br /&gt;A verdade é que o tal telefonema abalou-me o dia, perturbou-me, no meu propósito de pintar. Mas, afinal, insisto, e acabo por deslanchar depois de um período penoso que me despende o resto da manhã. O quadro lançado, ao parar para observá-lo, pareceu-me ressentir-se desses sentimentos dúbios, dessa dispersão. E da insinuante expectativa com que esse desconhecido me contaminou. Medito uns minutos, sobre essa minha instabilidade, essa fragilidade do meu psiquismo. Ou será do psiquismo humano, em geral? Suspendo afinal o trabalho e vou tomar uma ducha, preparar-me para receber o estranho. Dedico-me a uma longa toillete, com especiais cuidados à minha beleza. Porque faço isso? Esse estranho, o merece? Bem, não importa, não devo pensar assim. É uma questão de princípio. Que é isso Alma, não seja hipócrita! Perscruta teu coração! És uma vaidosa, e amas a corte que te fazem, não importando muito o cortesão. Tens uma vocação de princesa, senão de rainha. Além disso, aquela linda voz máscula continua ressoando em teus ouvidos...&lt;br /&gt;Afinal, estou pronta, toca o interfone, atendo. Depois a sineta oriental de minha porta, e o forasteiro, está diante de mim, maravilhoso. Sim, nada menos que isso, alto belo, maduro, e com um olhar de rapinante, logo abrandado, num esforço de doçura, se posso dizer assim. É essa a impressão que tenho, pertinente ou não. Este homem é um predador, disso estou certa, mas numa espécie de armistício com a presa potencial, a fêmea que sou, tão vulnerável... essa é que é a verdade!&lt;br /&gt;Armando, esse o seu nome, se diz um admirador entusiasmado das minhas obras, que vem acompanhando nas galerias, desde a minha primeira exposição. Sentado à minha frente, com uma postura que me parece especialmente elegante, faz um discretíssimo charme de olhar. “Este homem sabe até sentar-se”, penso, sorrindo, por dentro, do meu próprio pensamento. Devo estar traindo-me pelo olhar, espelho de minha alma cândida, desejosa, inocente. Sim sou inocente, não carrego a culpa do meu enorme desejo do ser humano, da beleza, e da força graciosa! Sou mulher, com um orgulho ancestral... imemorial, tenho em mim uma rainha, sim, tenho certeza. Este homem me terá, se quiser. Notem que eu não digo “se eu quiser”...Serei resposta, não questão. Meio reino é aquele da receptividade, do aconchego, do “repouso do guerreiro”. Abro meus braços para o predador, que precisa descansar, pois não veio com o apetite da batalha, mas cansado, enternecido, lavar-se de tanto sangue, tanta guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bela cabeça de Armando, repousa em meu seio. Sua respiração silenciosa, plácida, titila com uma leve brisa a auréola rosada que ele tanto beijou. Meus bicos, assim bafejados, continuam ligeiramente tesos, e eu me enterneço por nós, pelas nossas belezas, tão complementares. Trago em mim ainda o seu sumo, e queria guardá-lo para sempre. Este homem é agora o meu amor, e quando acordar, vou chamá-lo, com orgulho : “meu senhor”. “Dormistes bem, monseigneur?” Como o faziam as cortezãs de França ou mesmo suas rainhas. Vou entregar-me uma vez mais a ele, pois que os guerreiros acordam sempre com a lança em riste (dou uma pequena gargalhada, que procuro abafar com a mão, para não perturbar seu sono). Afinal, com o braço adormecido, preciso mudar de posição, e meu movimento, por mais cuidadoso... o acorda.&lt;br /&gt;Ele abre os olhos lentamente, estranhando tudo, olhando-me como se não estivesse por um momento atinando com o lugar, a pessoa... a mulher. Um ligeiro aperto em meu coração antes dele afinal sorrir... e beijar-me. Então, olha embaixo do lençol, confere (os homens tem um secreto medo, eu sei) e tendo encontrado sua lança, tesa, fará mais uma vez uso dela, como eu previa. Ele vira-se sobre mim e me engolfa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O guerreiro deixou-me após o nosso banho vaporoso, que cobriu com uma suave bruma todo o meu espaço, fazendo-o partir como um cavaleiro na neblina da manhã, após beijos e mais beijos, que deixaram meus lábios dormentes de memória.&lt;br /&gt;E ponho-me a girar no ateliê, a cantarolar, em minha alegria, a canção que brota do meu coração tocado pelo predador...que respeitou o ninho de seu descanso. Que ofereceu-me sua suavidade, sua força em repouso, fazendo doce a sua lança. E brando, muito mais brando, o seu olhar!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-8055884616595364277?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/8055884616595364277/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=8055884616595364277' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8055884616595364277'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8055884616595364277'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/o-guerreiro.html' title='O Guerreiro'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-8497108832384479169</id><published>2008-04-12T07:58:00.000-07:00</published><updated>2008-04-12T08:01:14.804-07:00</updated><title type='text'>O fazendeiro</title><content type='html'>(dos Contos Secretos de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos à fazenda quase ao anoitecer, mas pude perceber a monumentalidade e os vestígios de um apego desmesurado à tradição, já naquela entrada ladeada de grandes palmeiras. Avistei também um imenso baobá, insólito, raríssimo. Parecendo o abantesma de uma árvore exótica, africana, ali plantada no século retrasado, remeteu minha memória à única referência dela em minha infância: a do livro O Pequeno Príncipe, de Saint-Éxupery. No entanto o tom geral era de decadência, e eu imediatamente pensei na noite que iríamos enfrentar, com seus possíveis fantasmas, naquele casarão que se pretendia hospitaleiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À entrada, no alto da dupla escadaria que fazia o acesso à porta principal do solar, no centro de uma extensa varanda que o circundava, estava o nosso hospedeiro, metido em grandes botas, e um chapéu de abas largas, meio caídas, na cabeça. Entretanto, à medida que subia os degraus em sua direção, meu coração acelerou-se, discreta mas perceptivelmente. Ele estendeu-me a mão enorme, como quem oferece apoio, ao aparar uma amazona ao descer do cavalo, por exemplo, e não como alguém que atinge um patamar, como era o meu caso, ali, no alto daquela escada, em que imediatamente, sob aquele olhar viril, vislumbrei minha perdição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estevão, nosso anfitrião, conduziu-me pela mão, de uma maneira galante e um tanto antiquada, saudando minha amiga apenas com um rápido erguer do chapelão. Felizmente Flávia tem bom temperamento e não pareceu ofender-se, disposta que estava desde o princípio a fazer o papel de dama de companhia, já que estamos mergulhando numa atmosfera um tanto arcaica, ou no mínimo demodée.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adentramos o casarão, que me pareceu escuro, mas ao mesmo tempo iluminado com um farol apenas pelo olhar de Estevão, que brilhava de uma maneira intensa. Eu já estava sob a influência inebriante da paixão nascente, ao por os pés ali, naquela casa maldita. A excessiva virilidade daquele homem, me dominara, paralisando a minha razão. Eu me conhecia... e previa até certo ponto o que viria. Entretanto era preciso nada precipitar, e submeter-me à ordem natural, mais lenta, dos acontecimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu previra, durante a ceia um tanto silenciosa e constrangedora, fui devorada pelo olhar de Estevão, atrapalhando-me com os copos e talheres, como uma menina, a ponto de engasgar-me com um gole de água, tendo o nosso anfitrião que levantar-se e bater-me às costas. Após o oferecimento de um cafezinho, que recusamos como arremate da ceia, para não perturbar o nosso sono já suficientemente em perigo, despedimo-nos de Estevão, que beijou-me a mão à antiga, mais uma vez tocando o chapelão para Flávia, já que este voltara à sua cabeça imediatamente após a ceia. Fomos conduzidas até o nosso quarto de hóspedes, escolhido por ele, e preparado de antemão. Perguntou à Flávia, com um certo propósito, se ela preferia um quarto só para ela. Flávia, esperta, recusou, percebendo a possível armadilha que nos poria a ambas em perigo, uma vez que é tão bela e desejável quanto eu. Mas ao deitarmos, comentou esse detalhe, afirmando que sua única preocupação naquele momento fora comigo. A dedicação de Flávia sempre me comove. &lt;br /&gt;Esta guria se declara disposta a seguir-me até o fim do mundo, e me lisonjeia uma servidão voluntária assim, vinda de criatura tão bela. Para ser sincera, devo dizer que percebo o timbre apaixonado, do seu amor por mim, que, no entanto nada pede, senão prazer de servir-me e estar sempre ao meu lado. Tenho de tomar cuidado para não feri-la, a este ser delicado, esta alma de elite, com que meu destino excepcional me contemplou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo após nossa breve conversa, exaustas, apagamos a luz, mas minha amiga, passados cinco minutos, para mim previsíveis, pediu para passar para o meu leito, pois que tinha medo... disse, imediatamente metendo-se sob minha coberta e abraçando-me por trás como sempre faz, enquanto enterneço-me e mais a aconchego junto a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De madrugada, com a sinfonia dos galos, ainda antes do sol aparecer, acordo, e retirando com cuidado o braço de Flávia do meu ventre, levanto cuidadosamente para não acordá-la, e pé-ante-pé, dirijo-me para a porta, abro-a, ela range, e eu penetro no corredor mais escuro ainda, e percorro alguns metros tentando alcançar a cozinha. Tenho sede. Ma de repente, enxergo uma fresta iluminada sob uma porta. Vou passar por ela. Lentamente... mas de súbito ela se abre e... sou agarrada, puxada para dentro com uma grande mão abafando meu grito. Sou arrastada para a grande cama de dossel, só pude reparar nisso, e já o tenho sobre mim com todo o seu peso. Ele abre-me o peignoir com violência, e agarra-me um seio, pequenino sob sua mão, antes que possa entrar em pânico, sinto-o penetrar-me, enorme, tão dolorosamente, que me cala, como quem vai rasgar-se ao meio! Estou sendo estuprada... Eu sabia, eu sabia, desde o primeiro momento, que isto ocorreria, ainda antes de chegar aqui, nesta fazenda, desde lá em São Paulo, naquele restaurante em que ouvi o seu convite! Eu sabia, eu sabia.. só que não esperava que seria assim tão doloroso! Este homem, de cujo rosto nem assimilei os traços, somente o cheiro, os fluidos invisíveis de sua masculinidade brutal! Não sei sequer se este homem é belo, se me mereceria em outras circunstâncias. Quem é ele? Quem é? Agora é tarde: o invasor já está dentro de mim, e derrama seu sumo dentro do meu ventre em chamas. Grito, afinal, grito alto e longamente, para acordar Flávia, para acordar o mundo. E acordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flávia está sobre mim, apavorada, com sua mão apertando meu púbis. Ela quer defender-me... do mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-8497108832384479169?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/8497108832384479169/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=8497108832384479169' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8497108832384479169'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8497108832384479169'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/o-fazendeiro.html' title='O fazendeiro'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-210714184019989185</id><published>2008-04-07T14:25:00.000-07:00</published><updated>2008-12-11T08:52:50.424-08:00</updated><title type='text'>O Fauno</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SUFEZIK0YLI/AAAAAAAABow/rQaIdqObxos/s1600-h/Fauno+IV+(definitivo).jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 290px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SUFEZIK0YLI/AAAAAAAABow/rQaIdqObxos/s320/Fauno+IV+(definitivo).jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5278575436735209650" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O Fauno- Desenho de Guilherme de Faria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;strong&gt;(dos Contos Secretos de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Resolvi recomeçar as minhas sessões de análise. Não porque esteja propriamente sofrendo, mas por perceber que as minhas fantasias estão me levando, cada vez mais a situações insólitas, e talvez a correr riscos. A verdade é que tenho sido estuprada com uma freqüência alarmante em minha vida. Por quê digo isso? Creio sinceramente que às vezes me submeto ao desejo de homens e mulheres que não amo, que na verdade não poderia amar, mas pelo simples fato de me desejarem ardentemente, e com paixão. Par délicatesse*...&lt;br /&gt;             Mas, então (vocês podem insistir), por quê falo em estupro?&lt;br /&gt;             É porque desperto, talvez, algo nos homens... e mulheres que cruzam a minha vida : uma espécie de exaltação do desejo, talvez um entusiasmo, que acaba por descambar para a obsessão, a exasperação, e finalmente a violência, nessa ordem. E o pior (ou melhor) é que fruo um imenso prazer na dor, e isso, acreditem, me confunde e... me deixa perplexa. Serei eu uma masoquista, e portanto vítima de uma patologia? Não sinto assim, propriamente, Creio que tenho em mim todas as dores, todas as necessidades de dor, e de prazer; tenho a convicção da universalidade de cada desejo, de cada fantasia que me assalta, tenho em mim todas as mulheres e... alguns homens. Por quê só alguns? Porque só os mais sensíveis, certamente, embora se possa dizer isso das mulheres, igualmente. Há mulheres que não são sensíveis. As mulheres vulgares, por exemplo. Entretanto devo reconhecer que a vulgaridade, como a entendo, pode ser, à vezes, a máscara defensiva de uma alma tímida.&lt;br /&gt;                Entretanto, recentemente tive a contrapartida  de uma dor causada pelo inverso, pela isenção, pela delicadeza suprema, que marca a alma de uma outra maneira, indelével.&lt;br /&gt;              Dito isso, vou revelar, a vocês meus leitores, o que eu nunca contaria para um confessor, mesmo que eu tivesse um, ou confiasse num padre encerrado num confessionário, e com voto de sigilo. Mas advirto-os de que não estou aqui para diverti-los, como uma escritora, ou uma espécie de “enterteiner”. Não se trata disso. Antes, eu diria, de uma necessidade de usá-los, meus leitores, com sua permissão, para a terapia que pretendo iniciar. Em troca oferecerei, como sempre... beleza. Comecemos, pois:           &lt;br /&gt;           Recebi, há dias, uma carta de um fã, que afirmava sentir uma afinidade extrema, total, com meus poemas e contos. Esse fã, entretanto dizia em sua carta que queria compartilhar comigo um segredo vital para ele, e que para isso precisava ser recebido por mim, para fazê-lo pessoalmente. Como a carta era extremamente bem escrita e delicada, eu, talvez precipitadamente, resolvi fazê-lo.&lt;br /&gt;          No dia e hora combinados pela pequena correspondência que entabulamos, o interfone soou, e anunciado pelo porteiro, meu visitante subiu, enquanto eu o esperava olhando pelo olho mágico, para ter a alternativa, extrema, de não abrir a porta se algo me desagradasse em sua figura. Para isso serve  também a correntinha.  Podia, por exemplo, pretextar uma gripe, e desculpar-me por não recebê-lo.&lt;br /&gt;               A porta de ferro do elevador, entretanto, ao abrir-se revelou a mais graciosa figura que se pode imaginar, um ser maravilhoso, de uma androginia evidente, cativante, com os olhos de um pequeno fauno, mas esguio, flexível, elegante. Abri a porta imediatamente, antes mesmo que tocasse a campainha. &lt;br /&gt;             Linus era o seu nome, que imediatamente me remeteu à arcádica invenção da flauta, na Era de Ouro. Recebi-o de braços abertos em meu coração. Na verdade, abracei-o mesmo, bem à entrada, sob o batente da minha porta. Bem vindo, ser de exceção, bem vindo pequeno fauno!&lt;br /&gt;              Os lindos olhos cor de mel do meu hóspede (imediatamente pensei em retê-lo como tal) começaram logo a marejar ao nos fitarmos, e mais nos abraçamos. Certamente minha figura também o surpreendeu e agradou. Sentimo-nos “almas gêmeas” desde o começo, e agora eu o reconhecia... por conferir a sua maravilhosa figura.&lt;br /&gt;                Linus quis contar-me a sua vida, mas teve dificuldade em expressar-se, pois o nosso olhar nos trazia a esse presente radioso, do nosso encontro. Não havia mais necessidade de narrativas, entre nós.&lt;br /&gt;                Sentindo isso, segurávamos nossas mãos, comovidos, em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Linus agora mora comigo, no meu ateliê. Poucas vezes na vida eu me senti tão segura e... tão à vontade com uma companhia masculina. Masculina? Bem... não é bem o caso. Este pequeno fauno, como gosto de chamá-lo, não é propriamente viril, e sua androginia é o que, na verdade me cativou. Um ser delicado, gracioso, na exata fronteira da estética e dos maneirismos dos dois sexos, produzindo um terceiro. Mas não exagerado e caricatural como estamos acostumados a ver por aí. Ele me comove, com a sua elegância sutil, com seus gestos suaves, que combinam com os meus. E, sobretudo com a sua doçura.&lt;br /&gt;                Botei-o para dormir na sala, isto é, no ateliê. Mas o cheiro de tinta me preocupa. Todas as noites, acordo de madrugada e venho observá-lo dormindo, acompanhando a sua respiração, suave, contemplando a sua beleza. Cubro-o quase maternalmente... às vezes descubro-o também, nas noites quentes deste verão, para observar seu corpo semi-nu, procurando descobrir o seu segredo. Sim, porque, por alguma razão, ele ainda não me deu essa intimidade, e estou cada vez mais intrigada. Ele é um companheiro maravilhoso para dividirmos o cotidiano, e estou feliz com a minha decisão. Mas, na verdade, há muito mais por trás  do instinto que me fez aproximá-lo de mim, de recebê-lo em meu lar, portanto em minha intimidade. Trata-se de uma enorme atração, anímica e física ao mesmo tempo, que pertence a uma espécie de ancestralidade em minha alma, eu desconfio... Será tudo isso um eufemismo para a palavra amor? É bem possível, sim, eu creio que já  amo o meu pequeno hóspede, e isso me faz sentir quase plena,  feliz. Por quê digo quase? Porque falta algo, que não consegui realizar. Não consegui transpor uma pequena última barreira que ele interpõe entre nós, talvez deliberadamente. Ainda não o vi completamente nu, e à noite, quando o descubro, é isso, claro, o que estou procurando, tentando advinhá-lo sob a apertada cuequinha que ele não tira para dormir. Talvez ele se sinta inseguro...&lt;br /&gt;                 Passei, já alguns dias, a desnudar-me, casualmente em sua frente, primeiro os seios, para trocar de blusa ou passar um desodorante, depois totalmente, para entrar no banho enquanto prosseguimos com nossas agradáveis conversas. Logo estava eu a andar nua pela casa toda e a pintar, assim , como sempre fiz, quando estou só. Ele parece encarar isso com uma enorme naturalidade, mas tem a maravilhosa delicadeza de ao mesmo tempo não disfarçar a sua admiração, manifestando-a com belos elogios ao meu corpo, à minha beleza.. Talvez um tanto técnicos, pois não percebi ainda a nota de desejo neles, que eu gostaria, no fundo, de encontrar. Linus se tornou um enigma para mim, e isso suscita minha curiosidade, de uma maneira perigosa, pois tende a se tornar uma obsessão.. Porque esse fauninho não se despe igualmente em minha frente, nem para entrar no banho, fazendo-o somente quando já está no box, fechado. E para dormir, então? Costuma ficar longamente sentado ao meu lado na minha cama, freqüentemente estirando-se, nas nossas conversas deliciosas, e então, sonolentos, ele me beija a testa, ou a face, cobre-me maternalmente, desejando-me bons sonhos, e retira-se para o ateliê para deitar-se. Fico então muito tempo insone, imaginando-o despir-se, e planejando a qualquer momento surpreendê-lo com um pretexto qualquer. Mas... se já sei que ele não se despe! Que devo fazer?&lt;br /&gt;          Essa curiosidade, unida, é claro, a uma certa frustração, já está produzindo uma pequena dor, fininha , que tende a crescer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Sim, deve tratar-se de um jogo. Linus conseguiu, estou apaixonada pelo meu pequeno fauno, e isso, longe de facilitar as coisas, deixou-me mais inibida para uma abordagem explícita. Nossa linda amizade, que, acredito, realmente existe, coloca mais uma barreira à mudança de timbre que pretendo em nossas relações. Por quê será que o fauninho não me deseja, a mim, ninfa que também me sei deliciosa? (perdoem-me a imodéstia).&lt;br /&gt;              Estou ficando exasperada, espero não cair na falta de sutileza da irritabilidade, do ciúme, do despeito, tipicamente femininos. Jurei a mim mesma que jamais cobrarei nada dele, que não o pressionarei, que não me atirarei sobre ele. Mas, ah! Isto está difícil. Esta noite, mais uma vez levantei-me e fui descobri-lo, na esperança de surpreendê-lo finalmente nu. Em vão. Julguei vislumbrar em seus lábios, num relance, sob o feixe de luz da minha pequena lanterna, um suave sorriso de Gioconda, um tanto feminino. Mas não estou certa. Meu desejo já está me pregando peças.&lt;br /&gt;             Planejo, então, uma maneira de ver o meu pequeno hóspede nuzinho. Ponho todas as suas cuecas para lavar na máquina, alegando que elas estavam encardidas (confesso que as cheirei, e...), que gosto de zelar pelas nossas roupas e programar as lavagens, etc. Ele fica confuso, um pouco perturbado, tanto mais que dou a ele para dormir esta noite um pijama meu, largo, feminino, muito fácil de despir com seus botõezinhos dos lados. E para a manhã, uma calcinha minha, provisória. Ele parece inseguro, desconfiado, mas não tenho certeza. Esta noite eu o pego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;................................................  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Sonhando com a incursão noturna que planejo, esperei por ele, na sua volta do trabalho, que, na verdade, nem sei no que consiste. O que ele faz? No que trabalha, ele, o pequeno fauno? Por incrível que pareça, nunca até agora ocorreu-me estas perguntas. Realmente não devo ser uma guria normal. Bem... nunca quis ser.&lt;br /&gt;            Linus chegou, surpreendentemente triste. Atirou sua mochila num canto e abraçou-me com lágrimas nos olhos:&lt;br /&gt;            —Alma, minha amiga. Minha doce e querida amiga,  devo partir. Amanhã cedo devo ir embora, talvez por muito tempo. Não sei quando a verei novamente. Minha família deu-me um ultimato (ele jamais me falara antes de sua família) e preciso enfrentá-los, para me livrar deles. Eles descobriram onde estou morando, e se eu permanecer aqui, vão incomodá-la, Alma. E isso, eu não poderia suportar, minha amiga. Uma intrusão assim... Quero que você se lembre sempre de mim com agrado, pela nossa linda convivência nestes dias inesquecíveis, os mais felizes da minha vida.&lt;br /&gt;                  Fiquei desesperada. Soltei um gemido, quase um grito. Agarrei sua linda cabeça, olhando bem dentro dos seus olhos amendoados, e exclamei:&lt;br /&gt;                 —Linus, não me deixa! Eu te amo, não vês? Eu te amo desde a primeira mensagem, desde o primeiro encontro! Eu não posso mais viver sem ti, meu querido, meu amor! (beijei-o sofregamente na boca, pela primeira vez)—. Quero-te, não percebes? Fica comigo... para sempre!&lt;br /&gt;                     Surpreso, perturbado, Linus recuou com a mão estendida, como se para evitar que eu o tocasse ainda mais, como se lhe doesse, e disse: &lt;br /&gt;                   —Alma, Alma, não me peça isso, estou sofrendo demais, você não sabe de nada! Eu... também a amo, eu a adoro. Mas Alma... não podemos, não posso explicar. Não posso explicar!&lt;br /&gt;                     Linus fez um movimento como se quisesse voltar-se para a porta, fugir. Agarrei-o segurando-o firmemente pela camisa. Gritei-lhe:&lt;br /&gt;                  —Tu não podes, estás entendendo, é entrar assim na minha vida e deixar-me agora, que estou... a teus pés! (escorreguei pelo seu peito, ajoelhando-me, dramaticamente. Aqui não cabia mais vergonha alguma, eu já lhe dera quase tudo, a visão cotidiana da minha nudez, o meu carinho, o meu desejo insatisfeito... o meu amor. Eu não aceitava perdê-lo!) —Linus fomos tão felizes, apesar de nunca...  de não nos tocarmos, meu pequeno fauno! Por quê? Por quê, eu não entendo!&lt;br /&gt;             Linus, então, os olhos cheios d’água, levantou-me pelos ombros, pegou-me a mão e puxou-me lenta e solenemente, conduzindo-me ao meu quarto. Colocou-se diante da minha cama, e de pé, pôs-se a despir-se diante de mim, pela primeira vez. Eu o olhava deslumbrada. Ele tirou a camisa, depois a calça, atirando-a para o lado, e afinal, enquanto eu o olhava, fascinada, abaixou a calcinha que eu lhe dera, em substituição. E então... eu vi!&lt;br /&gt;               Eu estava diante do Hermafrodita perfeito. Afinal!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-210714184019989185?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/210714184019989185/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=210714184019989185' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/210714184019989185'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/210714184019989185'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/o-fauno-dos-contos-secretos-de-alma.html' title='O Fauno'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SUFEZIK0YLI/AAAAAAAABow/rQaIdqObxos/s72-c/Fauno+IV+(definitivo).jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-1084862513000836609</id><published>2008-04-07T14:20:00.000-07:00</published><updated>2008-04-07T14:23:37.323-07:00</updated><title type='text'>O  Walhalla de meu pai</title><content type='html'>(crônica de Alma Welt )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             Meu pai tocava maravilhosamente Beethoven, entre outros grandes mestres. Ele dizia que Beethoven era o maior de todos, também pela sua qualidade pianística, e me fazia ver que o piano do Mestre não era percussivo, não martelava, mas trinava  como o canto de um pássaro, e isso seria a sua característica mais marcante. Exigia, dizia ele, grande agilidade dos dedos, para “trinar” assim ou “gorjear”, principalmente nas notas altas. &lt;br /&gt;       O Vati  me mostrava , tocando inteiras,  a maravilha das sonatas Aurora e Apassionata, que ele me fazia ouvir e ver, como música descritiva mesmo, que  eram,  e como romântico assumido. Na primeira eu via o sol nascendo no meu pampa e a simples contemplação de sua luz na pradaria em tal glória e magnificência, me fazia chorar de alegria  de estar viva e de compreender a beleza  do mundo, de maneira consciente, graças ao  meu pai, o cirurgião pianista que descobrira a validade de dedicar-se ao piano e à sua filha amada, que era eu, sem sentimento de dever perdido, ou de culpa por não mais exercer a também sagrada missão da medicina.&lt;br /&gt;         Eu, hoje, olho o piano de meu pai, o Steinway, na biblioteca, silencioso quase sempre, somente dedilhado ocasionalmente por mim, e por Rôdo,  mas sem o virtuosismo e esplendor do toque de meu pai, o último grande romântico alemão por estas plagas,  e que agora deve estar ao lado de Beethoven., este com  sua audição recuperada, discutindo gorjeios de pássaros e pianos.&lt;br /&gt;         E também de Goethe, os três em animada palestra, na eternidade de seu *Walhalla artístico, que meu pai projetou sempre em sua bela vida, contemplativa, aprazível, sem culpa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__________________________________________ &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota da editora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Walhala – Grande salão, ao ou sala do trono do deus Odin, da antiga mitologia germânica e dos Vikings escandinavos, em que os guerreiros renascidos como tal na eternidade, por prêmio de bravura, reuniam-se para planejar ou comemorar com as Walkírias ( formosas deusas guerreiras) em grandes orgias, as vitórias nas infinitas batalhas da imortalidade gloriosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma imagina um Walhala dos grandes artistas, verdadeiros heróis da Arte, que ali  se reuniriam  para palestrar em alegre e eterno convívio. (Lucia Welt)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-1084862513000836609?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/1084862513000836609/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=1084862513000836609' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/1084862513000836609'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/1084862513000836609'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/o-walhalla-de-meu-pai.html' title='O  Walhalla de meu pai'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-8140357137707677080</id><published>2008-04-07T14:14:00.000-07:00</published><updated>2008-04-07T14:16:22.224-07:00</updated><title type='text'>A guria do lago</title><content type='html'>(crônica de Alma Welt )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       Durante o verão eu costumo ir nadar muitas vezes no poço da cascata de nossa estância , local encantado  junto com o bosque, o jardim e a pradaria., enfim,  todo o cenário da minha infância, que inclui o casarão, naturalmente, e que eu chamo de meu Pampa. &lt;br /&gt;      E tenho o hábito desde guriazinha, na verdade, de despir-me completamente, de banhar-me nua nessas águas límpidas, cristalinas e calmas, que somente se agitam no sopé da cascata, local todo ele cercado de pedras de todos os tamanhos, e de samambaias, líquens, e plantas belíssimas.  Ali os pássaros se banham, e as borboletas adejam, juntando-se no solo de uma praínha, cuja areia dourada deve possuir alguma substancia salina que as atrai.  Foi ali que ocorreu fatos que tiro de um lugar especial do coração, já que não posso confiar na memória infiltrada de sonho.&lt;br /&gt;         Banhando-me sempre nua ( já narrei  nalgum lugar deste sítio, o estupro que sofri por parte de um peão) nunca pude conceber outra maneira de mergulhar nessas águas translúcidas, que me fizeram ver sua magia, malgrado aquele acidente, que contornei, apesar de tudo, para não considerar-me uma vítima. Não falarei mais daquilo.&lt;br /&gt;         Uma linda manhã, dirigi-me para o poço, fruindo todas as impressões desde o levantar da cama, o lindo caminho, e a chegada no maravilhoso local, jóia desta estância , desta região.  Logo após mergulhar nas águas frescas , deliciosas, cheias de e uma energia telúrica (que me mantêm com o aspecto dos meus vinte anos pelo menos), ao emergir resfolegando, dei de cara com uma linda figura sentada sobre a pedra grande, arredondada, em  que costumo  deitar-me para secar, de olhos fechados, para ouvir os sons todos... em delicada sintonia . Tratava-se de uma guria , que eu nunca vira antes. Nua também, como eu, mas morena, luzidia, de longos cabelos negros escorridos, de maravilhosa beleza. Como eu nunca a tinha visto antes, por ali, ou em qualquer outro lugar? Aproximei-me fascinada, enquanto ela sorria para mim, esperando-me. Erguemos nossos braços lenta e simultaneamente e tocamo-nos no rosto e no seio. Sempre sorrindo, uma para outra. Eu tinha a impressão de estar vendo meu reflexo, em outra luz, em outro tom, não sei, um sensação misteriosa, que me assustaria se não fosse acompanhada pelo tato real, sentido em meus dedos em minha palma, da tepidez daquele belíssimo corpo juvenil, de ninfeta morena. Não me ocorreu perguntar-lhe nada, nem sequer um previsível “quem és ?” &lt;br /&gt;        A guria  mergulhou e nadou comigo toda a manhã , me pareceu, rindo, com gargalhadinhas cristalinas,  borrifando água  uma na outra,  num indizível prazer  lúdico e um tanto sensual, cheio de toques furtivos ou casuais, e ...arrepios. Não me recordo de nada mais encantador e prazeroso na minha vida do que aquela manhã pueril, inocente e erótica a um tempo.&lt;br /&gt; Então subitamente ela perturbou-se, ficou séria, parecendo auscultar algo mais dentro de si do que fora,  deu-me as costas  saindo da água, pisando a areia da praínha e penetrando na mata sem olhar para trás , nua como estava.  Eu fiquei espantada, estranhando aquilo, principalmente por não vê-la vestir-se, mas logo imaginando que ela estivesse acampada no bosque, nalguma clareira, onde alguém a esperava, que sei eu? Logo me veio uma sensação esquisita,  e fiquei triste e um pouco frustrada, por não ter trocado uma palavra sequer com a guria, não ter ouvido sua voz, e sabido seu nome. Quem era ela?&lt;br /&gt;          Não mais a encontrei, por mais que voltasse ao poço da cascata todos os dias. Começou a me bater uma espécie de nostalgia, de saudade, uma sensação de irrealidade frustrante. Comecei a duvidar do acontecido e a cogitar que pudesse ter sido apenas um sonho matinal encantador , fruto da minha necessidade de ter uma irmã de minha idade, com quem pudesse me identificar, já que Rôdo,  meu irmão e companheiro era  o oposto complementar, o bichinho macho que me atraía e  fascinava como uma amostra atenuada do brutal universo masculino que me rodeava,  apesar das minhas duas irmãs,  mais velhas.  &lt;br /&gt;            Um dia fui convidada por meu pai, a acompanhá-lo na visita a um vizinho estancieiro, que eu não conhecia e de quem somente ouvira falar como um homem que meu pai apreciava e de cuja mulher  tratara e  até fizera o parto, no tempo em que ainda exercia a medicina. &lt;br /&gt; Acompanhei-o por natural curiosidade e também porque não perdia oportunidade de estar com meu pai, e aprender a vida com ele, conhecer outras pessoas...  reais.&lt;br /&gt;         No casarão da estância do nosso vizinho, que me pareceu mais velho e mais decadente ainda do que o nosso, eu olhava para todos os lados, curiosa, e esperando na verdade encontrar algo que eu não sabia o quê, talvez uns piás, ou uma guria, os filhos e netos do estancieiro. Afinal , enquanto meu pai tomava um chimarrão da hospitalidade com o seu compadre de imensos bigodes, eu notei um porta-retratos em cima da lareira, e fui estranhamente atraída para ele , levantei-me do sofá e fui até ele e peguei-o nas mãos. Era ela! A guria do poço! Ela ali estava, linda, igual eu a vira, mas vestida de chinoca  para um baile, e radiante,  com tranças com fitas dos dois lados da cabeça. Quase deixei cair o retrato, emocionada, e sem refletir interrompi os adultos perguntando:  Quem é ela? Senhor , onde está ela! Quero vê-la, ela está aqui? Eu apontava o retrato e virava-o para o meu hospedeiro, como se fosse preciso...&lt;br /&gt;  Meu pai franziu o cenho, sério, e olhou o seu compadre que tomou-me o retrato das mãos, olhando-o tristemente, acariciando-o e dizendo:&lt;br /&gt;       Esta é Larinha, que tu fizeste o parto, trinta anos atrás, mais ou menos, não é Werner? A querida Lara, que falta nos faz... aquilo matou a minha mulher. E quase a mim também. Mas não falemos mais nisso. Vocês almoçam conosco?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-8140357137707677080?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/8140357137707677080/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=8140357137707677080' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8140357137707677080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8140357137707677080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/guria-do-lago.html' title='A guria do lago'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-2198897259595709477</id><published>2008-04-07T14:09:00.000-07:00</published><updated>2008-04-07T14:11:22.621-07:00</updated><title type='text'>O escultor</title><content type='html'>(Dos Contos Secretos, de Alma  Welt )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 Recebi um convite para a abertura de uma exposição de um escultor , cujo catálogo, pela beleza das peças reproduzidas, me impressionou. Há muito tempo eu não via esculturas figurativas que fossem tão convincentes. Desde Rodin, eu acho. Sem ser acadêmico, embora ligeiramente naturalista, tem um certo grau, sutil, de estilização pessoal, cheio de sensualidade, e até mesmo erotismo, que me encantou. Algumas de suas peças, realmente ousadas, me fascinaram: ele, assim como o grande escultor francês do passado, não teme expor a intimidade de seus modelos, como fazem, hipocritamente, alguns artistas.  Mas é claro que foi, sobretudo, pela qualidade técnica e pelo superior plano estético, cheio de uma força madura, não simplesmente agressiva, que ele me aliciou, me cativou com a sua arte. Eu quis, imediatamente, conhecer esse escultor, de quem, no entanto, não revelarei o verdadeiro nome, aqui, neste relato, por razões óbvias.&lt;br /&gt;                   Na noite da inauguração, no museu, lá estava eu, vestida com o que tinha de melhor, mas sem maquiagem, pois, como dizem alguns, já sou suficientemente colorida, com este contraste entre meus cabelos louros arruivados, minha pele alvíssima, e meus olhos verdes. Saliento isso, pois foi o que chamou a atenção do meu escultor, com sua noite cheia de mulheres belíssimas, que o assediavam nada sutilmente.&lt;br /&gt;                 Cheguei, chamando atenção, mas mantive-me discreta, observando, encantada, as maravilhas do escultor, que realmente me atraíam por elas mesmas. Eu tinha vontade de tocá-las, e cheguei mesmo a fazê-lo, para sentir as formas deliciosas de uma figura de adolescente, de suave sensualidade. Eu não queria aproximar-me do escultor, tomando a iniciativa. Esperava que ele me descobrisse ali no meio de todas aquelas mulheres, e isso realmente aconteceu.  Senti uma forte e grande mão, poderosa, abarcando meu braço fino e roliço, vinda de trás e abaixei a cabeça meio de lado para olhar essa mão, mas já esperando que fosse a dele, o grande escultor. Virei e defrontei-me com um homem alto, maduro, belo, de têmporas grisalhas e nariz enorme, de corte italiano. &lt;br /&gt;                  Máximo (eu o chamarei assim), olhava-me fundo nos olhos, dizendo:&lt;br /&gt;           –“Signorina, permita-me que eu me apresente. Sou o escultor dessa peça que você acariciou de maneira tão encantadora. Peço-lhe que imagine as suas próprias formas, sua própria beleza magnífica numa peça que poderíamos fazer. Deixe-me esculpi-la, signorina, embora já seja uma escultura viva, e ao mesmo tempo uma pintura.” &lt;br /&gt;            Fiquei encantada com a delicadeza, clareza e honestidade de suas palavras, ao mesmo tempo galantes. “Esse homem é sincero, eu pensei, embora nem saiba que eu aceito, perfeitamente, segundas intenções, pois sou tudo, menos uma hipócrita, e conheço o desejo dominante dos homens, sua contida luxúria, geralmente disfarçada em público. Sorri e estendi-lhe a mão, de uma maneira um pouco antiga, démodeé, que ele não se apressou em beijar, mantendo os olhos fixos nos meus, de maneira hipnótica.&lt;br /&gt;                Começamos um intenso colóquio de artistas, plenos, assumidos, e logo estávamos de mãos dadas. Outras mulheres olhavam-me com ódio, algumas com curiosidade. Logo começaram a puxá-lo, para afastá-lo de mim, chamando sua atenção com elogios cheios de exclamações, e para posarem para o fotógrafo ao lado dele. Ficaram mais furiosas ainda, eu percebi, quando o fotógrafo foi buscar-me pela mão, ao me afastar discretamente, e fez-me voltar para o lado do escultor, que me abraçou o ombro para a pose da fotografia, enquanto eu sentia o calor de sua mão quase queimar meu ombro nu. Fiquei muito tempo com aquela sensação no meu ombro, que precisei acariciar, para neutralizar, a quase queimadura, que me arrepiava. Resolvi retirar-me logo, o que fiz, como uma fuga, mesmo, sem despedir-me do escultor. Eu temia me expor a um vexame. Perdera a segurança. Eu me sentia perdida de atração por aquele homem, por aquele artista. Tive que bater em retirada.&lt;br /&gt;                  Nos dias seguintes, quando me lembrava dos lances daquela noite, a sensação de suave queimadura voltava a aparecer no meu ombro. E lembrei-me do mito de Psiqué, em que o azeite da candeia ferira o ombro de Eros fazendo-o adoecer de amor.  Sentia-me como uma Psiqué às avessas, atingida por minha vez, pelo deus alado, de formas escultóricas.  Mas um Eros maduro, em sua plena força de homem, e sem asas, bem pousado na terra, onde me queria também, no máximo sobre um pedestal de bronze ou de granito. Eu ansiava posar para ele. Ser esculpida por ele. Eu esperava esperançosamente seu telefonema, embora eu não tivesse tido tempo de deixar-lhe o meu número. Mas eu sabia que e isso não era problema. Eu não perdera um sapatinho de cristal, retirára-me bem antes da meia-noite, e tinha ido à pé, não  montada numa abóbora. Mas ele se informaria. Ele encontraria a pista da Alma. Da pintora e poeta Alma Welt. &lt;br /&gt;                 Isso aconteceu no terceiro dia, afinal. O telefone soou no ateliê, e era ele. Eu sabia! Com sua voz grave, macia, ligeiro sotaque italiano, charmoso, ele me envolveu, e a sensação de calor, vinda do ombro, tomou meu corpo todo, principalmente ali em baixo, obrigando-me a acariciar-me. Confesso que, ao desligar, tive que masturbar-me demoradamente até atingir um orgasmo imperfeito, pois meus braços, afinal, permaneciam vazios.       &lt;br /&gt;          Senti, depois desse telefonema que perdera o controle de mim, que se o meu escultor demorasse, eu iria até ele, submissa, cativa, e me ofereceria como sua escrava. Eu sou assim. Tenho um tal orgulho e consciência de meus dons, que oferecendo-me inteira a um amor, me sinto maior, mais grandiosa, magnânima, como uma rainha dadivosa ou mártir. É como se oferecendo meu corpo, dessa maneira extremada, fizesse uma dádiva preciosa, a suprema dádiva. Nisso sou antiga: trago uma carga romântica comigo da qual nunca quis me desvenciliar, e por isso, há algum tempo, caí sob suspeição das feministas, acusada (pasmem) injustamente de “machismo”! &lt;br /&gt;                 Sim, eu ansiava pelo meu príncipe escultor, que afinal, no dia e hora marcados, adentrou o meu estúdio, e me encontrou... nua, quero dizer...  .metaforicamente falando, o que é a mesma coisa!&lt;br /&gt;                Eu estava toda atrapalhada diante do belo italiano, tentando preparar-lhe um café, do qual ele não fazia menor questão, mas que teve a serventia de me dar tempo de acalmar as batidas do meu coração, e a ele, de observar-me atentamente, devorando-me com os olhos, que eu sentia até pelas minhas costas, atarefada diante da cafeteira, à pia da cozinha americana. Afinal, servido, ele tirou das minhas mãos a pequena xícara que eu lhe oferecia. Pousou-a, mais afastada, e tomando minha cintura entre suas mãos enormes, que praticamente a abarcaram, ergueu-me sobre a pia da cozinha e levantando minha saia, enquanto tirava, habilmente seu mastro pela braguilha aberta do jeans, abrindo minhas pernas encostou sua imensa glande na porta da minha vulva que o acolheu, palpitante, agradecida. Ele me penetrou profundamente enquanto eu soltava um suspiro profundo e doce, que o comoveu, eu percebi, apesar de tudo, de estar quase desfalecendo, mas com minhas pernas erguidas abarcando sua cintura. Ele explodiria dentro de mim seu jorro branco, leitoso, e não me perguntem jamais pela camisinha, eu nem poderia pensar nisso: queria ser preenchida por esse homem, pelos sumos desse homem, e ficar escorrendo dele, para sempre, essa é que é a verdade! &lt;br /&gt;               A seguir comigo literalmente enganchada nele, carregada no seu colo, sem sair de dentro de mim, ele giraría eufórico pelo ateliê, em meio às telas, ambos às gargalhadas, antes de, orientado por mim, naquela espiral, pelas minhas mãos que agarravam portas e batentes, corrigir o seu rumo em direção ao  quarto...  ao nosso leito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               ________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Acordei com o Máximo assobiando na cozinha, feliz, preparando o café que, agora sim, tomaríamos juntos. Ele trouxe uma bandeja completa, e pousando-a no chão, abraçou-me, nua que ainda estava, com uma saudação matinal em italiano, que mais me enterneceu. Abracei-o, puxando-o sobre mim, com a mão direita colhendo e orientando seu pênis para dentro de mim, mais uma vez. Esse homem forte, esse imenso macho iria explodir, mais uma vez, de prazer, de gozo extremo, e estaria aprisionado, eu sabia, por muito tempo, talvez para sempre. Minha feminilidade, eu a sentia primitiva, arcaica, primordial, e não hesitaria em exaurir o meu homem até fragilizá-lo entre minhas mãos, como um menino, como um bebê que eu então acolheria no meu útero, para recomeçar o ciclo perene, o eterno retorno.&lt;br /&gt;         Mas, afinal as coisas não ocorreriam assim. Eu não seria pra sempre a sua mulher, ele não me fecundaria apesar de plena de seu branco sumo, abundante, que escorria sobre o meu leito saturado de nossos aromas. Mas devo descrever pelo menos a nossa primeira sessão de pose e escultura: eu nua, gloriosamente nua, em minha alvura extrema, como um mármore de Carrara vivo, para ser transformado em dourado bronze, como ele me projetava em sua imaginação.  Mas antes de começar a moldar a argila, ele precisaria desenhar-me cem vezes, e ele o fazia apalpando meu corpo, avidamente, como se moldando-o entre suas mãos que acompanhavam minhas curvas, sofregamente, tateando minhas reentrâncias, enquanto eu estremecia de surpresa e de prazer. Acabávamos rolando pelo assoalho do ateliê e a obra era adiada, mais uma vez. Começava a desconfiar que ela nunca começaria, ou nunca ficaria pronta, não naquele nosso ciclo de vida, pelo menos. E eu não me importava. O grande escultor me amava, ou pelo menos estava apaixonado por mim, e me moldava entre as suas potentes mãos, pelo menos para as carícias luxuriosas, que me encantavam, que me arrebatavam, na verdade. Ele não estava fadado a realizar o simulacro ideal do meu corpo, moldado pelo divino, talvez ciumento de sua obra. Talvez a um outro escultor menos dotado seria dada a permissão. &lt;br /&gt;                E ele, Máximo, o escultor, o grande artista, partiria um dia, há um só tempo saciado e frustrado, abandonando a mim e sua obra mal começada, que se esboroaria aos poucos em meio às minhas telas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       ____________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       11/05/2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-2198897259595709477?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/2198897259595709477/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=2198897259595709477' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2198897259595709477'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2198897259595709477'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/o-escultor.html' title='O escultor'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-13720154987395276</id><published>2008-04-07T14:06:00.000-07:00</published><updated>2008-04-07T14:07:28.145-07:00</updated><title type='text'>O Seminarista</title><content type='html'>(dos Contos Secretos da Alma, de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    Rôdo trouxe um jovem amigo seu, seminarista, para passar umas férias em nossa estância. Meu irmão, sempre surpreendente, tem amigos de todos os tipos, e de todas as profissões. Mas eu não esperava isto: um seminarista, um jovem religioso, segundo ele com autêntica vocação religiosa. &lt;br /&gt;                    André, o jovem, é quase belo, com um perfil ascético, e olhos sonhadores, místicos. Tenho conversado com ele sobre a existência de Deus, sua sabedoria e amor, que é um ponto pacífico no nosso diálogo. Mas... a existência ou não do Diabo, produziu um pequeno desacordo entre nós. André garante que o diabo existe e tem o poder de tentar-nos... e perder-nos. Que muitas almas foram realmente para o Inferno, irremediavelmente, não tendo se arrependido em vida e renunciado ao serviço do Cujo. Confesso que a conversa me perturbou, e depois meu sono já não foi o mesmo, e tive uns pequenos cauchemars  Tenho muito medo de ter medo, e quando caio nesse círculo vicioso, posso perder a paz por uma semana. Mas não sou uma criatura covarde, longe disso. Eu sempre reajo, no final. A verdade é que sou influenciável, quero dizer, frágil e dependente demais do amor alheio. É interessante observar que todos os artistas são assim. Os grandes foram assim, com exceção do maior de todos, Leonardo da Vinci, que ao que parece, pairava acima da maioria das paixões humanas, salvo o sonho de voar, literalmente, com asas de pássaro. &lt;br /&gt;                    André tem me procurado para continuar a nossa conversa sobre o Cujo, mas para mim basta. Prefiro não falar dele, pois temo que isso possa, de algum modo, invoca-lo, pois os pesadelos me deram uma amostra disso. Ontem, porém, André cercou-me na varanda, e disse-me:&lt;br /&gt;                 —Alma, se quiseres, posso provar-te que o Diabo existe, e está em toda parte, bastado que o chamemos para ele se por ao nosso serviço, cobrando. é claro, depois, a nossa alma. &lt;br /&gt;                –André—eu disse—sei disso, mas ele pertence ao lado escuro da alma, “ele” é só isso, a sombra da alma, que dorme no escuro, e não deve ser despertada. É o lado arcaico, imemorial. O instinto primal, destrutivo, que nasce com o primeiro vagido, junto com a pulsão construtiva de vida, de amor. Por quê queres invocá-lo, se nem sequer estamos acuados,  em perigo, ou em crise? &lt;br /&gt;                —Alma, se tu o avistares, como posso demonstrá-lo esta noite, no teu pomar, terás a prova do seu contrário, da existência material e espiritual  do próprio Deus, pelo seu oposto. Queres experimentar? Ousa! Não te arrependerás!&lt;br /&gt;                —André— eu disse—recuso-me. Acredito em ti, e posso perceber, agora, claramente que ele existe. Ele está certamente a me tentar através de ti, e por isso quero que desistas, e deixes a minha casa.. Não quero mais a tua presença aqui entre nós, nesta estância, pois “aquele” está claramente servindo-se de ti. E se tu percebes ou não, é irrelevante, pois igualmente perigoso. Não mereces mais a minha confiança, pela tua proposta, tua imprudência ou maldade. Vai-te, pois, vou pedir a Rôdo que te leve à estação agora mesmo, e não ouse propôr a mesma coisa ao meu irmão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-13720154987395276?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/13720154987395276/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=13720154987395276' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/13720154987395276'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/13720154987395276'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/o-seminarista.html' title='O Seminarista'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-3468807407678539568</id><published>2008-04-03T05:09:00.000-07:00</published><updated>2008-04-03T05:11:03.160-07:00</updated><title type='text'>O Vizinho</title><content type='html'>(das Crônicas da Alma, de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho estado muito ativa, pintando o dia inteiro no ateliê, e ainda escrevendo nos intervalos de secagem ou de descanso. Poesias e contos. Sinto-me no auge das minhas forças criativas, e agradeço aos meus deuses por isso. Entretanto, falta-me alguma coisa, e aquela dorzinha, de solidão, insiste em se imiscuir na minha felicidade criativa. Preciso de um amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi tomar consciência disso, e a campainha do ateliê soar. Abro a porta, um tanto eufórica com a perspectiva de um contato humano, qualquer que seja e... me surpreendo com a agradável figura com que me deparo frente a minha porta escancarada. Ele sorri, percebendo logo a minha receptividade, estranha nesta cidade grande. Nesta São Paulo, desvairada e cruel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estendo a mão ao belo jovem que vem pedir-me uma tesoura emprestada, pois acabou de mudar-se para o apartamento ao lado que esteve vago muitos meses. Convido-o a entrar, e a sentar-se, de uma maneira talvez precipitada, pois afinal, trata-se de um completo desconhecido, apesar do belo e agradável semblante descontraído. Acreditei imediatamente numa surpreendente afinidade, num encontro providencial, ingênua ou boba que sou. Tenho o dom de iludir-me, embora nunca me arrependa por isso, dado o prazer que fruo com a minha própria imaginação, que essa sim, nunca me decepciona, pois me entrega os prazeres e as emoções, adiantado, de avanço, sem fiador. E como pretendo viver num perpétuo presente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entabulo uma conversação que se pretende natural, sobre a sua recente mudança e instalação, os percalços da adaptação ao novo espaço, etc. A atração que o rapaz (vou chamá-lo Tiago), exerce sobre mim, parece ser recíproca, embora eu saiba que da parte dos homens isso é comum, dada a minha beleza e natural, mas discreta, sensualidade (quero crer). “Por quê então (o leitor perguntaria), freqüentemente te encontras solitária, ó Alma?” Porque sou seletiva, apesar de tudo, e por isso não promíscua como já me acusaram alguns leitores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas volto à minha visita, o jovem Tiago, que me devora docemente com os olhos enquanto vejo passar por seu semblante toda fantasia natural, do desejo que a minha figura desperta, evidentemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decido, pois, subitamente: vou entregar-me a este jovem, sem mais delongas, se ele quiser e souber tomar-me. Incondicionalmente. Não perguntarei pela sua vida pregressa, pelos seus dons, talentos e mesmo profissão. Evitarei esses assuntos. Ou melhor, os proibirei na nossa relação. Sim, será mais interessante, mais misterioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, ele fica confuso, hesita em meio a nossa conversa, como se um pensamento, uma interferência, ocorresse no fluxo de sua mente, nesse nosso agradável bate papo. Terá ele captado as minhas intenções subjacentes? Terei sido pouco sutil, ou ostensiva? Talvez ele tenha se assustado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiago levanta-se, estende-me a mão e encaminha-se para a porta. Lembro-me da tesoura que ele parece ter esquecido totalmente, e com uma risadinha faço-lhe um sinal e corro a buscá-la no quarto. Volto numa corridinha e entrego-lhe, já meio constrangida com meu próprio comportamento atrapalhado e eufórico. Ele sai, sorrindo, meio encabulado, e eu fecho porta, rapidamente, como para me compor, ou redimir-me de tanta atrapalhação, como uma guria, adolescente, que na verdade ainda sou, em minha alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;____________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram-se dois dias, e eu tenho pensado constantemente em Tiago, esperando ardentemente que ele volte a bater em minha porta. Se ele não vier, acabarei por tomar esta iniciativa, “dar o troco”, ir buscar a tesoura, aliás, excelente pretexto: ele já devia ter-me devolvido aquela bendita. Sim, vou lá, ele que me espere, o furacão “La Welt” está na área, ele que se cuide!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toco-lhe a campainha. Nada. Insisto, mas realmente não tem ninguém no apê. Volto e ligo o interfone para a portaria, e pergunto ao seu Ermírio pelo meu vizinho. Este me diz que o rapaz sofreu um acidente e está hospitalizado. Meu coração apertou-se, fiquei muda por uns segundos, chocada, e então perguntei o nome do hospital. Seu Ermírio revelou-o, mas adiantou que não era preciso mais visitas, pois o rapaz já teve alta e está vindo hoje à tarde, daqui a pouco, para casa, isto é, o seu apartamento. Agradeço e desligo, pensativa... e aliviada. Ele parece ser tão sozinho! Sua família é do interior, vou cuidar dele. Vou mimá-lo na sua recuperação. Ele precisará de mim, sua vizinha benevolente, dedicada, desvelada, que serei.&lt;br /&gt;_______________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperei muitas horas. Afinal a campainha tocou. Corri a abrir, e topei com a figura consternadora de Tiago, desfigurado, com uma grande atadura no nariz e os olhos roxos, inchados, um deles completamente fechado, hematomas por todo o lado. Assustei-me, dei um gritinho e levei a mão à boca, mas, em seguida, puxei-o para dentro pela mão, e fi-lo sentar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiago me conta como foi atropelado ao atravessar a rua fora da faixa, entre os carros parados, e foi colhido por uma moto que vinha em velocidade, singrando os corredores formados pelos veículos.Foi atirado longe, e acordou no hospital com o nariz quebrado, suspeita de concussão cerebral, mas nenhum outro osso quebrado, surpreendentemente, tendo alta depois de dois dias de observação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei ali parada em sua frente, condoída, desolada, e depois lhe ofereci um chá que ele recusou, aceitando então um café. Queria logo ir para sua casa, para trabalhar no computador, pois estava com o serviço atrasado. Deixei-o ir. Não havia muito a fazer, apenas reiterei os meus préstimos. Nem perguntei da tesoura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, tendo esperado que ele tivesse dormido bastante, lá pelas onze horas, voltei a tocar sua campainha. Nada, ele vai dormir até tarde, pensei. Não devo incomodá-lo. Mas, voltando, vou direto ao interfone para perguntar pelo meu vizinho. O porteiro me revela que Tiago, bem cedo, esta manhã, saiu com uma mala, dizendo viajar para a casa dos seus pais no interior. Suspirei, de algum modo aliviada. Pobre rapaz! Pelo menos terá uma mãe para cuidar dele, já que não quis os meus préstimos, meu carinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ponho-me a pintar, depois de um longo suspiro.&lt;br /&gt;____________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram-se mais três dias. Não deixei de pensar no meu desastrado vizinho, o amor que não aconteceu, entre nós. Aquilo que podia ter sido. Esses pensamentos me levaram a filosofar um pouco, sobre a desconcertante autonomia que o destino parece ter, às vezes, em contradição com a teoria da auto-determinação, do livre arbítrio, etc. Essa oposição de dois conceitos que permeiam nossa vida e constroem nosso roteiro, nem só escolhido, nem só aleatório, é um dos mistérios da existência humana. Qual o verdadeiro mecanismo do Destino? A Ironia sagrada de Deus? Dos deuses?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, impacientei-me, e mais uma vez interfono ao meu porteiro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Bom dia, Seu Ermírio. O senhor tem notícias do Tiago, meu vizinho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ah! Dona Alma, eu ia mesmo levar-lhe a notícia. Parece que o rapaz morreu, lá na terra dele. Um parente ligou, dizendo que o rapaz se sentiu mal, e morreu subitamente. O enterro vai ser lá mesmo, claro. Mas ele mandou avisar o condomínio e convidar todos para a missa de sétimo dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei cair o fone, a vista escureceu-me por um segundo, tive de apoiar-me na pia da cozinha. Depois uma dor, uma dor aguda no peito, uma angústia me tomou. Sentei no chão da cozinha, em estado de choque por muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então explodi, e chorei, chorei, meu patético amor perdido, meu menino da tesoura, meu malfadado amor... aquele que nunca tive.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;07/06/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-3468807407678539568?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/3468807407678539568/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=3468807407678539568' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/3468807407678539568'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/3468807407678539568'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/o-vizinho.html' title='O Vizinho'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-942671966290293168</id><published>2008-04-03T04:49:00.000-07:00</published><updated>2008-04-03T04:56:29.447-07:00</updated><title type='text'>O violeiro</title><content type='html'>(dos Contos Secretos de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu precisava encontrar um violeiro que me acompanhasse num recital de meus poemas que pretendia fazer. Mas a verdade é que não o encontrava do meu gosto, até porque o imaginava belo, jovem, mais ou menos como o Almir Sater, com aqueles olhos verdes, como os meus.&lt;br /&gt;Então, depois de anúncios, contatos, decepções, surgiu um jovem violeiro, erudito, capaz de tocar tudo, até Villa-Lobos e Bach, bem como as toadas dos nossos sertões, da caatinga nordestina ao pampa. Esse rapaz vive para o seu instrumento e parece não se importar com mais nada, a ponto de nem sequer perguntar quanto pretendo pagar pelo seu virtuosismo, ou dar ele mesmo o seu preço. Recebo-o todos os dias, para os ensaios, e declamo os meus poemas com meu sotaque gaúcho, que não me parece ideal para o meu próprio lirismo. Mas ele parece encantado comigo e minha poesia, e não serei hipócrita contigo, leitor, de declarar-me surpresa com algo que tu sabes, que estou deveras acostumada. Ser cortejada, cantada, assediada, faz parte da rotina da minha vida, desde a adolescência. Não se trata disso, portanto, mas do meus impulsos e desejos, a que obedeço, com o risco, sempre, de ser mal entendida até mesmo por ti, ó leitor inconstante. Ser-me-á leal? Não me detratarás por aí? Então continuo:&lt;br /&gt;Aristeu Magno, o violeiro, já não consegue desviar os olhos de mim, e toca sem parar, como se fosse seu discurso amoroso, sua “charla”, que derrama sobre mim, para enredar-me, para capturar-me com seu único poder, o musical. Ele parece acreditar na eloqüência amorosa do som que derrama de sua viola, e com certa razão, pois já estou comovida e acreditando no merecimento de um prêmio por parte deste jovem filho de Orfeu.&lt;br /&gt;Pára, leitor, não me reprima. Não tentes deter-me. Sim, vou dar-me a ele, o violeiro, serei a sua viola por uma noite ao menos, para ele tanger-me com seus dedos hábeis, com sua empunhadura forte, com as batidas rítimicas que lhe aprouver. Assim, transformar-me-ei na própria música em suas mãos, não somente uma musa casual, de passagem. Ele saberá dar valor ao contraponto que farei, à harmonia que faremos numa noite de festa , no terreiro do meu leito.&lt;br /&gt;Então, Aristeu veio mais uma vez, ensaiou até o momento em que retirei a viola de suas mãos, e o conduzi ao meu quarto, semeando no caminho o assoalho do corredor com as peças de roupas que tirávamos caminhando.&lt;br /&gt;Ali diante do leito, quase nus, olhávamos nossos corpos, examinando nossos detalhes, jovens , exuberantes, e atiramos para cima a última peça antes de mergulharmos com gritos de alegria, um no outro, como já o fazíamos em nossa música e poesia..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto é música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10/08/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-942671966290293168?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/942671966290293168/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=942671966290293168' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/942671966290293168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/942671966290293168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/o-violeiro.html' title='O violeiro'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-554773705742527349</id><published>2008-04-03T04:09:00.000-07:00</published><updated>2008-04-03T04:11:40.806-07:00</updated><title type='text'>Nossa verdadeira vida</title><content type='html'>(dos Contos Secretos, de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acaba de ocorrer-me que a nossa vida compõe-se de extratos superpostos, com maior ou menor representatividade, sendo que o plano sexual, representa a parcela mais sugestiva, o extrato superior, o mais significativo de nossa existência. Bem, nós sabemos que Freud já dizia isso com outras palavras. Mas parece que essa evidência continua a ser negada ou abafada até hoje, nesse começo de milênio, como se a sexualidade fosse uma potencialidade menor, ou obscura, que deve permanecer escondida, marginalizada em nossa vida. E nisso consiste a maior hipocrisia do ser humano.&lt;br /&gt;O poderoso instinto de procriar se manifesta acompanhado da pulsão do prazer, um profundo prazer, cuja permanente lembrança se sobrepõe a tudo, por isso há quem tenha o sexo como uma idéia fixa, subjacente a tudo, durante todos os dias de sua vida. Isso, na maioria das pessoas, a julgar pelos estudos modernos sobre a sexualidade. No entanto, há quem negue essa verdadeira hegemonia do sexo, em nossas vidas, em nome de uma suposta “espiritualidade”.&lt;br /&gt;Vocês, meus queridos leitores, já notaram a importância que atribuo ao sexo, como ponto de partida de todas as minhas experiências relevantes. O desejo. Motivação e porto de chegada de tudo, e tema básico ou residual de todas as minhas narrativas e poemas. Não preciso, evidentemente, justificar-me, a essa altura da minha obra, tão natural e espontânea em mim. Entretanto, acabo de ouvir algo desagradável, da parte de uma senhora de idade, bastante culta, que, não por acaso, e surpreendentemente, leu alguns dos meus contos. Ela disse: “A Alma tem, o que, no meu tempo, chamávamos de “furor uterino”. Trata-se de uma ninfomaníaca”. Fiquei, a princípio, chocada com essa observação, sentindo-me, no mínimo injustiçada ou incompreendida. Mas, a seguir, olhando bem nos olhos da tal senhora, não vi maldade nela, ou censura. Mas, sim, um risinho maroto. Percebi, então, que o meu texto levanta, talvez, nas mulheres principalmente, sentimentos ambíguos, contraditórios, despertando-as para a sua própria sexualidade, para os seus próprios “segredos”, tão recalcados. .&lt;br /&gt;Aqui, no meu ateliê paulistano, que nos últimos anos eu sinto como uma base, de onde a minha imaginação parte, na poesia, no conto e... nas minhas memórias amorosas, muito pouco do que narro vem da pura imaginação. Por incrível que pareça, sou uma cronista de mim mesma, do meu próprio cotidiano. Se a tônica dos meus textos é a narrativa amorosa e... erótica, é porque esse é o verdadeiro território da minha alma: a procura incessante do amor, e do prazer. Dito isso, passo a narrar a minha última aventura.&lt;br /&gt;Espero a visita de uma senhora, que telefonou marcando hora para hoje, a partir das três. Ela se diz uma grande admiradora de meus poemas, e quer conhecer-me. É um fato inusitado, raro mesmo. Em geral sou procurada em meu ateliê por conta de minhas pinturas. Todavia, lembro-me agora do desastrado encontro do poeta Umberto, sonetista daquela malfadada “Confraria dos Poetas do Soneto Triste”, da qual contei a patética estória no conto homônimo, dos meus “Contos da Alma”, já publicado em livro.&lt;br /&gt;A doutora Lídia foi tão simpática e reverente ao telefone, que aceitei recebê-la, embora um tanto receosa de me aborrecer, por conta de mal-entendidos. Será que essa senhora leu realmente a minha obra poética, tão confessional que me faz evitar palestras e reuniões sociais, onde posso ser confrontada pelos leitores com perguntas indiscretas no plano pessoal, quando feitas diretamente, pessoalmente? Sempre me refiro aos meus “fiéis leitores sem rosto”, que quero manter assim, anódinos, como sombras servidoras do meu ego, um tanto narcisista, reconheço. Essa maneira de me colocar, sem peias, de maneira total e desabrida, no papel, funciona como uma análise permanente, senão uma terapia. Repasso os meus amores, e meus prazeres, minhas delícias mesmo, que incluem detalhes escabrosos para alguns moralistas. Ali, confesso até mesmo a nota de masoquismo de minha personalidade sexual, que assim assumo e administro, para que não me tome completamente e... me destrua, como ocorreu, por exemplo com aquelas personagens do magnífico filme japonês “ O Império dos Sentidos”.&lt;br /&gt;O interfone soou, Lídia afinal chegou, subiu, tocou a campainha, abri, e me encantou. Deixei de lado imediatamente o “doutora”, como vocês perceberam, diante da encantadora figura à minha porta. Uma moça madura, de quarenta e poucos anos, de rosto interessantíssimo, talvez não bonita, mas atraente e com expressão muito inteligente. Abriu os braços, emocionada, e me abraçou, como se fôssemos velhas amigas, que há muito não nos víssemos. Segurou-me muito tempo, apertada a si, a ponto de eu estranhar, ainda ali na soleira, sob a porta. Então peguei-a pela mão e introduzi-a na grande sala-ateliê enquanto reparava no seu olhar deslumbrado, brilhante de emoção. Seu seio arfava, comovida e grata por estar ali, e de ter-me abraçado, de estar com sua mão na minha. Por minha vez, comovi-me também e abracei-a mais uma vez. Depois fi-la sentar-se, e olhos nos olhos, ela me contou sua estória:&lt;br /&gt;“Alma, você não imagina o que foi a descoberta de sua obra poética, em minha vida. Sou professora de literatura e vivi sempre para os estudos, cultuando os autores clássicos e dedicada à orientação do gosto dos meus alunos na Faculdade de Letras, da USP. Mas ao descobrir na Livraria da Vila, o seu Kit de poemas, aquela graciosa caixinha recheada de maravilhas, com aqueles desenhos lindos do Guilherme de Faria, do qual, por sinal, eu tenho em minha parede, há muitos anos, uma litografia, eu comecei a folhear ali mesmo os livrinhos, e percebi estar diante de uma poetisa lírica de grande estro, e que evita metáforas e imagens artificiais, usando uma linguagem quase coloquial, embora culta, que me encantou. Lembrei-me do estilo de Withman, embora o seu universo seja diferente do dele. Você é talvez mais romântica, e ao mesmo tempo, erótica, o que me parece uma conjunção rara. Mas o timbre de sua expressão poética bateu-me na alma, como se fosse eu mesma, que dissesse aquelas coisas. Decidi imediatamente, ali mesmo, que devia conhecê-la, e me tornar sua amiga e divulgadora, já que você está sendo publicada de uma forma artesanal, encantadora, mas muito rarefeita em termos de público, me parece.”&lt;br /&gt;Ela falou tudo isso muito depressa, devido à sua excitação, segurando a minha mão nas suas e devorando-me com seus grandes olhos cor de mel. Percebi que seu olhar ia dos meus olhos... para os meus lábios. De repente ela parou, arfando, e disse:&lt;br /&gt;—Ah! meu Deus! Ainda por cima, você uma mulher linda! Eu não esperava isso, confesso. Pensava em você de uma maneira, digamos, mais abstrata. Como a poetisa maior, que eu descobrira, por acaso. Coisa raríssima, pois não entendo por quê não saiu ainda nenhum artigo sobre a sua literatura. Mas chega de falar disso, não é? É você que eu preciso ouvir, você, mulher linda e que tem tanto a dizer! Perdoe-me, estou impressionada, não consigo parar de olhá-la. Você...é um bálsamo para os olhos! ( ela não se conteve e tocou a palma de sua mão no meu rosto, num carinho que me surpreendeu).&lt;br /&gt;Eu estava comovida, e lisonjeada. Jamais recebera elogios que fundiam ao mesmo tempo minha figura e minha poesia, e com essa autoridade, de uma professora da USP. Eu estava tão encantada quanto ela. De repente senti o perigo... em mim mesma! Devia eu aproveitar-me, acabar de seduzi-la, fisicamente? Mas o “fisicamente” não é sempre uma extensão do espírito, e por isso uma decorrência natural do processo de sedução mútua, que é o que sempre acontece no encontro amoroso? Vejam, meus leitores, eu já estava pensando em termos dessa palavra! Sou realmente incorrigível! Mas como não pensar nisso, se um encontro assim tão raro, de almas, impõem-se, e estende-se naturalmente aos corpos? Tudo o mais: reservas, prudência, soavam falsos, a partir do seu toque em meu rosto e de suas palavras.&lt;br /&gt;Então aproximei meus lábios, lentamente, dos seus, e beijei-os profundamente. Dei-me conta, ao mesmo tempo, no meio de nossa profunda comoção, que eu não abrira a boca, desde a sua chegada. Eu não dissera uma palavra sequer. Tudo já tinha sido dito antes, nos meus poemas, e ela percebera.&lt;br /&gt;Ela fora seduzida, e eu... consagrada como poeta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/06/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-554773705742527349?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/554773705742527349/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=554773705742527349' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/554773705742527349'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/554773705742527349'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/nossa-verdadeira-vida.html' title='Nossa verdadeira vida'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-7823822505898641294</id><published>2008-04-03T03:56:00.000-07:00</published><updated>2008-04-03T04:00:51.759-07:00</updated><title type='text'>A Professora belga</title><content type='html'>(dos “Contos Secretos” de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus leitores escolhidos, compartilhem comigo a nova aventura que ocorreu recentemente em minha vida, a partir deste ateliê paulista, que parece conter uma fonte de inquietação, que precipita acontecimentos incontroláveis desde que nele me instalei, recém chegada do meu Pampa. Vocês sabem, eu não procuro, eles vêm até mim, esses admiradores e admiradoras, freqüentemente fogosos, e até... perigosos, no seu ardor que a minha pessoa parece despertar, feliz ou infelizmente, ainda não sei, ao certo. O fato é que por uma determinada peculiaridade do meu caráter, não consigo e nem mesmo pretendo deter o fluxo dos eventos, mesmo quando eles se anunciam ameaçadores, em minha vida, pondo-me freqüentemente em perigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito isso, passo a narrar os fatos ocorridos na minha relação inesperada com uma dessas personalidades cativantes que cruzaram minha existência: uma nova professora, que contratei para treinar o meu francês, com vistas a uma viagem de exposição, desta vez na Bélgica. Elle s’apelle Chantal. Mademoiselle Chantal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mulher de trinta e poucos anos... bela, de uma maneira aristocrática, como afinal também se caracteriza minha própria beleza, segundo dizem, apesar de eu descender de agricultores pelos dois lados, o alemão e o açoriano. Mas, Chantal, assim que pôs os pés na grande sala do apê que é o meu estúdio, saturada de telas e livros, pareceu iluminar-se. Sua querida Europa, sua Bélgica, afinal, não lhe pareceram mais tão distantes, ela me confidenciaria em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodando no meio do ateliê, com a mão no seio, emocionada, ela deu um imenso suspiro e agarrou as minhas mãos colocando-as sobre o seu seio palpitante (ah! mademoiselle, por quê fizeste isso?) dizendo, trêmula, quase em lágrimas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Alma, Alma! Isto tudo, as suas cores, me lembram a paleta flamenga de Ostende, do nosso James Ensor, nacarada, sob a suave luz de Flandres. Mesmo abstrata, a sua pintura contém aquele mistério, aquela magia um pouco soturna, das máscaras de Ensor, do nosso “Mardi-Gras”, um tanto “diabolique”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espantei-me dela dizer isso, pois eu pensava ser uma pintora tropical, contra todas as expectativas, na verdade, dadas as minhas ascendências européias, e a minha própria pele, de uma alvura que costumava produzir espanto, por aqui, nas ruas desta paulicéia, que contém de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada comentei, todavia, e apenas me comovi com a sua emoção, e as batidas aceleradas do seu coração sob a palma das minhas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive uma súbita vontade de beijar os lábios perfeitos daquela européia. Ela pareceu perceber isso e adiantou-se a mim nesse impulso, e nossos lábios se encontraram mais perto de mim, eu percebi. Desta vez, por fração de segundo, não fora minha a iniciativa da sedução, mas o que importa é que a seguir estávamos abraçadas, rodando no centro do ateliê, mas numa espiral centrífuga, que nos conduzia para o meu quarto, onde nos esperava o grande leito de tantas estórias, de tantas paixões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despimo-nos avidamente, e Mademoiselle (vou continuar a chamá-la assim) revelou o mais belo corpo que eu pudera ver em muitos anos. Muito alva também, ostentava pêlos pubianos ruivos, que deixavam descobertos os grandes lábios, muito vermelhos, um tanto salientes, carnudos, apetitosos. Ela os ofereceu, de saída, percebendo a minha atenção, e eu mergulhei ali com todo o meu entusiasmo e digamos, a minha gula, porque não? Eu iria voar com aquela feiticeira belga, na vassoura fálica que não tínhamos, mas que contínhamos no nosso impulso, na nossa vontade que não excluía o Animus, o masculino em nós, determinado, eu senti, pelo espectro de Ensor e suas máscaras, que invadiram meu quarto naquele momento, onde podíamos ouvir o sapateado da moira*, toda de negro, nas imensas, infinitas planícies desoladas do inverno de Flandres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despertamos nuas, após a nossa noite flamenga, e voltamos a nos beijar, embevecidas e maravilhadas com a harmonia do nosso encontro todo ele de suaves tons quentes, de um impressionismo nórdico, que regia a nossa relação, que ela assim insinuara com as suas metáforas pictóricas inusitadas, que acolhi prontamente, e incorporei. Mas estaria eu à altura daquela aristocrática criatura banida do seu Norte, como eu, do meu sul? Podíamos realmente nos encontrar? Isso realmente estava acontecendo? Nossa carne embevecida, desperta, dizia que sim, e eu me inclinei mais uma vez para alcançar com os lábios suas aréolas rosadas que se tornavam quase rubras como os seus lábios dos dois extremos, pela excitação encantada de nossas mucosas em flor. Eu iria desfrutar desta suave maçã do norte, e entregaria a ela tudo o que quisesse do meu corpo jovem, insaciável, cheio da saudável gula da paixão. Assim, em seguida, virei-me, lentamente, empinando minhas nádegas muito brancas em direção ao seu rosto, oferecendo-me sem pejo, mais uma vez, enquanto ela mergulhava por sua vez num crepúsculo ardente, contido naquela manhã de inverno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;______________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chantal telefona-me, em lágrimas. Ela tem que viajar, pra buscar uma pequena herança de uma tia, em Ostende. Mas, ela me diz, está conflitada, pois teme que ao se afastar tão cedo de mim , eu escaparei da espécie de sortilégio que se criou entre nós, graças às felizes metáforas que a atração ditou a ela no nosso encontro. Ela está apaixonada, como eu. Não quer se separar de mim, tão cedo, teme perder-me, e eu a ela. Contudo, com o coração apertado, insisto em que viaje, garantindo-lhe que não a esquecerei, e que meu amor esperará por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é preciso dizer que tudo isso era falado em francês entre nós, pelo menos para justificarmos nossa aproximação de aluna e mestra, e como mulheres sérias, e não duas adolescentes, como na verdade, nos sentíamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chantal partiu. Fui levá-la ao aeroporto e lá conheci o casal de velhos belgas, seus pais, muito calados, que me olharam com curiosidade, e fizeram um discreto elogio à minha beleza. Mas eu não queria maiores aproximações, eu estava insegura. Temia comprometer minha nova amiga, e assim tive de puxá-la para o toilette, comigo, para poder despedir-me dela condignamente, com um grande beijo em sua boca. Saímos daquele banheiro de aeroporto, com os olhos ligeiramente inchados, sem contudo despeitar suspeitas dos seus pais. Para todos os efeitos eu era a aluna predileta de sua filha, e uma nova amiga. Voltei de carona com eles, falando amenidades em francês, embora intimamente perturbada e comovida. Pelo menos fiquei sabendo que Chantal tinha uma irmã pouco mais nova, chamada Stéfanie, que poderia eventualmente substituir Chantal nas aulas. Eles pediriam para ela me telefonar e combinar os dias e horas para as lições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ser deixada frente ao meu prédio, eu já estava decidida a conhecer a irmã de Chantal, e ao entrar no estúdio fui direto ao telefone, que soava. Estranhamente era ela, que já falara ao celular com os pais pegando o meu número. Tudo tão rápido nesta cidade, tão diferente do tempo do meu Pampa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Stéfanie entrou no meu ateliê, e eu tive imediata sensação de recorrência, como de um sonho. Havia muitas semelhanças entre elas, mas o que mais me impressionou foi a predisposição de Stéfanie , que parecia estar ali para substituir a irmã ... também, ou principalmente, no meu leito. Ligeiramente conflitada, não deixei de desfrutar deste novo tesouro que se me oferecia. Ela correspondeu aos meus beijos com imediata paixão, a curiosidade me mordeu, e indaguei-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Stéfanie, querida, eu amo a tua irmã, e espero por ela. No entanto tu pareces aceitar e até mesmo fazer um papel de substituta temporária. Estarei enganada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Não, Alma—ela respondeu—Estou agindo de acordo com Chantal. Ela é que me recomendou vir até você, muito antes de eu lhe telefonar. Em pequenas, fizemos um pacto, de compartilharmos todas as experiências de nossas vidas e também nossos amores. Ela me cedeu você. E a você. E me recomendou ao partir: “Stéfanie, quero que você ame e seja amada por Alma. Assim não a perderei. Ela não é propriamente volúvel, mas sua personalidade de poeta, faz que não se permita deixar passar nada em vão em sua vida e nem se furtar a nenhuma experiência nova: ama e deixa-se amar com uma ninfa. Por isso fique com ela e preserve-a para mim... para nós, se você não quiser abrir mão dela ao meu retorno, o que é bem provável, pois sua pele, seu perfume entram sob a nossa e não podemos mais deixá-la, como um vício, como um ópio”.— Sim, Alma estou vendo que minha irmã tem razão, e agora eu lhe quero tanto quanto ela lhe quer. E quero estar, um dia, no seu leito junto com ela, se vocês permitirem. Para sempre.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deslumbrada, eu me sentia no paraíso, com as promessas daquele amor duplicado. Sim, porque para mim elas eram uma só, ou a continuidade uma da outra. Entreguei-me à Stefanie com redobrada paixão, após suas alentadoras palavras, e já ansiava por aquele maravilhoso prognóstico, de tê-las as duas ao mesmo tempo no meu leito, num deslumbrante “ménage-a-trois”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim transcorriam os dias da minha espera, que eu não mais sentia, pois Chantal continuava de certo modo no meu leito. Seus cheiros, seus perfumes eram iguais, e as semelhanças não paravam por aí. Ela gemia e chorava de amor, como Chantal, e eu entregava-me a ela, também, com o mesmo ardor, gozando em sua boca igualmente ávida, de lábios tão perfeitos quanto os de Chantal. E eu derramava meus fluidos sobre essa boca maravilhosa junto com as lágrimas da minha felicidade duplicada. Então...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, Chantal telefonou, finalmente. Estava de volta. Eu gritei de alegria. Eu iria buscá-la no aeroporto, com Stéfanie. Ao desligar, perguntei a Stéfanie, comovida, ao meu lado, a ponto de nem sequer querer falar ao telefone com a irmã, se podíamos ir buscá-la juntamente com seus velhos pais, no carro deles. Stéfanie ficou subitamente sombria e disse :&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Não, Alma, não podemos, isso não será assim.— E calou-se, ficando, estranhamente silenciosa, o resto do dia. Passou a noite comigo, onde se entregou, mas com um timbre de tristeza que não me passou despercebida. Ela derramou lágrimas a noite toda, durante o nosso amor e eu percebi que apesar de suas palavras anteriores, ela sentia estar se despedindo. E eu chorava com ela, ansiando por Chantal. Ansiando pelas duas. Pelo meu duplo amor, um dia reunido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei no meu leito vazio. Estranhamente, Stéfanie não me acordara e partira. Não deixara sequer um bilhete. Perturbada, instintivamente decidi ir sozinha buscar Chantal, sem nem sequer telefonar para seus pais, já que Stéfanie pusera aquela ressalva, obstáculo obscuro, incompreensível, mas que eu senti que devia respeitar, tanto mais que me sentia um pouco culpada, não sei porquê, diante daquele amável casal de velhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui, pois, sozinha, de rádio-táxi, para o aeroporto. No caminho, ao som da suave Pavane opus 50, de Fauré que o chauffer sintonizou amavelmente no rádio, os acontecimentos do último mês desfilavam ante meus olhos como um filme, ou como um sonho, culminando com a estranha noite anterior, e não pude deixar de pensar que eu fora de alguma forma abandonada, embora estivesse indo ao encontro do meu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela apareceu no saguão, linda, com um chapéu negro, bem europeu, e sua roupa também preta, tive um sobressalto, meu coração apertou-se ligeiramente dentro da alegria daquele reencontro. Abraçadas e chorando eu disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Chantal, Chantal... meu amor, você voltou, afinal. Só não morri, porquê você me deixou a Stéfanie, que me fez companhia. Sua irmã é um doce, é maravilhosa, quase como você ( eu pensava estar preparando o terreno). E seus pais, então, que velhinhos lindos, tão gentis e amorosos. Ainda não os encontrei aqui no aeroporto, devem estar chegando, não? Que família tu tens, hem, guria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chantal empalideceu. Ficou sombria, trêmula, mas pegando minhas mãos, juntou-as ao seu seio palpitante, dizendo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Alma que estás dizendo, minha amiga? Não tenho mais família no Brasil. Meus pais morreram na Bélgica no ano passado, estavam muito idosos. E . minha irmã suicidou-se, a seguir, por amor desenganado, por um noivo que nos abandonou, às duas. Éramos muito unidas. Mas... o quê estás dizendo? Falas como se tivesses conhecido a Moira. Era o seu nome, não Stéfanie, como Roland, meu noivo, arbitrariamente costumava chamá-la, pois não gostava do seu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei estarrecida. A vista se me turvou, uma cortina negra caiu sobre meus olhos e quase desfaleci nos braços de Chantal. A doce irmã me visitara, eu estivera com a Moira em meus braços, e não poderia mais esquecê-la. Ela estaria sempre entre nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A branca e suave Moira, que me apertara com paixão em seus braços, sussurrando aos meus ouvidos nossos nomes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“ Chantal... Alma...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;____________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Notas da editora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Moira : A morte em sua configuração feminina. Uma das naturezas de Ananke, a deusa da Nescessidade, ou do Destino, entre os antigos órficos gregos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27/04/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-7823822505898641294?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/7823822505898641294/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=7823822505898641294' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7823822505898641294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7823822505898641294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/04/professora-belga.html' title='A Professora belga'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-7526205090447547482</id><published>2008-03-26T05:57:00.001-07:00</published><updated>2008-03-26T06:00:13.305-07:00</updated><title type='text'>A aluna</title><content type='html'>Dos Contos Secretos, de Alma Welt &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  Recebo o telefonema de Luiza, moça de voz agradável, que diz admirar e acompanhar-me a carreira. Pede-me que lhe dê  aulas de pintura. Reajo um pouco inicialmente, pois não estava nos meus planos ocupar-me de alunos, dedicar-me ao talento alheio ou à falta dele. Sei que isso é importante a certa altura da vida de um artista, mas ainda não estou preparada psicologicamente para esse desprendimento, esse tipo de doação. Ainda sinto que preciso todo meu tempo para dividir-me, como o faço, entre a literatura e a pintura. O fator de dispersão, em minha vida, advém de um insidioso sentimento de solidão, um tanto doloroso, que me faz procurar o amor, e freqüentemente sendo vítima da paixão. A embriagadora e desastrosa paixão.  &lt;br /&gt;                   Entretanto antes de declinar do pedido dessa moça, peço-lhe seu telefone para o caso de eu mudar de idéia. Bastou eu depositar o fone, para começar a considerar o assunto com mais condescendência. Sua bela voz ainda ressoava em meus ouvidos e aguçava minha curiosidade, instigando-me. Mas resolvi esperar uns dias para retornar-lhe o telefonema, para ter tempo de meditar no assunto e não me precipitar, sob o influxo de uma sugestão de caráter sensual, essa é que  é a verdade. Todavia eu, já estava contaminada... e ansiava, depois de meia hora, por telefonar-lhe, e aceder ao seu pedido. Naturalmente com a expectativa de defrontar-me com uma jovem tão bela, pelo menos, quanto a sua voz. Foi o que fiz. Telefonei a ela, encontrando a sua alegria imediata, que me comoveu. Pareceu-me perceber, pelo telefone, as lágrimas nos seus olhos, em sua  emoção. Ao desligar, caí num pranto copioso, constatando a minha profunda fraqueza, solidão... e a minha vulnerabilidade .  &lt;br /&gt;                    Após dois dias de expectativa, afinal o telefone toca, e é Luiza, avisando-me que está a caminho e que chegará dentro de poucos minutos, no horário combinado.  Custo a controlar a minha ansiedade. Ao soar o interfone eu escancaro a porta de entrada, para receber esse novo raio de sol em minha vida.&lt;br /&gt;                Quando a porta do elevador se abre, tenho a mais doce visão, e o maior alívio de que me lembro. Luiza é bela! Não me enganei. Loura natural, olhos azuis claros, e pele quase tão branca quanto a minha, e um ar de menina, é  recebida com o meu mais doce sorriso e o meu abraço carinhoso, talvez um tanto precipitado, eu penso. Assim vou espantar a guria... Ou ela não respeitará a sua mestra. Sim, porque eu estou, ao mesmo tempo, predisposta a levar a sério esse  novo papel em minha vida e até faço planos de transmitir-lhe tudo que acumulei de conhecimentos, e se for possível, de experiência, em minha vida. E a ser uma dedicada preceptora artística,  honrando a minha profissão. Não sou uma  hipócrita, vocês sabem.&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                Assim, esse ser encantador, entra em minha vida. Passo horas  ensinando-a  a  preparar telas, a mexer com as tintas, enquanto entre pausas de silencio concentrado, transmito-lhe, aos poucos, conhecimentos sobre história da arte, vidas de pintores, técnicas e conceitos,  insinuando em tudo o que digo a minha visão pessoal do mundo, que não se pretende, a priori, original , mas antes de tudo, sensível e profunda (perdoem-me a imodéstia). &lt;br /&gt;              Ah! Alma, não és hipócrita, mas incorrigível. Já estás apaixonada. A beleza te domina, e te seduz de uma maneira quase infantil, não é mesmo? Não! A verdade é a beleza, e a beleza,a verdade, dizia o poeta*. Não deves pois te envergonhares de ser tão suscetível a ela. E depois, e isso por si só já justificaria tudo, Luiza já está apaixonada por mim, talvez há mais tempo. Às vezes, quando toco sua mão para conduzi-la, na correção eventual de uma pincelada, sinto-a tremer ligeiramente, emocionada. Nesses momentos tenho de me controlar para não abraçá-la, em plena aula.&lt;br /&gt;                   Hoje decido terminar a aula mais cedo, e convidá-la para um chá, para que compartilhemos um outro tipo de momento sensível, de “desconcentração”, próxima do zen, para podermos fruir a pura  companhia uma da outra. Ela está encantada com o convite. &lt;br /&gt;                   Coloco a minha mais bela toalha de bilro do Ceará, sobre a minha &lt;br /&gt;prancheta de desenho depois de ajustá-la na perfeita horizontal, para transformá-la em mesa de chá, já que não tenho uma e a grande mesa de trabalho vive entupida, de tralha e materiais. Não se esqueçam que isto não é uma casa burguesa, é a oficina de uma artista, um ateliê, embora dentro de um condomínio. Digo isso, também para que tu, leitor, não me avalies por teus padrões convencionais, que não aceitarei.  Mas, se aceitas o meu mundo, a ponto de te debruçares sobre ele,  lendo o que escrevo, aqui nesta espécie de diário secreto, prepara-te , e se possível, não me julgues. Antes, seja o sensível voyeur que espero de ti.       &lt;br /&gt;                         Dito isso, convido–te, pois, a acompanhares o suave balé dos nossos gestos lentos, harmônicos, nesta espécie de cerimônia do chá.&lt;br /&gt;                          Coloco sobre a mesa uma espécie pouco conhecida de cafeteira, um suporte que sustém uma esfera de cristal refratário, cheia d’água, aquecida por baixo por uma espiriteira de pavio, à álcool. Isso nos coloca, às duas, contemplativas do belíssimo fenômeno da lenta fervura, até a ebulição vaporosa. A esfera de cristal sobre a chama, produz lindos reflexos, com pontos alaranjados e  azuis, além daquele cristalino, do vidro e da água. Faz-me pensar, num momento, num aparelho de alquimista ou na bola de consulta das ciganas, e julgo avistar por um segundo, o meu destino, insinuando-se sem que eu nada pergunte. Tenho um ligeiro estremecimento, e Luíza, pousa sua mão sobre a minha como para me tranqüilizar. Arrepio-me toda, prazerosamente, com este toque de sua linda mão. E tomo-a, para não mais soltá-la. A cerimônia do chá para mim está completa. Não precisamos prepará-lo, muito menos sorvê-lo. Para nós, tacitamente, ele consiste nesta contemplação da fervura, no seu milagre, em que reconhecemos uma delicada metáfora do nosso encontro,  deste nosso momento. Agarramo-nos por sobre a mesa, perigosamente próximas da chama e do cristal, com os nossas bocas ávidas de nossos beijos, tão esperados. Circundamos a mesa improvisada, numa estranha dança, mágica, em que nossos lábios não se descolam, e rodopiando assim, seio contra seio, púbis contra púbis, em espiral cada vez mais aberta, em direção ao quarto, ao  leito que  irá ser  nosso. &lt;br /&gt;               Dispo-a, lentamente, a ela e a mim, simultaneamente, revelando o seu lindo corpo branco, a delicada curva do ventre, e um minúsculo e ralo tufo de sedosos pelos louros. Deito-a, suavemente, enquanto percorro as suas formas com as palmas  de minhas mãos, sentindo a extraordinária maciez de sua pele iluminada de juventude. Ao mesmo tempo eu sinto que essas minhas manobras são legítimas, por poder dizer as mesmas coisas do meu próprio corpo. Embora experiente, vivida, meu corpo ostenta a mesma juventude e beleza, e isso faz com que eu sinta a igualdade das nossas trocas, de nossas mútuas oferendas. Num momento sublime como este, eu queria fazer o tempo parar, mas não repetiria a exclamação perigosa de Fausto*, apenas para não perder a minha alma imortal. Ao mesmo tempo agradeço aos deuses...ou a Deus, pela beleza eterna do momento, e seu indizível prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  “Luiza, minha pequena Psiqué, como vou amar-te, como já te amo! Acordas do meu lado, e mostras, a preocupação no teu semblante. Eu sei, eu imagino, não avisaste os teus pais. Mas ainda é cedo, minha querida, não te preocupes, não passaste a noite aqui, passou-se apenas uma hora, em que velei teu lindo sono, contemplando o teu perfil. Agora vou ligar para teus pais, para avisá-los que amanhã sendo sábado, convido-te para dormires aqui hoje, na casa de tua mestra, que estamos pintando um grande painel e não podemos parar. Agora sorris, novamente, meu anjo... esta noite, volto a  cobrir de beijos cada centímetro de teu corpo e tuas mucosas rosadas, como pétalas. Será a noite de nossa mútua fruição, da apoteose de nossa desejosa e pura juventude.  Podes confiar, não preciso te dizer, já o fazes. Homens e mulheres me desejam, e eu, agora, só desejo a ti, minha pequena ninfa, reflexo materializado de minha própria anima.”&lt;br /&gt;                   Levanto-me, tomo as prosaicas providências que interrompem o nosso devaneio. Seus pais já estão preocupados, alternam-se ao fone e crivam-me de perguntas, mas percebo que diante da minha voz suave, e ao mesmo tempo séria, infundindo credibilidade, parecem mais tranqüilizados. Chamam-na ao telefone, claro. E percebo que questionam e tentam mais uma vez dissuadi-la de passar a noite na casa dessa desconhecida para eles, apesar do tanto que Luiza vem falando de mim em sua casa. Afinal cedem, a contragosto, chamando-me uma vez mais ao telefone e fazendo recomendações sobre os cuidados à sua filhinha.  Luiza, que tem dezenove anos, irrita-se com os pais, como boa adolescente. Desliga meio abruptamente, envergonhada de ser assim tratada diante de mim. Espero por uma nova ligação que sei que virá com algum pretexto, para conferirem a veracidade do local onde ela está, a ovelhinha que ameaça desgarrar-se.  Este  é o lado previsível da  nossa história, paciência, há sempre um preço a  pagar pelo amor, pelo prazer. Mas tenho certeza que conseguirei apaziguar estes pais, quando for visitá-los amanhã, para devolver-lhes Luiza. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................            &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              É sábado, por volta das onze. Estou diante dos pais de Luiza, sérios, que camuflam sua simpatia, no papel de pais cuidadosos e severos. Percebo que movo-me em terreno perigoso, no meio deste casal burguês, e começo a me sentir ligeiramente discriminada diante de tantas perguntas, levemente marginalizada. Como flashes, intrometem-se em minha mente as imagens  de nossa adorável noite de luxúria e de amor, mas entremeadas, penosamente, de outras, aquelas da minha infância: eu e Rôdo, nuzinhos, apanhados em flagrante de amor e  inocente curiosidade, sob a nossa macieira, arrastados pelos pulsos por nossa mãe, anatematizados, expulsos do nosso paraíso infantil. Meus olhos, de súbito, enchem-se de lágrimas, e quase caio em prantos, desastrosamente, diante deste casal. Mas algo em mim os enternece, e já estão me tratando, afinal, como uma amiguinha de sua filha, graças a Deus.&lt;br /&gt;                      Estamos salvas. Livres... por enquanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Luiza, Luiza, temo perder-te, escapas-me entre os dedos, não por ti, mas pela tua juventude, e suas exigências. Não quero acompanhar–te a danceterias,  a festas dos teus amigos. Sou jovem ainda, tenho trinta anos, mas sinto a antigüidade da minha alma, e não posso evitar as comparações, e esse deslocamento, a sensação de inadequação quando estou entre os teus amigos. Eu sei, eles me acham bonita, mas olham-me com curiosidade e estranheza  e sinto-me um pouco ridícula, de estar ali, sendo, para todos os efeitos, tua professora. Além disso, ser encontrada por aí, contigo, deixa-me mais suspeita diante da tua família, eu o sinto. As más línguas...tu sabes. Já falam de nós. Tu não te conténs e pegas-me na mão e beijas-me nos lábios (eu também) a todo momento. Estamos dando na vista. Eu sei, estou parecendo uma reprimida. Temerosa. Mas sim, eu temo, minha querida, Vão reprimir-nos, vão descriminar-nos. Vamos sofrer, meu amor. Tu, em tua pureza, não imaginas o quanto podem fazer-nos sofrer. Sim, porque começarão por malbaratar o nosso amor, caluniar-nos, chamando-nos daqueles nomes horríveis. Ai, Luiza, minha pequena Luiza, queria arrebatar–te do mundo, levar-te comigo, para longe daqui, à minha estância, que recuperei com minhas forças, da maldade do mundo*. &lt;br /&gt;                   Ali no Pampa infinito, quero estar contigo até minha alma dissipar-se no vento, no minuano, no pampeiro. Quero arrebatar-te numa cavalgada sem fim, onde o mundo não nos alcance, ele não merece a nossa beleza, não nos merece... não este mundo. Foge comigo, minha ninfa, voaremos no vento das pradarias do Sul, nos alimentaremos dos nossos beijos inesgotáveis, das nossas carícias, da eterna juventude de nossas almas.  Ou então, quero morrer em teus braços, chamando-te “o meu amor!” &lt;br /&gt;                Eu sei, sou romântica, e até melodramática, mais ainda que tu, que és uma guria “moderna”, mas não posso evitar tais pensamentos... e queria viver assim, ou morrer. As vezes me sinto tão cansada! De carregar o fardo, a benção... ou a maldição de amar assim, tanto, e a tantos, através da minha vida de poeta, de incorrigível amorosa. &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;.....................................................................................               &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              Abro a porta para a mãe de Luiza, que entra severa, majestosa. Olha em torno, rapidamente, e, por um segundo, eu espero que tanta beleza a comova. Mas, ela está sentada agora, a meu convite, e depois de sintomaticamente recusar um café ( e ainda  um chimarrão, que a fez dar uma careta), começa o discurso que eu temia:&lt;br /&gt;                   —Senhorita Alma, vou ser franca. Não gosto dessa relação de vocês. Isso está, no mínimo, dispersando Luiza, de seus estudos. Ela está faltando à faculdade. Suas notas caíram. É verdade que algumas subiram, mas são as daquelas matérias que não dão o pão a ninguém. Mas, naturalmente, isso não é o que mais me preocupa. É a sua beleza, a sua, senhorita Alma, ela é que me preocupa. Ela dá demasiado na vista, as pessoas falam, é... quase...escandalosa. Sim, é escandalosa. Não se justifica minha filha andar com uma moça mais velha, e assim tão bela, me desculpe. Você vê, eu própria estranhei, desde o primeiro dia em que nos vimos, lá em casa. Meu marido, também. Ele ficou indignado. Disse: “aí tem coisa!” porquê uma moça assim,  perderia tanto tempo com uma menina? A senhorita nem sequer é formada, como professora, digo. Enfim, as pessoas falam, começam a dizer coisas maldosas. Você compreende. A reputação de Luiza está em jogo. Enfim, resumindo, vim pedir-lhe que afaste-se de minha filha.&lt;br /&gt;                      Senti uma punhalada no peito. Minha respiração ficou opressa. Faltava-me o ar. Uma memória ancestral, muito antiga, me tirava o fôlego. Roubavam-me o alento. Roubavam-me o meu amor! Quis reagir. Mas antes que falasse alguma coisa, a mãe de Luiza, vendo o meu estado, acudiu-me temendo que eu desmaiasse. Amparou-me, um pouco perplexa. Eu lhe disse:       &lt;br /&gt;               -–Dona Maria, farei o que a senhora quiser, serei mais discreta. Não sairei com Luiza, mas deixe-a continuar com as aulas de pintura. Ela está aproveitando tanto. Ela tem tanto talento! A senhora sabe o quanto isso é importante para ela, deixe-a continuar...com as aulas.&lt;br /&gt;             —Minha querida, –ela disse— esse não é o ponto. Isto... essa relação está comprometendo o futuro de minha filha. Ela teve um noivo, você sabia? .  Foi antes dela lhe conhecer, mas eu esperava, meu marido também, que eles se reconciliassem. Agora vejo isso cada vez mais difícil. Luiza está muito mudada. Aquele ar sonhador. A senhorita enche-lhe talvez a cabeça de sonhos absurdos. O mundo não é assim, o mundo não é isso! Não, isso tem que parar. Quero que Luiza se case, tenha filhos, e que tenha também uma carreira profissional, séria. A senhorita me entende. Se gosta dela, afaste-se, eu lhe peço. Não a prejudique.&lt;br /&gt;              Explodi em lágrimas comprometedoras, finalmente. Eu desabara Sentia uma forte dor no peito e a dor na alma era maior ainda.&lt;br /&gt;           —Dona Maria. Não me peça isso. Não me peça. Isso vai me matar. A senhora não sabe... não conhece... os artistas. Nós, sofremos, de um outro jeito, por outras razões, ou, mais fortemente. Que estou dizendo? Não é isso, que quero dizer. A senhora não sabe o que é pedir-me isso (eu soluçava).&lt;br /&gt;             Dona Maria olhou-me profundamente, e eu vi que ela enxergou o meu coração, ela pareceu apiedar-se, e com um semblante grave, triste, mas humano, disse:&lt;br /&gt;            —Minha querida, agora vejo, claramente, que ama a minha filha, e que ela a ama. Quanto a isso nada posso fazer, o estrago já está feito. Mas insisto, que se afastem... se a amas faça isso. Você sabe que isso é o  que deve ser feito. E sei, também, que o fará. Eu lhe serei  eternamente grata.&lt;br /&gt;              Ela afastou-se lentamente, eu não a acompanhei até a porta, e ela saiu, como uma sombra,  deixando-a  aberta. &lt;br /&gt;              Eu soluçava alto. Creio que também gritei.&lt;br /&gt;    &lt;br /&gt;__________________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Notas:&lt;br /&gt;*“a verdade é a beleza...”-   fragmento dos últimos versos do&lt;br /&gt;famoso poema de poeta romântico inglês John Keats,&lt;br /&gt;“Ode a uma urna grega”.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;*No Fausto de Goethe, &lt;br /&gt;aquele diria,  afinal, ao minuto que passa:&lt;br /&gt;“ Pára, és tão belo!”, e sua alma estaria perdida para sempre,&lt;br /&gt; sendo esta a senha pactuada com Mefistófeles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Alma se refere ao seu romance autobiográfico “A Herança”,&lt;br /&gt;a sair pela Editora Palavras &amp; Gestos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-7526205090447547482?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/7526205090447547482/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=7526205090447547482' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7526205090447547482'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7526205090447547482'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/03/aluna.html' title='A aluna'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-2558516781305085346</id><published>2008-03-25T08:07:00.000-07:00</published><updated>2008-03-25T08:08:07.984-07:00</updated><title type='text'>A marchande</title><content type='html'>(dos Contos secretos de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebo um telefonema inesperado: minha amiga Giulia chegou dos States e tem urgência em me ver.&lt;br /&gt;Arrumo o ateliê com aquela bagunça organizada típica. Tiro algumas manchas de tinta do assoalho e dos móveis e deixo outras. Escondo algumas telas inacabadas e deixo as mais bem resolvidas bem à mostra, estrategicamente. Tudo isso é de praxe entre pintores e suas visitas... Mas algo me diz que alguma mudança chegará em minha vida, para alterar a rotina de trabalho e criação (se é que há alguma rotina na criação...) em que vivo nos últimos meses. Estou cansada, desmazelada e maltratada, fisicamente. Tenho manchas de tinta nas mãos, nos braços, no rosto e até nos meus cabelos loiros, que estão esverdeados. Olho no espelho. Estou horrível. Nada que um bom banho não melhore. Afinal, thank God, sou uma mulher bonita e disso não abro mão. Esqueço-me disso por longas temporadas de trabalho árduo na pintura. Mas basta que me liguem ou pretendam me visitar e a vaidade volta como uma segunda natureza. Felizmente não é a primeira, pois me levo muito a sério como pintora. Não estou brincando em serviço, nem vim ao mundo a passeio, como dizem alguns sobre si mesmos. Arre, hoje estou cheia de lugares-comuns!&lt;br /&gt;Agora, banhada, penteada e “linda” permaneço em repouso esperando minha amiga.&lt;br /&gt;Afinal toca a campainha, um suave toque de sinos chineses bem natureba, resquício de uma fase new age já superada (agora voltei à música clássica, com pausas para ouvir Elomar, o grande menestrel do sertão brasileiro). Mas falamos disso depois...&lt;br /&gt;Corro a abrir a porta e minha amiga cai-me nos braços, apertando-me e beijando-me loucamente, aos gritinhos as duas. Depois de mãos dadas afasta-se para olhar-me o rosto e o corpo. (Por que nós mulheres fazemos sempre isso?). Põe o dedo em minhas olheiras e depois brande-o em censura frente ao meu rosto. É sempre assim. Estou farta.&lt;br /&gt;— Minha amiga, ela diz, isto não é vida para você! Se tivesse ido comigo para os States (o tanto que insisti) estaria rica agora, cheia de dólares! Os americanos são loucos pelas suas gravuras. Vendi-as todas, caríssimas. Mas afinal eu as tinha comprado de você e precisava de dinheiro para instalar-me e tudo mais. O começo é sempre duro no estrangeiro. Mas você!... Estaria agora numa mansão com piscina ou num imenso loft em New York”. Patati patatá...&lt;br /&gt;Estou enfadada ao mesmo tempo que contente por vê-la, a minha amiga Giulia.  Louca pela Audrey Hepburn, sua “ídala”, como ela diz. Também gosto da Audrey, mas engraçado, isso não me aproxima de Giulia, tão fútil, coitadinha.&lt;br /&gt;Agora ela faz uma pausa e um olhar de suspense e diz:&lt;br /&gt;— Tenho uma surpresa para você. Um presente. Uma pessoa. Vou lhe dar uma pessoa de presente. É o melhor que posso fazer para retribuir-lhe a sorte que o seu trabalho, a sua arte me proporcionou. Você é uma grande artista (já não a achei tão fútil...). Vamos buscar essa pessoa no aeroporto amanhã às 18h.&lt;br /&gt;Giulia estendeu-se mais em detalhes periféricos, afinal, pois não pode parar de falar. No entanto noto que sutilmente esconde pormenores e dados justamente sobre o “presente”, “a pessoa”, como ela diz. Haverá alguma intenção nisso? Mero acaso ou decorrência daquela mesma futilidade que vislumbro em sua personalidade?&lt;br /&gt;Esperemos. Ela se despede. O silêncio volta a reinar no ateliê. Como amo minha solidão! Já não me pesa mais, como em outros tempos. Fui muito amada, saciada. Meu corpo e minha alma agora estão em recesso. Hesito em conhecer novas pessoas, elas me solicitam e eu acabo me entregando muito. Sou salva sempre pela fidelidade suprema a minha própria arte. E disso me orgulho.&lt;br /&gt;Entretanto, continuo sonhando com um grande amor, como uma menina-moça. À noite meus sonhos são terrivelmente eróticos e não posso nem contá-los para ninguém. Mas acordada sou romântica, como uma donzela, esta que é a verdade.&lt;br /&gt;Passo a noite sob a influência daquelas palavras: “Uma pessoa! Vou lhe dar uma pessoa de presente!” Porque minha amiga colocou as coisas assim, nestes termos? Estranho... Há algum mistério nisso. Não esperava algo assim de Giulia, afinal, sempre tão previsível... Mas isto?... Será apenas mais uma leviandade dela? Não sei, não faz parte do seu estilo.&lt;br /&gt;No dia seguinte acordo bem cedo e tento me concentrar no trabalho. Até o consigo por algumas horas. Mas o pensamento plantado por Giulia em minha cabeça insiste em instalar-se, incompleto, tomando aos poucos a feição perigosa de uma obsessão.&lt;br /&gt;Jogo os pincéis sobre a mesa, lavo as mãos em solvente antes do sabonete (minhas pobres mãos tão belas e ressecadas por tanta química...).&lt;br /&gt;Deito-me no divã e sonho de olhos abertos diante das minhas telas. Elas sempre me fazem sonhar. É assim que elas voltam a mim desde o seu esboço, quando captadas de algum plano astral, se insinuam, exigem e se mostram. Não faço mais do que obedecê-las.&lt;br /&gt;Afinal, perto da hora combinada, o interfone toca, o porteiro me avisa para descer, que o carro de minha amiga me espera frente ao prédio. Desço, agradeço ao porteiro bisbilhoteiro, que me olha de maneira acintosa sempre que passo na portaria. Esse homem odioso olha-me o traseiro de uma maneira que devia ser proibida. Pelo menos à gente de sua estirpe...&lt;br /&gt;Entro no carro de Giulia, beijamo-nos e “toca para o aeroporto”.  No caminho, Giulia, em silêncio, olha-me de vez em quando, fazendo suspense. De repente diz:&lt;br /&gt;— Amiga, quero preveni-la sobre essa pessoa que vamos buscar. Ela vem especialmente para isso, para lhe conhecer. Falei maravilhas a seu respeito, como artista. Mas fiz também um certo mistério sobre a sua pessoa. Afinal, você também será um presente para ela. Sabe por que? Por isso, minha amiga: Mariliese é a mulher mais bela do mundo! E é uma marchand de mão cheia. Quer conhecer o seu trabalho e talvez levá-la para a Europa, com uma exposição sua, sei lá... Se tudo der certo, como espero. Mas quis prevenir você para que o impacto da beleza de Mariliese não lhe paralise ou tire o seu savoir-faire, se isso for possível. Porque, você vai ver, a reação que ela causa, você poderá observar logo no aeroporto, ao redor. É algo incrível!...&lt;br /&gt;Mais curiosa ainda, e com o coração ligeiramente acelerado por essas palavras, dispus-me a observar. Ia colocar-me na minha posição preferida, de observadora da vida, que sempre me poupa uma parte das emoções dolorosas que a minha sensibilidade tende a me oferecer. (Talvez isso seja desculpa para um certo medo da vida, o que não me impede de meter-me em encrencas, já que a minha curiosidade e sede de viver são bem maiores).&lt;br /&gt;No grande saguão, atrás de vidros, aguardo, como diante de uma vitrine ou palco, a entrada da estrela.&lt;br /&gt;Mariliese entra no saguão e o aeroporto pára. Literalmente.&lt;br /&gt;Olhares se voltam, cabeças se voltam. Mulheres e homens param por alguns segundos. Acreditem, eu observei apesar de estar também paralisada, impactada, deslumbrada. As mulheres em geral, olhavam-na de maneira diferente dos homens. Meio de baixo para cima, ao mesmo tempo que meio de lado. É curioso.&lt;br /&gt;Era alta, como uma deusa, cabelo loiro natural, flamejante como o ouro do Reno, olhos azuis com reflexos de água-marinha, pele clara, corpo perfeito, deslumbrante e andar felino, firme, seguro e ao mesmo tempo deslizante, sem nenhuma oscilação, sem hesitação, como se tivesse nascido em cima daqueles saltos, incorporados pelos seus belíssimos pés. A perfeição, em suma. Um “pacote de inteligência física”, genialidade da natureza, do corpo, da espécie, na expressão de um jornalista.&lt;br /&gt;Pensei imediatamente em Helena de Tróia: “o rosto que lançou ao mar mil navios”. Assim eu também logo não teria mais defesa. Minha posição de observadora caía diante da impossibilidade de crítica. Meu poder de análise estava prostrado subserviente como um súdito diante de sua rainha. Eu já estava apaixonada.&lt;br /&gt;Ela me olhou, sorriu e avançando para mim, seguida por um carregador que lhe arrastava a bagagem como um pagem. Antes mesmo de cumprimentar Giulia, abraçou-me calorosamente dizendo com linda voz cristalina e suave:&lt;br /&gt;— Você é a pintora! Como é bonita! Sei que vou amar sua pintura...”&lt;br /&gt;Por uma fração de segundo eu quis morrer. Como Fausto eu diria ao minuto que passa: “Pára, és tão belo!” E minha alma estaria perdida por vontade.&lt;br /&gt;Senti o calor e o perfume do seu corpo, as batidas do seu coração atrás do volume suave e macio dos seus seios junto aos meus e a seda do seu cabelo no meu rosto, num abraço que me incorporou como uma criança. Tive uma súbita vontade de chorar.&lt;br /&gt;Tinha uma comovida sensação, como uma exilada que reentra em sua pátria, imagino. É isso! A beleza! Ela era a minha pátria. Não, não exagero.&lt;br /&gt;No caminho de volta, Giulia falava pouco, o que era notável. Dirigindo, observava-nos pelo espelhinho do carro, alternadamente, a mim e a outra. Mariliese falava, mas eu já não percebia o conteúdo de suas palavras. Apenas a música de sua voz, que me embalou durante todo o percurso. Sinceramente, não sei o que ela dizia. Seus planos, sua galeria, suas impressões em sua volta ao Brasil? Jamais saberei. Somente o som, as inflexões, o ligeiro sotaque, a música permanecem em mim até hoje.&lt;br /&gt;Giulia deixou-nos frente ao meu prédio. Tinha outro compromisso como buscar uma criança etc. Como ela agüentou a curiosidade? Bem, ela já tinha observado o impacto do seu “presente”, sobre mim, sobre nós. Estávamos entregues por ela, uma à outra. Não, Giulia não era fútil.&lt;br /&gt;Entramos no ateliê. Sua bagagem seguira com Giulia. Ela estava livre. Ao entrar, sorriu diante da placa: “Pintor, pinta!” e passou a mão em minha cabeça, num gesto muito raro entre mulheres adultas. Senti-me como uma menina, com sua aprovação inicial. Continuava com vontade de chorar, mas de estranha felicidade. Aliás, somente a beleza e a felicidade, que para mim são a mesma coisa, me arrancam lágrimas. Sou assim desde criança. Por isso meus familiares diziam: “essa menina é estranha, só chora quando está feliz”. E eu raramente estava feliz. Somente quando ouvia música; Chopin, por exemplo, cuja beleza, e não tristeza, me comovia.&lt;br /&gt;Mas chorava mesmo, copiosamente, de prazer, diante da explosão de alegria de um ser humano puro e ingênuo. Isso me derrotou sempre. Agora derramo lágrimas mais discretas, pelas mesmas razões. “A dor diz: passa e acaba. Mas toda alegria quer eternidade, a profunda eternidade”.  Lembram-se de Nietzsche?&lt;br /&gt;Pus-me, logo, a mostrar-lhe as telas, mas não conseguia quase falar delas, como costumo. Minha atenção reclamava o meu olhar só para ela. Queria absorvê-la, pintá-la na minha alma. Eu a amava já e a amaria para sempre. &lt;br /&gt;Ela percebeu, pegou minha mão trêmula e levou até o seu coração, em silêncio. Estremeci ouvindo com os dedos as batidas.&lt;br /&gt;Sem retirar a mão aproximei meus lábios dos seus e beijei-a trêmula de emoção. Ela me envolveu com seus braços num amplexo de rainha ou de deusa. Assim o senti: E explodi em lágrimas, soluçando. Essa era a “marchande”, ela tinha chegado. Não era filha de Mercúrio, mas de Vênus mesmo. E eu já não queria nenhuma relação comercial: queria amá-la e ser amada por ela. Meu corpo ansiava pelo dela, como a minha alma...&lt;br /&gt;Deixei-me levar por ela em minha própria casa para o meu leito. Ela me conduziu. Seu “animus” era mais forte.&lt;br /&gt;Deitou-me suavemente, despiu-me lentamente. Depois, de pé, sempre me olhando, nua, exposta, entregue sobre a cama, despiu-se por sua vez também devagar, com gestos harmoniosos, como num ritual antigo, sagrado. E apareceu diante de mim em toda a glória de sua beleza radiosa, incomparável. Helena de Tróia! Era ela.&lt;br /&gt;Deitou-se vagarosamente sobre mim e colou sua boca sobre a minha. Seus lábios perfeitos, rosados ao natural, sem batom. Derreti-me toda em líqüidos, perfumes, prazer indizível, entrega absoluta. Senti-me igualmente bela. Ela me amava, eu sentia.&lt;br /&gt;Acordamos afinal, após uma noite de suaves delírios e sono de deusas. “Como é belo o ser humano”, pensei, logo ao despertar. Juro que pensei exatamente isso. Estranho? Não, a felicidade transfigura o mundo, vocês sabem. Fui fazer o café da manhã para nós, para minha deusa. Estava disposta a servi-la, como sua escrava. Não me envergonho disso. Meu amor tinha o timbre da veneração e isso aumentava o meu prazer.&lt;br /&gt;Depois, nuas, tomamos o café da manhã. Brincamos, acariciamo-nos e voltamos a fazer amor. Tomamos banho juntas. Eu queria explodir de felicidade. Não estava mais só. Encontrara minha ânima corporificada. Eu queria tudo. Inclusive pintá-la, fazer o seu retrato, mas não sei se conseguiria algo digno dela.&lt;br /&gt;Ao anoitecer ela me deixou para ir à casa de Giulia, precisava trocar de roupa. Prometeu voltar logo. Despedimo-nos em silêncio com um beijo enquanto ela passava a mão na tabuleta junto à porta. Depois brandiu o dedo com um sorriso. Chamou o elevador e saiu.&lt;br /&gt;Nunca mais a veria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-2558516781305085346?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/2558516781305085346/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=2558516781305085346' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2558516781305085346'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2558516781305085346'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/03/marchande.html' title='A marchande'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-4099949158335666171</id><published>2008-03-25T07:53:00.000-07:00</published><updated>2008-03-25T07:54:24.310-07:00</updated><title type='text'>O sedutor</title><content type='html'>(dos Contos Secretos de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             Rôdo convidou um amigo francês, que conheceu em Paris, que é um bom filósofo e escritor, inédito, segundo meu irmão. Para sobreviver, esse francês trabalha numa livraria como simples vendedor, embora seja um homem de grande cultura. Isso me fez pensar na diferença entre os nossos países, pois aqui os livreiros parecem não ler nada, tal como os editores. &lt;br /&gt;            Mathieu chegou à estância num fim de tarde, tendo Rôdo e eu ido buscá-lo na estação. É um homem interessante, com rosto tipicamente francês, com um grande e belo nariz, e testa ampla. Um tipo de intelectual, com um olhar inteligente, que não se encontra facilmente por aqui. &lt;br /&gt;           O francês botou esse olhar agudo sobre mim, logo de saída, como um estudioso, ou teórico da beleza feminina, e pôs-se logo a filosofar sobre o tema. Ah! O mistério da beleza, dizia ele, “o eterno feminino” goetheano, era a  motivação maior de toda a literatura, a seu ver. Apenas dez por cento dos livros editados tratavam de outros temas, como política, violência, guerra, crime e auto-ajuda. É claro, ele exagerava, e percebia-se sua tendenciosidade com vias a lisonjear-me, como um plano de sedução, indireto, paciente, em seu primeiro estágio. Os franceses são mestres da sedução, tradicionalmente. Lembrei-me das “Liaisons dangereux”, de Choderlos de Laclos, e resolvi deixá-lo tentar me conquistar, sem sabotá-lo, mas avaliando cuidadosamente seus passos, suas palavras. &lt;br /&gt;              Entretanto, devo reconhecer que no verdadeiro processo de sedução, não há esse recurso, essa prerrogativa. A arte consiste em minar as defesas, sutilmente, da vítima ou alvo desses esforços, que logo se vê à mercê, como uma ovelhinha diante do lobo, ou a mosca diante da aranha, sem falar da rã diante do olhar mesmérico da serpente.&lt;br /&gt;               Pois foi o que começou a acontecer, comigo, apesar de estar tão prevenida. Mas quem, na verdade, não quer ser seduzido nesta vida? Ah! A volúpia de ser enredada, envolvida, e finalmente tomada, invadida, possuída! Eu pagaria para ver-me assim.&lt;br /&gt;              Mas logo, e ainda nos primeiros dias de sua estadia, o francês mostrou-se estranhamente desinteressado, tranqüilo, como se tivesse perdido o interesse por minha pessoa. Eu fiquei inquieta. De novo, entretanto, ele recomeçou o seu cerco, displicente, esse era o seu charme, como se estivesse muito acostumado a encontrar moças com o meu “tipo”. Comecei a ficar insegura, depois indignada. Voltava ao meu quarto, desabafando, falando sozinha ao espelho, contra aquele blasé, que me insultava com sua negligência, como se eu fosse uma mulher comum, igual às outras. Então esse machista não percebia que sou uma artista, e uma “musa”? Eu ria também, às vezes. &lt;br /&gt;          Mas eu era continuamente obrigada a reconhecer a inteligência, a sagacidade, e mesmo a originalidade da maioria de suas observações. Elas eram indescritíveis, por isso não vou reproduzi-las aqui. Ou eu já estaria sob o efeito de sua sedução, que me fazia perder o critério? Eis aí uma questão...&lt;br /&gt;         Então, ele finalmente atraiu-me ao galpão, meu próprio galpão de feno, ferramentas e arreios. E ali, ele não precisava mais de palavras, eu estava à sua mercê. Diante dele, no silêncio daquela vetusta construção de madeira, invadida pelas réstias de luz, com sua poeira dançarina, deixei cair meu vestido, e eu já estava previamente livre da calcinha, que não vestira prevendo este momento. E permaneci extática em sua frente, de pé, tangida pelos fachos de luz como numa gaiola baconiana”*, mas que contivesse uma odalisca de Ingres, nua, de pé. &lt;br /&gt;          Mathieu, parado, sem pestanejar, olhou-me longamente, depois abaixou-se, pegou o meu vestido e entregou-me, pondo-o na minha mão, que pegou delicadamente. Disse apenas:&lt;br /&gt;          —As deusas e as ninfas não são para serem tocadas. A verdadeira beleza é intangível, pois sagrada. Eu u te reverencio, Alma, mas não sou digno de tua beleza. Prefiro levá-la assim, na minha memória para sempre, com esta suave dor do impossível.&lt;br /&gt;             E afastou-se, enquanto o meu coração, confuso, se apertava, com a consciência súbita de minha solidão, de minha trágica condição de mulher inatingível no cerne de sua beleza, fugaz e eterna como o pó que dançava na luz.          &lt;br /&gt;                                   ______________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota*:  “gaiola baconiana – Alma  assim designa aqueles enquadramentos cúbicos de traços luminosos sobre as figuras do grande pintor irlandês Francis Bacon.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-4099949158335666171?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/4099949158335666171/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=4099949158335666171' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4099949158335666171'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4099949158335666171'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/03/o-sedutor.html' title='O sedutor'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-2415663606265963128</id><published>2008-03-25T07:30:00.000-07:00</published><updated>2008-03-25T07:31:17.615-07:00</updated><title type='text'>O adolescente</title><content type='html'>(dos contos Pampianos  de alma Welt )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    Patrícia, minha sobrinha, traz amigos para um feriado prolongado em nossa estância. Entre eles, o seu namoradinho, que veio acompanhado de um colega, um guri menos tímido que ele, com um charme precoce, irresistível. Um malandrinho, que logo de saída botou os olhos sobre a tia Alma aqui. No início tive vontade de rir, com as manobras do rapazinho para chamar-me a atenção, mas confesso que o guri é jeitoso, e não desastrado como costumam ser os adolescentes. Admirei-me de ver que os seus gestos, movimentos e pequenos ardis para me cortejar, eram encantadores, com um timbre precoce e sobretudo competente. Alair é um portento social, e me admira que todas as gurias não estejam apaixonadas por ele. Talvez isso aconteça por não ser facilmente compreendido, e sua sofisticação não ser atingida pelos guris e gurias de sua idade, que o consideram estranho. Será certamente um diplomata, um espião ou aventureiro internacional, no futuro, é o meu prognóstico, um tanto infantil, na verdade, reconheço.&lt;br /&gt;             O guri faz-me a corte, trazendo-me taças de vinho branco gelado, uma maçã polida como um espelho, ou um buquê de flores bastante bem composto, colhido por ele, muito eficaz, vocês sabem, com as mulheres. Achei graça no início, mas o belo jovem procura esmerar-se em seu charme, e começo a reparar em seus olhos, seu nariz, sua boca, e sobretudo seu cabelo, tão bonito. Além disso é alto e magro, o que é meio caminho andado, ao meu ver.&lt;br /&gt;          Uma manhã, enquanto passeava no jardim com Patrícia, o jovem galã se aproximou e disse, surpreendentemente:&lt;br /&gt;             —Patrícia, peço-te o favor de me deixares um instante a sós com tua tia, pois tenho de falar-lhe em sigilo. Pode ser, minha amiga?&lt;br /&gt;           Espantei-me mais uma vez com a sua segurança, seu aplomb. Patrícia deu-me um beijinho no rosto e afastou-se com naturalidade. Eu olhava para Alair , intrigada.&lt;br /&gt;          —Senhorita Alma, quero fazer-lhe uma proposta. Meus pais têm uma estância, em Livramento, e temos um problema: a beleza nos abandonou, há coisa de cinco anos, e tudo se desarranjou por lá. Não há flores, as árvores, antigas, têm cupim e estão morrendo. A piscina tem limo e ninguém quer entrar nela. A casa é triste apesar de ter sido bela no passado. Os quadros são retratos escuros, e parece um museu tenebroso, ou a pinacoteca do solar de Usher. Entretanto eu te garanto que não há fantasmas por lá, pois tenho a certeza que tua alegria e beleza salvariam nossa estância dessa espécie de maldição que a assola. A falta de motivação de beleza é o seu mal. E a senhorita seria a sua cura, rápida, tenho certeza. &lt;br /&gt;                Fiquei boquiaberta, jamais poderia esperar um galanteio tão elaborado e requintado, da parte de um adolescente, mesmo como esse. Não sabia se ria, ou se levava a sério. Seria verdade essa estória quase gótica, ou tudo não passaria de imaginação de um guri bem dotado, uma artimanha criativa, de um jovem inteligentíssimo, embora imaturo?&lt;br /&gt;              –Alair, estou surpresa. Essa estória é muito estranha. Queres que eu devolva a beleza à sua estância. Alguém tem esse poder? Não estás sonhando, meu jovem? E teus pais, sabem disso. Tua mãe por acaso quer redecorar o “castelo”? Não sou decoradora, sabes muito bem, e sim artista plástica (eu me fazia de desentendida, pois aceitar o sonho desse menino, era cair na sua incrível armadilha, de um requinte inacreditável de imaginação).&lt;br /&gt;              —Não, senhorita Alma, creio que não entendeste a minha proposta.  A senhorita nada teria que fazer, nem sequer um conselho ou uma sugestão. A senhorita apenas se hospedaria em nossa casa e passearia por lá, dentro e fora da casa. Só isso. Tenho a certeza que a beleza voltaria aos poucos ao nosso lar, a começar pelos corações e mentes dos meus pais, que a esqueceram, faz tempo. Tenho absoluta certeza da eficácia do meu plano. &lt;br /&gt;               Eu estava estupefata. Creio que corei. Esse guri me atingira em cheio. A sua idéia era... incrivelmente poética. Passei a mão no seu rosto imberbe, olhando-o fundo nos olhos. Ele nem pestanejou. Esse menino soberbo. Eu afinal fiquei confusa, e hesitei: &lt;br /&gt;                —Alair, Alair, tu és surpreendente, meu guri. Não estás brincando comigo? Olha que não se faz isso com uma moça... Tua proposta é bela e me lisonjeia demais. Passear por lá... como uma “fada primavera”, daquelas da suíte Quebra-Nozes, hem? Seu safadinho, tu queres te divertir às minhas custas, ou tens uma alma parecida demais com...a minha. Isso é, de todo modo, .incrível!.&lt;br /&gt;                 —Alma—( ele parou de usar o senhorita)—Não custa nada pensar. Minha proposta é séria. Amanhã terei que voltar à minha estância, e queria submeter essa proposta aos meus pais, que certamente a aceitarão, principalmente se levarmos Patrícia e meu amigo, como pretexto. Eles ficarão mais tranqüilos se formos nós quatro, como retribuição à magnífica hospedagem que vocês nos proporcionaram.&lt;br /&gt;               Eu fiquei olhando o rosto de Alair, boquiaberta, enquanto ele se afastava, estranhamente seguro de si, como sempre. &lt;br /&gt;        .............................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            No dia seguinte, de manhã bem cedo, eu já tomara minha decisão, depois de uma estranha noite, agitada, de sonhos intrigantes que se passavam em salões e corredores de um castelo, que certamente fora evocado pela minha imaginação, pela sugestão de Alair, e à descrição de sua casa. No meu sonho os jardins, de árvores e arbustos secos, retorcidos, floriam à minha passagem, e os quadros sombrios dentro da casa, brilhavam mais coloridos ao meu olhar sobre eles.&lt;br /&gt;              Esperei por Alair, à mesa do café da manhã, e ele logo apareceu com a sua mochila de viagem, para tomar a refeição matinal antes de partir. Saudou-me com naturalidade, enquanto eu sondava seu rosto para ver se encontrava ali alguma marotice. Não, esse guri era absolutamente honesto, embora galante. Tomamos o café em silêncio, enquanto eu o servia com esmero, passando patê em suas torradas, fazendo um café com leite e até sugerindo-lhe um chimarrão, que ele recusou.&lt;br /&gt;           —Alair, já tenho a resposta para ti—(eu subitamente disse, sem que ele me cobrasse).&lt;br /&gt;           —Sim, Alma, qual é?&lt;br /&gt;           –Alair, pensei muito, e descobri que a tal proposta que me fizeste só poderia nascer na mente de um poeta. E cabe a esse poeta, portanto, devolver a beleza à sua estância. Só os poetas têm esse poder. E se és, como penso, filho da poesia, saberás fazê-lo por ti mesmo. E quando conseguires, pela tua bela alma, pela criatividade maravilhosa de tua mente e pela pureza evidente do teu coração, me convidarás então a visitar-te, para fruir o teu belo castelo e os jardins floridos de tua alma, que estarão em volta de ti , para sempre. Espere-me lá, quando o teu cenário ideal estiver pronto. Eu passearei com Patrícia e teu amigo, felizes os quatro, lá, quando chegar esse tempo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-2415663606265963128?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/2415663606265963128/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=2415663606265963128' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2415663606265963128'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2415663606265963128'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/03/o-adolescente.html' title='O adolescente'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-6080298534816126985</id><published>2008-03-23T07:34:00.000-07:00</published><updated>2008-03-23T07:36:09.660-07:00</updated><title type='text'>O colecionador</title><content type='html'>(Conto de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminei meu primeiro auto-retrato, no qual trabalhei muitos meses. Estou tremendamente satisfeita com o resultado. Consegui captar a mim mesma por fora e por dentro e ainda saí      lisonjeada com isso, surpreendentemente.&lt;br /&gt;O mistério de um retrato pintado, quando ele é uma obra de arte, é a sua autonomia e, às vezes, crueldade. O espelho de vidro só nos devolve o que queremos, mas a pintura estará sempre diante de nós como um olhar, não como uma coisa olhada. &lt;br /&gt;Acabo de pendurá-lo na galeria, a pedido do meu marchand. O quadro tem me rendido elogios rasgados, a começar pelos do próprio dono da galeria, e, com o seu entusiasmo, não será difícil conquistar clientes para novos retratos.&lt;br /&gt;Passados alguns dias, recebo a visita de um homem que se diz colecionador e que viu o retrato na galeria, ficando muito impressionado. &lt;br /&gt;Homem insinuante, de um charme vagamente suspeito, jovem, mas de têmporas brancas. Um homem belo, na verdade um tanto misterioso. Diz ter-se apaixonado pelo quadro e que quer adquiri-lo para sua coleção. Teve a franqueza de dizer-me não estar seguro de que a poderosa impressão que lhe ficou do quadro não se deva à beleza da modelo sobrepondo-se à da pintura.&lt;br /&gt;Não apreciei o comentário e protestei em defesa da minha pintura em si, e declarei não estar interessada em vendê-lo e que o quadro estava exposto a instâncias do marchand para render eventuais encomendas.&lt;br /&gt;O colecionador, que se chamava Aldo, desculpou-se prontamente, desdizendo-se. Disse estar arrependido do comentário, que sabia que os pintores são muito suscetíveis sobre sua arte. E que sua intenção fora fazer um despretensioso galanteio, uma pequena fraqueza diante de uma mulher bonita (ele insistia  com aquilo...).&lt;br /&gt;Revelou-se um homem hábil retirando-se rapidamente, a pretexto de compromisso urgente de trabalho. Plantara sua semente de tentação (devia pensar) e só lhe restava esperar. Era isso, deduzi.&lt;br /&gt;Tentei não pensar mais nele. Era caso encerrado. Sua proposta não estava em linha de conta. Quanto a uma encomenda, ele não fizera nenhuma...&lt;br /&gt;Retomo o meu trabalho e, sentindo a necessidade de desenhar, lanço sobre a prancheta na horizontal dois desenhos simultâneos, a pincel, com a técnica Zen, que venho desenvolvendo. Diante dos meus olhos surge um espantoso duplo retrato de alguém desconhecido. Um dos desenhos, o da esquerda, representa uma mulher bela, exótica, com seus olhos rasgados e ligeiramente prognata. Um rosto característico, marcante, desconhecido. Está seminua, no ato de tirar a roupa. O desenho da direita representa um fauno, com chifres enrolados na testa, e o peito peludo, mas com exatamente o mesmo rosto do primeiro desenho, só que em outro ângulo. Isto é surpreendente, pois ao nível da razão, este pincel, de cerda fina e comprida, manejado na vertical, é incontrolável. Ao nível dos reflexos, flui o inconsciente profundo, e os arquétipos se projetam sem bloqueio.&lt;br /&gt;Dois dias depois, toca a campainha em meu ateliê e, abrindo a porta, deparo-me com um casal desconhecido. Ele, homem ainda jovem, com ar intelectual, declara-me que acaba de sair da galeria tão siderado com o meu retrato, que, pegando meu endereço com o marchand, veio direto ao meu ateliê com a intenção de encomendar-me o retrato de sua mulher.&lt;br /&gt;Olhei-a, então, tive um arrepio, mas calmamente disse-lhe: &lt;br /&gt;— Entrem, o retrato está pronto...&lt;br /&gt;Confusos, sem entender, acompanharam-me ao ateliê, onde mostrei-lhes sobre a mesa o duplo retrato em desenho. Estávamos os três perplexos. A semelhança era absoluta e o fauno, no mínimo, a reforçava. Por uma fração de segundo, percebi no olhar do rapaz, que deslocou-se rapidamente de mim para sua mulher, uma instantânea suspeita que se desvaneceu.&lt;br /&gt;Disse-lhes que não se chocassem, que isso era um fenômeno possível, embora raríssimo, quando se desenha assim, com a “mente em branco”, sob os reflexos da alma.&lt;br /&gt;Acabei por presentear o casal com o par de desenhos, e eles saíram encantados. Um dia haveriam de ser meus amigos.&lt;br /&gt;Mais alguns dias se passaram e Aldo voltou a procurar-me. Dizia não estar conseguindo dormir à noite, assombrado pelo meu retrato com o qual sonhava. Tinha de possuí-lo, dizia, ou acabaria definhando.&lt;br /&gt;Após muita conversa, em que mostrou-se encantador, pois comentava os quadros que via à sua volta, com interesse e paixão, estava começando a amolecer-me. O que um pintor não suporta é a visita que não olha para as paredes, concentrando-se apenas na conversa com o dono da casa, no caso um artista que fala através dos seus quadros. É quase ofensivo, e o pintor certamente não abrirá mais a sua porta para um tipo assim. Mas Aldo revelou-se o contrário, atestando sua verdadeira paixão pela pintura. Comecei, pelo meu lado, a prestar mais atenção nele. Percebi-lhe um quê de menino grande, apesar do seu toque misterioso e das suas têmporas brancas. Na verdade, o processo de sedução começara sem eu perceber, ai de mim!...&lt;br /&gt;Daí por diante, Aldo apareceria quase todos os dias. Sua intenção parecia ser acostumar-me com sua proximidade. De fato, às vezes passava rapidamente no horário do almoço, dizendo querer ver o que eu andava pintando. Era cuidadoso com as palavras, julgando-me ser mais melindrosa do que eu realmente era. Mas pequenas amabilidades me pegavam, como flores, cartões delicados, pequenos presentes sugestivos. Um dia convidou-me para ficar uma semana em seu sítio. Passaria dentro de uma hora para buscar-me. Como não perco oportunidades de curtir a natureza, estava pronta quando o interfone tocou. Lá fui eu com a minha sacola, passando pelo zelador invejoso que pareceu encolher-se ao ver o Jaguar de Aldo, azul como um cometa, e só teve tempo de estender-me o boleto do condomínio atrasado.&lt;br /&gt;Chegamos, depois de uma agradável viagem no carrinho aberto, sob um céu maravilhoso, a um sítio encantador, um verdadeiro paraíso.&lt;br /&gt;Ao entrar na bela casa térrea, espaçosa e de madeiramento à mostra, encantei-me com vê-la forrada de quadros primitivos, lindos, de alta qualidade: José Antonio da Silva, Poteiro, Agostinho, Dila etc. e um maravilhoso Miguel dos Santos, pintura e cerâmica. Aldo realmente estava me cativando. Levou-me até o seu quarto, que parecia esperar por mim, com as minhas cores preferidas nos lençóis e cortininhas das janelas, sem falar nas flores sobre a cômoda, um maravilhoso buquê de flores do campo.&lt;br /&gt;Esqueci de dizer-me que Aldo era solteiro e que seu passado era um mistério, pois não se referia nunca a pai, mãe ou parentes. Tinha brotado da terra, brinquei com ele, sem que protestasse por essa expressão...&lt;br /&gt;Passamos um dia agradabilíssimo, entre árvores e flores, e à beira da piscina. Ao vestir meu biquini, percebi-me intimidada, como se fosse ficar nua, coisa que me intrigou ao mesmo tempo. Por que será que tive estes escrúpulos? Meu corpo é tão belo que nunca antes tive esse receio. Será que é porque insisto em ser vista apenas como artista por este colecionador arguto? Mas aquelas flores e cartões? Não sei...&lt;br /&gt;Como sou muito branca, evito queimar-me ao sol. Mergulho na piscina e logo ponho uma saída de banho e óculos escuros. Aldo observa-me com um olhar examinador. Logo a caseira chama-nos para o almoço. A comida é deliciosa e exatamente do meu gosto. Elogio a caseira, que se chama Mariana, mulher de uns quarenta anos, com um rosto forte, mas que se move como uma sombra, sem ruído. Ela olhou-me profundamente com um ligeiro sorriso e pareceu-me querer falar comigo mais tarde, eu percebi.&lt;br /&gt;Quando Aldo, após o almoço e uma agradável palestra, pediu licença para uma sesta, aproveitei para procurar Mariana na cozinha. A sombra se revelou ponderada e sábia, mas tudo o que queria era sondar-me como uma possível noiva para o seu patrão, cuja solidão a preocupava. Ela o acompanhava há muito tempo, vinda de uma sua fazenda que nem sequer mencionara em suas conversas. Disse-me também que o seu patrão era um homem muito bom, mas realmente ninguém, nem ela mesma, conhecia a sua origem.&lt;br /&gt;Mais intrigada que nunca, retirei-me para o meu quarto para ler e escrever o meu diário, amplamente desenhado. Escrevi: “Querido diário (resquício da infância...), estou embevecida, mas curiosa com esta minha estadia, neste sítio onde tudo é perfeito, e as flores parecem não murchar. Mariana move-se como uma sombra, diligente e hábil, mantendo tudo limpo sem que eu a veja trabalhar ou mesmo cozinhar. Este pequeno paraíso está me envolvendo e neste momento ouço as músicas de minha preferência, baixinho, vindo não sei de onde. Um piano tocando Satie suavemente... Agora a Pavane, opus 50 de Gabriel Fauré. Estou sendo seduzida, suspeito..&lt;br /&gt;No segundo dia, a procissão de prazeres se sucedeu novamente. Aldo resplandecia cada vez mais bonito, logo ao amanhecer de traje de montaria, chibata na mão convidando-me para cavalgar. Disse-lhe que não tinha um traje de montaria, à sua altura. Ele então levou-me até um armário e tirou um belo culote feminino, botas de montaria e até um bonezinho inglês. Disse que nunca tinham sido usados, e que ele os comprara pensando apenas numa hóspede especial. Vesti-os (eles me serviram como uma luva) e saímos para montar nos belos cavalos puro-sangue. Enfim, tudo muito perfeito, a ponto de me inquietar.&lt;br /&gt;No meio de um bosque, cheio de cogumelos, samambaias, flores e tantas maravilhas que não me admiraria de avistar um unicórnio, apeou e, colhendo uma magnífica orquídea, colocou-a no meu cabelo. Ficamos nos olhando um pouco, quando subitamente meu cavalo assustou-se com o gesto de Aldo, de tirar os óculos escuros, e saiu galopando comigo, de volta à casa. Ele nos alcançou e, segurando a rédea do meu cavalo que queria empinar, domou-o e retirou-me da sela com uma força e destreza impressionantes. Permaneceu segurando-me a cintura por um momento, como se estivéssemos num filme americano dos anos 40. Desvencilhei-me com delicadeza e fui acariciar o focinho do meu cavalo para acalmarmo-nos.&lt;br /&gt;Daí por diante, todos os dias algum incidente inquietante interpunha-se aos arroubos do meu hospedeiro. Ele começou a ficar impaciente e armou um estratagema para capturar-me pela curiosidade. Disse-me que o procurasse no escritório do chalé contíguo à casa, à meia-noite, que me mostraria algo que me interessaria muito. O segredo da sua origem me seria revelado, em confiança. Não pude sossegar até a hora aprazada. Perto da meia-noite, entre o ruído dos grilos e o coaxar dos sapos, atravessei o jardim com um candeeiro na mão e penetrei no chalé, que estava estranhamente às escuras.&lt;br /&gt;Apenas a lareira crepitava na sala, com sua luz bruxuleando nas sombras. Percebi ser um chalé de caça, coisa que me desagradava. Não suporto ver uma cabeça empalhada de animal. Parece-me uma desumanidade. Ou se trata de humanidade mesmo? A perfeição se quebrava ali. A escuridão e o silêncio do chalé também me atemorizavam. O que Aldo pretendia, assustar-me? Tateando, apesar da lanterna, encontrei um quarto contíguo, tive medo de transpor a porta, temia ser agarrada por alguém. Mas a luz da lanterna caiu sobre um leito e lá estava ele, Aldo, dormindo, nu, extraordinário em sua beleza corporal, que eu não tinha percebido totalmente até então. Suas formas eram tão perfeitas, sua pele tão clara e homogênea que não se viam pêlos, manchas ou uma pinta sequer. O semblante sereno, seus cabelos encaracolados levemente brancos nas têmporas, brilhavam sob a luz do meu lampião. Não era musculoso demais, como sua força me fizera imaginar. A harmonia que irradiava dele inebriou-me e, aurindo seu perfume de homem, desequilibrei-me e caí sobre o seu peito, tocando o vidro quente do lampião em seu ombro. Ele deu um pulo e um grito, assustado, e agarrou-me no escuro. Em menos de um segundo, sua boca estava colada à minha e, virando-se por cima de mim, jogou-me na cama quente, cobriu-me com seu corpo e engolfou-me toda. Não custou a desvencilhar-me do peignoir leve, e penetrou-me até o êxtase. Durante uma eternidade de prazer fui imortal em seus braços ou então morri neles, não sei. Ao alvorecer, acordei sozinha no leito e, vestindo o peignoir, saí para procurar Aldo. Esperava encontrá-lo na cozinha pelo menos, ou catando flores para mim, como seria de seu feitio, mas não o encontrei em lugar nenhum. A casa estava vazia. Encontrei Mariana, a sombra, que interpelada disse-me que não me estava entendendo, que eu viera sozinha para este sítio. Há uma semana seu patrão lhe tinha telefonado de São Paulo, recomendando-lhe cuidar, “como se fosse sagrada”, da hóspede solitária que chegaria. E que quando eu quisesse ir-me, me acompanhasse até a aldeia e me pusesse no ônibus.&lt;br /&gt;Fiquei absolutamente perplexa, confusa, revoltada. Uma angústia apertou-me o peito como uma saudade! E Aldo, onde estava ele? Mariana não respondeu, preparando o café. Disse então: &lt;br /&gt;— Dona Alma, a senhora devia estar acostumada. As coisas com a senhora se passam assim... Há coisas que não convêm sondar demais... A senhora não gostou da estadia?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-6080298534816126985?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/6080298534816126985/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=6080298534816126985' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6080298534816126985'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6080298534816126985'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/03/o-colecionador.html' title='O colecionador'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-231025547198783522</id><published>2008-03-15T08:17:00.000-07:00</published><updated>2008-05-16T06:04:10.035-07:00</updated><title type='text'>Alma e o lobo</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SC2FzSK3YvI/AAAAAAAABD8/x3e1UpvGQz8/s1600-h/AAAA+ALMA+E+O+LOBO+X.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://4.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SC2FzSK3YvI/AAAAAAAABD8/x3e1UpvGQz8/s320/AAAA+ALMA+E+O+LOBO+X.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5200960260780024562" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Alma e o lobo- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 150x150cm, coleção do pintor, São Paulo, Brasil&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(dos Contos Pampianos de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              O Pampa sempre foi para mim uma caixa de surpresas. O elemento insólito está presente no meu cotidiano, embora essa impressão não seja compartilhada pelas pessoas que me cercam, a quem a monotonia do cotidiano é especialmente cara. A passagem muito lenta das horas e dos dias, e o vento constante, os embalam numa doce e aconchegante existência pressuposta, ou melhor, previsível, que lhes dá segurança, mesmo ao mais valente peão, macho, laçador, e contador de vantagens. Mas vou lhes contar, meus queridos leitores, a pequena aventura que tive aos dezessete anos, quando passeava sozinha pela minha amada pradaria, um tanto distante do nosso casarão. &lt;br /&gt;               O dia estava magnífico, era primavera e as florinhas do campo me atraíam para cada vez mais longe à medida que as colhia fazendo um farto buquê, pousado em meu braço esquerdo. Então, subitamente me veio aquela vontade de ficar nua, que vocês já conhecem e que aparece em mim sempre que me vejo só.  Ultimamente me ocorreu que isso acontece justamente por causa de vocês, meus leitores. Devo ser uma exibicionista...&lt;br /&gt;             Uma vez despida, com meu vestido longo abandonado sobre a relva, eu continuei a caminhar com uma nova volúpia, que me era tão conhecida e que para mim sempre rimava com o ato de colher flores, e de coroar-me com elas, pensando talvez na deusa primavera do quadro de Boticelli, embora, no quadro do Ufizzi, ela esteja vestida de maneira diáfana. Foi então que aconteceu.&lt;br /&gt;              De repente, senti uma presença atrás de mim, e voltando-me topei com a maravilhosa figura de um lobo guará, fulvo, de longas pernas, rosto de raposa, e olhos quase doces, embora atentos. Fiquei imóvel, encantada, e por alguma razão, sem medo algum, estendi lentamente o braço para ele, girando mais lentamente ainda a palma da mão para cima num gesto de convite, que ele acompanhava atentamente, não sei se temeroso, ou simplesmente curioso. Então permaneci muito tempo nessa posição, imobilizada, com a respiração lenta e suave, que depois eu entendi, era o motivo da aproximação, da atração que eu despertara no animal. A ausência de medo em mim o atraíra, também sem medo, senão confiante. Minha beleza muito alva... não, não falarei nela. Seria ir longe demais nas conjeturas. &lt;br /&gt;                 Foi então, que o mais surpreendente se deu. O guará se aproximou lentamente com o pescoço estendido, com passadas quase felinas, e ergueu o focinho para cheirar a minha mão, que eu supunha, recendia à flores. Meu coração acelerou-se ligeiramente, e meu seio palpitou, ofegante de emoção  em que me vi, afinal, com aproximação de seu focinho negro e de sua boca, de minha alva e delicada mão.  O belo animal, a farejou e, acreditem, deu-lhe uma única e doce lambida! Depois aproximou-se mais ainda, enquanto eu me curvava para ele e... auriu os meus seios! Minha emoção então atingiu o auge, mas numa alegria que me acompanharia por muito tempo. Ele se afastou, a seguir, dando-me as costas, e partindo num trote tranqüilo, enquanto eu o seguia com o olhar, muito tempo, até ele sumir no horizonte.&lt;br /&gt;                 Procurei meu vestido e com uma sensação de plenitude, como... de uma  noiva após as bodas, voltei ao casarão, para contar somente ao Rôdo, a minha aventura.   Mas, no caminho, com um sorriso, me ocorreu que nem ele, o amado irmão de minha alma, acreditaria nela. &lt;br /&gt;                Ah! Pampa, pampa de minha vida! O quê, de mais belo, me reservarás?&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;                                   ____________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;30/10/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E o lobo veio a mim&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continuação de Alma e o lobo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matilde foi a primeira a dar o alarme. Tinha um lobo guará rondando o nosso casarão, e havia sumido uma galinha. Logo foram encontradas suas penas e outros vestígios de devoramento. Imediatamente me pus em defesa do lobo. Devia ser o meu guará, eu o conhecia, sim, só podia ser ele. Quem leu a minha crônica (dos Contos Pampianos) “Alma e o lobo”, que coloquei há uns meses aqui no Recanto, sabe do que estou falando. Meu querido lobo, aquele que farejou a minha mão e... o meu seio nu. Ele era meu desde então! Que ninguém tocasse nele! Matilde abanou a cabeça, dizendo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; –Alma, Alma, agora essa! Atraíste o lobo para cá, não é? Com o teu cheirinho, princesa? Só tu mesma, guria. E agora como vamos fazer para proteger as galinhas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu disse: –Matilde, nem que o lobo comesse o galinheiro inteiro! Ele é intocável, não sabes? Ele é um animal magnífico, raro e defendido pelo Ibama. Já ouviste falar disso, cumadre? (eu chamo Matilde de “cumadre’, quando quero censurá-la).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;–“Ibama ou não Ibama, afasta o lobo da tua cama”, diz o povo, sabias? (Matilde era rápida e sempre admirei o seu dom de improviso. Desta vez foi admirável, pois era evidente que ela inventou aquilo na hora, e eu caí na gargalhada, abraçando-a ).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matilde sentiu inconscientemente a alegoria daquele lobo rondando a Alma aqui, desde que contei a ela, há meses, o episódio a que me referi. Eu agora devia afastar o lobo ou domesticá-lo. Isso! Seria possível? O guará é tímido demais, e tido, por isso, como animal covarde, arisco, que nunca se aproxima dos humanos. Pobre animal. Ainda assim responsabilizado como predador de ovelhas e galinhas foi quase dizimado e está em vias de extinção. Galdério e uns peões já falavam em caçar o bicho e eu percebi a animação dos “machos” quando se trata de caçar um “predador”. De igual para igual... E eu tinha, pois, que salvá-lo. Eu declarei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;–Que ninguém ouse matar esse animal. Vai ter que se haver comigo. Ele é meu! Veio me procurar e só comeu uma galinha porque está com fome e ela estava no seu caminho. Vocês vão ver: esta noite eu o esperarei na pradaria, no limite do jardim. Vou fazer serão ali, vou fazer fogo, levarei chaleira, bomba, cuia e mate, e ficarei sob o meu pala, se esfriar. Ninguém se aproxime... vou conversar a sós com o meu guará .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matilde só abanou a cabeça, e Galdério tocou a aba do chapéu, como quem acata uma ordem. Tudo certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite eu fiz o meu “fogo de bivaque” e tomei meu chimarrão, esperando meu lobo. E, como eu acreditava, ele veio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproximou-se lentamente, os olhos brilhando tão intensamente no escuro, que a princípio tive medo, pensando tratar-se de um outro, feroz, lobo-mau mesmo. Mas a curta distância, quando eu estava prestes a vergonhosamente correr (ó mulher de pouca fé) eu o reconheci. Em lágrimas de alegria estendi os dois braços para ele, que ficou muito tempo parado, me pareceu, depois se achegou lentamente e deixou-me tocá-lo. Eu acariciei sua cabeça, seu pescoço, seu lombo. Ele deixou, imóvel. Então eu o abracei, sua cabeça junto ao meu seio. Ele fechou os olhos profundamente e eu... tive uma imensa alegria, mista de ternura, um êxtase tal que se confundiu com um orgasmo... da alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois eu beijei o seu focinho, ele lambeu meu rosto como um cão fiel e amoroso. Eu tinha ganho a minha noite, o meu dia, o meu mês. Que digo? Meu lobo me consagrara no seu Pampa, príncipe das pradarias que ele é, apesar da injusta fama de covarde e ladrão de galinhas. Ele era o meu príncipe. Ai de quem ousasse fazer-lhe mal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi preciso dizer isso quando voltei para dentro da casa, com todos me esperando. Meu olhar, meu corpo, meu aspecto diziam tudo. Nunca mais tocariam no assunto de caçar um lobo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as espingardas não saíram das paredes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-231025547198783522?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/231025547198783522/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=231025547198783522' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/231025547198783522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/231025547198783522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/03/e-o-lobo-veio-mim.html' title='Alma e o lobo'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SC2FzSK3YvI/AAAAAAAABD8/x3e1UpvGQz8/s72-c/AAAA+ALMA+E+O+LOBO+X.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-4247035026253275422</id><published>2008-03-14T09:01:00.000-07:00</published><updated>2008-03-15T03:43:46.304-07:00</updated><title type='text'>Pernoite</title><content type='html'>(crônica de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o sol se põe aqui no Pampa eu me sento na varanda e fico toda uma hora em silêncio a observar os tons que se sucedem com espantosa sutileza para o olho apurado que pretendo desenvolver (se é que isso é possível) para a minha pintura. Digo isso porque a verdade é que minha intimidade maior, desde a infância, é com as letras, isto é, com as palavras e o pensamento poético. E talvez também com a música.&lt;br /&gt;Mas hoje fui interrompida pela chegada de um peão desconhecido, homem maduro, de grandes bigodes grisalhos caídos e olhar penetrante. Aproximou-se no seu cavalo a passo, lentamente, e pôs-se bem diante de mim, que não me levantei da cadeira de balanço, e saudou:&lt;br /&gt;- Buenas! É a dona Alma, pois não? Já ouvi falar da patroa... coisas boas, se me permite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Buenas- respondi.- Em que posso servir vosmecê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O peão pareceu quase surpreso da minha boa acolhida motivada principalmente pelo seu “coisas boas” que me comprou de saída.. Então apeou com calma, tirou o chapéu e continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois bueno, patroa, meu nome é Mateus, preciso de guarida, um pernoite somente, pois amanhã uns pau-mandados me alcançarão se não partir bem cedo. Querem a minha pele, a senhora já viu. Estou na dianteira, mas já semeei uns dois ou três pelo caminho, que me mordiam os tacões. Quero evitar plantar alguns nestes prados pra não “le” dar aborrecimento, que a patroa não merece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpresa por minha vez, hesitei um pouco,  mas retruquei:&lt;br /&gt;- Está bem, Mateus, tua franqueza já ganhou a minha acolhida. Vá procurar o Galdério que ele te mostrará o galpão onde poderás descansar, e te levará a ceia e o chimarrão. &lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei parte da noite no salão lendo na mesa de jantar com um candeeiro sobre ela. Mas não consegui me concentrar na leitura.  Meu pensamento vagava e ia até o galpão espiar o meu hóspede inesperado. Eu o temia? Quase... Mas ao mesmo tempo estava fascinada e intrigada. Ele não me pareceu perigoso, pois era a própria imagem da força e da segurança. Um homem assim nunca faria mal a uma mulher. Mas os maus que se cuidassem, pois esse homem tinha a marca de um justiceiro, era o que eu intuía.&lt;br /&gt;Não pude mais me conter. Eu não poderia ficar encerrada numa noite assim no casarão, na sala, e muito menos em meu quarto, tão íntimo e falsamente protegido. Resolvi ir ao galpão para espionar meu hóspede. Eu tentaria manter-me escondida, eu conhecia de longa data as frestas daquela construção de madeira.&lt;br /&gt;Atravessei o jardim sem lume algum, eu não deveria ser avistada de longe. Esgueirei-me no pomar e no trecho de campina. Rodeei a vetusta construção de pinho que apresentava uma luminescência interna: ele devia estar acordado! &lt;br /&gt;Aproximei-me pé ante pé da minha fresta predileta de onde podia ver quase todo o interior do galpão e... fiquei estarrecida!&lt;br /&gt;Dentro, sentado em sua sela no chão, diante de seu cavalo cabisbaixo, Mateus chorava. Soluçava o peão com a cabeça baixa entre as enormes mãos. Tinha remorsos ou medo?&lt;br /&gt;Jamais saberei. O peão sofria... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16/05/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-4247035026253275422?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/4247035026253275422/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=4247035026253275422' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4247035026253275422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4247035026253275422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/03/pernoite.html' title='Pernoite'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-3583831968865997449</id><published>2008-03-13T12:51:00.000-07:00</published><updated>2008-03-13T13:04:20.421-07:00</updated><title type='text'>Eu e os mágicos</title><content type='html'>(crônica de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde guria sou fascinada pela arte dos mágicos prestidigitadores. Desde o dia em que presenciei o show de um deles numa festa de fim de ano da escola primária em Novo Hamburgo, em que me emocionei com a pomba tirada de uma cartola. Daí por diante, emocionalmente pelo menos, eu veria todos chapéus como esconderijos potenciais de pombas, patos e coelhos, e portanto, o verdadeiro refúgio da ternura  dos seus portadores.&lt;br /&gt;As imagens do mundo, que forjamos na infância, nos acompanharão pra sempre intactas, no terreno afetivo. Mas eu sei que isso é verdade somente para aqueles que se mantêm fiéis à sua infância e seus ocultos pactos com o mundo, com a vida.&lt;br /&gt;Havia na nossa estância um velho peão, o mais antigo, que era o preferido de meu pai, que o considerava um venerável exemplo de sabedoria popular. Meu pai, que além de extremamente culto, erudito, tinha também, ele próprio enorme sabedoria, a ponto de reconhecê-la num simples peão semi-analfabeto, por  seu  apreço pelo velho boiadeiro  me fez também  perceber e aproximar-me daquele homem de barbas e cabelos brancos bem menos tratados.&lt;br /&gt;Um dia, no inverno, guria ainda, fui visitá-lo sozinha, e encontrei-o na varanda de seu chalé de madeira, onde aposentado, ficava horas, mirando o horizonte e fumando o seu cachimbo. Levei-lhe um poema meu, como único presente que me ocorreu oferecer-lhe como prova de meu afeto e respeito.&lt;br /&gt;O velho peão recebeu a folha de papel, e depois de retirar uma espécie de touca de lã que eu tinha na cabeça, colocada por minha mãe, passou a mão rapidamente no alto e em seguida abrindo a folha em suas mãos grossas e calosas, me fez ver uma borboleta pousada sobre meus versos, em que ele mal deitara os olhos. Então, ele pegou a borboleta, que me pareceu trêmula, e com uma delicadeza insuspeitada, pela ponta das asas a colocou no meu ombro, olhando-me profundamente, com seus olhos gastos azulados, com um sorriso que percebi sob os imensos bigodes brancos caídos. Aquilo me pareceu mágico, e ao mesmo tempo uma espécie de recado cifrado, vago, que eu não saberia decifrar naquele momento.&lt;br /&gt;Alguns dias depois aquele homem estaria morto, e eu recebi a notícia com extrema emoção. Fui vê-lo em seu caixão, cercado de peões e algumas mulheres, peonas velhas e jovens, além da nossa chorosa Matilde, na pequena sala de sua querência, como ele dizia.&lt;br /&gt;E ali, cercada de lágrimas e alguns sorrisos, depositei, com toda a minha inocência, sobre o seu peito, acima de suas mãos cruzadas, um novo poeminha meu, para que ele  o transformasse numa borboleta que o acompanharia em sua nova jornada no pampa longínquo do horizonte que o aguardava.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-3583831968865997449?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/3583831968865997449/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=3583831968865997449' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/3583831968865997449'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/3583831968865997449'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/03/eu-e-os-mgicos-crnica-de-alma-welt.html' title='Eu e os mágicos'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-6921820719394292754</id><published>2008-03-12T10:28:00.000-07:00</published><updated>2008-03-12T10:38:58.336-07:00</updated><title type='text'>A Hospedeira, ou Ao sul de mim mesma</title><content type='html'>Crônica de Alma Welt (1972-2007)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estou aqui na estância, às vezes bate-me aquela angústia, e eu peço para o Galdério selar a minha égua baia e saio por estas pradarias em direção ao nada, ao sul... de mim mesma. E ponho minha montaria num galope doido, até a pobre ficar exausta e recusar-se a prosseguir nesse compasso. Aí, já estou muito longe do casarão, e meio perdida. Mas minha égua, Altamira sabe sempre retornar, e eu solto a rédea para ela nos conduzir, voltamos a passo, lentamente e chegamos em casa ao cair da noite.&lt;br /&gt;Entretanto, antes de ontem fui parar numa propriedade desconhecida para mim, com árvores frutíferas, macieiras, pereiras e cerejeiras em volta de um chalé modesto, mas encantador, com um ar acolhedor, com a chaminé fumegando, denunciando proximidade do jantar. Apeei, amarrei a rédea da minha égua na balaustrada da varandinha onde havia uma cadeira de balanço austríaca, bati à porta, esta abriu-se e uma senhora idosa, de cabelos brancos, rubicunda, de aspecto bondoso, com uma cara redonda vermelhaça, polonesa ou russa, me acolheu com olhinhos azuis e um sorriso que não se desfez mais. Como é que eu nunca soubera dessa vizinha?&lt;br /&gt;Ela fez-me sentar à sua mesa e imediatamente, sem nada perguntar ou falar, colocou um prato fundo na minha frente e com uma concha, de um caldeirão, começou a me servir sopa. Eu nada disse, e sempre sorrindo também, comecei a tomar. E era deliciosa a sopa, tomei-a com prazer, acompanhada de um grande pedaço de pão. Ao terminar, agradeci, e ela imediatamente pegou-me pela mão e levou-me a um quarto, que tinha uma acolhedora cama arrumada, com uma linda colcha de retalhos coloridos e um grande travesseiro. Ela fez um gesto de dormir com as duas mãos do lado do rosto, sempre sorrindo. Eu já estava convencida que a boa senhora era muda. Então pedi um telefone, gesticulando como se ela fosse também surda e a senhora me levou de volta à sala, até um aparelho de madeira, antigo, de parede, em que consegui a duras penas ligar para estância, e avisei a Matilde que eu pernoitaria na casa de uma vizinha nossa e que só voltaria de manhã. Matilde quis saber mais detalhes, meio alarmada, mas eu logo desliguei, sem muitas explicações. &lt;br /&gt;A senhora então me pegou novamente pela mão, levou-me de volta ao quarto, e de pé diante da cama ela começou a despir-me com desvelo, meticulosa e carinhosamente como se faz com uma guria, uma filha, e estando eu somente de calcinha, ela enfiou-me pela cabeça uma camisola branca bordada, e colocou-me na cama para dormir. Eu permanecia curiosa com tudo aquilo, respeitando e retribuindo a mudez e o sorriso permanente daquela criatura, tanto que fechei logo os olhos enquanto ela apagava a vela, e realmente adormeci.&lt;br /&gt;Acordei bem cedinho, com o cantar de um galo, e sentindo-me maravilhosamente bem, repousada e sem vestígio da angústia da tarde anterior. Levantei-me e saí do quarto, de camisola, para ver a minha hospedeira. Não a encontrei. Procurei na casa, em torno dela, no pomar e... nada. Ela não aparecia. Esperei uma hora e... nada. Então chegou a Matilde na charrete, abanando a cabeça e dizendo: —“Guria, tu és doida mesmo. Pensei que se tratava da outra chácara, vizinha, da dona Estela. Lá estive e disseram-me que não sabiam de nada, que não estiveste lá. Que fazes aqui? Não sabes que esta casa está vazia ? A moradora faleceu há quase um ano. Como pudeste entrar e dormir aqui? A casa permanece fechada e deve estar uma sujeira aí dentro. Deixe-me ver.&lt;br /&gt;Matilde entrou comigo, viu o prato de sopa vazio ainda na mesa, o caldeirão sobre o fogão de lenha, o quarto com a cama desarrumada, e se pôs mais assombrada. Enquanto eu despia a camisola e vestia minhas roupas, ela dizia, inconformada:&lt;br /&gt;—Que estranho, a casa não está suja como eu pensava! Então dormiste aqui, nesta cama,com esta camisola? Quem te acolheu, Alma? Que mistério é esse, guria? Com era a pessoa que te acolheu?&lt;br /&gt;Eu descrevi a minha amável e nada loquaz hospedeira, sobretudo sua face “rubicunda”. Matilde empalideceu, fez o “em nome do pai”, caiu de joelhos, de mãos postas e começou a tremer.&lt;br /&gt;Voltamos na charrete, puxando a Altamira pelo cabresto atrás e tremendo as duas.&lt;br /&gt;Meu corpo tremia, sim, mas durante todo o trajeto, meu coração, eu sentia, estranhamente, preferia continuar sorrindo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-6921820719394292754?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/6921820719394292754/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=6921820719394292754' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6921820719394292754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6921820719394292754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/03/hospedeira-ou-ao-sul-de-mim-mesma.html' title='A Hospedeira, ou Ao sul de mim mesma'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-1535469867723087141</id><published>2008-03-12T10:20:00.000-07:00</published><updated>2008-03-13T13:06:43.939-07:00</updated><title type='text'>Safira, eu e os ciganos</title><content type='html'>(crônica de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha pré-adolescência, na estância, ganhei de presente de meu pai, uma vaquinha, a Safira, que ordenhada todas as manhãs, fornecia o leite para o nosso café, compartilhado com meus irmãos, naturalmente.&lt;br /&gt;Nessa época, eu já estava empenhada em aperfeiçoar-me no desenho, quer dizer, nas artes plásticas, e passava horas desenhando, principalmente retratos a lápis, para os quais posavam meus irmãos(com exceção da Solange) e outras pessoas da casa. Eu ficava horas esboçando, apagando com borracha e retocando, a fim de atingir a semelhança perfeita com o modelo. Para isso eu era incentivada, como sempre, pelo Vati.&lt;br /&gt;Aconteceu que passou pela estância um povo de ciganos, que fez acampamento próximo ao bosque, com permissão de meu pai, que de um modo geral aceitava a entrada de alguns estranhos, lastreado na sagrada lei da hospitalidade, cujo critério e regras eram para mim, ainda, um mistério. Custei a perceber que eram&lt;br /&gt;simplesmente baseadas na sua intuição de homem experiente, vivido e sábio.&lt;br /&gt;Curiosa e fascinada por esse povo, do qual só sabia alguma coisa pelos livros, como, por exemplo, o “Notre Dame de Paris”, de Victor Hugo ( romance conhecido popularmente como “O Corcunda de Notre Dame”) que continha a maravilhosa figura da cigana Esmeralda e sua cabrinha, eu resolvi ir ao acampamento para observá-los de perto, para conhecê-los melhor. Sendo uma guria aventureira e destemida até certo ponto, dirigi-me sozinha, uma manhã, com um lápis, borracha e uma folha de papel, para o acampamento cigano.&lt;br /&gt;Fui recebida entre as tendas e os carroções, logo de saída, por várias gurias, de diferentes idades, que me pareceram muito “guapas” embora um pouco sujas, eu percebi. Elas sorriam muito e logo agarraram minhas mãos para lê-las, estendendo as suas para cobrar, simultaneamente, numa espécie de confusão.&lt;br /&gt;Entre elas havia uma, de extraordinária beleza morena, misteriosa, que sorria&lt;br /&gt;de maneira enigmática, um pouco irônica, me pareceu. Fascinada, pedi-lhe que posasse para mim, para um retrato que eu faria ali mesmo, na hora, no papel, com o lápis que empunhava. Ela aceitou, sempre sorrindo, com um simples movimento de cabeça, e isso motivou uma verdadeira festa momentânea, atraindo a atenção de muitos que estavam por ali e que me rodearam, sentada num tamborete que me ofereceram, para observar o nascimento do retrato.&lt;br /&gt;Eu me senti inspirada e desenhei mais rapidamente que o normal, embora apagando e retocando alguns traços. O resultado me pareceu magnífico, a folha de papel me foi retirada e circulou de mão em mão, ente exclamações, risadas e sinais de aprovação. A seguir voltou às mãos da retratada, que levantou-se de sua banqueta, e com a folha nas mãos aproximou-se de uma mesa que estava ali perto, ao ar livre, e colocando uma espécie de salsichão sobre ela, com uma grande faca afiada, começou a fatiar, engordurando o papel que imediatamente ficou cheio de cortes e nódoas, sobre o meu lindo retrato, minha “obra-prima”. Eu estava horrorizada, e comecei a protestar. A cigana (eu a chamarei Rafisa), sempre sorrindo, respondeu-me simplesmente:&lt;br /&gt;–“Tu já fizeste o desenho, agora o papel serve para outras coisas.”&lt;br /&gt;Os ciganos já circulavam e dispersavam-se, desinteressados. Saí dali, meio desnorteada, e voltei para o casarão, meditando muito, embora ainda chocada.&lt;br /&gt;Vocês devem estar pensando: o que tem a haver a vaquinha que ganhei com essa estória, não é mesmo? Bem, apesar do meu choque e confusão com a experiência do meu primeiro contato com os ciganos, eu resolvi voltar ao acampamento para conhecê-los melhor. E na segunda visita, sempre escondida de minha mãe, claro, eu percebi que algumas crianças estavam muito desnutridas e com manchas esbranquiçadas na pele. Elas me olhavam com grandes olhos que me pereceram tristes, e, condoída eu tomei uma decisão. Fui até o nosso estábulo e voltei&lt;br /&gt;puxando a minha vaquinha por uma corda em seu pescoço e a presenteei à mãe da crianças para que fornecesse leite para elas todas as manhãs.&lt;br /&gt;Era um final de tarde e permaneci por ali, percebendo a festa que se armava, com rabecas e um “fole” ou gaita que se reuniam, e vestidos coloridos mais vistosos, com muitas “jóias” nos pescoços, orelhas, testas, pulsos e tornozelos das gurias.&lt;br /&gt;Começaram as danças, e eu me senti inebriada pelas evoluções ondulantes das dançarinas ao som de rabecas tocadas de maneira pirotécnica, virtuosística..&lt;br /&gt;Então (ai de mim!) puxada pelas mãos e instada a dançar com elas, eu me percebi arrastada em farândola, até próxima a uma grande fogueira sobre a qual de repente percebi, à contra-luz, em silhueta negra, horizontal, girando num espeto, algo que me pareceu um novilho, ou coisa parecida. Um arrepio entretanto me tomou, e um pressentimento. Apontei e perguntei, quase gritando: “O quê é isso?”&lt;br /&gt;E alguém me respondeu: “Bueno, é uma vaca, ora, vamos churrasquear, é festa de Santa Sara Kali.”&lt;br /&gt;Dei um grito e desmaiei.&lt;br /&gt;Acordei em minha cama e desatei imediatamente em pranto, inconsolável, cheia de remorso, dor, confusão. Minha mãe aproximou-se do leito e com ar severo (ela já sabia de tudo pelo Galdério que me vigiava sempre à distancia, e que me trouxera nos braços) e ralhou:&lt;br /&gt;–Já sei, já sei, querias o bem daquelas crianças, não é? Mas já te disse muitas vezes: “de boas intenções o Inferno anda cheio!”&lt;br /&gt;Caí num pranto maior ainda. E quereria morrer naquele momento, se não fosse o medo de ir para o Inferno. Afinal, adormeci soluçando, e tive um sonho em que realmente estava no meio do fogo, com a Safira, as duas, dançando e chorando nas chamas, ela girando na horizontal e eu, bem... rodopiando dolorosamente pela eternidade.&lt;br /&gt;Ao amanhecer fui despertada pelo Vati, que afagava meu rosto segurando a minha mão, e com aquele jeito manso disse-me, pausadamente:&lt;br /&gt;–Alma, tu cometeste um erro de avaliação, deste uma criatura viva que te era cara, e que acabou vítima, eu sei. Mas consola-te, não leve em consideração o que tua mãe disse, pois na hora da pesagem, o teu grande coração pesará como um rebanho na balança de Deus. Não te atormentes mais.&lt;br /&gt;Meu coração distendeu-se e eu sorri grata ao meu Vati, virei-me de lado e novamente adormeci.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-1535469867723087141?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/1535469867723087141/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=1535469867723087141' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/1535469867723087141'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/1535469867723087141'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/03/safira-eu-e-os-ciganos-crnica-de-alma.html' title='Safira, eu e os ciganos'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-8712555262944927224</id><published>2008-02-24T17:00:00.000-08:00</published><updated>2008-03-13T06:05:56.487-07:00</updated><title type='text'>O Duplo da Alma  (de Alma Welt)</title><content type='html'>(ESTE CONTO CONSTA DO LIVRO CONTOS DA ALMA, DE ALMA WELT, PUBLICADO PELA EDITORA PALAVRAS &amp; GESTOS EM 2004, E ERA INÉDITO ATÉ AGORA NA INTERNET).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O DUPLO DA ALMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou atravessando uma calmaria. Um momento, portanto, propício para pintar ou escrever. Uma calmaria na vida exterior, quero dizer, pois por dentro é sempre aquele vulcão ativo, ora fumegando ora francamente em erupção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Interrompo a pintura para atender o interfone. Minha amiga Vânia quer subir. Ela é sempre bem vinda, mas...agora a sinto um tanto inoportuna. Estou num momento de pintura, que me parece bastante auspicioso, com belas pinceladas resolutas. Bem...       &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             Vânia entra esbaforida:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—      Alma, Alma, o que há com você? Porquê não falou comigo na rua, e depois naquela festa? Passou por mim, tão alheia... como se não me conhecesse, que me desarmou. Fiquei perplexa, sem ação. Depois, na festa, parecia não me enxergar, não veio dar-me um beijo, nada. No entanto não parecia chapada, você é sempre careta...Fiquei tão chocada e deprimida, que retirei-me imediatamente. Alma, o que está havendo? Porquê me trata assim? O que lhe fiz? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 Fiquei atônita. Abracei-a apertado, e protestei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            — Vânia, meu amor, o que é isso, o que estás dizendo?.  Não sei nada disso. Eu juro. Não te vejo há uma semana, pelo menos, e só não te telefonei porque o tempo, para mim,  tu sabes, quando estou pintando... Mas, não me reconheço nisso. Estás louca? Como eu deixaria de te falar, de te abraçar, na rua, em qualquer lugar, guria?&lt;br /&gt;                  Vânia arregalou os olhos. Tocou-me a face e ficou uns segundos assim, perscrutando-me. Disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                —Alma, o que está acontecendo? Porquê nega que me virou e cara, e ignorou-me? Mas... ao mesmo tempo... vejo que você está falando a verdade! Ai, vou enlouquecer. Ou você é que está louca? Era você, eu sei, você mesma. Eu a vi assim, de perto. Não a toquei porque você estava tão distante que... Mas era você. Como eu poderia confundir  estes seus olhos, esta boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    Vânia agarrou-me, beijou-me na boca. Há tempos não fazíamos isso. Abraçou-me sofregamente. Apertava-me contra si, como para certificar-se da minha materialidade. Fiquei comovida. Vânia sempre acaba me comovendo. Então é isso. Ela quer tocar-me. Não consegue deixar de me amar, de me querer. É um pretexto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                     —Alma, Alma. Não me deixe, não nos deixe. Era você, ou era sua alma. Você se projetou sem saber. Ou você estava dormindo, seu corpo perambulou por aí. Você é sonâmbula? Ai, meu Deus, eu pensei mal de você. Tive tanta raiva. Chorei tanto. Mas agora eu sei, você não me magoaria assim. Você não faria isso. Você é tão doce. Meu Deus, meu Deus, o que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               —Vânia—eu respondi—Não sei do que estás falando, mas estou arrepiada. Tu viste alguém parecida comigo. Talvez uma sósia. Só pode ser isso. Sonâmbulos não vão a festas (sorri). E não me consta que perambulam por aí, de dia, na rua Augusta (dei uma gargalhada). Meu bem, meu amorzinho (abracei-a novamente, acariciando-a). Como eu deixaria de falar com a minha queridinha? Com essa mulher linda, que me conhece tanto, por dentro e por fora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    Vânia olhou-me fundo, consolada. Beijou-me docemente os lábios, profundamente, e afastou-se com o braço estendido até nossas mãos desprenderem-se e... retirou-se, comovida. Percebi que ela não poderia mais falar daquilo. Minhas palavras, meus abraços, meu beijo a devolveram a um estado que ela queria conservar. Ela ainda tinha algum medo. Que mistério é esse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Um tanto perturbada, tento continuar pintando. Até o consigo por mais uma meia hora. Depois deponho a paleta, sento-me e cubro o rosto com as mãos. Não sei se vou chorar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................   &lt;br /&gt;                  O telefone tocou, também algumas vezes. Amigas e amigos, me cobrando explicações para estranhos atos meus. Eu dançando de maneira quase escandalosa, excessivamente sensual, num clube noturno... Eu? Não vou nunca a esses clubes. São barulhentos, sua música não me interessa. Mas...num concerto sinfônico. Aí, sim eu poderia estar. E lá estava eu, no Municipal, debulhada em lágrimas, diante da interpretação superior de um pianista. Mas, disseram eles, não os reconheci  e tinha um ar tão vago que eles não insistiram nas efusividades e cumprimentos, ficando também desnorteados. Eu esquivei-me, eles disseram, com um sorriso constrangido, como se não os estivesse reconhecendo. Acharam que eu os estava esnobando, ou que devia estar com alguém que estava momentaneamente no toilette, e que eu não queria que vissem. Foi isso que decidiram, afinal, para sofrivelmente justificarem-me. Oh! Meu Deus!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Preciso tomar alguma providencia. Alguém, voluntariamente ou não, está se passando por mim. Vou tirar isso a limpo. Mas... talvez essa pessoa nem saiba da minha existência. Preciso encontrar-me com essa minha sósia. E eu que pensava que era única... Além disso, não me consta que minha mãe tenha tido gêmeas, ou que meu pai tenha pulado a cerca, como se diz. Aqui, em São Paulo, uma moça igual a mim! Assim, tão parecida a ponto de chocar ou confundir os meus amigos. Não! Preciso encontrá-la. Talvez seja uma boa moça, menos doida do que eu... Mas...aquilo, dela dançar escandalosamente! Eu não faria isso. Ai, meu Deus! E se ela for uma garota de programa? Elas vão, também, a concertos? Não sei nada. Ai, não sei nada realmente, dessa vida real, desta cidade imensa, cruel, que é São Paulo. Como sou preservada! Como me preservo, apesar de tudo, apesar dos meus amores e das minhas intensas paixões. Sempre os escolhidos, os eleitos...num mundo próximo do meu ideal. Não quero o feio, não quero a feiura... Nem sequer a tristeza. Fujo dela como Dioniso, da cruz. Não, não é verdade. Quanto sofro, quanto choro pelos meus amores! E pela minha solidão, minha sina de artista. Essa solidão insidiosa, atmosfera rarefeita, que me faz ofegar nas noites, ou no cair das  tardes. Que me faz chorar com Chopin, com Schumann e Schubert, mestres dessa mesma solidão. Não temos par neste mundo. Nossos amores não podem encher esse vazio deixado pelos deuses em nossa alma, para que o preenchamos somente com a nossa arte, se possível. Ai, destino, destino. Às vezes a carga é pesada demais, ou esse vazio é que pesa como chumbo, arrastando-nos para aquelas profundezas subterrâneas, onde Orfeu andou, buscando Eurídice. Pelo estranho rio silencioso de onde brota a música mais pungente.  De pé, na proa, ao longo do grande rio lento e escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                Banho-me e visto-me com o maior esmero. Quero estar bela para encontrar a minha sósia. Minha rival? Não ela não parece interessada nos meus amigos, nem na minha vida. A não ser que...Sim, ela está se fazendo ver por eles. Talvez isso seja intencional, sim. Qual será o seu plano? O que ela quer? Quererá encontrar-me? Ela sabe de mim? Oh! meu Deus, nada sei. Não sei nem mesmo por onde começar a procurá-la. Ah! Preciso por um fim nisso. Tenho de armar-lhe uma tocaia. É isso! Ela deve passar sempre por um mesmo caminho, como todas as pessoas. Trata-se de saber qual é esse caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Sento-me numa mesinha de bar, na minha Oscar Freire. Retiro a minha agenda da bolsa, e numa página em branco, começo a traçar diagramas, unindo os pontos dos locais onde ela foi vista, numa espécie de mapa esquemático, imperfeito, das ruas que os separam. Traço possíveis itinerários. Devo tornar-me uma espécie de detetive. De mim mesma? Essa idéia assaltou-me. É como se estivesse investigando a mim mesma. Talvez eu seja mesmo essa impostora. Como posso confiar totalmente em mim? Quem pode faze-lo, a respeito de si mesmo? Somos abismos, somos multidões, nada sabemos verdadeiramente de nossa alma multifacetada. Ela é um caleidoscópio, não um espelho. Não somos unos. Já o fomos algum dia? Sempre senti que sim, num passado remotíssimo, onde homem e mulher fomos um só ser, dividido ao meio depois, com o fim da Era de Ouro. A grande era do Hermafrodita. Ai, Deus, eu sofro por isso, eu sofro por tudo, essa é que é a verdade. Essa nostalgia persistente... que não me abandona, que posso tão somente camuflar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 Mas, não é hora de filosofar. Para cabeça de Alma! É hora de tomar medidas práticas para encontrar essa impostora. Pressinto que se não o fizer, ela me destronará. Mas, de que trono? Calma, Alma, você está ficando paranóica. Você se superestima. Não, não. Sei que isso é sério e posso ser destronada de mim mesma, do meu reino absoluto, do mundo que construí dentro de mim mesma, e que tento desbordar, vagamente ao redor, no subjetivo mundo exterior que me cabe, onde nos cabe atuar, pequenos imperadores de nós mesmos! Não me venham com argumentos limitantes,  inibidores de grandeza. Não me venham com burguesias! Não estou me referindo ao mundo do ter, que vocês conhecem tão bem. Mas do ser, do ser!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             Outros amigos me procuram alarmados. A outra Alma está se mostrando cada vez mais no meu território. Está começando a aprontar. Faz coisas sem sentido, pelo menos para mim. Entra em automóveis, comporta-se como garota de programa, embora discreta. Foi vista com um homem casado, num café. Outro amigo “encontrou-me” num bar de samba, e  supostamente “eu” cantava todas, conhecia todas as letras e encantei os negrões com meu samba no pé. Disse mesmo que me viu sair com um mulato alto. Bem que eu gostaria de ser assim. Mas, o que quer ela? Como vive essa louca, tão diferente de mim? Eu, de samba só conheço “As rosas não falam’, do grande Cartola, que para mim é a suprema música popular brasileira, mas que por sua letra e melodia, surpreende pela falta de negritude nela, a meu ver. Essa letra podia ter sido escrita por Leopardi, poeta romântico italiano do século XVIII, essa é que é a verdade. Mas voltemos à impostora. O que ela quer de mim? Sim, porque está, nitidamente, mandando sinais. Logo vai querer também interceptar-me. Ou me espera. Sim, é isso: ela está me esperando!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Irmã, vou ao teu encontro. Pode esperar-me. Se me puser assim, como uma sonâmbula acordada, andando a esmo, sei que vou esbarrar em ti.&lt;br /&gt;Devo confiar na infalível sincronicidade. Mas existirá isso, realmente? E poderemos precipitá-la, a ela, essa sincronicidade? É assim que funciona? Ou somos totalmente impotentes? Ah! velho Carl, não decifraste todos os enigmas. Ou não quiseste faze-lo, velho bruxo. Só para os iniciados, não é? Como decifrar o enigma das coincidências fatais? Eu não ousaria tentar. Acredito que isso acontece, de qualquer modo, no momento final, ironicamente, e entendemos tudo numa fração de segundo somente, antes da luz se apagar, e a escuridão e o esquecimento se instalarem para sempre. Alma, Alma, essa tua irmã quer fazer-te pensar, refletir. Ela talvez se interesse por ti. Quem sabe ela te ame. Ela veio de longe? Veio do Sul, também? Conhecerá o Pampa? Terá tido um Rodo, em sua infância, um Vati? Ai, quero viver, quero morrer, não sei mais. Dói-me a beleza da vida, a dor da morte certa, o fim de tudo o que amo, e que é tanto, tanto, que minha alma se alarga para abarcar. Vida, arte, amor, amores, alegria. Dança e festas. A ingenuidade persistente do humano. A pureza maior de alguns. A inocência de todos. Não acredito verdadeiramente  no pecado original. O ser humano não teria esse poder, joguete que somos na mão do Poderoso. Como pecar, suprema rebelião só possível ao anjo mau? Não, Lucifer, não és da raça dos humanos, embora tentes constantemente contaminá-los. Mas Deus sabe, Deus sabe da nossa inocência primordial. Não pode estar perdida. Não pode!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Cansei de andar por aí, a esmo. Volto para o ateliê. Devo manter a minha rotina de trabalho, as minhas atividades normais, agora percebo. Se sair da minha órbita, a dela não a cruzará. Imagino que esse momento é tão único como um eclípse ou encontro no espaço entre dois astros. Talvez, mesmo a simples tangência de elípses, um cruzar de órbitas, já produza o fenômeno que espero. Confrontar-me com ela. A outra Alma. &lt;br /&gt;                Que terá ela a dizer-me? O que quer ela de mim? Sim porque ela não estará por aí, à toa. Não há gratuidade na vida. Não temos esse poder, já que os cordéis de Deus comandam nossos movimentos. A menos que Deus também cochile, possibilidade não descartável pela imaginação. A mão que se move involuntariamente, como as patas de um cão que sonha, convulsivamente movendo os cordéis, aleatoriamente. Sim, tudo é possível. Mas de qualquer maneira isso também seria previsto pela alma de Deus, ou o seu duplo. É isso! O Duplo de Deus quer projetar-se. Estou na sua mira. Na sua mira!&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Toca o interfone. Sei que é ela. Não perguntarei ao porteiro o seu nome. Nada perguntarei. Antes de sequer ouvir o nome de quem chega, eu digo:—“Pode  mandá-la subir, seu Ermírio”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              Escancaro a porta. Espero sentada ouvindo os estalidos do elevador,  em seguida o rumor da porta de ferro que se abre. Estou solenemente sentada no meio do meu ateliê. Meu cenário são as minhas telas. Uma grande tela virgem jaz  no cavalete. Estou em branco, espero o meu destino, a Alma... em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                       FIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/06/2004&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt; Este enigmático e misterioso conto consta do livro Contos da Alma,  de Alma Welt, publicado em 2004, pela Editora Palavras &amp; Gestos  que permitiu afinal sua publicação no LL e aqui, num dos blogs da Alma administrados por mim. Lendo-o  ele me fez interessar-me pelo fenômeno do Duplo e pesquizando descobri algumas raras obras literárias e cinematográficas que tratam desse tema:&lt;br /&gt; Na literatura:&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; O Duplo - novela de Dostoiévsky &lt;br /&gt;e&lt;br /&gt;William Wilson - conto de Edgar Allan Poe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O retrato de Dorian Grey - Romance de Oscar Wilde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estória de do dr. Jekil e Mr. Hide- (mais conhecido como "O médico e o monstro")  romance de Robert Louis Stevenson&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No cinema:&lt;br /&gt; A dupla vida de Veronique-  Filme francês-polonês,com Irène Jacob, direção de Cristoff Kieslov&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Monsieur Klein-  filme francês dirigido por Joseph Losey,  com o ator Alain Delon .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Embora seja considerado um tema de ficção, existe a teoria da possibilidade matemática desse fenômeno. Acredito que a Alma vivenciou esssa experiência, pois sendo de natureza visionária e hipersensível, a poetisa realmente vivia as coisas que ela narra.&lt;br /&gt;Estou persuadida de que Alma merece urgentemente uma biografia ou um ensaio aprofundado sobre a sua vida e obra. Eu mesma estou inclinada a fazê-lo incentivada que venho sendo por amigos e admiradores da Alma. (Lucia Welt)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-8712555262944927224?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/8712555262944927224/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=8712555262944927224' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8712555262944927224'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8712555262944927224'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/02/o-duplo-da-alma-de-alma-welt.html' title='O Duplo da Alma  (de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-2884542137276576051</id><published>2008-01-30T07:08:00.000-08:00</published><updated>2008-01-30T07:09:41.921-08:00</updated><title type='text'>Uma recordação de infância da Alma (crônica de Alma Welt)</title><content type='html'>Quando guria, na estância, eu sentia a plenitude de estar entre as flores, no jardim de minha mãe, sob o sol, e entre os zumbidos das abelhas e o vôo terno das borboletas. E percebia que ela, Ana Morgado, me preferia ali, como menina bela e doce, do que entre os livros, em que parecia escamotear-me aos seus olhos, refugiando-me num mundo que ela não sentia acessível a si mesma, na biblioteca que era o reino de meu pai. Ela estava certa: eu viajava longe em mundos insuspeitados, em todas as eras, todos os séculos, inúmeros reinos e povos. Mas sobretudo no perigoso e suspeito mundo dos artistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe tinha razão, nada mais “subversivo” que uma boa biografia de um grande artista. Uma das primeiras que me encantaram foi a de Michelangelo, de autoria de Romain Rolland que, fora o prefácio, começava assim: “Era um burguês florentino...” Que sonho, real, profundo, universal, penetrar naquela Renascença, entre todos aqueles gênios concentrados na bela Itália, num dos períodos mais fecundos da história, comparado à própria matriz grega clássica de sua inspiração! Depois vieram centenas dessas biografias, como a de Byron (Don Juan ou a vida de Lord Byron) de André Maurois, só para citar outra de minha preferência. Mas o meu maior deslumbramento foi com “O Romance de Leonardo da Vinci”, de Dimitri Merejkowski, maravilhoso autor russo quase esquecido hoje em dia. Ali eu conheci e me apaixonei pelo grande Artista, um dos maiores da história, em todos os tempos. Devo dizer, que por causa da visão de Leonardo proposta por aquele livro, eu evitei até agora ler esse tão citado “O Código Da Vinci”, com receio de arruinar o meu olhar sobre o mestre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como eu dizia, minha mãe suspeitava das minhas leituras, pois elas me afastavam do seu mundo restrito, padronizado, comezinho, alheia até mesmo à sua própria beleza intrínseca, que, como poeta, ao descobri-la me livrei de todo o ressentimento. Por isso, num dia muito especial em minha vida, eu me lembro de ter ficado muitos minutos, observando, sob uma luz propícia o seu lindo perfil, debruçada sobre um bordado, que de repente me pareceu belo, para além do mimoso e convencional que realmente era. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pobre Mutti! Ela nunca soube de seu próprio mistério e poesia...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-2884542137276576051?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/2884542137276576051/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=2884542137276576051' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2884542137276576051'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2884542137276576051'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/01/uma-recordao-de-infncia-da-alma-crnica.html' title='Uma recordação de infância da Alma (crônica de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-230974889522388903</id><published>2008-01-24T19:45:00.000-08:00</published><updated>2008-01-24T20:14:45.028-08:00</updated><title type='text'>O Rosto de Musidora  (de Alma Welt)</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R5lfMBxS2AI/AAAAAAAAAqE/gIKcnt9-2VU/s1600-h/A+Musidora+II.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R5lfMBxS2AI/AAAAAAAAAqE/gIKcnt9-2VU/s320/A+Musidora+II.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5159259508367874050" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Rosto de Musidora&lt;br /&gt;(dos Contos Secretos, de Alma Welt)&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 Depois de muito tempo, tomada de uma súbita nostalgia subo ao sótão do nosso casarão, à procura de não sei o quê. Ao entrar no aconchegante aposento sob o forro inclinado de belo madeiramento lanço os olhos primeiramente ao pequeno catre que foi o leito de Rôdo em sua infância e parte de sua adolescência, e onde eu costumava tantas vezes me deitar ao seu lado até o dia em que Solange nos flagrou juntos e tudo mudou. Mas não é isso que procuro agora. Dirijo-me à grande arca que meu pai colocou ali com as lembranças de sua vida privada que ele não quis deixar expostas na biblioteca com aquelas outras que ele podia compartilhar com todos.&lt;br /&gt;                Abro a pesada tampa de espessa madeira antiga do tempo dos escravos, e começo a retirar álbuns, fotos soltas, cadernos de anotações e...  velhos postais. Um em especial chamou-me a atenção: mostrava uma diva do cinema mudo chamada Musidora, um rosto típico dos anos vinte, portanto uma beleza antiga, datada, com aquela boquinha pintada em forma de coração, e por cima do colo uma dedicatória em inglês a alguém desconhecido, com o seu autógrafo reproduzido e a data, 1921. Virei o postal e encontrei as seguintes palavras que me surpreenderam: “A ti, Werner, o retrato da minha famosa sósia dos tempos idos, que descobri aqui no Marché-aux-pouces. Também achas-me parecida com ela? O comerciante presenteou-me o retrato, pela semelhança... Ah! Que saudade deste mesmo mercado de pulgas!  Maria. Paris 1959”.&lt;br /&gt;                      Fiquei um tanto perturbada e... comovida. “Deste mesmo mercado”? O Vati tivera uma amante como eu sempre suspeitara!  Isso explicava muita coisa embora aquele rosto não sendo propriamente o dela funcionava como uma falsificação, um último véu sobre o enigma da paixão romântica de meu pai que eu suspeitava existir e ansiava há muito tempo desvelar. &lt;br /&gt;                      Comecei a me lembrar de como eu pressentia uma presença oculta dentro de meu pai, adorada por ele, e como esse pensamento me surgiu pela primeira vez durante um de seus inúmeros concertos para mim, assim eu pensava, só para mim. Ao piano ele se transfigurava tocando como um virtuose que ele era, mas tão comovidamente, eu percebi, ao descobrir uma certa lágrima, um dia, enquanto ele tocava. Depois, a falta de afinidades, evidente entre ele e a Mutti, e a apatia visível de minha mãe diante de um homem que nascera, a meu ver, para ser adorado! &lt;br /&gt;                   Para mim tudo ficou claro naquele instante mas eu me pus a procurar mais evidências, outras fotos, à procura do verdadeiro rosto daquela que meu pai amara e que camuflara tão bem a sua presença que aparentemente só sobrara aquele pequeno rastro dúbio. Realmente não encontrei mais nada, a não ser uma profusão de postais que não pertenciam àquele quebra-cabeças. Como conseguiram eles despistar tanto uma família inteira? Que imenso segredo eles carregaram no coração? Por um momento, eu, filha de meu pai, me senti também traída. Ele nunca se abrira comigo a respeito daquilo, do seu amor, talvez do grande amor da sua vida!  Ele me excluíra, então, de seu mais profundo segredo. Comecei a odiar aquele rosto de mulher, ainda que na sua falsa versão.&lt;br /&gt;               Passei uns dias perturbada, talvez órfã como nunca. Recomecei a sentir imensa falta de meu irmão, meu confidente, meu cúmplice, meu amado irmão. Que falta ele me fazia, como sou só e vulnerável (eu pensava) sem ele! Como posso ser agora “a chefe”, a líder dessa família, se sou uma fraca mulher, apenas uma filha sem pai, uma irmã sem irmão? Ah! Rôdo, por que és assim tão independente, até de mim? Porque passas tanto tempo longe de casa, o que procuras no mundo que já não tiveste aqui ao meu lado, nos meus braços, nos meus olhos? Sinto-me traída, duplamente traída e... abandonada!&lt;br /&gt;              Alguns dias depois resolvi voltar ao sótão para procurar melhor naquela arca alguma pista, alguma coisa que acalmasse meu coração. Não era possível que o verdadeiro rosto da musa de meu pai não se encontrasse perdido naquela montanha de fotos e postais. Eu precisaria, talvez, ter a paciência de ler as cartas do Vati dirigidas à minha mãe com sua quase ilegível letra de médico? Ou, melhor, encontrar talvez alguma carta de mulher, um rosto verdadeiro que escapara do provável despiste de meu pai, como afinal aquele retrato que queria ser uma máscara, aquele postal fanado, aquele camuflado rosto. &lt;br /&gt;              E encontrei!&lt;br /&gt;              Uma foto de família, uma típica foto, da família de minha mãe com inúmeras pessoas, homens, mulheres, adolescentes e crianças. Rostos para mim desconhecidos mas tão sugestivos que um bom observador desvendaria o provável destino de cada um. &lt;br /&gt;                  Reconheci afinal minha mãe, um rosto melancólico como sempre. E então, estremeci! Ao seu lado, de mãos dadas com ela, uma adolescente.... o rosto de Musidora!  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                ____________________________      &lt;br /&gt;               &lt;br /&gt;                                                &lt;br /&gt;   01/09/2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-230974889522388903?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/230974889522388903/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=230974889522388903' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/230974889522388903'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/230974889522388903'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/01/o-rosto-de-musidora-de-alma-welt.html' title='O Rosto de Musidora  (de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R5lfMBxS2AI/AAAAAAAAAqE/gIKcnt9-2VU/s72-c/A+Musidora+II.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-6942160987526817990</id><published>2008-01-23T05:26:00.000-08:00</published><updated>2008-01-27T11:58:14.719-08:00</updated><title type='text'>O Violino de Magritte (de Alma Welt)</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R5dEKxxS17I/AAAAAAAAApc/Nk-PBp-knyY/s1600-h/A-vcfdesq.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R5dEKxxS17I/AAAAAAAAApc/Nk-PBp-knyY/s320/A-vcfdesq.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5158666850125666226" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;"Un peu de l'âme des bandits"- pintura de René Magritte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu irmão Rôdo trouxe um amigo para o fim de semana na estância. Trata-se de um rapaz interessante, não sei se bonito, mas extremamente viril e seguro de si. Percebe-se isso por sua naturalidade e absoluta falta de interesse de provar o que quer que seja. Sua capacidade de conversar sem nunca falar de si mesmo ou revelar qualquer coisa sobre sua vida ou suas origens é invejável embora ao mesmo tempo seja um pouco misteriosa, não sei se de maneira positiva. Esse rapaz, no entanto, não parece dissimulador no seu mistério, e isso é o suficiente para me deixar intrigada e mesmo fascinada. &lt;br /&gt;Comecei então a testar o rapaz de maneira sutil com pequenas distrações sensuais, como um botão da blusa esquecido de abotoar; uma saia fina sem calcinha por baixo, um vestido de tecido muito fino em cima da pele, etc. Mas sobretudo um ar vago e sonhador e gestos lentos e muito harmônicos. Nada, o rapaz continua como um hóspede modelo, educado, e interessado apenas nas coisas da estância contadas pelo meu irmão e por Galdério, nosso empregado e charreteiro, embora também pelas minhas observações sobre poesia e literatura em geral, que ele ouve com muita atenção mas sem maiores comentários. Não estou agüentando mais. Esse rapaz deve estar fazendo um tipo de jogo. Então resolvo jogar duro. &lt;br /&gt;Já que estamos no verão e as noites estão muito quentes e claras, saio do meu quarto, tarde da noite, totalmente nua sob o belo luar. Sei que estou deslumbrante sob esta lua que tudo prateia. Saio pela varanda e caminho pelo gramado em direção à piscina. Mergulho fruindo a frescura deliciosa da água, dando braçadas que sei competentes e até elegantes, tudo isso para um possível olhar oculto, o do nosso hóspede enigmático.&lt;br /&gt;No dia seguinte sento-me à mesa do café da manhã exibindo a mais completa naturalidade de quem dormiu a noite inteira sem nenhuma travessura, sem a sombra de um possível pecadilho, sem o rastro da provocação, dando o bom dia convencional ao hóspede e sentando-me à sua frente na mesa para sondar disfarçadamente o seu olhar. Ele terá observado a minha performance ontem à noite? &lt;br /&gt;Rolando (eis o nome que escolhi para o rapaz) continua o seu jogo, seu enigma: não consegui chegar a uma conclusão a respeito, por exemplo, de ele ter ou não me visto sair nua ao luar, de ter-me visto nadar na piscina apesar do rumor das braçadas na água rompendo o silêncio reinante da nossa noite de grilos e sapos já quase despercebidos, pelo hábito.&lt;br /&gt;Nas noites seguintes repito com variações a cena da nudez por acreditá-la, por experiência, irresistível. Mas sem nenhum resultado. Rolando não denuncia o menor vestígio de minha sedução, cuja natureza agora me parece um tanto óbvia, reconheço, e me envergonharia se não fosse o meu senso de humor que ainda me faz rir de mim mesma. Resolvo ser mais direta e inquirir o rapaz sobre a sua vida e experiências, pois começo a suspeitar de suas preferências no terreno do “amor”. Estou, digamos assim, quase desesperada. &lt;br /&gt;Antes que possa fazer isso sou abordada por Rôdo, uma manhã, que tomando-me pela mão me conduz a um canto reservado do nosso jardim, como um passeio carinhoso de irmãos, e ali chegando  me diz com seus magníficos olhos azuis pousados sobre os meus: &lt;br /&gt;— Alma, irmãzinha, desista. Tenho acompanhado teus vôos noturnos, de feiticeira, ou melhor dizendo, de náiade ao luar. Confesso que eles são deslumbrantes e chego a invejar o homem a quem são dirigidos. Mas, Alma , minha bela irmã, desista. Rolando é um jogador de poquer como eu, e o melhor blefador que jamais conheci. Perto dele sou um amador. Vou revelar-te agora o significado de tudo isso pois a honestidade não é o forte entre nós jogadores, como você sabe. Pouco antes de virmos para cá eu falei a Rolando muito de você, minha irmã, como a maior sedutora natural que eu jamais conheci, em oposição àquelas pérfidas e destruidoras que você mesma me ensinou que se chamam “Lilithianas”, as filhas de Lílith, fatais, sobre as quais tu mesma tanto me quer prevenir nesta vida que eu levo de inúmeros leitos e paixões, que no meu caso são uma extensão de minha alma de jogador. Tu suspeitas que sou viciado no jogo, e portanto de natureza frágil, no final das contas, daí a tua preocupação. Mas posso te garantir, que Rolando vem me surpreendendo com a sua capacidade de dissimular, e jogar os jogos do amor. Sim ele está apaixonado por ti, mas sua alma de jogador é tão forte que ele dissimulará até a morte, ou pelo menos até o fim do prazo que combinamos. Nada do que você fizer poderá fazê-lo render-se até lá. Sim, minha querida, pois está em jogo uma soma muito alta, da nossa aposta, e mais do que isso: seu orgulho de jogador. &lt;br /&gt;Surpresa e indignada quase esbofeteei meu irmão que no entanto abracei apertado, com o coração confuso. Eu estava desnorteada. Eu afinal fora o motivo mas não o prêmio da aposta! Sentia-me vagamente humilhada. O dinheiro e orgulho de apostador falara mais alto para aquele jovem fascinante do que a minha beleza e a minha pretensa força de sedução. Mas, como sedutora, não sou também uma jogadora, afinal? Eles iam se haver comigo. Eu faria Rôdo ganhar a aposta e ficaria tudo em família. Ou melhor, talvez por honra do jogo eu deveria cobrar uma comissão do prêmio final, em dinheiro, de meu irmão. Senti-me naquele momento como parte de uma quadrilha, e poeta que sou lembrei-me do quadro de Magritte que representa um violino de pé, na vertical, pousado sobre um colarinho postiço engomado, sobre uma mesa, e denominado: “Un peu de l’âme des bandits”( “um pouco da alma dos bandidos”) imagem com a qual me identificava naquele momento, naquela situação após a insólita revelação de jogo e mentiras tão perigosas. &lt;br /&gt;Naquela noite eu anunciei que receberia minha Aline, e o fiz com uma alegria exuberante, cheia de candura ( “o poeta é um fingidor...”) e pela primeira vez vi a surpresa e a curiosidade intrigada no olhar de Rolando que movimentou-se rapidamente até o de Rôdo e voltou numa fração de segundo, eu percebi. Ele mordera a isca!&lt;br /&gt;Nos dias seguintes, tomei um ar mais sonhador do que nunca, o que não foi difícil, pois bastava-me realmente pensar em Aline e antecipar uma possível chegada dela, o verdadeiro amor da minha vida. Rolando começou a ficar inquieto: as fontes profundas, ancestrais de onde emana o instinto predador masculino, ou mesmo o simples machismo, estavam ativadas e ele logo se denunciaria. Voltei a andar nua agora pelo jardim como uma Ofélia nua ao luar. Até que ele veio encontrar-me perto do caramanchão, lugar perigoso pois não visível de dentro da casa. Estaria eu caindo na minha própria armadilha? Ali diante dele, nua na noite clara, tive um estremecimento de frio ou de pudor, e quis fugir, mas era tarde demais e ele pegou-me pelo pulso com delicada firmeza e puxou-me para si, dizendo: &lt;br /&gt;   -O jogo acabou, Alma, vocês ganharam! Não agüento mais, quero a ti mais que ao dinheiro, ou o amor do jogo. Quero perder, faço questão de perder, diga isso ao Rôdo. Agora, Alma, dá-me o prêmio da minha derrota! &lt;br /&gt;Diante de suas palavras, eu, vitoriosa e comovida, fui abraçando esse homem totalmente vestido por fora... pousando suavemente sobre ele como o violino de Magritte, o violino ereto e orgulhoso que era a alma dos bandidos...&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; 25/04/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-6942160987526817990?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/6942160987526817990/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=6942160987526817990' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6942160987526817990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6942160987526817990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/01/o-violino-de-magritte-de-alma-welt.html' title='O Violino de Magritte (de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R5dEKxxS17I/AAAAAAAAApc/Nk-PBp-knyY/s72-c/A-vcfdesq.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-2316266182818233029</id><published>2008-01-22T07:22:00.000-08:00</published><updated>2008-01-22T08:53:42.159-08:00</updated><title type='text'>Três fragmentos do romance O Retorno dos Menestréis, de Alma Welt</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R5YfKU16ddI/AAAAAAAAAo8/2n1Ciu4iGlg/s1600-h/pv.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://4.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R5YfKU16ddI/AAAAAAAAAo8/2n1Ciu4iGlg/s320/pv.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5158344685453473234" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Alma e Josué voando no Pavão Misterioso (Xilogravura de autoria de Guilherme de Faria)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Segunda parte do romance O Retorno dos Menestréis, de Alma Welt&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A CASA DE LUDGER&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo primeiro&lt;br /&gt;____________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ludugero persiste&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despedimo-nos de Rafisa, emocionadamente. Eu a abracei como irmã e amante, e também como sua discípula dileta. O quanto eu apreendera com esta cigana, com esta maga predestinada, vocês, meus leitores, não poderão saber a não ser em parte. Rafisa não desprendeu seus olhos dos meus, nesta despedida, o fulgor e a insistência do olhar impressionante desta Anti-Medusa benévola aquecia o meu coração, e eu levaria este olhar comigo para sempre e o veria nas lindas noites do sertão estrelado, com também nas do meu Pampa, se me fosse dado um dia voltar às verdes pradarias do Sul.&lt;br /&gt;O “Alma do Sertão” nosso Pavão motorizado, silencioso, subiu na vertical, pairando pela última vez sobre o carroção que fora como um lar para mim, por dezesseis dias, e sobre cujas inusitadas tapeçarias do Oriente eu rolara, abraçada a um corpo tão belo como o meu, mas moreno como sombra acolhedora no deserto, como oásis naquele sertão solar, embora estivéssemos no meio de um agradável bosque. Mas refiro-me à toda aquela viagem da minha alma pela essência seca do chão duro daquele nordeste, que não queria ser considerado um desterro desta Alma, mas seu retorno ao lar, sua casa paterna imponderável, que eu ainda não reconhecia em totalidade. Ai! Que destino o meu! Sou frágil, não cresci completamente, sou na verdade a femme-enfant que eu nunca quis reconhecer, em minhas perplexas contradições. Tenho medos como uma criança, quero ser protegida nos braços de um homem forte. E, no entanto, em que aventuras me meto! Por que sendas, por que trilhas o destino me arrasta, amada por homens e mulheres, mas sem pouso, sem um lar verdadeiro, de casa tão distante! Mas, não será assim todo destino humano? Desterrados do Pai, erramos na Terra, e não temos guarida a não ser como hóspedes passageiros, dependentes “da bondade de estranhos”, como disse Tennesse Williams, pela boca da dolorosa e bela Blanche Dubois, com quem tantas vezes me identifico. Sou patética eu sei, sou romântica e só quero ser amada até o apaziguamento total, por um homem perfeito, um príncipe, imagem projetada do irmão dos nossos sonhos ou de um pai eternamente jovem. Sou incestuosa portanto, e assumida. Deslumbrada na infância com a face invertida do meu espelho, onde enxergava não a minha face, mas a do lânguido Narciso, contra-face de sua ninfa Eco, ecoando, ecoando em círculos concêntricos, em torno de uma flor desesperadamente branca, curvada sobre suas águas. &lt;br /&gt;Voávamos agora, voávamos, e Josué já consultava as suas incompreensíveis cartas, enquanto eu meditava sobre o mistério da cidade onde pousáramos e que eu não conhecera, e que talvez nem tivesse realmente me visto, a não ser nua, isto é, não reconhecera sua princesa, pois agora estava claro: Rafisa com suas artes mágicas me escamoteara aos olhos da população. Minha descida no Pavão não constaria jamais dos anais da cidade, eu agora tinha certeza, e não pude senão sorrir. Ah! Rafisa, um dia nos reencontraremos? Atravessarás este Brasil no teu carroção puxado pela égua Miranda, coitada, tão magra, e estacionarás no bosque mágico de minha infância, na estância, onde Rôdo e eu correremos ao teu encontro para o abraço comovido de amigos de sangue? &lt;br /&gt;Voamos tanto tempo que, perdidos sobre uma planura inóspita e espinhosa, talvez ainda no sertão da Paraíba (Josué já não tinha certeza de nada) acabou nossa água combustível, até a reserva, sobrando somente o conteúdo do menor dos odres, o de beber. Nós estávamos em apuros. A realidade cobrava os seus direitos a estes dois sonhadores e tivemos que descer, “no vapor” como se diz, para não espatifar-nos contra o solo rachado de uma caatinga seca de cem anos. Descemos da barcaça, com o coração apertado, preocupados, pois a paisagem era terrível, desoladora, e só tínhamos um horizonte indefinido a toda volta, reverberante de calor, cuja linha indefinida ondulava como um delírio de febre terçã.&lt;br /&gt;Quando pus os pés no solo, quase tive uma vertigem de calor, e pensei em primeiro lugar, na minha pele tão branca... Eu iria ficar sardenta, pela primeira vez, e para sempre? Senti dor no meu coração. Mas por quê, por outro lado, eu não me queimara nem um pouco até agora naquela viagem e naquele vento, e minha pele permanecia branca e sedosa como sempre? Aquilo era um mistério, que impressionava até o Josué que não era fácil de se admirar, com nada estranho. Ele, mesmo assim, parece que também pensara nisso, e retirou de sua mala misteriosa, uma sombrinha branca como eu e como o meu vestido rendado, e abrindo-a, entregou-a a mim, para começarmos a caminhada. &lt;br /&gt;Andamos por uma hora sob o sol inclemente e sarcástico como os metais do “ Le Sacre du Primtemps” de Stravinsky, eu, com minha sombrinha branca também debruada de renda, e meu vestido alvíssimo, quase tanto quanto a minha pele, minhas sandalinhas finas de ouro e prata, que eram feitas somente para mostrar meus pés, finos, delicados, com os dedinhos segundos mais compridos que os primeiros, como as mãos, que inspirariam aqueles versos do cordelista Guilherme. Mas eu me refiro a isso tudo para ressaltar o absurdo da nossa situação. Eu era incompatível com aquele deserto, eu que era “filha das verdes pradarias floridas, dos campos de trigo louros como os meus cabelos, e do vinhedo, de uvas rubras como os meus lábios”*. Eu iria morrer esturricada e ficaria ali como uma ossada branca. E não seria identificada em minha brancura óssea, como não o fora Dom Sebastião no areal africano. Afinal eu também não era a “Esperada”? Estes pensamentos irônicos, quase delirantes, denunciavam meu ressentimento, minha amargura nascente. Josué não podia me proteger mais do que o fizera arranjando-me aquela sombrinha que comprara na feira de Princesa, e que diziam ser cópia da que a Princesa Isabel usara na sua passagem por lá. Bah! Tudo sonhos, tudo delírios. Fiora e Anunciada tinham razão eu não era feita para a rudeza deste sertão, eu o subestimara em sua crueza, em sua crueldade. E agora iria morrer! &lt;br /&gt;Mas, então, mesmo numa hora tão penosa e angustiante como aquela, sob um calor de quase 50º Celcius, eu, lembrando-me do filme “Barbarella”, dos anos 60 (que eu vira em DVD), ali, sedenta, exclamei: “CHAMPANHE! CHAMPANHE!”, com minha sombrinha muito tesa e meu ar de lady. E caí numa gargalhada cristalina, nada amarga, que perdeu-se na vastidão daquele deserto. &lt;br /&gt;Então, Josué, que me olhara espantado, neste exato momento apontou o dedo, estendendo o braço em frente, e gritou: “TERRA À VISTA! TERRA À VISTA!” Eu não acreditava, o mundo estava verde novamente, e eu me vi sob palmeiras e coqueirais, jaqueiras frondosas e sapotizeiros que cresciam juntos, sem conflito, às margens de uma cascata e sua piscina azul, no doce país de Cocayne*, digo, da Esperança. &lt;br /&gt;Sim, eu bem tinha ouvido que só o humor salva... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos uma semana desfrutando do paraíso e “transando” tanto sem camisinha como se o mundo estivesse redimido, e não houvesse punição para os incautos e os inocentes. Aliás eu já via com bons olhos a idéia de um bebezinho em meus braços, mamando em meu seio, e mergulhando com os botos como o menino da escultura grega de bronze no museu de Atenas, que tanto me impressionara, como a essência emblemática da Idade de Ouro, que eu pensava estar revivendo ali, naquele sertão verdejante, inaudito. Mas, afinal, um dia, enquanto eu acariciava meu ventre e o bico dos meus seios com um ar sonhador, Josué aproximou-se e disse: &lt;br /&gt;—Alma, querida, temos de partir, o mundo nos espera, passaram-se sete anos e eu também só soube disso agora, fazendo cálculos com um aparelho que inventei e que tirei da minha mala de equipamentos. Se ficarmos aqui, seremos esquecidos pela humanidade, e tudo o que passamos antes terá sido em vão.&lt;br /&gt;—Mas, Josué, — eu disse— o que passamos, mal me lembro, e que importância tem, se estamos tão felizes? Vem, toma-me, toma-me mais uma vez, mais mil vezes. Só quero isso, e depois... talvez, morrer em teus braços. Mas dá-me um bebezinho, vê meu ventre crescer, ausculta-o, fala com ele, beija-o através do meu umbigo, tira-o de dentro de mim com tuas mãos, lamba-o junto comigo. Vem, vem, vamos fazê-lo agora! &lt;br /&gt;Josué olhou-me fixamente, abanou a cabeça, e mais uma vez deitou-se sobre mim, que vivíamos nus, e me possuiu docemente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando completou-se dez anos de nossa chegada a Cocayne (não me entendam mal, nada a haver com o que alguns estão pensando), eu estava mais jovem e saudável do que nunca, e não envelhecera nem um pouco, o que preocupava Josué, não sei por quê, e que para mim era maravilhoso, com o único senão de não poder admirar a minha beleza intocada, num espelho de cristal mesmo, que não havia ali, e somente poder mirar-me nas águas, aliás cristalinas da nossa piscina natural da cascata. Mas eu não engravidava e isso estava tirando-me o prazer da imortalidade e da juventude eterna, que eu já percebia que reinavam ali, naquele paraíso sertanejo. Comecei a aceitar a idéia de partir. Não há perfeição no mundo, e se eu não podia perpetuar-me e nem tinha telas e tintas para pintar, ou papel para desenhar e escrever meus versos, nem admiradores e leitores ávidos das minhas criações, eu não queria a Eternidade! Lembrei-me, das últimas palavras do grande Jean-Baptiste Corot, no seu leito de morte: “Espero que no Céu, haja pintura!” &lt;br /&gt;Então, fiz um esforço imenso para superar a preguiça e o prazer do meu corpo em eterno deleite (eu não tivera sequer um piriri, ou uma dor de dentes, ou de cabeça, nem um simples resfriado, todos as aqueles anos, e me esquecera totalmente da ameaça de Ludugero). Nunca mais voáramos no Pavão, do que, confesso, estava com saudades. Josué com sua habilidade, conseguira levar água aos poucos, durante aqueles longos anos, até encher os odres do pavão num trabalho de Sísifo, ou melhor, de tonel das Danaides, pois o sol da caatinga fazia evaporar uma parte no caminho e mesmo dentro dos próprios odres de maneira que foram necessários dez anos para ter neles uma quantidade razoável para levantar vôo e escapar daquele deserto. Durante aqueles anos nenhuma vez eu o acompanhara nesse trabalho, pois nem sabia que ele fazia isso. Eu tributava suas ausências à sua vida de homem, que precisava afastar-se um pouco de sua mulherzinha e sair com os amigos, esquecendo-me completamente que ali não havia amigos, não havia ninguém. A verdade é que eu me alienara no meu sonho de dez anos, e não vira o quanto Josué se esforçara e até envelhecera um bocado, naquele esforço brutal, quase cotidiano, que eu ignorava. Tive um grande remorso, quando me dei conta de tanto sofrimento do meu homem. Para ele não houvera Paraíso, e sua sina de homem nunca fora renegada. Ele sim, era o herói, e lembrei-me de que isto queria dizer que ele seria capaz de descer aos Infernos por mim, e voltar, se é que ele já não vinha fazendo isso continuamente há dez anos. Decidi partir com ele.&lt;br /&gt;Josué foi buscar sozinho o Pavão e sobrevoou Cocayne, acenando-me antes de descer sobre a grama entre os coqueiros. Naquele momento ele poderia ter se afastado e fugido, deixando-me ali para sempre. Mas isso nem lhe passou pela cabeça, ele me afirmou depois, quando perguntado por mim, que levantara essa dúvida, num lapso de um minuto em meu espírito. Ele me amava, eu era a sua princesa e ele não me abandonaria, jamais, no paraíso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-2316266182818233029?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/2316266182818233029/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=2316266182818233029' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2316266182818233029'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2316266182818233029'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/01/trs-fragmentos-do-romance-o-retorno-dos.html' title='Três fragmentos do romance O Retorno dos Menestréis, de Alma Welt'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R5YfKU16ddI/AAAAAAAAAo8/2n1Ciu4iGlg/s72-c/pv.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-4314399447538887248</id><published>2008-01-19T21:16:00.000-08:00</published><updated>2008-01-19T21:31:00.282-08:00</updated><title type='text'>A nova amiga   (de Alma Welt)</title><content type='html'>(Dos Contos Secretos, de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha amiga Vânia me telefona bem cedo convidando-me a encontrá-la num barzinho aqui perto na Oscar Freire para tomarmos um café e botarmos o papo em dia. Jamais esperaria que ela tivesse uma segunda intenção e que esse telefonema tivesse as conseqüências que ora passo a narrar a vocês, meus confidentes leitores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depus a paleta, limpei os pincéis, dei uma última grande olhada na tela nascente no cavalete e passei a ocupar-me de uma caprichada toilette: banho, escova nos cabelos, e uma esmerada escolha de uma roupa “casual” mas elegante. Foi como se meu inconsciente captasse alguma coisa, um prenúncio, uma aurora. Saí depois de deixar um auspicioso e sintomático bilhete brincalhão para minha faxineira que chega sempre um tanto tarde devido à viagem que necessita fazer para chegar neste seu emprego. Minha querida Luíza, minha nova “mãe-preta”, como acostumei-me a chamá-la:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Querida Luiza, fui ao encontro do “grande amor da minha vida!”. Tem comida na geladeira. Esquente e coma o que você quiser. Não me espere para o almoço. Pode matar a goiabada com queijo: Romeu e Julieta, é todo seu. Vou ao encontro da alegria. Beijos” &lt;br /&gt;Alma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas quadras depois topo com minha amiga na mesinha da calçada mas não sozinha, há uma moça com ela. Estremeço: é linda, estendendo-me a mão à apresentação de Vânia que troca beijinhos comigo, aos gritinhos, como é do seu feitio. Perturbada, esqueço de soltar a mão da moça que no entanto não parece constrangida. Olha-me atentamente, parecendo também fascinada. Não ouvíamos mais o bábáblá de Vânia. Nossos olhos não mais se desgrudariam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prima de Vânia, Letícia é o seu nome, parece vir de longe, mas de um outro tempo, de dentro de mim mesma.&lt;br /&gt;Vocês conhecem, leitores, o meu temperamento romântico e minha procura incessante pela felicidade amorosa. Trata-se de uma idiossincrasia, eu reconheço, nestes tempos tão pragmáticos que esperam tudo de uma artista jovem, “contemporânea”, menos isso! Entretanto, tenho cada vez mais a tendência, como vocês já perceberam, de assumir minha alma lírica, “sáfica”, no melhor sentido. Eis porquê cada vez mais exercito minha veia de sonetista, produzindo até mesmo alguns de timbre camoniano, como este: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando criança, o amor já desejava&lt;br /&gt;E sonhando construía meus enredos;&lt;br /&gt;Tornar-me escritora eu almejava,&lt;br /&gt;Ser poeta e espalhar os meus segredos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser pura, secreta e desbragada;&lt;br /&gt;Confessional pelo mais puro pudor,&lt;br /&gt;Abrir o coração, e, alargada,&lt;br /&gt;Conter o essencial do meu amor:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo que devora e me conserva&lt;br /&gt;Jovem para sempre enquanto morro&lt;br /&gt;Um pouco a cada dia que percorro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, da Natureza alegre serva,&lt;br /&gt;Manter do coração a chama eterna,&lt;br /&gt;Heróica, ao sol acesa a vã lanterna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora estava eu ali, à beira de um novo amor, feliz desde logo, de puro encantamento por uma adorável jovem, reflexo da minha própria beleza, juventude e alegria. Eu já estava novamente vivendo a glória de uma nova paixão, única razão legítima de se viver, o próprio sentido da vida, evanecente embora, segundo a experiência. Uma embriaguez eufórica, que produz frequëntemente, uma espécie de “apagamento", como o alcoólico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei dizer como nos desvencilhamos de Vânia. Só me lembro de caminharmos um quarteirão de mãos dadas, trêmulas de emoção. Depois a porta aberta do estúdio, com Letícia já atirando o sutiã para cima, numa explosão de peças deixadas pelo caminho, numa verdadeira corrida até o quarto onde nos atiramos uma sobre a outra, no imenso leito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso encantamento nos conduzia numa longa viagem, que fatalmente iria pela tarde e pela noite até o dia seguinte... pela eternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me esquecera de Luiza, a mãe-preta, que chegou e nos pegou juntas na cama. A pobre negra, uma mulher quase idosa, coitada, teria mesmo que ficar um tanto chocada... Mas a boa mulher recuou rapidamente da porta do quarto, com o meu bilhete na mão. E permaneceu discreta na cozinha, calada, de cabeça baixa. Fui ao seu encontro e encontrei-a assim, com lágrimas nos olhos, tentando limpar a pia. Segurei-a pelos ombros, ergui-lhe o queixo com dois dedos e disse-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;–Luiza, querida, não fica assim. Lembra-te, sou eu, Alma, a tua “guria”, sempre a mesma, que adotaste como tua “filha branca”, não sou? Olha, não é melhor assim, uma bonita garota, pura afinal, do que um belo cafajeste, ou aproveitador, ou ainda um “macho” com o cabresto numa mão e a sela na outra, como diríamos lá no meu pampa? Vamos, vamos, não fica assim. Agora eu te peço, Luiza, toma aqui a tua diária e volta amanhã. Nada temas. Eu estou feliz, não é isso que importa a ti ? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza, olhou-me sem entender. Tocou meu rosto com sua mão áspera de faxineira, e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Alma, eu não entendo isso. Duas moças... isso é pecado, minha filha! Você assim não casa, não vai ter filhos. Isso não leva a nada, minha filha! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei seu rosto negro, seu cabelo pixaim que começava a ficar grisalho, suspirei e retruquei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Luiza, já fui casada, tu sabes disso. Não gostaria de repetir a experiência. Os homens interessantes ou são neuróticos ou são bêbados, é perigoso meter-se com eles. Tu mesma, não foste casada com um bêbado? Que te batia, que te fazia sofrer? Essa garota não baterá em mim e me fará feliz, eu te garanto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza abanou a cabeça, com lágrimas nos olhos, tocou novamente meu rosto, e murmurou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Que pena... Tão linda... que pena! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiza pegou sua bolsa e o dinheiro que lhe estendi, enfiou-o nela, retirou o avental e saiu de cabeça baixa visivelmente deprimida e chocada. Ela nos vira nuas na cama. Teria visto mais que isso? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei para o leito onde Letícia permanecia adormecida. O seu maravilhoso corpo nu, tão entregue, numa bela posição, estética e natural ao mesmo tempo! Uma obra de arte! Sentada ao seu lado contemplei longamente o seu puríssimo rosto de menina. Esse rosto banhara-se de lágrimas de emoção, da pura emoção do nosso encontro, e eu bebera a suas lágrimas como elas as minhas. Estava tudo certo. O amor era lindo, e nós certamente não iríamos para o inferno, pois já estávamos no paraíso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18/02/2004&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-4314399447538887248?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/4314399447538887248/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=4314399447538887248' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4314399447538887248'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4314399447538887248'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/01/nova-amiga-de-alma-welt.html' title='A nova amiga   (de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-470278108038521602</id><published>2008-01-18T08:30:00.000-08:00</published><updated>2008-01-21T07:22:07.163-08:00</updated><title type='text'>Divagações da Alma (de Alma Welt)</title><content type='html'>Há algo que nunca deixarei que acabe em nossa estância. Trata-se da charrete do Galdério, o hábito de irmos buscar nossos eventuais hóspedes na estaçãozinha de trem, uma das últimas Maria-Fumaça ainda na ativa no Brasil. Enquanto eu for viva lutarei pra a preservação dessa relíquia, tão cara a mim, que sou acusada de “antiquada” e passadista, por isso. O próprio Rôdo, meu querido irmão, sorri, irônico e condescendente, quando se toca no assunto. Ele, com sua paixão por carros esporte e seu amor pela velocidade, é sem dúvida bem mais “moderno” do que eu. Mas não se trata disso! É uma questão cultural, e eu tenho lutado desde a morte do Vati para que nada se modifique por aqui, e que o casarão não sofra nenhuma reforma, mesmo se mostrando nitidamente “decadente”, com rachaduras e musgo subindo pela fachada e paredes externas ( Rôdo compara-a , rindo, à Casa de Usher, de Poe). Minha luta ( reacionária talvez ) eu registrei no meu romance autobiográfico A Herança, ainda inédito. Acredito que o meu romance é atual e oportuno justamente por se situar na fronteira de dois mundos: a face tradicional e até arcaica do Pampa, e o mundo citadino, cosmopolita, da comunicação de massa, embora eu mesma não tenha comprado até hoje um celular (pasmem!). Escrevo à mão (só não com pena de ganso) antes de digitar, e somente a partir de 2001, quando fui contatada e “descoberta” pelo Guilherme de Faria, comprei um computador e aprendi a navegar na Internet. Confesso que fiquei praticamente viciada. A net é realmente a maior revolução desta virada do século, e me permite “ganhar tempo” enquanto as editoras me olham ressabiadas: “...essa escritora é profunda, tem o que dizer, na certa não venderá. As pessoas não gostam de refletir, nem de sofrer, nem mesmo de se comover, querem apenas se divertir: sua faceta ponderável para nós é a do seu erotismo. Mas ela não é suficientemente pornográfica. Será que venderá?’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma Welt permanece sob suspeita. Estarão os abutres esperando somente a morte da gaúcha doida, da “última romântica”? Tenho elementos para supor que sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em compensação, uma rede de leitores, no boca a boca propaga minha literatura, “como musgo sobre a tundra” (expressão um tanto nórdica, minha mesma) E tenho recebido milhares de e.mails com manifestações de afeto e apreço. Isso é o que vale. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/11/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-470278108038521602?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/470278108038521602/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=470278108038521602' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/470278108038521602'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/470278108038521602'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/01/divagaes-da-alma-de-alma-welt_18.html' title='Divagações da Alma (de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-6016399960495056057</id><published>2008-01-09T10:05:00.000-08:00</published><updated>2008-01-09T10:12:38.231-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R4UNsE16dOI/AAAAAAAAAnA/OjN0R_UBAJQ/s1600-h/logotipo+AW.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R4UNsE16dOI/AAAAAAAAAnA/OjN0R_UBAJQ/s320/logotipo+AW.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5153540399460676834" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Logotipo da Alma Welt, criado e pintado por ela em 2001, a óleo, com grande destreza em dois golpes de pincel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-6016399960495056057?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/6016399960495056057/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=6016399960495056057' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6016399960495056057'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6016399960495056057'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/01/logotipo-da-alma-welt-criado-e-pintado.html' title=''/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R4UNsE16dOI/AAAAAAAAAnA/OjN0R_UBAJQ/s72-c/logotipo+AW.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-6397667390040460454</id><published>2008-01-05T04:48:00.000-08:00</published><updated>2008-01-05T04:50:23.651-08:00</updated><title type='text'>A Navalha e o Abismo  (crônica de Alma Welt)</title><content type='html'>A Navalha e o Abismo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(de Alma Welt, 1972-2007)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai possuía uma navalha de barbear que me fascinava, em minha infância. Era um objeto magnífico, com cabo de marfim, dentro de um belo estojo, com a marca alemã em letras douradas: Abgrund &amp; Sohn. Ele não a usava desde a sua juventude, quando deixara a barba crescer e eu só o conheci barbado, patriarcal, a princípio fulvo e grisalho, depois todo branco. No entanto ele guardava a sua navalha, que lhe era cara por alguma razão. Digo isso, por que, estranhamente, eu nunca lhe perguntei como a obtivera, se ganhara de alguém, se a comprara numa loja, ou se fora de seu pai, coisas assim. A razão da minha discrição, acredito, é que o objeto parecia secreto, a mim, que cheguei perto da obsessão, por um período, naquela época. Foi logo que descobri o estojo na gaveta de sua escrivaninha, na biblioteca. Eu o abri, e deslumbrada, num nicho em depressão sobre o veludo, dormia o objeto que me... “vertiginou”. Eu desnudei a lâmina, lentamente, com o dedo indicador toquei-lhe o fio, e imediatamente a minha carne se abriu quase até o osso, me pareceu. Dei um grito e nem sei como guardei o objeto agressivo, no estojo, empurrando a gaveta com a outra mão, para sair correndo buscar gaze e esparadrapo, para tratar-me, pois sabia que fizera algo errado e pretendia esconder o fruto da minha bisbilhotice. Eu consegui facilmente, de minha mãe e de Matilde, sob interrogatório, atribuindo o corte a uma inocente faca de cozinha. Meu pai percebeu a verdade, eu acho, pois a navalha dever ter ficado manchada do meu sangue. Mas ele nada comentou, para não abrir uma nova área de atrito com minha mãe. E escondeu a lâmina noutro lugar, eu depreendi. Com um meio sorriso, levantou o dedo, disfarçadamente, para mim, a um tempo com admoestação e cumplicidade, assim me pareceu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí por diante fiquei praticamente assombrada pela navalha e seu perigo. Eu tomara a consciência traumática de sua ameaça, de seu... abismo. Sim, pois por alguma ilação poética, cuja propensão me era inata, eu associei a navalha a um abismo. Quando dali a não muito tempo eu descobri na estante da biblioteca, o livro intitulado “O Fio da Navalha", de W. Somerset Maugham, eu o devorei, para encontrar a resposta do enigma daquela lâmina. E, acreditem, apesar da ingenuidade do meu propósito infantil, eu a encontrei. Há mesmo uma associação entre o fio da navalha e o abismo, pois a metáfora de andar no fio de uma navalha incorre no perigo de abismar-se, talvez dividido ao meio, numa queda sem retorno. Na minha mente, porém, a própria lâmina era o precipício. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto aquele era um objeto material que continuava me atraindo, me chamando, me obcecando. Eu temia levantar à noite, sonâmbula ou não, ir direto ao seu novo esconderijo, que de alguma forma eu sabia, e precipitar-me sobre ele. O que era estranho é que eu não me via degolada, mas sentando-me nua na lâmina aberta, sobre o fio, e cortando a minha pequena vulva, num talho sangrento, que não se fecharia nunca. Quando afinal surgiu o sangue da minha menarca, por uma fração de segundo, inesquecível e terrificante, eu pensei ter feito aquilo: sentara-me na lâmina sagrada e proibida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu agora estava no abismo de mim mesma, do meu desejo infinito, do misterioso sangue das minhas entranhas de mulher!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-6397667390040460454?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/6397667390040460454/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=6397667390040460454' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6397667390040460454'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6397667390040460454'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2008/01/navalha-e-o-abismo-crnica-de-alma-welt.html' title='A Navalha e o Abismo  (crônica de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-2922060606987725718</id><published>2007-12-28T13:00:00.000-08:00</published><updated>2007-12-28T13:01:53.822-08:00</updated><title type='text'>Um caso da Alma  (de Alma Welt)</title><content type='html'>(dos Contos Pampianos de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              Quando eu tinha dezenove anos, e portanto já estava órfã há seis (orfã de mãe, quero dizer), eu praticamente não tinha freios. A censura exercida pela Mutti (que na verdade eu introjetava muito pouco), não existindo mais, foi como uma comporta aberta para os meus desejos, que se confundiam com a minha própria noção de liberdade. O Vati, como já contei, experimentara criar-me como uma pequena pagã, e fora espantosamente ousado nessa sua experiência. Leituras clássicas e muito estímulo para as artes, eram a sua fórmula para dotar a minha sensualidade de um timbre distinto, nobre, portanto nada vulgar. Quanto ao que eu fizesse do meu corpo... seria simplesmente destino, desde que eu soubesse me defender, num sentido pragmático, de prevenção de maternidade indesejada, ou de sujeição voluntária por amor a um homem de caráter mais forte que o meu.  Esse perigo havia, pois o timbre doce de minha personalidade, e uma certa “candura”, me podiam deixar vulnerável. Quanta vezes na vida eu me veria submissa, com certa volúpia quase masoquista! Quantas vezes eu seria atingida pela violência de desejos alheios, incontrolados e perigosos, maldosos mesmo. Entretanto, como o Vati previa, nada disso poderia verdadeiramente me destruir. Meu pai era um filósofo, e observava-me e à minha vida com uma distância contemplativa, como uma obra que ele criara, e que era uma obra de arte, a seu ver. O incrível, no entanto, é que corroborando essa visão, tendo a ver assim também a minha vida até hoje, e estou consciente de viver numa permanente dimensão poética. &lt;br /&gt;             “A vida, Alma, deve ser uma obra de arte, ou nada ser, minha filha. Chega de misérias psíquicas que se externam compondo existências miseráveis, farrapos anímicos que se arrastam pela vida”, dizia Werner Friedrich Welt, meu pai. Custei a perceber a nota de arrogância germânica que existia nesse seu axioma, no entanto mais romântico do que nazista. Pois meu pai rejeitava com sincera repulsa a doutrina nazi, que outrora meu avô, o velho Joachim Welt, professara mais ou menos secretamente.&lt;br /&gt;               Mas, como eu dizia, aos dezenove anos, eu, estando no auge de minha beleza, era uma verdadeira tentação para os homens que nos cercavam no cotidiano, portanto peões, jovens na sua maioria, mas que não ousariam se aproximar de mim, atravessar a linha ou o abismo, melhor dizendo, intransponível, social e cultural que nos separava. Entretanto a paixão de um jovem peão por mim se fez visível e foi, talvez, a sua desgraça. Mas é preciso que eu seja sincera e revele aqui também, o fato de que houve antes disso, pelo menos dois suicídios misteriosos de jovens peões da nossa estância, cuja culpa involuntária, por assim dizer, me foi veladamente imputada. Mas voltemos ao caso que devo aqui narrar e que já foi citado, nominalmente mas en passant , numa cena do meu julgamento, no romance “A Herança”. Refiro-me o caso do jovem peão Martim, filho do velho Alípio Galdiano.&lt;br /&gt;                Martim Galdiano, era um belo jovem peão, muito bem dotado para a profissão, cavalgando e jogando o laço como poucos e também a boleadeira, prática em vias de extinção pelo menos na nossa estância, dedicada mais à vinha e ao mate do que à boiada ou o charque, como antigamente, antes do meu avô.  Martim era também um excelente dançarino, nas festas da peonada, e se exibia no fandango, na dança da lança, na dos punhais, e na das boleadeiras, com um virtuosismo entusiasmante, com um taconeo aliciador.&lt;br /&gt;                   Sendo um verdadeiro sucesso entre as gurias, essa flor viril da peonada causava freqüentemente ciúmes perigosos nos outros jovens, e tinha às vezes que se bater à faca ou mesmo aos murros com alguns deles, por paixão despertada nalguma chinoca. Mas a desgraça realmente começara já nos seus quinze ou dezesseis anos, quando o jovem Martim, da mesma idade que eu, me viu mais de perto numa festa de galpão, durante o São João. O jovem perdeu a sua paz. A paixão que despertei, nele, ao dançar candidamente, sorrindo muito, principalmente durante a dança dos lenços, e a do pezinho, iria condicionar a sua vida daí por diante. Quanto a mim, reprimi a consciência desse fato até muito recentemente, como se não me dissesse respeito, por ser involuntário e por eu não ter nunca dado corda ou me aproximado do guri. Eu estava demasiado centrada em mim mesma e no meu irmão Rôdo. Além disso havia em mim, confesso, uma espécie de consciência aristocrática, de minha condição de filha de estancieiro de segunda geração. &lt;br /&gt;             Embora eu ainda seja jovem, recentemente começou a vir do fundo da memória essas imagens produzindo um certo desconforto, uma certa dor mesmo. Serei culpada de alguma forma pelo suicídio recente de Martim há tantos anos longe de seu pai e de nós, numa outra estância longe daqui?  O ódio do velho Galdiano, que no entanto permaneceu entre nós, na estância, mesmo depois de aposentado (fato até certo ponto misterioso) e que me foi revelado no seu depoimento em meu julgamento, corrobora essa hipótese que poderia ser, talvez, pretensiosa.&lt;br /&gt;              Estou contando tudo isso aqui, neste momento, por uma razão perturbadora: acabo de receber esta manhã, uma carta lacrada, cujo nome do remetente me fez estremecer, e que não tive coragem de abrir até agora. O medo que tenho dela é maior que minha curiosidade. Faz dois meses que Martim se enforcou com seu laço de couro. Faz vinte anos que o velho Galdiano me odeia, e apenas dois que me revelou isso. Confesso que começo a ter, finalmente, um certo medo da vida...       &lt;br /&gt;                                   _____________________________ &lt;br /&gt;29/10/2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-2922060606987725718?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/2922060606987725718/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=2922060606987725718' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2922060606987725718'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2922060606987725718'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/12/um-caso-da-alma-de-alma-welt.html' title='Um caso da Alma  (de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-8779728441950404655</id><published>2007-12-23T15:04:00.000-08:00</published><updated>2007-12-23T15:12:07.627-08:00</updated><title type='text'>Sons de cristal  (de Alma Welt- republicação)</title><content type='html'>Republico aqui, por achá-la oportuna, esta crônica de Natal de minha saudosa irmã e grande poetisa. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;SONS DE CRISTAL&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(dos Contos Secretos de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto a lembrar-me, com saudade, das nossas festas de Natal e fim de ano, na estância, durante a minha infância. Dias gloriosos, aqueles, em que me levantava cedo, em manhãs esplendorosas de verão, quase gritando de alegria por existir, e me sentir... tão feliz! As festas, para mim, começavam já nos preparativos, na cozinha, e na sala preparada, sobretudo com a montagem do nosso grande pinheiro de Natal. Matilde era a grande festeira, responsável pelo maravilhoso peru assado, guarnições, saladas e doces. O Vati cuidava da escolha dos vinhos, de nossa própria produção. A Mutti gerenciava tudo, a começar pela decoração da sala e a preparação condigna da grande mesa que nos congregaria a todos. Solange e Lúcia, minhas irmãs, as ajudavam, enquanto eu e Rôdo nos divertíamos em observar e bater palmas, ou simplesmente colher flores e fruir o clima adorável de preparativos natalinos. &lt;br /&gt;Mas recordo particularmente o Natal dos meus treze anos, quando Rôdo, numa grande inquietação de sua libido de pré-adolescente, resolveu criar um pretexto para que eu o visitasse em seu quartinho do sótão, na ante-véspera do Natal, à meia-noite, quando todos estivessem dormindo. &lt;br /&gt;Ali estava eu, como tantas vezes, naquele aconchegante ambiente de quarto de menino, que me fascinava com sua bagunça viril, onde seus gostos se mostravam todos: carrinhos, aeromodelos, miniaturas de motos e barcos, fotos e posters de montanhas e praias, algumas fotos pampianas típicas, de boiadeiros laçando ou lançando a boleadeira em pleno galope, cavalos maravilhosos, tudo o que um menino aventureiro amava, e... uma foto minha, linda, a minha melhor foto, que me enternecia por estar ali, entre as suas coisas amadas.Eu o abracei de uma maneira mais comovida, que o normal, embora sabendo que Rôdo não gostava de sentimentalismos. Mas naquela noite, em especial, por alguma razão eu queria chorar de felicidade de tê-lo como irmão, eu, que não me identificava em nada com minhas irmãs, e nem tinha certeza de amá-las. Puxei-o sobre mim, instintivamente, como uma pequena amante, mas estávamos sonolentos e adormecemos assim, vestidos e abraçados, sonhando com nós mesmos, abraçados, sonhando...&lt;br /&gt;Acordamos sobressaltados pela voz aguda e agressiva de Solange. A megerinha gorda, diante de nós, de mãos na cintura, nos fuzilava com os olhos:&lt;br /&gt;—Ah! Seus safados. Já agarrados de novo! Mamãe vai saber disso! Vocês vão ficar sem peru no Natal e sem sobremesa! Nem vão sentar à mesa, vocês vão ver!&lt;br /&gt;Fiquei envergonhada por ela, não por mim. Pela mesquinharia de minha irmã que insistia em atormentar a minha vida, conspirando contra a minha felicidade, que, afinal, para mim, estava ali mesmo, junto de meu irmão. Retruquei, estendendo meus braços para ela:&lt;br /&gt;—Solange, irmãzinha ciumenta! Queres abraçar-me também? Vem, vem Sol, que eu te farei feliz!&lt;br /&gt;Solange ficou rubra de confusão e cólera, mas retirou-se correndo dali. Eu a desarmara. Olhei para Rôdo e ele rolava de rir, ofegante. Conseguiu afinal, dizer: &lt;br /&gt;—Alma, tu tens cada uma! És sempre inesperada. Tu, abraçando a Sol! Não posso imaginar!&lt;br /&gt;–Bem... ela não deixaria. Eu a abraçaria e até a beijaria se com isso eu a conquistasse, e ela parasse de nos perseguir. Por falar nisso, será que já estamos sem peru e sobremesa?&lt;br /&gt;Rimos mais uma vez juntos, e eu estava tão feliz ali, com Rôdo, romanticamente nos braços do meu irmãozinho, que comecei a ouvir os sons da noite de Natal, o ruído dos cristais, das taças de vinho, e dos talheres de prata, das risadas felizes dos familiares que eu amava tanto, que não excluiria Solange, que via sorrindo para mim, gordinha e... até mesmo simpática. Eu não precisava nem mesmo da noite de Natal. Eu estava tão plena e feliz, que ouvia os seus sons de cristal, e não precisava mais que a véspera chegasse. Meu Natal era ali mesmo, naquele momento, presente para sempre, sentindo com meu pequeno seio nascente, as batidas do coração amado de meu irmão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-8779728441950404655?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/8779728441950404655/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=8779728441950404655' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8779728441950404655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8779728441950404655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/12/sons-de-cristal-de-alma-welt-republicao.html' title='Sons de cristal  (de Alma Welt- republicação)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-2694497667132906573</id><published>2007-12-13T15:27:00.000-08:00</published><updated>2007-12-13T15:31:44.783-08:00</updated><title type='text'>A Preceptora    (de Alma Welt)</title><content type='html'>A Preceptora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Dos Contos Secretos, de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso contar a vocês, meus leitores, um episódio de minha adolescência, na estância. Tenho hesitado muito em contar este episódio, por motivos que eu mesma não compreendo bem, já que venho revelando nestas narrativas “secretas”, o mais recôndito de minha vida... e de minha alma, de uma maneira, espero, sincera, e não despudorada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha quinze anos, e minha beleza estava no auge, a tal ponto que a mim mesma me espantava... e comovia, como artista nata, que sempre fui. Por esse motivo, eu era homenageada por todos de minha casa, a exceção de Solange, claro, minha irmã mais velha, e talvez de minha própria mãe, que via esse fato, ao que parece, com temor e desconfiança. O certo é que minha mãe, percebendo o teor particularmente sensual da minha beleza juvenil, resolveu tirar-me da escola, pois descobriu que eu corria perigo diante de mim mesma e dos alunos adolescentes, que me assediavam. Resolveu então, que eu passaria a receber aulas particulares, na grande sala da nossa estância, de uma professora que ela contratou e que chamava, de uma maneira um tanto antiga, de “preceptora”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa moça, de uns trinta e poucos anos, morena, magra, de rosto triste, sério, de cabelos presos e roupa sóbria como uma freira, inspiraria confiança em minha mãe. Começaram as aulas, tudo corria normalmente, e dona Luciana era uma excelente professora de diversas matérias, como matemática, geometria, física, etc. Quanto ao português e história, parecia-me que eu já sabia mais do que ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que dona Luciana, cujo semblante fechado, neutro, a princípio não atraía ninguém, foi-se abrindo, ao longo das nossas aulas, e passou a sorrir e a demonstrar um tom crescente de afetividade, até atingir aquilo que chamamos carinho. Ah! Vocês já podem prever o que aconteceu? Claro, vocês já me conhecem. Sim, eu sem querer, ou querendo sem saber, seduzia gradativamente a minha preceptora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro sintoma do meu sucesso, foi o pedido que Luciana fez à minha mãe, para transferirmos as aulas para a mansarda do casarão, onde teríamos mais silêncio e concentração para as aulas, já que o salão era constantemente invadido por empregadas, irmãos e empregados da vinha procurando por meu pai, trazendo-lhe problemas, o que dispersava a nossa atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Montamos a nossa sala de aula no sótão, aposento acolhedor, intimista, e com minúscula janela. Eu já percebia o timbre sub-reptício dessas manobras, mas, como sempre, sendo da minha mais profunda natureza aliar candura à lucidez, ironia à inocência, deixava-me levar por suas iniciativas, com minha passividade de sempre. Luciana estava cada vez mais apaixonada por mim, essa era a verdade visível a olho nu, pelo menos para mim. Essa moça conseguiria disfarçar isso por muito tempo? Eu me perguntava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tarde, Luciana, enquanto eu escrevia, fingindo-me concentrada, tamborilava os dedos levemente na mesa, denunciando uma certa tensão. Seu olhar fixo sobre mim, começou a parecer com o de uma ave rapinante, e... ela levantou-se afinal, caminhando decididamente em minha direção. Ergui os olhos, assustada realmente, como se ela fosse bater-me, quando agarrou-me pelos ombros, ergueu-me da carteira, e olhando-me fixamente nos olhos, exclamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;–Não agüento mais, Alma, eu te amo, guria! Eu te amo! Estou apaixonada por ti!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E beijou-me súbita e ardentemente os lábios. Longamente. Eu permaneci passivamente, de pé, tendo meus lábios sugados, mordidos, por essa boca que percebi bela, também, surpreendentemente doce. Ela não tardou a enfiar sua língua em minha boca, para colher minha saliva, sugar o meu hálito, com uma sede infinita, antiga, que agora finalmente saciava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, empurrou-me para o pequeno catre que havia ali, atrás de um biombo chinês, esdrúxulo, herança da avó Morgado. Aquilo sempre estivera ali, e eu já o conhecia... com Rôdo. Ah! Se minha mãe soubesse! Luciana praticamente jogou-me sobre o catre e começou a despir-me, murmurando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;–“Alma, Alminha, deixa-me ver-te. Deixa-me ver a tua beleza. Essa pele, branca como um lírio. Quero ver-te uma vez, e depois posso até .. morrer. Mostra-me, Alma, mostra-me teu corpo!” – ela começou, imprudentemente, a arrebentar botões, a despojar-me de maneira afoita, do meu vestido. Deixei-a fazer o que quis. Logo eu estava nua, deitada à sua frente, largada, a olhá-la com um olhar que eu mesma gostaria de ver. Mais tarde ela me diria que os meus olhos verdes pareciam os de uma gata, nada inocentes, perigosos, e que brilhavam demais na semi-penumbra daquele canto do sótão. Ela então, arrancou seu próprio vestido, expondo a sua magreza tocante, seu corpo carente, sua fome de amor e carinho visível em seus ossos, em suas costelas, seus joelhos ossudos, suas mãos magras e nervosas, que pareciam renascer para as carícias. Essa mulher desabrochava diante dos meus olhos, suas formas agudas, quebradas, se abrandavam, e eu pude imaginá-la mais roliça, mais cheia e mais feliz. Deixei a sua boca e suas mãos ávidas percorrerem-me toda. Deixei que sua saliva me banhasse, como uma vaca à sua bezerra. Ela me banharia inteira, colocando-me até de bruço, para lamber-me por trás...e atrás. Deixei-a fazer tudo o que quis, gemendo... as duas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sentia que nutria seu corpo maltratado tanto tempo por ela mesma, ou pelo mundo. Eu sentia, por instinto, que podia assim, com minha volúpia, meu prazer, minha passividade ativa, transformar essa lagarta numa borboleta deslumbrante. Eu sentia o meu poder de jovem ninfa. E jamais me esqueceria... ou me arrependeria desses momentos. &lt;br /&gt;Acariciei-a, então, mais ativamente, seu rosto, seus pequenos seios tardios, virgens, que tremiam, e que eu faria desabrochar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela, a minha preceptora, chorava diante mim, como uma aluna, comovida e grata... para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Alma Welt&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21/05/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-2694497667132906573?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/2694497667132906573/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=2694497667132906573' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2694497667132906573'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/2694497667132906573'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/12/preceptora-de-alma-welt.html' title='A Preceptora    (de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-7659313942289508760</id><published>2007-12-10T12:30:00.000-08:00</published><updated>2007-12-10T14:32:25.842-08:00</updated><title type='text'>O Amigo de Modigliani  (crônica-fantasia de Alma Welt)</title><content type='html'>O AMIGO DE MODIGLIANI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dirijo-me à Galeria, nervosa, na minha primeira exposição. Para a minha agradável surpresa, encontro-a bastante concorrida, os carros sendo manobrados com dificuldade, diante da entrada, cuja vitrine ostenta uma das minhas telas. Mulheres e homens elegantes, gente bonita e os indefectíveis ratos de vernissage que vêm para beber, ou aparecer. Tudo &lt;em&gt;comme il faut&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;Nos últimos meses trabalhei como louca para chegar aqui. Consegui interessar à velha marchand, experiente, pelo meu próprio trabalho, acredito. Ela aposta no meu talento e se considera minha “descobridora”.  Ofereceu-me esta exposição individual, assim que examinou os desenhos que lhe levei numa pasta. Fez me elogios inusuais, de saída. Levou-me à sua casa para mostrar-me a sua coleção pessoal, fantástica. Ofereceu-me jantares, adotou-me. Percebi que a uma certa altura fazia gosto em deixar-me a sós com seu filho. Mas esse era nitidamente feminino, e só ela não percebia. Não que isso fosse um impedimento, tornou-se um amigo querido.                  &lt;br /&gt;Agora estou aqui, excitada e feliz com tanto afluxo de gente que pára diante dos meus quadros com ares entendedores e que aproxima-se para me cumprimentar.&lt;br /&gt;O longo que ostento foi me dado pela marchand e sinto-me bela com ele. Não deixei que produzissem muito meu rosto, porque não  gosto de parecer uma modelo, sou uma artista de cara lavada, sem pintura. Ainda bem que não destoou do vestido. Os casais que se aproximam para os cumprimentos aproveitam para elogiar-me fisicamente, alguns gaviões também, mas esses em geral me incomodam. &lt;br /&gt;Gosto de falar da minha pintura como todo bom artista, e procuro não deixar-me lisonjear em falso por bajuladores bem ou mal intencionados. Prefiro conversar com outros artistas, sobretudo os mais velhos.&lt;br /&gt;De repente, vejo entrar na galeria um grupo espantoso: várias senhoras e senhores, velhos, velhíssimos, mas elegantérrimos, nitidamente europeus. Elas, com grandes chapéus e  vestidos de griffe, umas fumando longas piteiras, outras abanando-se com os catálogos. Os homens, velhos imponentes, com ternos impecáveis conversam com elas diante das minhas telas, com nítido conhecimento. Falam francês, alguns com sotaques estranhos. A uma das mulheres ouvi chamarem de Marússia (isto me soou como um nome russo). Mas dentre todos destacava-se um senhor alto, magro, muito ereto para a sua idade, com uma cabeça de velha águia, um nariz espantoso, aquilino, e vasta cabeleira branca de maestro ou coisa parecida. Uma mistura de Karajan com Leo Bernstein. Maravilhosa figura. Senti-me atraída por ele ia me aproximar, mas ele tomou a dianteira e puxando a tal russa pela mão abordou-me no meio da galeria.&lt;br /&gt;— Oh! Aí está "la jeune fille prodige", disse ele galantemente, estendendo-me a mão. — Marussia, vê como o talento se alia à beleza. Lembra-se da nossa Marie Laurencin? Ah! Eu pensava que já não se faziam musas pintoras como antigamente. "Je suis enchanté" (e beijou-me a mão).  &lt;br /&gt;Apesar da galanteria bem francesa, senti uma espécie de imponência nele. Dava-me a impressão de um velho Druida, a quem faltava somente o camisolão. Percebi que homens como esse mexem sempre um caldeirão mágico invisível, aonde preparam suas poções. Por isso sempre senti que o maestro Karajan parecia lidar com esse caldeirão, com aquela economia de gestos de quem está remexendo a sopa  de onde brotava sua música. Mas voltemos a Eduard, esse era o seu nome.&lt;br /&gt;Marússia e Eduard, do grupo de velhos foram os mais entusiastas da minha modesta pessoa. Eduard fez comparações fascinantes da minha pintura com a de membros da École de Paris que ele parecia conhecer com notável intimidade. Marússia também parecia conhecer tudo e todos. Eu estava fascinada pelos dois, mas principalmente pelo velho águia.      &lt;br /&gt;Lá pelas onze horas, anunciaram sua partida, mas convidando-me com ênfase para que me juntasse ao grupo deles a partir da meia-noite para uma festa em um apartamento próximo, na mesma avenida da galeria. &lt;br /&gt;— Fiquei encantada: poderia ir à pé, desde que me desvencilhasse de alguns novos admiradores que me ofereciam carona, disputando-me para o fim da festa ou começo, como pensavam, certamente. &lt;br /&gt;— Pedi licença para ir ao toalete e fugi pelos fundos da galeria,  por um beco que já conhecia, saindo assim à francesa, já que a noite prometia ser franca e joyeuse.&lt;br /&gt;Entrei no prédio indicado, chiquíssimo, cujo porteiro uniformizado parecia já esperar-me, dizendo: &lt;br /&gt;— Ah, a senhorita é a pintora. Pode subir. Estão lhe esperando.&lt;br /&gt;Subi, apertei a campanhia, a porta se abriu e de repente vi-me como num sonho ou delírio, em  plenos anos trinta, no entre guerras, em Paris, no meio de espectros antiquíssimos que se moviam com elegância e coqueterie. Parecia uma verdadeira alucinação. Entre pesadas cortinas e poltronas estofadas, um grande piano de cauda pilotado por uma doce abantesma que dedilhava “Les feuilles mortes”, cantando com voz aguda, acompanhada por todos os presentes. Fantasmas velhíssimos, alegres e nostálgicos ao mesmo tempo. Chapéus, boás, piteiras, taças, champagne e mots d’esprit em abundância. Eduard recebeu-me com especial gentileza,  juntamente com Marússia e puseram a fazer comentários lisonjeiros sobre a minha exposição e a compará-la com outras de Paris, daqueles anos. Tinham tantas memórias maravilhosas! Meus olhos se encheram de lágrimas quando Marússia me descreveu Nijinsky jovem, que ela conheceu  ao vivo dançando “Le spectre de la rose”com Karsavina, em 1911, no  Opéra  de Monte-Carlo. Meus olhos se arregalaram, para seu deleite, ao ouvir a descrição da trajetória ascendente de sua saída de cena pela janela azul do cenário, ao final da dança. Descreveu-me, como ele caía exausto sobre colchões na coxia, com o coração aos saltos, dores lanscinantes, segurando o peito com as duas mãos, debatendo-se em espasmos enquanto lhe jogavam água fria, fumegante ao contato de seu corpo abrasado, martirizado. Depois recompunha-se, recuperava a “leveza” e voltava para os cumprimentos ao público que o ovacionava delirante. Comovida, para disfarçar, voltei-me então para Eduard, elogiando-lhe a postura elegante, sem barriga, notável na sua idade. Sem sorrir, ele abriu a camisa em plena festa dizendo: &lt;br /&gt;— "Não se iluda, menina, não se iluda!"- e mostrou-me um terrível colete ortopédico, como um espartilho de barbatanas de aço, cheios de fivelas e cadarços, belo como um instrumento de tortura. A seguir, serviu-nos o champanhe e fez um brinde dizendo com o ar enfastiado:&lt;br /&gt;“— La vie est belle, les femmes sont chères et les enfants faciles a faire!...”&lt;br /&gt;Deixei escapar uma gargalhada.             &lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo meio ressacada no meu ateliê. Não me lembro bem como cheguei aqui. O telefone toca dentro da minha cabeça. Resmungando, atendo e é a voz característica de Eduard com seu sotaque francês: &lt;br /&gt;— Olá, jeune fille. Comment-allez vous? Quero passar aí para levar-lhe uma coisa. Quando pode me receber? Dê-me sua direction!..&lt;br /&gt;Respondo-lhe que me perdoe, que estou sem condições, mas que me dê seu telefone que ligo assim que melhorar.&lt;br /&gt;Depois de horas e muito suco de laranja, quando começo a sorrir para os acontecimentos da noite em minha memória, giro pelo ateliê com os braços abertos na valsa clássica do espectro da rosa. Meu balé ainda está fresco em meu corpo, pois deixei-o há poucos anos para dedicar-me à pintura.&lt;br /&gt;Saboreio agora a minha pequena glória, e quando o interfone toca, anunciando-me uma corbeille de flores. Recebo-a de peignoir, pelo porteiro que me olha indiscreto da cabeça aos pés. Retiro o cartão do envelope:&lt;br /&gt; “Para a nova musa-pintora, Eduard.&lt;br /&gt;           "Antes que as flores percam o viço...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorrio feliz... querido Eduard, meu novo amigo, um tanto amargo, mas que sensibilidade!&lt;br /&gt;Preparo-me para pintar. Dizem que o pintor deve sempre pintar no dia seguinte à vernissage, para não parar nunca. Lembro-me de um outro velho sábio que me perguntou um dia: &lt;br /&gt;— Alma, você pintou hoje? Pensei e disse: —Não, hoje eu não pintei. E ele: — O quadro que você não pintou hoje, você não pintará jamais. Só existe o hoje, aprenda isso.         &lt;br /&gt;Ao anoitecer recebo a visita anunciada de Eduard. Veio sozinho, é um velho solteirão. Marússia não é sua mulher. Nem sequer sua amante. Aliás, ele nem gosta muito dela como amiga. Eduard, ainda bem, corteja-me intelectualmente, se posso dizer assim. Esse é seu feitio. Ele só se atrai intelectualmente, e por artistas.     &lt;br /&gt; Põe-se a contar casos interessantes de Paris, de sua amizade com os pintores.&lt;br /&gt; Conta-me para o meu espanto que foi amigo de Modigliani, que beberam juntos. Ele sobriamente, o outro... Quantas vezes ele o carregou para o ateliê e o entregou nos braços de Jeanne Hébuterne. Descrevia a beleza do rosto de Amadeo, apesar das bebedeiras. Jeanne o olhava com antipatia, como se ele, Eduard, levasse o seu marido para o mau caminho. Ele, então, a odiava.&lt;br /&gt; Tudo isso me parecia insólito. Eduard era desmistificador numa medida calculada. Assim, o que sobrava sempre era um mito mais duradouro na memória. Percebi que a nossa amizade duraria se eu tivesse muita tolerância e não julgasse nunca moralmente o velho egoísta que ele era.&lt;br /&gt; Ele era o anti-burguês "par excellence". E a sua escolha da minha pessoa, lisonjeava-me como artista verdadeira. Ele não me via como uma “burguesinha talentosa”, mas como alguém que dava continuidade às suas memórias da boêmia de Paris, no seu exílio provinciano. Tirava da manga (ou do caldeirão), como um mágico, casos e mais casos, sempre oportunos e engraçados, de seus amigos pintores, poetas e músicos, de sua juventude parisiense. Eu ria muito, deliciada.&lt;br /&gt; Contou-me também que fora ao café onde, junto com Chain Soutine, bebia com Modigliani, numa mesinha de calçada, no dia seguinte à morte do pintor. Encontrara o toldo rasgado, um cordão de isolamento e a mesa quebrada encostada na parede. Jeanne havia se atirado, de manhã, de uns andares acima, da janela do ateliê deles, atravessando o toldo e estatelando-se sobre a mesa em que o marido costumava beber.&lt;br /&gt; Nunca mais Eduard sentou-se naquele café. Eu ouvia essas histórias, creio que com um olhar sonhador, transportando-me àquele tempo, àquela cidade da minha fantasia. Eduard sabia disso. O velho mago era um sedutor de almas permanente.&lt;br /&gt; Contava-me até mesmo uns casos inéditos de Picasso. Ele o conhecia com alguma cerimônia, não eram próximos. Picasso era um tremendo monstro sagrado até para os seus amigos mais íntimos. Um dia, num café, Picasso, diante de um drink que ele não tocava, e cercado de uma corte de amigos e conhecidos entre os quais Eduard, foi perguntado por uma senhora meio simplória:&lt;br /&gt;— Pablo, o que você acha do impressionismo? &lt;br /&gt;E Picasso respondeu:&lt;br /&gt;— O impressionismo? Ah sim, é muito bom quando se precisa saber se devemos levar o guarda-chuva!&lt;br /&gt;Gargalhada geral, e no dia seguinte a piada corria Paris inteira, pelo menos nos “meios”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eduard agora vinha quase todos os dias ao meu ateliê. Tive que pôr um freio, ou não trabalharia mais. Mas nossa amizade se consolidou, quando um dia Eduard apresentou-me sua irmã Margot. Ela era mulher do grande pintor Sanson Flexor. Sobre eles contou-me o seguinte: Margot e Sanson fugiam através da França ocupada. Tinham que atravessar uma fronteira vigiada pelos nazistas para sair do país. Tentaram atravessar à noite. Um holofote, um apito e foram pegos. Foram levados a um posto policial diante de um major alemão, que lhes disse que seriam fuzilados imediatamente. Flexor era judeu, da Bessarábia, que passara a infância em Berlim. Olhando bem o Major reconheceu um antigo colega de escola. Disse-lhe:&lt;br /&gt;— Major, não está me reconhecendo? Sou eu, Sanson, seu colega de ginásio. &lt;br /&gt; O Major olhou-o bem e disse: Ah! Sanson! Sim, é você, que vivia desenhando nos cadernos durante as aulas, um caso perdido, hein Sanson? O que você se tornou afinal? &lt;br /&gt;— Major, eu me tornei um pintor, um artista, profissional. Eu pinto quadros, Major.&lt;br /&gt;— Pintor, hein, Sanson. Muito bem. Então, vou lhe dar uma chance. Você vai desenhar o meu retrato já, aqui. Se eu gostar do retrato, se achar que está bom, que ele parece comigo, deixo-os passar, senão...&lt;br /&gt;Pediu ao ordenança que lhe trouxesse um papel e um lápis e os pôs diante de Flexor, sobre a mesa. O pintor começou imediatamente a desenhar olhando intermitentemente o modelo. Logo depôs o lápis e entregou o papel ao Major. Este olhou, olhou, em silêncio, num terrível suspense. Então estalou os dedos e chamou o ordenança , passou-lhe o papel, perguntando-lhe:&lt;br /&gt;—Então, cabo, o que você acha? Parece-se comigo?&lt;br /&gt;—Sim, Major, parece sim, está muito bom. Tal e qual.&lt;br /&gt;—Sanson, disse então o Major. Podem passar!&lt;br /&gt;Anos se passaram. Presenteei quadros ao Eduard, mas defendia-me bastante de suas atitudes às vezes invasivas. Quanto à minha pintura, ele nada mais dizia, mas sempre isolava detalhes, enquadrando-os com as duas mãos sobre a tela no cavalete, em silêncio, olhando-me sugestivamente, o que, então, me irritava. &lt;br /&gt;Ele começou a entrar em declínio. Suas dores físicas aumentaram, sua ironia também.&lt;br /&gt;Um dia fez um comentário perspicaz, mas cruel sobre o retrato que eu pintava de uma amiga. A moça, presente, fechou-lhe a cara e encerrou-se chorando no quarto. Eduard, exasperado, implorou-me que interviesse, para que ela o desculpasse, dizendo:&lt;br /&gt;—Se sua amiga não me perdoar, eu vou odiá-la. &lt;br /&gt;Tinha a sinceridade de um "enfant-terrible". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...........................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, chegou o tempo das Dores e dos Desencantos. Eu estaria ao seu lado no final, coisa que ele não pedia, mas esperava. &lt;br /&gt;Ao lado de sua cama eu meditava sobre o significado de nosso encontro nesta vida. Eu, uma simples moça brasileira, pintora, jovem, e o amigo de Modigliani, que se dera ao luxo de odiar Jeanne Hébuterne, hoje uma musa histórica. Acabei encontrando estranhos signos nisso tudo. Mas prefiro calá-los em meu coração para que se transformem no "pure morceau de peinture" que o velho mago em silêncio reclamava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma Welt&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21/12/2001&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota da editora:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Esta inusitada e encantadora "crônica-fantasia", como Alma a designou, foi recém-descoberta por mim na sua arca no nosso sótão, aqui no casarão. Trata-se mesmo de uma fantasia, malgrado o seu teor realista e verossímil, pois minha irmã, que morreu com apenas 35 anos em Janeiro deste ano, não tinha idade para ter sido a amiga jovem de um contemporâneo e amigo do grande pintor Modigliani (1884-1920). (Lucia Welt)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-7659313942289508760?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/7659313942289508760/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=7659313942289508760' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7659313942289508760'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7659313942289508760'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/12/o-amigo-de-modigliani-crnica-fantasia.html' title='O Amigo de Modigliani  (crônica-fantasia de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-8928468889391744991</id><published>2007-12-05T08:48:00.000-08:00</published><updated>2007-12-05T09:19:09.766-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R1bdgOdFimI/AAAAAAAAAkc/UnwzOhrZa7k/s1600-h/Capa-Contos+da+Alma.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R1bdgOdFimI/AAAAAAAAAkc/UnwzOhrZa7k/s400/Capa-Contos+da+Alma.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5140539570395646562" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capa do livro CONTOS DA ALMA, de Alma Welt- O desenho representa uma cena do mito de Eros e Psiqué na sua versão clássica, a do livro do escritor latino do II século, Lucius Apuleius, "Metamorfoses ou o Asno de Ouro" (Cupido e Psiqué). Note-se que, no desenho de Guilherme, a Psiqué é um retrato fiel da própria Alma Welt. O livro Contos da Alma encontra-se à venda em diversas livrarias de São Paulo, como a Livraria Cultura e Livraria da Vila, por exemplo, e o preço de capa é R$ 32,00.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-8928468889391744991?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/8928468889391744991/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=8928468889391744991' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8928468889391744991'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8928468889391744991'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/12/capa-do-livro-contos-da-alma-de-alma.html' title=''/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/R1bdgOdFimI/AAAAAAAAAkc/UnwzOhrZa7k/s72-c/Capa-Contos+da+Alma.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-3703049315454743568</id><published>2007-12-03T18:51:00.000-08:00</published><updated>2007-12-03T19:02:36.377-08:00</updated><title type='text'>Alma nostálgica, ou Carta da "Mentira Vital" (de Alma Welt)</title><content type='html'>Andrea querida&lt;br /&gt;Minha morena, estás escorrendo, não é? Guarda um pouco desse caldinho para mim. Já imaginaste quantos hormônios e feromônios contém esse precioso fluido? Degustá-lo, bebê-lo deve reforçar a nossa feminilidade gloriosa. Por falar nisso, hoje não teve terapia, e passeei horas a cavalo com minha doutora Jensen, pelas pradarias. Fomos muito longe, e na nossa intimidade também. La Jensen é o máximo, que mulher incrível! Ela já esteve até na África, trabalhando, e sua experiência internacional de vida é algo que daria um filme maravilhoso.&lt;br /&gt;Ela faz tudo para pôr-me para cima, o que no meu caso não é simples, pois ela sabe que não sou um caso de baixa auto-estima, mas tenho uma síndrome bem mais sutil e complicada. Ela diz que eu, como artista me auto-glorifico, chego mesmo a me auto-mitificar, e que isso é comum aos bons artistas, e que não é aí que reside portanto o meu “pathos” que ela denominou lisongeiramente de “weltiano”, universalizando o meu caso. Ela citou, enquanto cavalgamos a passo, a teoria da  “Mentira Vital” de Otto Rank, segundo a qual, as crianças por volta dos quatro anos, ao tomar contato com as próprias fezes de uma maneira diferente, como algo decomposto que lhes sai de dentro, têm uma súbita consciência da própria morte, que lhes seria fatal pela angústia mortal se assomasse totalmente ao consciente. Então, segundo Rank,  mecanismos naturais de defesa interpõem uma espécie de comporta entre  inconsciente e consciente, estancando essa consciência fatal. Daí pra diante vivemos como se a morte não fosse nunca a nossa, e sim algo que só ocorre no outro. A isso ele chamou de “mentira vital”, que nos permite viver. Mas segundo ele, o Artista sofre de um defeito desse mecanismo de defeza, uma espécie de rachadura na comporta, por onde emanam eflúvios da consciência de morte, produzindo uma angústia criativa. Entretanto, essa rachadura tende a se alargar, como uma fenda numa comporta de represa. “Si non è vero...”  Ai! Andreazinha, paga-se  um alto preço por se ser artista. Eu às vezes queria ser apenas mulher, ou melhor, uma guriazinha de cabeça ôca, casadinha e com filhos, como minha mãe queria. Mas agora é tarde. Ao  pôr-do-sol, no meu pampeiro, ao lado da doutora, eu soltei um gemido, e as lágrimas começaram a descer. Uma saudade, Andréa, uma nostalgia de tudo, do que vivi e do que não vivi! E queria me dissolver naquele poente como nos meus amores passados, presentes e futuros. E em ti, guria, que só conheço por dentro, e tão pouco, mas que és tão terna e compreensiva com esta doida Alma inquieta.&lt;br /&gt;        Então, a doutora apeou, estendeu-me os braços e disse: “Apeie, Alma, sentemos nesta relva e vamos esperar as estrelas surgirem. Elas relativizam tudo com a sua grandeza, com a sua distância e impassibilidade. Com sua eternidade, talvez. Vamos simplesmente olhá-las, como mãe e filha, abraçadas, minha querida”. Assim ficamos, eu chorando baixinho abraçada à minha doutora sábia, que chegou tarde demais para ser minha guru, e que parece querer somente consolar-me de uma dor perante a qual ela se sabe impotente. Uma mãe terna e velha, que não pode mais proteger a sua filha do mundo, da vida, da dor da vida.&lt;br /&gt;      Ao voltarmos para casa já anoitecida, Rodo nos esperava na varanda, sentado na cadeira de balanço, tomando um chimarrão, com música de piano, Chopin, no aparelho, o que só aumentou minha nostalgia. Fiz um esforço e pus música de fandango, e puxei meu irmãozinho para dançarmos juntos para a doutora Jensen que deu boas gargalhadas. Rimos muito, Andréa. E eu senti que por hoje me salvei. Sobrevivi. Quero minhas crianças, Andrea. Não podem me tirar minhas crianças. Também sou uma, não podem me deixar sozinha...&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tua Alma que ama e sofre&lt;br /&gt;24/07/2006&lt;br /&gt;________________________________________________________________-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comentários&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O poeta Cláudio Bento escreveu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Assino embaixo, Alma Welt é tudo isto e muito mais. Ele fazia uma literatura sem precedentes na história da poesia brasileira, na história do romance brasileiro, do conto brasileiro. O Brasil precisa banhar-se na luz e nas letras desta mulher talentosa e bela."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Solange Lima escreveu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu soube que Alma escreveu a série de "Cartas à Andrea" em e.mails. As duas amantes nunca se viram, nem ouviram sequer as suas vozes: nunca se telefonaram. Trata-se de um um romance digital- erótico- platônico, típico da nossa época virtual. A diferença está em que produziu, pelo talento e ardência da poetisa Alma, um extraordinário e belíssimo romance epistolar que teminou em tragédia. Sei disso porque conheci a Andrea e tive esse volume (alentado) nas mãos. Trata-se da coisa mais comovente que li nas últimas décadas. Insisti com a Andrea para o que o puiblique. Há problemas, pois há muitos momentos demasiadamente íntimos, e de um exacerbado erotismo, nunca visto na literatura feminina. Mas a meu ver por isso mesmo seria revolucionário..." &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eliana mattos escreveu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eis uma carta comovedora, pungente, típica do universo riquíssimo da poetisa Alma. Ela contém mesmo o embrião de sua morte, fruto da doença que cresceria nela: sua angústia da consciência profunda da própria morte, que vitimou tantos artistas através da História. Alma nos comove com seu talento, sua beleza interior e seu drama. Ela é sem sem dúvida, a maior poetisa surgida no final do século XX em língua portuguesa."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-3703049315454743568?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/3703049315454743568/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=3703049315454743568' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/3703049315454743568'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/3703049315454743568'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/12/alma-nostlgica-ou-carta-da-mentira.html' title='Alma nostálgica, ou Carta da &quot;Mentira Vital&quot; (de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-6105541822551541765</id><published>2007-11-19T18:03:00.000-08:00</published><updated>2007-11-20T18:54:56.942-08:00</updated><title type='text'>As pequenas flores do riso ( de Alma Welt)</title><content type='html'>(dos Contos Secretos, de Alma Welt) &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  Não suporto mais. Preciso voltar ao sul. Este apartamento, que eu chamo de ateliê, dentro de um condomínio burguês, em plena Oscar Freire, no meio dessas lojas sofisticadas, tudo isso começa a me enojar. Eu sei, meu estúdio é belo, eu o fiz assim. Mas nada disso tem a ver com as minhas raízes, que estão no campo, isto é, no Pampa, no meu casarão, no meio do meu jardim, do meu pomar e do vinhedo do meu avô; que me esperam, eu sei. E sei, porque se me ausento por longo tempo noto-lhes o ar de decadência. E se ali demoro, vejo tudo reflorescer, vivificar-se. Rôdo não se importa tanto: ele não pára, suas ausências são mais prolongadas que as minhas, ele roda o mundo. Ele diz: “Alminha, por quê perdes tempo nessa cidade? Ela te engolirá! São Paulo não é uma cidade, é um vício, uma dissipação. Prefiro os meus cassinos e pousadas, interligados pelas mais belas paisagens do mundo, que percorro, com o rosto ao vento, no meu Porsche. Por quê não vens comigo? Eu te farei viver outras aventuras. Lembras-te de quando éramos crianças? Eras tão curiosa e aventureira quanto eu, e devassávamos nosso pequeno pampa, num raio de pelo menos cinco quilômetros em torno do casarão. Alma, estás te desperdiçando, o que esperas? O prêmio Nobel da Literatura Sedentária? Vamos, venha comigo!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                Eu me abracei a Rôdo, e o cobri de beijos. Mas, isso foi sempre assim! Cada vez que o meu irmãozinho me dá um conselho, ou se estende num comentário sobre mim, sobre nós, eu me enterneço e beijo-o, beijo-o, até ele se cansar e me afastar, rindo, e dizendo-me “pegajosa”. Ai! Rôdo, como alguém pode ser tão exemplarmente viril, como tu? Eu te vi puxar uma faca, uma vez, quando ameaçado por um peão que me desrespeitara, e não demonstravas medo no olhar, mas, sim, fúria. E eu, entre sincera e brincalhona, exclamei o clássico “meu herói!” e cobri-te de beijos. Naquela noite me possuístes, e eu me senti tua para sempre. Que mais posso querer? Eu sou, ou fui, a amada de meu irmão-herói, que aventura mais posso querer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                Entretanto faço as malas, mais uma vez, para retornar às fontes. Preciso daquelas águas, daquelas flores. Minhas “pequenas flores do riso”, como eu as chamo. Ali, naquele jardim plantado por minha mãe, e sua melhor herança, as crianças parecem estar no seu elemento, seu habitat. Anseio olhar mais uma vez para Patrícia, Pedrinho, Hans e Christian, meus adorados  sobrinhos, por ali, correndo, colhendo flores e as desperdiçando, como animaizinhos brincalhões, como filhotes. Ali, assim, eu tenho certeza de que a vida é bela, e que meu coração sofre apenas pelo progressivo esmaecimento dessa imagem, desse manancial.. A vida é um afastamento gradativo de uma fonte inefável de beleza: a Era do Sonho de nossa infância; e dói, dói estar tão consciente dessa viagem, sem volta, a não ser no mesmo sonho, prerrogativa divina, da ternura de Deus, que ele nos legou. Ele nos deu o Sonho, não perderemos nada, no final. E regressaremos, por fim, às pequenas flores do riso.  &lt;br /&gt;                                    _________________________ &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22/08/2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-6105541822551541765?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/6105541822551541765/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=6105541822551541765' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6105541822551541765'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/6105541822551541765'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/11/as-pequenas-flores-do-riso-de-alma-welt.html' title='As pequenas flores do riso ( de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-391789894375930352</id><published>2007-11-06T18:32:00.000-08:00</published><updated>2008-08-15T05:06:09.941-07:00</updated><title type='text'>O aeronauta (de Alma Welt)</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SKVwdsf318I/AAAAAAAABKg/OlT_4zYBy5E/s1600-h/img.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SKVwdsf318I/AAAAAAAABKg/OlT_4zYBy5E/s320/img.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5234713797351430082" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O Balão de Alma Welt- litografia de Guilherme de Faria,P.A.  70x35cm, s/ papel Arches&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Dos contos Pampianos de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daqui, desta varanda sobre o pampa infinito, fico horas a observar os longes, comparando a nitidez da linha do horizonte de hoje com a de ontem, e a beleza das nuvens, do seu arranjo sábio, estético, no enquadramento da mente, daqui, deste ponto de vista privilegiado, cuja referência é aquele grande umbu ali, a meio caminho do infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez eu espere, também, um cavaleiro ao longe, vindo a trote, enrolado num pala, ou a galope, vindo nesta direção... do meu coração solitário e expectante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eis que o cavaleiro veio do céu, não da linha do horizonte, mas de cima, de cima... numa aeronave, um balão colorido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio pairando, descendo, descendo, até lançar sua âncora em pleno gramado do meu jardim. Tive somente de levantar-me da minha cadeira de balanço e caminhar dez passos até ele, para tocar a sua mão e observar os brancos dentes do seu sorriso, de perto, reparando no azul celeste de seus olhos puros, claros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se identifica, Rolando, balonista, catarinense, da ilha do Desterro, vindo, pois, de tão longe. Como pôde ele chegar aqui neste Pampa, na fronteira do país “del oriente”? Ele promete contar sua aventura, depois de saciar sua imensa fome, com o nosso charque hospitaleiro. Rôdo, meu irmão, está encantado, e vejo-lhe nos olhos a tentação de aventureiro que é, de partir com ele, esse possível companheiro de uma aventura que ele ainda não experimentou em sua vida jovem, movimentada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fico ali a observar estes dois jovens, protótipos da beleza viril, do que há de melhor nestas terras do sul, se posso dizer assim, sem incorrer em preconceitos. Ah!Eu queria nesses momentos ser assim um jovem másculo, para partir com eles, sem perigo de promiscuidade, de uma moça entre rapazes, num espaço tão exíguo, contraditório no meio daquela amplidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rolando não tira os olhos de mim, que me afastei, novamente, e recoloquei-me no meu ponto preferido de observação, a minha cadeira da varanda. Percebo que ele quer desembaraçar-se da curiosidade e entusiasmo de Rôdo, e a pretexto de dividir um pouco do charque e do vinho, se aproxima de mim. Eu sorrio e aceito uma lasca e um gole, brindando a ele, o aeronauta, herói que veio do céu.&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De noite rolo na cama, o calor não me deixa dormir, ou será a minha mente, melhor, meu coração inquieto? De calcinha somente, abro a porta do meu quarto, que dá para a varanda sobre o jardim, cujas touceiras brilha, fosforescentes sob o luar. Uma leve brisa do pampa evapora o suor do meu rosto, e faz um cafuné nos meus cabelos. Exponho meus pequenos seios a essa brisa que acaricia minhas aréolas e os bicos dos meus mamilos, que se tornam tesos. E eis que acontece o previsível: Rolando está ali, de repente, com a mesma idéia de fruir a brisa noturna desta noite predestinada. Só me resta permanecer natural em minha nudez, como e uma náiade do luar, e exclamar um singelo “oi” de saudação, como se ele fosse um indiozinho da mesma tribo, infantes da mãe Natura, sob as estrelas deste pampa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rolando se comporta de acordo e não desvia o olhar, para não parecer constrangido, ao contrário põe-se a conversar com naturalidade, a fala mansa, pousando intermitentemente o olhar sobre os meus mamilos, arrepiados pela brisa... agora deste olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, ele finalmente me toca os ombros com suas as mãos fortes de balonista, e puxa-me para si, para os seus beijos, ternos, sábios, mas famintos. Depois, pega-me nos braços e carrega-me para o meu leito, onde vai fazer-me voar num balão noturno, numa barquinha de suave cetim, onde eu avistarei todas as estrelas do céu, e as sombras adormecidas do meu pampa, sob o meu olhar que voa, que voa, por esta noite querida, sem fim...&lt;br /&gt;.....................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, ao despertar, já não encontro Rolando em meu leito. Ergo-me, ligeiramente ansiosa, e sem mesmo lavar o rosto corro até a varanda, como se soubesse o que veria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rolando está recolhendo a âncora, e faz-me somente um aceno, a mim e a Rôdo, enquanto o balão sobe e se desloca empurrado pelo pampeiro matinal. O aeronauta me deixara no porto, como tantas, marinheiro dos ares, que não me carregaria consigo, já que eu voara com ele toda uma noite, enchera-me de seu sumo concentrado, de aventureiro, e podia partir porque eu o esperaria, como todas, que ele voltasse um dia, daquela linha do horizonte, que eu avistaria, não como “ *un p´o de fummo”, mas com a tocha acesa do seu balão colorido, com a sua barquinha de vime transmutada em seda, numa noite mágica...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota * : “um p´o de fummo”: alusão ao verso da famosa ária da ópera Madame Buterfly de Puccini.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-391789894375930352?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/391789894375930352/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=391789894375930352' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/391789894375930352'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/391789894375930352'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/11/o-aeronauta-de-alma-welt.html' title='O aeronauta (de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SKVwdsf318I/AAAAAAAABKg/OlT_4zYBy5E/s72-c/img.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-4131872751465063537</id><published>2007-11-03T17:03:00.000-07:00</published><updated>2007-11-03T17:06:25.648-07:00</updated><title type='text'>O Intermediário  ( de Alma Welt )</title><content type='html'>(dos “Contos Secretos”, de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   Andei durante uma hora, em marcha acelerada pelo meu bairro, e volto suada, ansiando por um banho e pôr-me refrescada, com roupas limpas e belas, para recomeçar a pintar. Sim, porque sou adepta, como Leonardo da Vinci, de pintar com as minhas melhores roupas, mesmo que seja para, eventualmente manchá-las, irremediavelmente.&lt;br /&gt;                  Entro aceleradamente no ateliê, e vou direto para o chuveiro, atirando a roupa suada pelo caminho. Durante o banho demorado, delicioso, em que costumo acariciar-me voluptuosamente, sentindo imenso prazer em estar viva, em ser jovem e bela... e ainda por cima gostar  tanto de mim mesma, conseqüentemente, da vida,  ouço passos no ateliê e sobressalto-me. Será que na minha impaciência em banhar-me, esqueci a porta aberta, ao entrar?  Fecho a torneira, ausculto um pouco, estendo a mão, pego a toalha e enrolo-me nela imediatamente. Como tudo isso é supérfluo, inútil, embora quase instintivo!  &lt;br /&gt;                 Entreabro a porta, ressabiada, e pé-ante-pé caminho para o ateliê, irracionalmente, pois em direção ao perigo que suspeito. &lt;br /&gt;                 Então... sou subitamente agarrada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   _____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    Na delegacia, em  lágrimas, mal vestida, molhada, com marcas e sangue pelo corpo, trato de repetir para o delegado, pela quinta vez, o que aconteceu, como fui... ai! mais uma vez, estuprada. Isso está se tornando  &lt;br /&gt;recorrente, déja-vu, senão banalizado, em minha vida. Uma imensa vergonha me toma, logo substituída por uma revolta, que me faz agarrar subitamente as lapelas do delegado, tentando sacudir o imenso homem, gordo, que me olha consternado:&lt;br /&gt;                — Onde o senhor estava? O que faz para proteger mulheres como eu? O que é a polícia?— Eu gritava essas perguntas irracionais, em lágrimas, desfigurada, desesperada.— Ai! Quero morrer ou...  matar! Aiiiiiii! &lt;br /&gt;                  Ele me cobre as mãos com as suas patas gordas, mas com carinho, e as retira da sua lapela, segurando-as sempre, as recolhe ao seu peito imenso, fofo, quase... maternal. Minha cabeça então se inclina ao seu peito e afunda nele, soluçando, enquanto esse homem gordo, que deveria ser feroz, acaricia minha cabeça paternalmente, de maneira delicada, que lentamente vai-me apaziguando. &lt;br /&gt;                 —Senhorita Alma, sossegue, vamos pegá-lo. Não será fácil, pois temos poucos dados, e nenhuma pista do agressor, mas havemos de pegá-lo, eu lhe prometo! Vamos, sossegue, assim... vou levá-la em casa, não se preocupe, a senhorita já sofreu demais. Vou manter uma certa vigilância em torno do seu prédio, a senhorita verá. Estará segura, nada mais vai ocorrer. Conte comigo. Vamos, vamos, assim...&lt;br /&gt;            Ergui-me e caminhei, penosamente, amparada pelo homem gordo, gentil, paternal, ao qual eu queria me agarrar, para me sentir protegida, de casa tão distante...   &lt;br /&gt;                            __________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                Tomei as providências para me proteger. O exame de corpo de delito, humilhante... horrível (a recolha de sêmen, o exame anal, com mais recolha de sêmen, desinfecção rápida, uma injeção de antibiótico), depois a receita da pílula do dia seguinte, a recomendação de teste de Aids para daqui um mês ou dois. Eu tentava o tempo todo lembrar-me do rosto do meu agressor, mas não conseguia. Lembrava-me apenas de sua brancura, dos pelos loiros de sua mão na minha boca.  Já era alguma coisa, dissera o delegado Robinson, devia ser um homem louro, um galego, como dizem, talvez de olhos azuis. Mas não me lembrava, surpreendentemente dos olhos, eu não lhe vira os olhos, mas vira a sua boca, por um segundo, de lábios grossos, mas bonita, antes dela colar-se à minha, e me invadir com sua língua ávida, em todas as direções. Aliás, essa língua devassou em seguida todos os meus orifícios. Lambeu meu corpo inteiro, com ênfase nas axilas, antes de deter-se nas minhas partes baixas, que devassou demoradamente,  furiosamente, mordendo também, antes de enfiar-me os dedos, e a mão inteira. Ele queria, certamente devorar-me, sua fome de carne jovem perfumada, era um frenesi! E eu fora o seu pasto, ou melhor dizendo, o seu repasto.Nada deixara ele de fazer comigo, em todo o catálogo de fantasias bizarras...  de parafilías. Essa é que era a verdade! &lt;br /&gt;                         Agora eu teria de viver com aquilo, buscando recuperar a minha  auto-estima, e se possível, a minha tendência inata à alegria, que eu temia pudesse ter morrido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                       _________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    Passou-se um mês daquele ocorrido. Eu reforçara as trancas das portas, da entrada social e da cozinha. Interroguei minha empregada longamente, mas fiquei sabendo que o seu namorado era negro, e os anteriores mulatos. Foi descartada, portanto, essa pista. O homem loiro, não cheirava sequer a suor, talvez não fosse um trabalhador, talvez fosse um morador do próprio prédio, um vizinho de algum outro andar. Sim, porquê não? Essa nova suspeita devia ser levada ao delegado Robinson, ele concentraria as pesquisas a uma área mais restrita, e talvez...eu também pudesse investigar por minha conta. &lt;br /&gt;                 Eu estava metendo na cabeça, por alguma razão, que precisava confrontar-me novamente com aquele homem, para vingar-me, ou para me libertar dele... já que ele ocupava de maneira crescente os meus pensamentos, e a minha memória que se ampliava, perigosamente, talvez confundindo-se com a fantasia, pois eu sentia nas minhas narinas, de forma crescente o seu cheiro, másculo, que  não me horrorizava, não me enojava. &lt;br /&gt;                  Então, começaram os sonhos. &lt;br /&gt;          _______________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Acordei, banhada em suor. Estava confusa, estarrecida com meu próprio sonho, eu acordara para fugir dele. Do seu desconcertante prazer. Sim, eu acordara molhada também por dentro! Coloquei dois dedos dentro da minha vagina, e os retirei encharcados e...  perfumados. Lambi-os. O quê está acontecendo? Por que não lembro do objeto do desejo, neste sonho?  Nem sequer do sonho que se desvaneceu rapidamente, ai! vou ficar louca. Movo-me em meio a brumas, não conheço o meu próprio universo, muito maior, mais nebuloso e obscuro do que eu pensava: meu próprio universo desconhecido... Ou será o mundo, tão vasto que nos rodeia e... permeia. Ai! nada sei. Não sabemos nada. Preciso de um pai. Vati! Como me fazes falta! Não para me ensinares mais. Nem para me esclareceres o que a mente racional não pode esclarecer, mas para me tomares no colo, a minha cabeça pousada de lado, no teu ombro, tua mão enorme sobre minhas costas tão pequenas, minha bundinha sentada no teu braço, como um bebê, sim como um bebê. E descansar, descansar, sem medo dos sonhos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                _______________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        Tento levar a minha vida normalmente, isto é, trabalhando muito. Mas isso não é mais possível, pois agora, o interfone toca todos os dias, em horas diferentes, interrompendo-me. È sempre o delegado Robinson, que vem sondar-me, a pretexto de conferir novas pistas, na sua pretensa investigação. Tornou-se um tanto untuoso e segura-me as mãos, desnecessariamente. Parece ter gostado demasiado de mim, e gostaria de ver novamente a minha cabeça encostada no seu peito gordo, do qual pude sentir as tetas, por uns momentos. Isto está se tornando absurdo. Desvencilho-me do policial carinhoso, com frieza crescente, o que parece mais espicaçá-lo, infelizmente. Quanto à minha própria investigação, não há nenhuma... a não ser dentro de mim mesma, essa é que é a verdade.  Tento reconhecer o agressor dentro do meu sonho recorrente, que se torna infelizmente mais doce... e prazeroso, a cada noite. Já não reconheço o meu trauma, vejo-me desejando que os sonhos não acabem, acordo banhada em suor perfumado! Sim, e molhada, o que me faz fechar os olhos novamente para tentar continuar o sonho que se interrompe sempre no momento de... ai!, não ouso dizer, não ouso pensar o que se interrompe, pois creio que vejo os olhos do agressor, e não posso vê-los, não devo reconhecê-los. Eles o perderiam! Eles o destruiriam! &lt;br /&gt;                   ___________________________________________-&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;             Anseio pela hora do sono. Anseio dormir e não mais acordar, desde que num sonho sem fim, nos braços do meu agressor, que aliás não me agride mais, há muito tempo. Ele me acaricia, minha cabeça em seu ombro, seu largo peito pressionando o meu, achatando os meus pequenos seios.  Quanto à sua penetração, ela faz parte inerente de mim. Ela me pertence, quero retê-lo dentro de mim, para sempre! E o acordar, sim, é que é uma punição, vejo-me sozinha, insuficiente, e estendo os braços no escuro dentro das imensas noites do meu leito vazio. Preciso de um amor, necessito o meu amor!. Não vês, ó Noite, que o meu corpo, tão belo, foi feito para o amor, para as carícias? Vê a minha pele: é pura seda. Por quê, por que? Olha a pura rosa das minhas mucosas, não mais feridas. Olha estes lábios, cheios, perfeitos, feitos para o beijo. Ai! Não me deixa sosinha, ó Noite, em meu desvario, em minha solidão de amorosa... sem amor! Precio ser possuída, desfrutada, na longa noite de loucuras. Mesmo que seja para ser machucada novamente! Toma-me tu, ó Ser da Noite, estou perfumada de mim mesma, podes cobrir-me com o teu suor de homem, mas não deixes de gemer, de gritar de prazer com a minha carne em flor, que te ofereço. Ai! Queria morrer de amor, e não tenho um amor!  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  ___________________________________________-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          O delegado Robinson vem me visitar em horário de trabalho. Tornou-se decididamente inconveniente. Mas sirvo-lhe uma chávena de chá, que ele degusta lentamente para mais demorar-se aqui, junto a mim, eu percebo. Não traz nada de concreto e assume cada vez mais esse fato: ousou mesmo dizer que o agressor&lt;br /&gt;evaporou-se, o que me pareceu uma metáfora, no mínimo provocativa. Este homem tem veleidades de psicólogo, e sugere sutilmente, que devo armar uma                                  &lt;br /&gt;armadilha para o agressor, fingindo dormir, com a porta aberta.  Ele, Robinson estará por perto, atento ao meu chamado. Isso tudo é absurdo. Como pensa que vou me expor assim, aos dois, na intimidade do meu leito, com meu traje de dormir, acetinado, sobre a pele? Que querem eles? O estupro, novamente?&lt;br /&gt;                      ___________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                    É noite. Estou deitada, languidamente, com meu lindo peignoir de seda, branca, que me expõe mais do que me cobre.  Deixei a porta aberta, escancarada, não a esqueci assim, e estou nua sobre o meu leito enorme de viúva, de que me lembrei que sou. Há tanto tempo! Meu marido morreu jovem, de tanto beber. Mas não sou culpada! Não sou viúva-negra, nada tenho da Aracne. Olhem, meus pelinhos: são ralos, e arruivados! Sou toda exposta, nada tenho a esconder, e não tenho veneno. Sou frágil, vulnerável, e nem sequer me protejo. Expulsei o delegado vigilante, o inconveniente e gordo intermediário. Estou só, nas noites infinitas e espero o meu amor, com sua penugem loura, seus olhinhos azuis. Vem ó príncipe noturno, não te temo mais, és solar dentro da minha grande noite, e eu te espero para que te redimas, possuindo-me com força, mas com minha anuência redentora. Podes machucar-me, mas ama-me! Ama-me! Eu te conclamo!  &lt;br /&gt;          &lt;br /&gt;                       _____________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;02/05/2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-4131872751465063537?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/4131872751465063537/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=4131872751465063537' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4131872751465063537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4131872751465063537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/11/o-intermedirio-de-alma-welt.html' title='O Intermediário  ( de Alma Welt )'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-4452967435136677790</id><published>2007-10-27T07:45:00.000-07:00</published><updated>2007-11-01T08:38:04.097-07:00</updated><title type='text'>Fac-Símile de crônica da Alma</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/RyNPqmDCBCI/AAAAAAAAAbo/SOquwGbwN9E/s1600-h/Piano+Negro,+carro+vermelho+g.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/RyNPqmDCBCI/AAAAAAAAAbo/SOquwGbwN9E/s320/Piano+Negro,+carro+vermelho+g.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5126028394064118818" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; Nota de Editora:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta crônica da Alma, pungente, foi encontrada por mim, Lucia Welt, sua irmã, na arca de seus inéditos, hoje, no sótão do casarão aqui na estância, e resolvi publicá-la como documento scaneado. Basta clicar em cima para ampliar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-4452967435136677790?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/4452967435136677790/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=4452967435136677790' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4452967435136677790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4452967435136677790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/10/blog-post_27.html' title='Fac-Símile de crônica da Alma'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/RyNPqmDCBCI/AAAAAAAAAbo/SOquwGbwN9E/s72-c/Piano+Negro,+carro+vermelho+g.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-4409602370951528324</id><published>2007-10-27T06:18:00.000-07:00</published><updated>2008-01-06T03:20:53.462-08:00</updated><title type='text'>Entrevista  com ALMA WELT</title><content type='html'>CAFÉ LITERÁRIO entrevista a poetisa e musa gaúcha &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Nosso repórter, escalado para entrevistar esse novo fenômeno da nossa literatura, a contista e poeta (além de pintora), Alma Welt, gaúcha radicada em São Paulo, voltou com um ar meio siderado, quase em estado de choque, e adentrou a nossa redação com um sugestivo assobio. Contou-nos que foi difícil, a princípio, deslanchar a entrevista, pois a beleza da moça é, no mínimo, perturbadora. Descreveu-nos uma mulher de 28 anos, alta, muito branca, loura “luminosamente” natural, “rasgados” olhos verdes. A perfeição de sua pele, sem uma única mancha ou sinal, despertou no nosso pobre repórter aquela comparação em desuso: “pele de alabastro”. Além disso, a boca da moça, seus lábios cheios na medida certa (há uma medida?) eram de uma beleza “hipnótica”, como seus olhos verdes (de gata?). Tivemos que calar o entusiasmo do nosso repórter, exigindo dele, logo, a entrevista por escrito. Suspeitamos que o infeliz está irremediavelmente apaixonado. Tivemos que mandá-lo pra casa mais cedo, pra tomar um banho frio. Mas vamos ao que interessa. A entrevista:&lt;br /&gt;            CL: Alma, posso chamá-la assim ? É o seu verdadeiro nome, estou certo? Lendo seus livros temos a impressão de ser um pseudônimo, de tão adequado ao seu conteúdo. Welt ( mundo, em alemão) nos remete  ao Anima Mundi, de Jung. O que você tem a dizer sobre isso?&lt;br /&gt;            ALMA: Meu pai já era um admirador de Jung, desde sua juventude, e é possível que tenha pensado nele ao batizar-me com este nome, já que o nome de família é Welt. Meu pai esperava muito de mim, não sei bem porquê, já que sou a caçula apenas das mulheres. Tenho duas irmãs mais velhas e um irmão dois anos mais moço, Rodolfo (Rodo), que é o que mais aprecio, embora seja bem diferente de mim.   &lt;br /&gt;CL: Percebe-se isso no seu conto  “O Testamento”, aliás, belíssimo. Mas a personalidade do rapaz parece apenas esboçada nesse conto. Para dizer a verdade, uma espécie de Dimítri Karamázov, muito sintetizado. É intencional essa analogia não explícita? Pois a sua própria figura, Alma, no conto nos remete ao irmão caçula Aliocha, enquanto o seu Monsenhor Ângelo é nitidamente o stáriets Zósima. Estou certo? &lt;br /&gt;ALMA: Sim, sim. É possível. Mas foi um processo inconsciente. Não pensei nisso quando escrevi o conto. Talvez as semelhanças sejam devidas à estrutura arquetípica da própria estória e dos tipos humanos que a compõe. Quando se escreve assim como eu, num fluxo espontâneo e contínuo de inspiração, ocorre que os personagens, naturalmente, ocupam posições demarcadas, como peças num tabuleiro invisível existente na vida. Daí, também associarem meus contos à psicologia junguiana, que conheço pouco. &lt;br /&gt;CL: Alma, no entanto é notável, na sua maneira de escrever, a presença de uma cultura livresca, assimilada. E surpreendentemente, da natureza clássica dessa cultura. Como você a adquiriu? Você é uma grande leitora?  &lt;br /&gt; ALMA: Bem, eu li alguns clássicos. Não foram tantos assim, mas os li bem. Posso dizer que conheço bem a Ilíada e a Odisséia de Homero, mas por traduções, é claro, além dos líricos gregos de Safo a Píndaro. Conheço a literatura de Dostoiéwski e de Edgar Allan Poe, além de Hoffmann, meus preferidos. Mas não cabe aqui citar todos os autores que li. Meu pai era um grande leitor. Um erudito. E tinha uma grande biblioteca em nossa casa, na estância.  Aliás, essa biblioteca ainda existe, como tudo o mais em nossa casa, que permanece como ele a deixou, de uma maneira um pouco mórbida, na verdade. &lt;br /&gt;CL: A propósito, Alma, nota-se uma grande nostalgia da casa paterna em certos poemas seus, que me lembram o tom leopardiano do “Vaghe stelle dell’Orsa”...sul paterno  giardino  scintillanti”.  &lt;br /&gt;ALMA: Sim, sim, é bastante arguta essa tua ilação. Realmente, eu mesma pensei nisso a posteriori. &lt;br /&gt;CL: Seria Leopardi, também, uma das suas influências literárias?&lt;br /&gt;ALMA: É possível. Mas não estou preocupada. Sempre se sofre influências da grande arte ao nosso redor. Mas creio que o importante é o timbre e o teor da assimilação dessas influências. Eu amo a literatura, bem como a Pintura e a Música clássicas, e vivo imersa num mar de referências que me sufocaria se não estivessem naturalmente digeridas. Elas me perspassam como os raios de sol atravessam a atmosfera, agindo sobre  ela e aquecendo-a. Desculpa-me a imagem um tanto pretensiosa...&lt;br /&gt;CL: Não, Alma, está perfeitamente expressa. Concordo com você . Percebe-se essa assimilação perfeita de sua herança cultural. Você não parece pedante em sua literatura, mesmo quando cita autores famosos como Nietzsche, por exemplo. Aliás, percebe-se que você o leu bastante, ou gosta muito dele. É certo isso? Fale-me da “alegria mais profunda que a dor”. &lt;br /&gt;ALMA: Sim, devo reconhecer que Nietzsche me impressionou muito. Já era um preferido do meu pai., talvez por sua ascendência  germânica. Tu notaste a aposta que faço na profundidade da alegria, que é o aspecto mais simpático de sua doutrina. Mas nada de super-homem, nem de “vontade de potência”. Essas coisas são perigosas, embora deva reconhecer que foram distorcidas em seu propósito inicial, pelos nazistas com a colaboração da irmã dele, Elisabeth. Meu pai me falava sobre isso. Devo frisar aqui que meu pai era aristocrático mas não nazista. Aliás, ele tinha horror ao nazi-fascismo, o que já não se pode dizer de seus pais, meus avós. Mas a leitura de Dostoiévski me despertou a simpatia pelos pobres, humilhados e ofendidos, e fui procurá-los também na literatura brasileira e os encontrei em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, que li bastante. Aliás devo dizer, que também para mim, como para muita gente,  o Grande Sertão: Veredas é o maior livro do mundo, junto com os Irmãos Karamásovi.&lt;br /&gt;CL: É curioso, Alma, isso tudo vindo de uma escritora com apenas 28 anos. Você não é muito contemporânea, você sabia? E além disso, você acaba de dizer, em outras palavras, que conhece o povo e sua miséria através da literatura, quando basta olhar em torno, neste nosso país, para depararmos com a pobreza e seus horrores. O que você me diz disso?      &lt;br /&gt;ALMA: Tu não poderias esperar de mim que me metesse na periferia para conhecer o povo, mas andei na caatinga nordestina, e narrei isso num conto: “Na trilha dos menestréis”. E você deve levar em consideração a intuição do artista. Um poeta ou escritor não precisa ter estado na África para descrevê-la e contar maravilhosas aventuras passadas em seus desertos ou em suas savanas.  Há grandes exemplos disso. Meu pai, quando criança, lia os contos de um escritor alemão provinciano que nunca saiu de sua aldeia na Bavária, e escrevia, antes da Segunda guerra, best-sellers populares ambientados no Far-West americano, estórias vívidas e verossímeis de índios pele-vermelhas e cowboys, que eram exportadas até para os Estados Unidos. Os americanos as adoravam. Poderia, também, citar o famoso poema de Emily Dickinson: I never saw a moor...( eu nunca vi uma charneca )... (bem posso imaginá-la).&lt;br /&gt;CL: Mas, Alma, não quero que pareça uma crítica, que, afinal, não é minha função, mas você não usa o povo brasileiro, como material, ou mesmo pano de fundo, a não ser num ou dois contos seus, no “Meu pequeno vizinho”, lindo conto, e singelo, parecendo uma crônica, e no belíssimo “Na Trilha dos Menestréis” O seu Jeová, o negro do conto “A Harpia”, a meu ver a sua obra prima, é um tanto idealizado, embora se perceba que isso é intencional, dado o  caráter simbólico do personagem, dentro de um conto que é, todo ele, uma magnífica alegoria. Mas, mesmo naqueles, você não focaliza propriamente a pobreza, a privação, e a injustiça da nossa monstruosa distribuição de renda. &lt;br /&gt;ALMA: Realmente, CL, mas parece-me que tu estás me cobrando uma tomada de posição política, quando já fiz, há muito tempo, minha opção por uma tomada de posição filosófica. Estou interessada, sobretudo em temas psicológicos e essenciais da condição humana, como bem disse o meu prefaciador, o pintor e poeta Guilherme de Faria. Ele, nesse prefácio, enumera esses temas, segundo a sua visão bastante arguta.&lt;br /&gt;CL: Mas, Alma, conte-nos, então, como você foi descoberta por um pintor famoso, que, recentemente, revelou-se poeta de cordel. Como você conheceu o Guilherme de Faria? &lt;br /&gt;ALMA: Ah! Isso foi um encontro providencial, que contei no meu conto “Anagramas”. Ele é um amigo da  grande gravadora Renina Katz que conheci um pouco antes e da qual fiz o primeiro anagrama.&lt;br /&gt;CL: Sim, Alma, aquele espantoso anagrama em que aparece toda uma teogonia órfica. Admirável e instigante, lembro-me dele. Mas, continue. &lt;br /&gt;ALMa: Pois é , Guilherme tendo tomado conhecimento através da Renina, do anagrama dela, feito por mim, e tendo tido um sonho enigmático, a princípio, procurou-me para que eu o ajudasse a desvendar esse sonho. Fiz o seu anagrama, que, afinal, foram cinco anagramas completos, que decifrados, explicaram o significado do seu sonho de maneira surpreendente até para mim. A partir disso tornamo-nos amigos. &lt;br /&gt;CL: Perdoe-me a indiscrição, Alma, mas apenas amigos? O seu conto sugere muito mais, não é verdade? Não terá sido o começo de uma paixão?&lt;br /&gt;ALMA: Realmente, não posso negar, mas prefiro não falar disso. &lt;br /&gt;CL: Mas, Alma, eu insisto: você está apaixonada?&lt;br /&gt;ALMA: Pode-se dizer que sim. Estou feliz. Ele é um homem maravilhoso, e um artista famoso, que tem apenas uma parcela de sua imensa obra conhecida do público. Além disso ele é um fantástico poeta de cordel, que escreve estórias profundas sobre o pano de fundo da caatinga nordestina, com espantosa autenticidade, visto não ser nordestino e nem sequer ter ascendentes nordestinos. Ele é paulista de 400 anos. O que mais uma vez comprova aquela tese da intuição do artista. &lt;br /&gt;CL: Sim, estou disposto a concordar com você, Alma. E também a marcar uma entrevista com o Guilherme. Mas previno-a que farei perguntas indiscretas a ele, sobre você. Aceita?&lt;br /&gt;ALMA ( rindo, e que bela risada ): Sim, CL, aceito. Sei que ele só dirá coisas bonitas a meu respeito. &lt;br /&gt;CL: Quando você deu essa risada, agora, lembrei-me da gargalhada da Greta Garbo na Dama das Camélias, acompanhada de um glissando do piano que alguém tocava nessa cena (quando ela disse: “Pode ser o grande amor da minha vida! ) Você certamente viu esse filme...&lt;br /&gt;ALMA: Sim, e lisonjeia-me a tua comparação. Nunca tinha pensado em ter qualquer semelhança com ela. &lt;br /&gt;CL: Sim, Alma, há, e impressionante. Não que vocês se pareçam fisicamente. Ma, o timbre de suas feminilidades, e a presença. Bem, não quero encabulá-la.&lt;br /&gt;ALMA: Obrigada, CL. Tu és gentil. Mas, longe de mim...&lt;br /&gt;CL: Vamos então, mudar de assunto. Você reparou que nenhuma vez você cita a televisão ou sequer um aparelho desses nos seus contos? Não é insólita essa omissão, numa época como a nossa? &lt;br /&gt;ALMA: Não, não mesmo. Como disse, estou interessada no essencial. Mas, infelizmente, não é verdade que eu não cite a televisão nenhuma vez. Citei-a, uma única vez, até agora, no conto “O Violino de Mozart” onde a personagem (eu mesma) vê o seu amado Gino numa entrevista na televisão. Mas eu poderia passar sem essa. Seria até mais interessante a omissão total desse veículo, como para tornar os meus contos mais atemporais. Além disso, a televisão já é suficientemente falada e discutida. &lt;br /&gt;CL: Mas, Alma, sejamos sinceros, se a Globo, por exemplo, quisesse um texto seu para um caso especial, ou para o Brava Gente,  você não aceitaria?&lt;br /&gt;ALMA: Aceitaria, claro. Nenhum momento fiz qualquer crítica a essa mídia, e eu mesma já derramei muitas lágrimas com algumas novelas ou mini-séries. A sua versão do Grande Sertão: Veredas em mini-série foi admirável. Bem com O Primo Basílio e Os Maias. Gostei muito, também, das versões para a televisão das peças do grande Ariano Suassuna: O Auto da Compadecida e A Mulher Vestida de Sol. Foram primorosas e endossadas pelo próprio autor, segundo se soube.                     &lt;br /&gt;CL: Então, Alma, mudemos mais uma vez de assunto. Já que você tem opiniões bem definidas sobre tudo, ou quase tudo. Estou enganado?&lt;br /&gt;ALMA (rindo): Não estás enganado. Quando se tem uma visão do mundo, os detalhes técnicos, podem às vezes não importar. Se tu me perguntares sobre petróleo, vou logo dizendo que emporcalhou o mundo, e não adiantará tu me falares nos grandes interesses das grandes companhias e a relação desses interesses com a economia mundial. Trata-se a meu ver, de um combustível obsoleto e poluidor, que poderia há muito tempo ter sido substituído pelo hidrogênio, retirado da água do mar, fonte inesgotável, ou ainda pela energia elétrica através de baterias giroscópicas. Bastava para isso, vontade política, ou mesmo uma superação da chamada estupidez humana. &lt;br /&gt;CL: Alma, você agora me surpreendeu. Então você tem opiniões técnicas e políticas, ou pelo menos ecológicas. Vejo que por aí há um veio a ser explorado. &lt;br /&gt;ALMA: Não, prefiro que não, se tu não te importares. Sinto-me quase infantil quando falo dessas coisas. Sou apenas teórica e um tanto idealista nesse campo, e não gosto me sentir assim, já que não atuo de maneira prática nessa área. Sou apenas uma artista: pintora e poetisa. &lt;br /&gt;CL: Sim, Alma, você é uma das últimas a aceitar esse epíteto: “poetisa”, que soa como uma coisa antiga, da época das “diseuses” e de Florbela Spanca, ou mais tardar de Cecília Meirelles, com quem, aliás, a sua poesia tem um visível parentesco. Você as aprecia?         &lt;br /&gt;ALMA: Sim, muito. Florbela Spanca especialmente, pela intensidade de sua     paixão. Mas ela tem um tom mórbido e ressentido contra a vida, com o qual não me identifico. Ela me soa como uma mulher apaixonada e delirante, mas infeliz. Enquanto que eu sou apaixonada e feliz, apesar de algumas quedas, acidentes de percurso. Mas até hoje sempre subi, sempre saí do buraco, para alcançar novamente a alegria, sem a qual não poderia viver. &lt;br /&gt;CL: Sabe, Alma, esse é o aspecto que mais me impressionou no seus contos e nos seus poemas.  Essa aposta na alegria. Confesso que antes de conhecer a sua obra, eu não acreditava que a alegria desse muito assunto. Acreditava naquele axioma: “os povos felizes não têm história”. Mas você me fez ver uma certa profundidade e riqueza na alegria e na felicidade, e entender aquele verso de Nietzsche que você cita; “ a alegria é mais profunda que a dor”. Devo agradecer a você por isso. Mas ainda tenho a curiosidade de saber , como uma moça tão sensível como você, a julgar pelos seus textos, e mesmo pela sua pintura, pode ser feliz num mundo como o nosso. Percebe-se nos seus contos que você  derrama lágrimas a torto e à direito, que você é muito chorona. Estou certo? &lt;br /&gt;ALMA(sorrindo): Sim, é verdade. Derramo lágrimas com facilidade, mas se você reparar bem, quase sempre por comoção com a beleza, com o amor , com a arte. Lágrimas de felicidade, na maioria das vezes. Um sentimento do mundo que inclui, em mim, uma aposta na beleza e na grandeza do Homem. Não sou uma pessimista, e me comovo positivamente com o ser humano. E convivo intensamente com os deuses.              &lt;br /&gt;CL: Sim, Alma, é espantoso, nos seus textos como você parece conviver com eles, dentro de você, embora de maneira psicanalítica, como é possível na nossa época. Mas percebe-se que você se relaciona de maneira perturbadora, para você mesma, com suas supostas encarnações passadas, às quais você parece temer ou reagir, o que aumenta o mistério e o suspense de alguns contos como aquela maravilhosa “ Trilogia de Adèle”. Será isso uma técnica literária para fisgar o leitor? eu me pergunto.&lt;br /&gt;ALMA: Se isso é uma pergunta, só posso lhe dizer, que sou absolutamente sincera, na minha arte. E sobretudo expontânea. Meu texto é fluente, nada premeditado, e penso que por isso posso incorrer freqüentemente numa certa ingenuidade. Não descarto essa possibilidade, disso que o meu prefaciador , o Guilherme chamou de “candura”. Mas, que eu saiba, ela é uma virtude, como ele muito bem colocou. Não devo me envergonhar dela, mesmo sendo uma escritora, não é mesmo?             &lt;br /&gt;CL: Bem, queria agora mudar o rumo da nossa conversa para abordar um aspecto que me intriga em sua literatura: o caráter sensual e mesmo erótico, freqüentemente explícito de alguns contos e poemas seus. Quero comentá-los porque eles me agradam. Vejo em você, sob este aspecto, uma alma pagã, bastante livre no domínio sexual, embora assombrada por outros espectros, como a sombra do mal, difusa, e a presença de encarnações passadas, nem sempre bem recebidas, e sim temidas. &lt;br /&gt;ALMA: Surpreende-me  essa tua captação tão arguta de um aspecto tão íntimo da minha natureza literária (e pessoal também, claro). E já que tu queres falar disso, posso apenas dizer que essa liberdade, mais do que assumida, é inerente à minha natureza, de maneira instintiva, desde a minha infância, para escândalo da minha mãe, que quis de todo modo reprimi-la, sem conseguir, claro. Eu falo sobre isso no meu conto “As Férias da Infância da Alma”, dos Novos Contos. Devo dizer que gosto muito do erotismo e considero que ainda não me dediquei a ele, verdadeiramente, na literatura. É possível que eu ainda escreva  um livro de contos realmente erótico. &lt;br /&gt;CL: Como Anaïs Nin, por exemplo? Você leu o seu “Delta de Vênus”?&lt;br /&gt;ALMA: Sim, mas achei insatisfatório. O meu livro será mais explícito e escabroso, espero. &lt;br /&gt;CL: Puxa, estou  curioso e ansioso para lê-lo (risos). Mas diga-me, Alma, você leu o Marquês de Sade? Você o cita, num certo conto, mas de maneira sumária e genérica.&lt;br /&gt;ALMA: Sim, eu li o Marquês. Mas o seu “120 Dias de Sodoma” eu joguei fora. Aquilo era sórdido demais e me chocou. Quanto aos outros livros como Justine, Filosofia da Alcova, O Marido Complacente, etc, apreciei certos aspectos. Mas realmente, não é o meu favorito. Prefiro, por exemplo Choderlos de Laclos, do “Ligações Perigosas”.&lt;br /&gt;CL: E Henry Miller, você o leu? &lt;br /&gt;ALMA: Sim, e gosto muito dele, mas não justamente das suas descrições eróticas que são muito grosseiras com a figura da mulher. Compreendo a revolta de June, contada por Anaïs Nin no seu maravilhoso Diário. June, aquela linda mulher queria, e merecia ser verdadeiramente tratada como musa, e Henry se recusava a isso. E ele suspeitava que ela se prostituíra para arranjar-lhe o dinheiro da viagem para a França. Ora, isso não importava, ou fazia dela, no mínimo uma espécie de “prostituta santa”, que ele não soube apreciar. Era um terrível machista, no fundo. Já Anaïs, sim, soube apreciar o mistério da beleza tão grande daquela mulher, a ponto de apaixonar-se por ela, de maneira mais profunda e sensível do que ele. Mas parece que ela acabou também rejeitada pela  June, depois de um breve caso entre as duas, interrompendo uma maravilhosa cena de cama.&lt;br /&gt;CL: Alma, a propósito, você escreveu um livro de poemas sáficos, como você diz, o “Narcísicas”, de surpreendente lirismo para os nossos tempos. Soa na verdade, como uma poetisa grega antiga, dos tempos da musa de Mitilene. E depois, o seu livro de Sonetos repete a descrição dessa paixão, mas de outra forma, aliás muito interessante, pela progressão da estória através da seqüência&lt;br /&gt;dos sonetos. Eu pergunto: essa estória é real? Aconteceu com você? Aline existe?&lt;br /&gt;ALMA: Não gostaria de falar sobre isso, mais do que já falei na própria poesia, nas Narcísicas, e nos Sonetos. Foi um caso muito doloroso, mas que eu contarei também num conto, que aliás, já estou escrevendo. &lt;br /&gt;CL: Mas, Alma, seus leitores vão querer saber um pouco mais, desde já, sobre essa misteriosa Aline. Você não poderia comentar alguma coisa sobre ela?&lt;br /&gt;ALMA: Já que tu insistes, direi apenas que esse caso quase me derrubou. Entreguei-me demais a esse amor, como os leitores poderão perceber nos meus poemas, e isso quase me foi fatal. Ela retirou-se, subitamente, da minha vida, o que me tirou o chão e o alento. Desci muito fundo, no inferno da alma, e tive que fazer um esforço muito grande para subir. Mas não renego nada. Saí afinal mais fortalecida , ou pelo menos calejada. &lt;br /&gt;CL: Alma, essa sua experiência rendeu belíssimos versos de amor, de um lirismo incomum na poesia contemporânea, a meu ver. Confesso que disputei esta entrevista, justamente pela admiração que esses versos me causaram.&lt;br /&gt;ALMA: Fico gratificada e comovida com isso. Mas se penso novamente nesse caso e nesses versos ponho-me a chorar. Vamos mudar de assunto, sim?&lt;br /&gt;CL: Está bem, que pena... Eu poderia perguntar-lhe ainda tanta coisa, mas nosso espaço está chegando ao fim. Fale-me daquele insólito livro de poemas&lt;br /&gt;“Amar Humores”. Como você o concebeu?&lt;br /&gt;ALMA: Bem, o que tu queres realmente saber? A minha motivação? O humor misturado ao erotismo, de uma ótica feminina, claro. E satirizando, às vezes, a ótica masculina. É um alvo talvez um pouco difícil, e posso não ter conseguido. Mas é um texto espontâneo como todos os meus textos. Confio muito no que jorra da minha intuição. E aquilo sou eu, como, aliás, todos os meus poemas, contos e pinturas. Só posso falar de mim mesma, mas fazendo-o assim, de peito aberto, tenho a esperança de ser compreendida por outras mulheres e mesmo pelos homens. Só se pode ser universal, a partir da nossa aldeia, do nosso bairro, do nosso quarteirão, quer dizer, da nossa pele. Não é, mais ou menos, o que dizia Nelson Rodrigues? De qualquer maneira quero falar de mim, de minhas experiências amorosas e até mesmo eróticas, pois o ato de escrever já me basta. Eu sei que é narcisismo, e daí? Isso me dá imensa satisfação e isso por si, já me justificaria perante mim mesma. Mas, se há um editor e leitores, então, meu exibicionismo fica ainda mais legitimado, não achas?&lt;br /&gt;CL: Eis aí uma declaração franca e perturbadora. Mas, na verdade, posso dizer, sem ser um crítico literário, que a qualidade dos seus textos o justificam plenamente, para além da necessidade confessional que você mesma declara haver neles. Certamente haverá muitos leitores e fãs. Eu mesmo já sou um deles. Nossa entrevista chegou ao fim. Posso dar-lhe um beijo? &lt;br /&gt;ALMA: Sim, tu és doce, afinal...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-4409602370951528324?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/4409602370951528324/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=4409602370951528324' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4409602370951528324'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/4409602370951528324'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/10/caf-literrio-entrevista-alma-welt.html' title='Entrevista  com ALMA WELT'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-8962767190961505417</id><published>2007-10-17T16:08:00.000-07:00</published><updated>2007-10-18T15:50:53.163-07:00</updated><title type='text'>Alma e Jonas</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/RxdqV9r2SoI/AAAAAAAAAWo/gfX9pa5SYCA/s1600-h/RSCN11652006-08-06_11-14-57.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/RxdqV9r2SoI/AAAAAAAAAWo/gfX9pa5SYCA/s320/RSCN11652006-08-06_11-14-57.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5122680026725501570" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Alma e Jonas -óleo s/ tela de 120x160cm, de Guilherme de Faria, que ilustra o conto "Meu pequeno vizinho", dos Contos da Alma, de Alma Welt.  Coleção Flavio Guimarães, São Paulo&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-8962767190961505417?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/8962767190961505417/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=8962767190961505417' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8962767190961505417'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8962767190961505417'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/10/alma-e-jonas-leo-s-tela-de-120x160cm-de.html' title='Alma e Jonas'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/RxdqV9r2SoI/AAAAAAAAAWo/gfX9pa5SYCA/s72-c/RSCN11652006-08-06_11-14-57.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-8213713370593197521</id><published>2007-10-12T15:16:00.000-07:00</published><updated>2007-10-17T20:19:14.055-07:00</updated><title type='text'>Meu pequeno vizinho   (crônica de Alma Welt)</title><content type='html'>Estou trabalhando há horas numa grande tela. Tenho a cara e as mãos sujas. Luto com as tintas, tentando domá-las, às vezes dando-lhes rédeas, deixando-as reinar em manchas quase aleatórias. Do balanço entre o casual e o deliberado, nasce uma pintura mágica, que deve parecer ter nascido sozinha, pronta, e com a sensação ilusória de facilidade quase divina. Esta é a arte que busco, quando noto uns olhos atentos ao meu lado.&lt;br /&gt; Um menino pretinho, de grandes olhos, que, sem sorrir, observa-me e ao quadro. Espantei-me com a sua presença, antes de perceber que eu esquecera a porta aberta quando levara o lixo para o corredor logo de manhã cedinho.&lt;br /&gt; Meu primeiro movimento foi fechar a porta; depois, agachando-me para pôr os meus olhos nos seus, disse-lhe:&lt;br /&gt;-E então? Você gosta de pintura?&lt;br /&gt;-Eu gosto é de limpeza...- respondeu ele, com um lento e cantado sotaque mineiro.&lt;br /&gt;Caí numa gargalhada. Entendi logo que se tratava do filho da faxineira do vizinho. Desconcertada mas enternecida (talvez eu esperasse o veredicto favorável de uma criança pura e inocente para ter a certeza da aprovação divina do meu trabalho).  Peguei-o pela mão e levei-o à cozinha, para preparar-lhe um café da manhã.&lt;br /&gt;Daí por diante ele apareceria quase todos os dias, certamente para o café com leite e as bolachas que o deliciavam. Mas depois permanecia vendo-me pintar. Eu já não lhe perguntava o que ele achava. Pensava ser mais prudente deixá-lo manifestar-se espontaneamente. Comecei a lhe dar uma paleta com as cores que uso, para que ele  pintasse uma telinha sobre a mesa. O resultado foi surpreendente. Toda criança é artista. Justamente porque transfigura a realidade em signos simplificados, emblemáticos e poéticos. Tudo se torna arquétipo na visão infantil. É na verdade uma visão sagrada, imemorial, arcaica como a humanidade.&lt;br /&gt;O quadrinho de Jonas (esse era o seu nome) me encantou. Pressenti nele um futuro primitivo rural. Sua mãe vinha do campo, da lavoura, e ele herdara atavicamente essa visão de campos lavrados, bois e montanhas de Minas Gerais. Como podia ele lembrar-se do que não vira com seus próprios olhos? Ele tinha nascido aqui na cidade. E vivia suspenso em apartamentos, correndo por feios corredores de prédios, povoados somente por latas de lixo. Crianças, raramente ele as via, pois passavam às vezes direto para os elevadores, acompanhadas por seus pais. Eu, sua vizinha, solteira, parecia encantá-lo. Olhava-me muito. Creio que via a criança dentro de mim, porque eu pintava. Sim, devia ser isso! Não sou exatamente o tipo físico ou mental que chamavam em outros tempos de femme enfant, mas todo artista é uma criança e passa a vida a recuperar essa criança em sua obra. Eu, por exemplo, hei de pintar um dia como uma menina de seis anos se tudo der certo.&lt;br /&gt;Lembro-me de quando levei meus desenhos e pinturas, no começo de minha carreira, para mostrar ao professor Bardi. Ele disse: “Alma, não se iluda. O maior pintor brasileiro de todos os tempos é José Antonio da Silva. Tudo o mais é pintura européia”.&lt;br /&gt;Agora eu estava disposta a incentivar Jonas a ser um pintor primitivo como eu gostaria de ser, sem poder. O tempo passou, o menino pintava em meu ateliê todos os dias. Era também o meu ajudante e com o tempo ele já me faria falta. Já não podia passar sem ele. Era moldureiro, encaixotador, e até faxineiro. Pegou na vassoura com prazer depois que lhe contei uma anedota de Portinari. O pintor foi  encontrado certa manhã, por um visitante, grande colecionador, com a vassoura na mão, varrendo o ateliê. O visitante, surpreso, perguntou-lhe: “Mas, mestre, o senhor, varrendo o chão? E Portinari respondeu-lhe: “Sim, meu caro, a vassoura é um grande pincel”.&lt;br /&gt;Jonas adorou essa história e agora varria o ateliê todas as manhãs. Eu estava encantada. Percebi o valor das metáforas na vida de uma criança. Na vida de todos nós, na verdade.&lt;br /&gt;Jonas se tornou um pintor, voou, sumiu. Partiu com sua mãe para Minas um dia. E eu, olhando algumas magníficas telas que ele me deixou, sabia que ele não mais se perderia e que voltara às montanhas que eu imaginava, para reencontrar suas raízes.&lt;br /&gt;Um dia, minha vizinha, abalada, tocou a campainha para me trazer uma coisa. Sua ex-faxineira escrevera-lhe e ela me passou a carta que transcrevo aqui, corrigindo-lhe o português: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Senhora, não lhe escrevi antes pois a vida tem sido muito difícil, desde que voltei para cá. Agora é impossível. Meu Jonas me foi levado no ventre da baleia. Dois tiros lhe tiraram a vida. O quadrinho que tinha na mão tinha um furo no meio, sobre o seu peito ensangüentado. Envio-lhe o quadro, sua última pintura, para que o entregue à pintora que foi sua mestra. Ele a amava muito, como se pode ver no quadro. Diga-lhe que sou grata como mãe, pois meu filho foi feliz enquanto viveu a sua curta vida e eu sei que ele aprendeu essa felicidade com a pintora que ele venerava. Sua religião era a arte, e ela, a sua santinha. Os quadros de meu filho ficaram conhecidos aqui na região. Estava ficando famoso, pelo menos entre nós. Mas, por algum mistério, insistia em me ajudar na limpeza todas as manhãs, manejando a vassoura com prazer, assobiando uma música estranha, mas bonita, uma tal de cantilena, de um homem que vira lobo, que a pintora lhe ensinou. Agora não posso mais. Não sei como viver sem meu Jonas, mas sinto também demais dar essa notícia a ela. Não tenho coragem. Faça isso por mim, entregue-lhe o quadrinho, que não posso mais olhar para ele com aquele furo no meio".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Agradecida, &lt;br /&gt;para nunca mais, &lt;br /&gt;  sua, Dasdô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Meu coração partiu-se, minhas lágrimas corriam olhando aquele quadrinho, onde se via uma moça loira com uma vassoura enorme na mão, em frente a uma tela no cavalete, entre montanhas azuis e verdes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-8213713370593197521?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/8213713370593197521/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=8213713370593197521' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8213713370593197521'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/8213713370593197521'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/10/meu-pequeno-vizinho-crnica-de-alma-welt.html' title='Meu pequeno vizinho   (crônica de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-7660315045986428111</id><published>2007-10-10T21:20:00.000-07:00</published><updated>2007-10-18T15:46:56.656-07:00</updated><title type='text'>Alma e o quadrinho de Jonas  (pintura de Guilherme de Faria)</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/RxfhUdr2StI/AAAAAAAAAXQ/6PR29b3C8LM/s1600-h/S5030236.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/RxfhUdr2StI/AAAAAAAAAXQ/6PR29b3C8LM/s320/S5030236.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5122810842839403218" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; "Alma e o quadrinho de Jonas"-  óleo s/ tela de 100x100cm de Guilherme de Faria, que também ilustra o conto "Meu pequeno vizinho", dos "Contos da Alma", de Alma Welt.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-7660315045986428111?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/7660315045986428111/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=7660315045986428111' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7660315045986428111'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7660315045986428111'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/10/alma-e-o-quadrinho-de-jonas-pintura-de.html' title='Alma e o quadrinho de Jonas  (pintura de Guilherme de Faria)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/RxfhUdr2StI/AAAAAAAAAXQ/6PR29b3C8LM/s72-c/S5030236.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-7144379462700566719</id><published>2007-10-06T22:07:00.000-07:00</published><updated>2007-10-06T22:14:34.512-07:00</updated><title type='text'>Salomão ou Lear, de saias   (de Alma Welt)</title><content type='html'>(dos Contos Pampianos, de Alma Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou só, à frente desta estância, comandando o andamento da casa e da vinha. E isto me sobrecarrega, já que não quero abrir mão de minha pintura e poesia. A posição de “diretora”, ou administradora deste pequeno universo, me coloca em situações inusitadas, de um certo poder, até mesmo sobre o destino de um número de criaturas que passaram a depender de mim, como outrora, do Vati. Este “cargo” deveria caber ao Rôdo, por acordo entre nós, após a morte de nosso pai, logo estou um tanto revoltada com meu irmão, que parece fugir de suas atribuições. Preciso explicar que Rôdo está viajando, há mais tempo do que deveria, a meu ver, com seu carrinho esporte, pelo mundo, correndo, jogando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os peões e suas famílias parecem me ver como uma espécie de rainha. Os homens tiram o chapéu na minha presença, e as mulheres curvam ligeiramente o joelho quando vêm até mim, na varanda, diante da minha cadeira de balanço. Eu lhes ofereço o meu mais doce sorriso, mas eles parecem receber isso como a benevolência da rainha e saem cheios de gratidão, mesmo quando me mostro impotente quanto a alguns problemas seus, de ordem pessoal, somente porquê interpreto a situação para eles, com palavras simples, e que ajudando-os a enxergar mais claramente, eles a resolvem por si mesmos. Estou dando-me conta da grande responsabilidade desta posição em que o destino me colocou, e tento fazer jus a ela. A verdade, é que, às vezes, esperam de mim um poder absurdo, e isto me deixa um tanto perturbada, principalmente com a tentação, em mim, de exercê-lo mesmo, em sua totalidade, mudando destinos, fazendo escolhas por eles. Mas debato-me, interiormente, quanto a isso, e tento refrear-me. Ah! A tentação do poder! Será legítimo o poder, dado a um ser humano, por circunstância, por nascimento... será destino, o poder? Eis, a meu ver, um dos mistérios humanos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galdério, nosso caseiro, está à vontade, como uma espécie de primeiro ministro, intermediando ordens minhas, ou pondo-as para serem executadas, e espera de mim uma autoridade sem contestações. Parece partir do princípio de que sou realmente infalível, ou que mesmo que erre, meus juízos e decisões trazem a marca da legitimidade, de uma herança... divina. Lembrei-me recentemente, de que há poucos anos, em São Paulo, numa interessante conversa com o grande poeta urbano Roberto Piva, este contou-me o seguinte episódio, sugestivo, de sua experiência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Alma,-disse ele- no final dos anos cinqüenta, na casa do Vicente e da Dora Ferreira da Silva, este, de repente, perguntou-me: “Piva, você sabe por quê o comunismo não vai durar cem anos?” “Não, Vicente,” - eu respondi, surpreso- “ por quê não vai durar cem anos?” E Vicente respondeu: “Porque o comunismo não está no inconsciente coletivo.” Afinal- continuou Piva,- ele foi profético, pois a União Soviética durou apenas 75 anos. O comunismo nunca consolidou-se na mente da grande massa, pois, em termos políticos, ou melhor, de poder, o que o homem do povo tem no seu “inconsciente coletivo” é a figura do rei, da rainha, do príncipe, da princesa... e do cavaleiro andante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este diálogo real, contado pelo poeta paulistano, meu amigo, me fez meditar, quanto a outras decorrências do poder, por exemplo, a estória exemplar do rei Lear, da peça de Shakeaspeare, em que este monarca, já muito velho, abdica do seu poder em favor das filhas, dando ensejo imediatamente a uma “guerra civil” em seu reino, luta fratricida, entre as irmãs com seus exércitos, disputando esse poder, enquanto o velho rei decaído e louco, ia de roldão no meio do fogo cruzado, por assim dizer (acompanhado apenas do fiel mas queixoso bobo da corte, uma espécie de corifeu desta tragédia).É interessante notar que a única filha leal ao pai, e portanto ao rei, Cordélia ( o coração) representa a anima deste homem velho, que perdeu a sabedoria, pois o poder se herda, se ganha ou se perde pela força, mas ai daquele que abre a mão espontaneamente do poder, mesmo que por velhice, pois cria o caos em torno de si, já que contrariou uma lei natural do universo, por vezes perturbadora, nada racional.(Lembrei-me do título do grande filme de Kurosawa, baseado nesta tragédia, “Ran”, que em japonês, sugestivamente significa “Caos”). Isso me faz pensar também, na situação de Fidel Castro, que contestado no seu poder por grande parte do mundo, dadas as dificuldades inimagináveis da economia do seu país devido ao bloqueio, e também, claro, pela opressão a determinados setores, nem assim abre mão do seu poder, em função de uma democracia, pois deve ter lido Shakespeare e sabe, que ao fazê-lo, precipitará uma sangrenta guerra civil, que, na verdade, a meu ver, virá de todo modo com sua morte, natural ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estou divagando, voltemos ao meu pequeno reino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje de manhã recebi uma moça camponesa, uma das minhas colhedoras de uvas, guria encantadora em sua beleza rústica, de grandes olhos sombreados pelo chapéu e o lenço que o cobre para amarrá-lo num laço sob o queixo. Uma espécie de corpete realça-lhe os seios, e lhe empresta um ar antigo, que remete-me mais depressa à minha condição de princesa, ou de rainha mesmo. Imbuída do meu papel, ou reconciliada com ele, graças as divagações que expus acima, eu ouço a queixa da camponesa: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Dona Alma, quero me casar com o Léo, o guri encarregado dos batoques dos barris, e meus pais me proíbem, pois seu trabalho é desprezado e sofre chacota entre os peões. Dizem que ele só sabe tapar buracos ( ela pôs a mão na boca, acompanhada por mim mas com um sorriso, nesta reação). Mas o Léo, está tão desesperado, que me propôs... ai!, não tenho coragem de dizer ( ela cobriu pudicamente as faces com as mãos). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive vontade de rir, e creio que soltei uma pequena gargalhada que logo controlei, instigando-a: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Quitéria, guria, o que o Léo pode ter te proposto? Abrir um buraco, em vez de fechá-lo?(Ela corou, com a mão na boca, mas eu logo me arrependi da brincadeira, pois a situação delineava contornos mais sérios). Querida, tu deves tomar cuidado, pois quando um homem propõe isto a uma moça simples, está sempre fazendo um teste, mesmo que ainda não saiba disto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quitéria ficou um pouco confusa, mas creio que captou o que eu quis lhe transmitir. No código de valores dessas criaturas, que temos que levar em conta, a virgindade é coisa seríssima, e depois do leite derramado, só resta esperar a benevolência ou o bom caráter do rapaz, que se mostre disposto a reparar o erro casando, ou então sofrer castigos e freqüentemente o desprezo da própria família, coisa que virtualmente as destroem. Mais antigamente houve casos em que o próprio pai pôs a filha na zona, como castigo e repúdio perpétuo, crueldade inimaginável nos dias de hoje, mas que teoricamente não foi apagada do código internalizado de certos pais-peões, de irmãos, e até mesmo (pasmem) de certas matriarcas camponesas. Na minha infância ouvi contar, principalmente na cozinha da estância, pela boca de Matilde, tragédias como essas. Desconfio que minha babá, depois cozinheira, falava disso para me alertar, de medo que eu própria malbaratasse minha virgindade, e nunca mais pudesse casar. Pobre Matilde, se ela soubesse o que realmente penso de tudo isso... Não, ela não poderia compreender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Querida,-eu completei-resista, resista. E espera, que quando teus pais perceberem a força do amor de vocês, se ele existir, o casamento virá, naturalmente, por si só... (eu jamais seria capaz de seguir, eu mesma, tal conselho, pois sou impaciente e precipitaria as coisas com alguma loucura.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Mas dona Alma, o caso é que meu pai vai me casar dentro de uns dias com o senhor Paco, só porque ele tem um pedacinho de terra que a senhora lhe deu, e chega de lá montado num cavalo dele mesmo. Eu não quero, dona Alma, eu não amo aquele homem! Eu tenho horror daquele homem!( Ela caiu num súbito pranto).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei consternada por constatar, que até os dias de hoje ainda ocorriam entre os camponeses da nossa estância, casamentos impostos, arranjados, sem levar em conta os sentimentos das moças. O século dezenove adentrara o século vinte inteiro e chegara ao terceiro milênio. Era inacreditável! Aquela mocinha estava votada ao estupro, e nada poderia poupá-la desse destino anunciado, essa é que era a verdade! Senti um súbito aperto no peito, por empatia, por identificação anímica de mulher, e só pude chorar por ela, abraçando-a, fraternalmente. O que poderia eu dizer a ela, diante daquelas circunstâncias? Poderia eu instigá-la a fugir com o guri, o pequeno peão tão desprezado pelo seu humilde ofício? Não! Mas se eu tinha algum poder, que me delegavam, eu o usaria com alguma sabedoria, se eu invocasse a Deus esse dom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao pensar assim, a solução me foi imediatamente apontada, como um juízo salomônico. Eu disse: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Quitéria, vou tentar algo, mas tu deves guardar segredo dessa nossa conversa. Dê um jeito de avisar o Léo, para que me procure, imediatamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A guria, um tanto surpresa, saiu correndo, semeada de esperança, depois de beijar-me as mãos, comovedoramente. Eu meditava no que deveria dizer ao pequeno batoqueiro. Passados dez minutos chegou ele, bastante tenso e desconfiado. Saudou-me um tanto constrangido, de olhos baixos, como se esperasse ser repreendido. Eu lhe disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;–Olá, Léo. Hoje pode ser o teu dia de sorte. Mas antes deves me responder algo com toda a sinceridade. Amas alguém, uma moça aqui da estância, sim ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem, nada feio, um tanto matuto, mas bem apanhado para um peão ignorante, hesitou um pouco, e respondeu: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Sim, dona Alma, mas não sei o que... (calou-se, de olhos baixos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Bem Léo, é a Quitéria o teu amor? É verdade que a amas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Sss...sim, dona Alma, mas não atino como sabes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Então, Léo, prepara-te porque vais casar-te com ela, que é minha protegida. E por isso vão ganhar como presente meu, de casamento, um pedaço de terra, bem fértil, e com uma querência nele, um pampeiro, e duas vacas, umas galinhas também. É o meu presente de casamento. Vou passar a escritura em nome dos dois, desde já, confiando na realização desse casamento e de que ele será muito feliz. Mas tens que me prometer, que a tratarás como uma princesa, que é isso o que as mulheres são, sabias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Léo ficou um instante boquiaberto, depois ajoelhou-se subitamente e agarrando-me a fimbria do vestido, sem levantá-la, curvado, beijou-a quase deitado aos meus pés. Eu tive que tocar-lhe os ombros para instá-lo a parar com aquilo. Ele estava deslumbrado, e chorava, de emoção, de gratidão, me pareceu. Diante de sua reação, fiquei convencida do acerto da minha decisão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro de um mês, na véspera do casório de Léo e Quitéria, chegou Rôdo de mais um giro pela Europa, e vendo os preparativos para a festança, com fandango e churrascada à vista, questionou-me, diante do meu empenho na organização daquele evento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Sou a madrinha do casal, Rôdo, pois dei um empurrãozinho para o casamento acontecer. Dei-lhes um palminho de terra e umas coisinhas mais, para o Léo, que era o escolhido de Quitéria, ficar em pé de igualdade com um rival. Como contava com o amor da moça, a balança pesou a seu favor diante dos olhos dos pais dela. Foi só isso, Rôdo, o que fiz... uma pequena ajuda ao amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rôdo abanou a cabeça, e ralhou comigo, sorrindo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Alma , Alma, és incorrigível! Nesse passo vais dilapidar todo o nosso patrimônio, distribuir aos poucos todas as nossas terras e até a vinha. Não vês que logo todos os peões vão querer se casar, escolhendo-te para madrinha? Não conheces o povo! Além disso, quem te dá o direito de interferires no destino alheio? E se o casal for infeliz, amarrado a um pedaço de terra? Mais cedo ou mais tarde te culparão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei por um momento confusa com as palavras de Rôdo, mas logo reafirmei minha decisão, defendendo-a:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—Rôdo, meu irmão, tuas palavras são de falsa sabedoria, pois são só razão, lhes falta coração. Deve-se confiar mais nos impulsos do coração. Tens o pessimismo de um cético, e crês pouco no ser humano. Deve ser por isso que és um jogador, um blefador. Não vês que um único ser humano salvo, ou aliviado de sua dor, justifica uma vida inteira de erros? Meu coração está pleno, julguei com sabedoria neste caso, quase como Salomão ao ameaçar repartir entre desiguais e deixar o amor fazer pender a balança na direção certa. Não como Lear, se é o que tu pensas, que abriu mão do seu poder, doando tudo de uma vez. Não, meu irmãozinho querido, não queiras me confundir. Estou feliz, como eles, e isso é suficiente prova do meu acerto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rôdo sorriu ternamente, afinal, e me abraçou profundamente, enquanto eu, apertada em seus braços, com a cabeça em seu ombro, pensava no quanto eu amava aquele guri, tão diferente de mim...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8990704505936625252-7144379462700566719?l=prosadealmawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/feeds/7144379462700566719/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8990704505936625252&amp;postID=7144379462700566719' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7144379462700566719'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8990704505936625252/posts/default/7144379462700566719'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://prosadealmawelt.blogspot.com/2007/10/salomo-ou-lear-de-saias-de-alma-welt.html' title='Salomão ou Lear, de saias   (de Alma Welt)'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8990704505936625252.post-4939664007728162512</id><published>2007-10-06T15:46:00.000-07:00</published><updated>2008-09-04T06:00:22.912-07:00</updated><title type='text'>Anagramas  (de Alma Welt )</title><content type='html'>(Conto esotérico-criptológico) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/05/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Renina, e também para Rhena e Nina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, há poucos dias, tive o súbito impulso de fazer anagramas.&lt;br /&gt;Tudo começou após a visita ao meu atelier, de uma nova amiga, a grande artista plástica Renina Katz, gravadora emérita: xilógrafa, litógrafa e água- fortista soberba. Grande dama da gravura brasileira, Renina é uma mulher madura e bela. Soube que despertou inúmeras paixões em sua juventude. O pobre do Pancetti, grande pintor e um homem simples, tinha-lhe adoração, não correspondida, claro. Soube que quase duelou por ela, acreditando-a ofendida por alguém. Renina apenas admirava-lhe a obra, havendo um abismo social e cultural entre eles. Naturalmente Renina não me falou nada sobre isso. Descobri essas curiosidades de sua biografia, num antigo número de uma revista extinta, numa excelente matéria sobre o marinheiro pintor. Refinada e culta, muito viajada, Renina honrou-me com a sua visita e fiquei horas a ouvi-la, prazerosamente. &lt;br /&gt;A uma certa altura de nossa conversa, citou o anagrama famoso de Salvador Dali: Avida Dollars, descoberto por André Breton. A propósito, Renina comentou: –“ O anagrama do meu nome parece difícil de encontrar. Alguém, uma vez, descobriu o seguinte: ZENIT KRANA. Mas não sei o que significa...”&lt;br /&gt;Após a sua saída, e com aquele anagrama ressoando em meus ouvidos, resolvi tentar. Sentei-me com caneta e papel e surgiu imediatamente: &lt;br /&gt;ANKRANZEIT&lt;br /&gt;A seguir: &lt;br /&gt;ANANKE RITZ &lt;br /&gt;Fiquei tremendamente intrigada. Mas, com a presença da palavra Katz ( gato), o anagrama só poderia mesmo ser em alemão, já que o K , nem existe em nossa língua. E o segundo anagrama, com a presença de uma palavra grega?. &lt;br /&gt;Resolvi fazer uma pesquisa para encontrar o nexo destas palavras enigmáticas em alemão e grego. Descobri o seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AN= perto de, junto ou quase.&lt;br /&gt;KRANZ= coroa&lt;br /&gt;ZEIT= tempo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANKRANZEIT = PERTO DA COROA DO TEMPO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consultando diversos tratados de filosofia pré-socrática, cruzando suas rarefeitas informações sobre a filosofia grega dos tempos arcaicos, e ainda rejeitando a Teogonia poética de Hesíodo, que coloca o Caos e Noite como princípios, encontro, afinal, em teogonistas ainda mais antigos, como Jerônimo e Helânico, a seguinte teogonia órfica (aqui resumida):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANANKE = Princípio teogônico feminino da Necessidade( na Doutrina Órfico–Pitagórica) . Tinha inúmeras naturezas, como Fado (Destino), Moira( Morte), Dyke (Justiça), Nyke (Vitória). &lt;br /&gt;TEOGONIA (Geração dos Deuses) :&lt;br /&gt;No Início era Kronos (Zeit), o Tempo. A seguir, Kronos se acasala com Ananke (a Necessidade) para produzir uma “tríplice prole” ( para isso ele rejeita Adrastéia, princípio da Necessidade incorpóreo, disseminado no espaço ...(Conceito esse extremamente obscuro ). &lt;br /&gt;Do casamento de Kronos e Ananque ( o Tempo com a Necessidade) é gerado : o ÉTER úmido, o Kaos infinito, e o Érebo nebuloso ( região subterrânea , que mais tarde gerará o Hades.)&lt;br /&gt;Mas o que significava tudo isso em relação à Renina? E o que significava ANANKE RITZ, esse segundo anagrama completo que surgira? &lt;br /&gt;RITZ ( alemão)= fenda, racha, arranhão, ferida . &lt;br /&gt;ANANKE RITZ= a fenda de Ananke&lt;br /&gt;Continuei minhas pesquisas, e sabendo que Platão ( séculos V e IV aC ) era um órfico tardio ( Orfismo= religião de Mistérios, a mais antiga doutrina reencarnacionista do Ocidente, com origem anterior ao século VII aC, relacionada aos Mistérios de Elêusis), procurei rever os Mitos narrados em seus Diálogos. Passei ao largo do famoso Mito da Caverna, tão caro aos psicanalistas, e acabei me concentrando no Mito de Er ( o Armênio), que fala do “Fuso de Ananke”, nas dez últimas páginas da REPÚBLICA . Estudando esse mito, tudo começava a se esclarecer: FENDA, era o próprio sentido etimológico da palavra Ananke, que deriva de uma raíz presente no egípcio antigo. Em termos visuais era, também a reversão gestáltica do FUSO ( a coluna de luz que une o Céu à Terra , dento da qual girava o fuso em forma de oito “pesos” ou cones de metal, invertidos, girando em torno de um eixo, formando órbitas circulares. Os bordos circulares dos cones, formavam círculos concêntricos, que rodavam com um jogo complexo de cores e números pelo movimento impresso a eles pela mão das três Parcas: Láquesis, Cloto e Atropos, respectivamente, o Passado, o Presente e o Futuro. Esse movimento de números e cores, colocado em tabelas pelos matemáticos do século XX , produz maravilhas matemáticas em torno do número 9,( numero perfeito para eles). Além disso, essas órbitas , descreviam as dos planetas do nosso sistema solar, isto é, somente as dos conhecidos no tempo de Platão. &lt;br /&gt;Resumindo, eu estava diante da Teogonia Órfica a mais secreta, somente acessível aos iniciados ( tenho medo de estar revelando-a aqui ). Tudo se esclarecia para mim . A estrutura arquetípica das gravuras da Renina ficava clara :&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÉTER —zona superior da gravura&lt;br /&gt;KAOS —zona intermediária&lt;br /&gt;ÉREBO—base, zona mais densa da gravura&lt;br /&gt;Suas gravuras tinham a estrutura espacial de aparentes paisagens abstratas, que eram assim divididas e o círculo que, muitas vezes ela inseria na região intermediária entre o Éter e o Kaos, era a representação gráfica do Ovo Primogênito do qual nascia ZEUS, o Princípio Ordenador do Universo, que daria início aos Protágonos, isto é, os outros primeiros deuses. Por isso , Renina, quando lhe perguntavam sobre esse círculo, se era a Lua , o Sol, ou a Terra vista de um outro planeta, árido, respondia : “ Não, isso está aí por uma “necessidade” plástica de “ordenar” o espaço”. Estava aí o segredo. &lt;br /&gt;A estrutura arquetípica de suas obras, continha ainda outros mistérios: na Doutrina Órfica, as Almas estavam encerradas nos corpos dos TiTÃS raça de gigantes, da qual Prometheu seria o mais famoso representante), quando estes se insurgiram contra ZEUS . Durante a formidável batalha ( TEOMAQUIA, ou Titanomaquia ) entre eles e os deuses, os Titãs estraçalharam e devoraram Dionisos criança. Os Titãs foram vencidos e Zeus fulminou-os com seus raios, e atirou-os à Terra. Das cinzas dos Titãs, Zeus criou o Homem , cuja alma é Dionisos encerrado no corpo titânico pecaminoso que busca recuperar as asas para retornar ao EMPÍREO, a morada dos Deuses e das Almas purificadas , após “dez ciclos de mil anos de reencarnações”. &lt;br /&gt;Prosseguindo nas minhas pesquisas esotéricas, encontro uma raríssima referência àquela COROA: &lt;br /&gt;Nos sepulcros órficos de Thuri, na Magna Grécia, foram encontradas, junto dos corpos de fiéis, “lamínulas” de ouro onde estavam inscritas orações das almas dirigindo-se à PERSÉFONE, ( rainha do HADES e intercessora das almas ). Havia uma que dizia : &lt;br /&gt;“... e voando
