(ESTE CONTO CONSTA DO LIVRO CONTOS DA ALMA, DE ALMA WELT, PUBLICADO PELA EDITORA PALAVRAS & GESTOS EM 2004, E ERA INÉDITO ATÉ AGORA NA INTERNET).
O DUPLO DA ALMA
Estou atravessando uma calmaria. Um momento, portanto, propício para pintar ou escrever. Uma calmaria na vida exterior, quero dizer, pois por dentro é sempre aquele vulcão ativo, ora fumegando ora francamente em erupção.
Interrompo a pintura para atender o interfone. Minha amiga Vânia quer subir. Ela é sempre bem vinda, mas...agora a sinto um tanto inoportuna. Estou num momento de pintura, que me parece bastante auspicioso, com belas pinceladas resolutas. Bem...
Vânia entra esbaforida:
— Alma, Alma, o que há com você? Porquê não falou comigo na rua, e depois naquela festa? Passou por mim, tão alheia... como se não me conhecesse, que me desarmou. Fiquei perplexa, sem ação. Depois, na festa, parecia não me enxergar, não veio dar-me um beijo, nada. No entanto não parecia chapada, você é sempre careta...Fiquei tão chocada e deprimida, que retirei-me imediatamente. Alma, o que está havendo? Porquê me trata assim? O que lhe fiz?
Fiquei atônita. Abracei-a apertado, e protestei:
— Vânia, meu amor, o que é isso, o que estás dizendo?. Não sei nada disso. Eu juro. Não te vejo há uma semana, pelo menos, e só não te telefonei porque o tempo, para mim, tu sabes, quando estou pintando... Mas, não me reconheço nisso. Estás louca? Como eu deixaria de te falar, de te abraçar, na rua, em qualquer lugar, guria?
Vânia arregalou os olhos. Tocou-me a face e ficou uns segundos assim, perscrutando-me. Disse:
—Alma, o que está acontecendo? Porquê nega que me virou e cara, e ignorou-me? Mas... ao mesmo tempo... vejo que você está falando a verdade! Ai, vou enlouquecer. Ou você é que está louca? Era você, eu sei, você mesma. Eu a vi assim, de perto. Não a toquei porque você estava tão distante que... Mas era você. Como eu poderia confundir estes seus olhos, esta boca.
Vânia agarrou-me, beijou-me na boca. Há tempos não fazíamos isso. Abraçou-me sofregamente. Apertava-me contra si, como para certificar-se da minha materialidade. Fiquei comovida. Vânia sempre acaba me comovendo. Então é isso. Ela quer tocar-me. Não consegue deixar de me amar, de me querer. É um pretexto...
—Alma, Alma. Não me deixe, não nos deixe. Era você, ou era sua alma. Você se projetou sem saber. Ou você estava dormindo, seu corpo perambulou por aí. Você é sonâmbula? Ai, meu Deus, eu pensei mal de você. Tive tanta raiva. Chorei tanto. Mas agora eu sei, você não me magoaria assim. Você não faria isso. Você é tão doce. Meu Deus, meu Deus, o que aconteceu?
—Vânia—eu respondi—Não sei do que estás falando, mas estou arrepiada. Tu viste alguém parecida comigo. Talvez uma sósia. Só pode ser isso. Sonâmbulos não vão a festas (sorri). E não me consta que perambulam por aí, de dia, na rua Augusta (dei uma gargalhada). Meu bem, meu amorzinho (abracei-a novamente, acariciando-a). Como eu deixaria de falar com a minha queridinha? Com essa mulher linda, que me conhece tanto, por dentro e por fora?
Vânia olhou-me fundo, consolada. Beijou-me docemente os lábios, profundamente, e afastou-se com o braço estendido até nossas mãos desprenderem-se e... retirou-se, comovida. Percebi que ela não poderia mais falar daquilo. Minhas palavras, meus abraços, meu beijo a devolveram a um estado que ela queria conservar. Ela ainda tinha algum medo. Que mistério é esse?
Um tanto perturbada, tento continuar pintando. Até o consigo por mais uma meia hora. Depois deponho a paleta, sento-me e cubro o rosto com as mãos. Não sei se vou chorar...
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O telefone tocou, também algumas vezes. Amigas e amigos, me cobrando explicações para estranhos atos meus. Eu dançando de maneira quase escandalosa, excessivamente sensual, num clube noturno... Eu? Não vou nunca a esses clubes. São barulhentos, sua música não me interessa. Mas...num concerto sinfônico. Aí, sim eu poderia estar. E lá estava eu, no Municipal, debulhada em lágrimas, diante da interpretação superior de um pianista. Mas, disseram eles, não os reconheci e tinha um ar tão vago que eles não insistiram nas efusividades e cumprimentos, ficando também desnorteados. Eu esquivei-me, eles disseram, com um sorriso constrangido, como se não os estivesse reconhecendo. Acharam que eu os estava esnobando, ou que devia estar com alguém que estava momentaneamente no toilette, e que eu não queria que vissem. Foi isso que decidiram, afinal, para sofrivelmente justificarem-me. Oh! Meu Deus!...
Preciso tomar alguma providencia. Alguém, voluntariamente ou não, está se passando por mim. Vou tirar isso a limpo. Mas... talvez essa pessoa nem saiba da minha existência. Preciso encontrar-me com essa minha sósia. E eu que pensava que era única... Além disso, não me consta que minha mãe tenha tido gêmeas, ou que meu pai tenha pulado a cerca, como se diz. Aqui, em São Paulo, uma moça igual a mim! Assim, tão parecida a ponto de chocar ou confundir os meus amigos. Não! Preciso encontrá-la. Talvez seja uma boa moça, menos doida do que eu... Mas...aquilo, dela dançar escandalosamente! Eu não faria isso. Ai, meu Deus! E se ela for uma garota de programa? Elas vão, também, a concertos? Não sei nada. Ai, não sei nada realmente, dessa vida real, desta cidade imensa, cruel, que é São Paulo. Como sou preservada! Como me preservo, apesar de tudo, apesar dos meus amores e das minhas intensas paixões. Sempre os escolhidos, os eleitos...num mundo próximo do meu ideal. Não quero o feio, não quero a feiura... Nem sequer a tristeza. Fujo dela como Dioniso, da cruz. Não, não é verdade. Quanto sofro, quanto choro pelos meus amores! E pela minha solidão, minha sina de artista. Essa solidão insidiosa, atmosfera rarefeita, que me faz ofegar nas noites, ou no cair das tardes. Que me faz chorar com Chopin, com Schumann e Schubert, mestres dessa mesma solidão. Não temos par neste mundo. Nossos amores não podem encher esse vazio deixado pelos deuses em nossa alma, para que o preenchamos somente com a nossa arte, se possível. Ai, destino, destino. Às vezes a carga é pesada demais, ou esse vazio é que pesa como chumbo, arrastando-nos para aquelas profundezas subterrâneas, onde Orfeu andou, buscando Eurídice. Pelo estranho rio silencioso de onde brota a música mais pungente. De pé, na proa, ao longo do grande rio lento e escuro.
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Banho-me e visto-me com o maior esmero. Quero estar bela para encontrar a minha sósia. Minha rival? Não ela não parece interessada nos meus amigos, nem na minha vida. A não ser que...Sim, ela está se fazendo ver por eles. Talvez isso seja intencional, sim. Qual será o seu plano? O que ela quer? Quererá encontrar-me? Ela sabe de mim? Oh! meu Deus, nada sei. Não sei nem mesmo por onde começar a procurá-la. Ah! Preciso por um fim nisso. Tenho de armar-lhe uma tocaia. É isso! Ela deve passar sempre por um mesmo caminho, como todas as pessoas. Trata-se de saber qual é esse caminho.
Sento-me numa mesinha de bar, na minha Oscar Freire. Retiro a minha agenda da bolsa, e numa página em branco, começo a traçar diagramas, unindo os pontos dos locais onde ela foi vista, numa espécie de mapa esquemático, imperfeito, das ruas que os separam. Traço possíveis itinerários. Devo tornar-me uma espécie de detetive. De mim mesma? Essa idéia assaltou-me. É como se estivesse investigando a mim mesma. Talvez eu seja mesmo essa impostora. Como posso confiar totalmente em mim? Quem pode faze-lo, a respeito de si mesmo? Somos abismos, somos multidões, nada sabemos verdadeiramente de nossa alma multifacetada. Ela é um caleidoscópio, não um espelho. Não somos unos. Já o fomos algum dia? Sempre senti que sim, num passado remotíssimo, onde homem e mulher fomos um só ser, dividido ao meio depois, com o fim da Era de Ouro. A grande era do Hermafrodita. Ai, Deus, eu sofro por isso, eu sofro por tudo, essa é que é a verdade. Essa nostalgia persistente... que não me abandona, que posso tão somente camuflar.
Mas, não é hora de filosofar. Para cabeça de Alma! É hora de tomar medidas práticas para encontrar essa impostora. Pressinto que se não o fizer, ela me destronará. Mas, de que trono? Calma, Alma, você está ficando paranóica. Você se superestima. Não, não. Sei que isso é sério e posso ser destronada de mim mesma, do meu reino absoluto, do mundo que construí dentro de mim mesma, e que tento desbordar, vagamente ao redor, no subjetivo mundo exterior que me cabe, onde nos cabe atuar, pequenos imperadores de nós mesmos! Não me venham com argumentos limitantes, inibidores de grandeza. Não me venham com burguesias! Não estou me referindo ao mundo do ter, que vocês conhecem tão bem. Mas do ser, do ser!
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Outros amigos me procuram alarmados. A outra Alma está se mostrando cada vez mais no meu território. Está começando a aprontar. Faz coisas sem sentido, pelo menos para mim. Entra em automóveis, comporta-se como garota de programa, embora discreta. Foi vista com um homem casado, num café. Outro amigo “encontrou-me” num bar de samba, e supostamente “eu” cantava todas, conhecia todas as letras e encantei os negrões com meu samba no pé. Disse mesmo que me viu sair com um mulato alto. Bem que eu gostaria de ser assim. Mas, o que quer ela? Como vive essa louca, tão diferente de mim? Eu, de samba só conheço “As rosas não falam’, do grande Cartola, que para mim é a suprema música popular brasileira, mas que por sua letra e melodia, surpreende pela falta de negritude nela, a meu ver. Essa letra podia ter sido escrita por Leopardi, poeta romântico italiano do século XVIII, essa é que é a verdade. Mas voltemos à impostora. O que ela quer de mim? Sim, porque está, nitidamente, mandando sinais. Logo vai querer também interceptar-me. Ou me espera. Sim, é isso: ela está me esperando!
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Irmã, vou ao teu encontro. Pode esperar-me. Se me puser assim, como uma sonâmbula acordada, andando a esmo, sei que vou esbarrar em ti.
Devo confiar na infalível sincronicidade. Mas existirá isso, realmente? E poderemos precipitá-la, a ela, essa sincronicidade? É assim que funciona? Ou somos totalmente impotentes? Ah! velho Carl, não decifraste todos os enigmas. Ou não quiseste faze-lo, velho bruxo. Só para os iniciados, não é? Como decifrar o enigma das coincidências fatais? Eu não ousaria tentar. Acredito que isso acontece, de qualquer modo, no momento final, ironicamente, e entendemos tudo numa fração de segundo somente, antes da luz se apagar, e a escuridão e o esquecimento se instalarem para sempre. Alma, Alma, essa tua irmã quer fazer-te pensar, refletir. Ela talvez se interesse por ti. Quem sabe ela te ame. Ela veio de longe? Veio do Sul, também? Conhecerá o Pampa? Terá tido um Rodo, em sua infância, um Vati? Ai, quero viver, quero morrer, não sei mais. Dói-me a beleza da vida, a dor da morte certa, o fim de tudo o que amo, e que é tanto, tanto, que minha alma se alarga para abarcar. Vida, arte, amor, amores, alegria. Dança e festas. A ingenuidade persistente do humano. A pureza maior de alguns. A inocência de todos. Não acredito verdadeiramente no pecado original. O ser humano não teria esse poder, joguete que somos na mão do Poderoso. Como pecar, suprema rebelião só possível ao anjo mau? Não, Lucifer, não és da raça dos humanos, embora tentes constantemente contaminá-los. Mas Deus sabe, Deus sabe da nossa inocência primordial. Não pode estar perdida. Não pode!
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Cansei de andar por aí, a esmo. Volto para o ateliê. Devo manter a minha rotina de trabalho, as minhas atividades normais, agora percebo. Se sair da minha órbita, a dela não a cruzará. Imagino que esse momento é tão único como um eclípse ou encontro no espaço entre dois astros. Talvez, mesmo a simples tangência de elípses, um cruzar de órbitas, já produza o fenômeno que espero. Confrontar-me com ela. A outra Alma.
Que terá ela a dizer-me? O que quer ela de mim? Sim porque ela não estará por aí, à toa. Não há gratuidade na vida. Não temos esse poder, já que os cordéis de Deus comandam nossos movimentos. A menos que Deus também cochile, possibilidade não descartável pela imaginação. A mão que se move involuntariamente, como as patas de um cão que sonha, convulsivamente movendo os cordéis, aleatoriamente. Sim, tudo é possível. Mas de qualquer maneira isso também seria previsto pela alma de Deus, ou o seu duplo. É isso! O Duplo de Deus quer projetar-se. Estou na sua mira. Na sua mira!
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Toca o interfone. Sei que é ela. Não perguntarei ao porteiro o seu nome. Nada perguntarei. Antes de sequer ouvir o nome de quem chega, eu digo:—“Pode mandá-la subir, seu Ermírio”.
Escancaro a porta. Espero sentada ouvindo os estalidos do elevador, em seguida o rumor da porta de ferro que se abre. Estou solenemente sentada no meio do meu ateliê. Meu cenário são as minhas telas. Uma grande tela virgem jaz no cavalete. Estou em branco, espero o meu destino, a Alma... em mim.
FIM
14/06/2004
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Nota
Este enigmático e misterioso conto consta do livro Contos da Alma, de Alma Welt, publicado em 2004, pela Editora Palavras & Gestos que permitiu afinal sua publicação no LL e aqui, num dos blogs da Alma administrados por mim. Lendo-o ele me fez interessar-me pelo fenômeno do Duplo e pesquizando descobri algumas raras obras literárias e cinematográficas que tratam desse tema:
Na literatura:
O Duplo - novela de Dostoiévsky
e
William Wilson - conto de Edgar Allan Poe.
O retrato de Dorian Grey - Romance de Oscar Wilde
A estória de do dr. Jekil e Mr. Hide- (mais conhecido como "O médico e o monstro") romance de Robert Louis Stevenson
No cinema:
A dupla vida de Veronique- Filme francês-polonês,com Irène Jacob, direção de Cristoff Kieslov
Monsieur Klein- filme francês dirigido por Joseph Losey, com o ator Alain Delon .
Embora seja considerado um tema de ficção, existe a teoria da possibilidade matemática desse fenômeno. Acredito que a Alma vivenciou esssa experiência, pois sendo de natureza visionária e hipersensível, a poetisa realmente vivia as coisas que ela narra.
Estou persuadida de que Alma merece urgentemente uma biografia ou um ensaio aprofundado sobre a sua vida e obra. Eu mesma estou inclinada a fazê-lo incentivada que venho sendo por amigos e admiradores da Alma. (Lucia Welt)
domingo, 24 de fevereiro de 2008
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Uma recordação de infância da Alma (crônica de Alma Welt)
Quando guria, na estância, eu sentia a plenitude de estar entre as flores, no jardim de minha mãe, sob o sol, e entre os zumbidos das abelhas e o vôo terno das borboletas. E percebia que ela, Ana Morgado, me preferia ali, como menina bela e doce, do que entre os livros, em que parecia escamotear-me aos seus olhos, refugiando-me num mundo que ela não sentia acessível a si mesma, na biblioteca que era o reino de meu pai. Ela estava certa: eu viajava longe em mundos insuspeitados, em todas as eras, todos os séculos, inúmeros reinos e povos. Mas sobretudo no perigoso e suspeito mundo dos artistas.
Minha mãe tinha razão, nada mais “subversivo” que uma boa biografia de um grande artista. Uma das primeiras que me encantaram foi a de Michelangelo, de autoria de Romain Rolland que, fora o prefácio, começava assim: “Era um burguês florentino...” Que sonho, real, profundo, universal, penetrar naquela Renascença, entre todos aqueles gênios concentrados na bela Itália, num dos períodos mais fecundos da história, comparado à própria matriz grega clássica de sua inspiração! Depois vieram centenas dessas biografias, como a de Byron (Don Juan ou a vida de Lord Byron) de André Maurois, só para citar outra de minha preferência. Mas o meu maior deslumbramento foi com “O Romance de Leonardo da Vinci”, de Dimitri Merejkowski, maravilhoso autor russo quase esquecido hoje em dia. Ali eu conheci e me apaixonei pelo grande Artista, um dos maiores da história, em todos os tempos. Devo dizer, que por causa da visão de Leonardo proposta por aquele livro, eu evitei até agora ler esse tão citado “O Código Da Vinci”, com receio de arruinar o meu olhar sobre o mestre.
Mas como eu dizia, minha mãe suspeitava das minhas leituras, pois elas me afastavam do seu mundo restrito, padronizado, comezinho, alheia até mesmo à sua própria beleza intrínseca, que, como poeta, ao descobri-la me livrei de todo o ressentimento. Por isso, num dia muito especial em minha vida, eu me lembro de ter ficado muitos minutos, observando, sob uma luz propícia o seu lindo perfil, debruçada sobre um bordado, que de repente me pareceu belo, para além do mimoso e convencional que realmente era.
Pobre Mutti! Ela nunca soube de seu próprio mistério e poesia...
Minha mãe tinha razão, nada mais “subversivo” que uma boa biografia de um grande artista. Uma das primeiras que me encantaram foi a de Michelangelo, de autoria de Romain Rolland que, fora o prefácio, começava assim: “Era um burguês florentino...” Que sonho, real, profundo, universal, penetrar naquela Renascença, entre todos aqueles gênios concentrados na bela Itália, num dos períodos mais fecundos da história, comparado à própria matriz grega clássica de sua inspiração! Depois vieram centenas dessas biografias, como a de Byron (Don Juan ou a vida de Lord Byron) de André Maurois, só para citar outra de minha preferência. Mas o meu maior deslumbramento foi com “O Romance de Leonardo da Vinci”, de Dimitri Merejkowski, maravilhoso autor russo quase esquecido hoje em dia. Ali eu conheci e me apaixonei pelo grande Artista, um dos maiores da história, em todos os tempos. Devo dizer, que por causa da visão de Leonardo proposta por aquele livro, eu evitei até agora ler esse tão citado “O Código Da Vinci”, com receio de arruinar o meu olhar sobre o mestre.
Mas como eu dizia, minha mãe suspeitava das minhas leituras, pois elas me afastavam do seu mundo restrito, padronizado, comezinho, alheia até mesmo à sua própria beleza intrínseca, que, como poeta, ao descobri-la me livrei de todo o ressentimento. Por isso, num dia muito especial em minha vida, eu me lembro de ter ficado muitos minutos, observando, sob uma luz propícia o seu lindo perfil, debruçada sobre um bordado, que de repente me pareceu belo, para além do mimoso e convencional que realmente era.
Pobre Mutti! Ela nunca soube de seu próprio mistério e poesia...
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
O Rosto de Musidora (de Alma Welt)

O Rosto de Musidora
(dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Depois de muito tempo, tomada de uma súbita nostalgia subo ao sótão do nosso casarão, à procura de não sei o quê. Ao entrar no aconchegante aposento sob o forro inclinado de belo madeiramento lanço os olhos primeiramente ao pequeno catre que foi o leito de Rôdo em sua infância e parte de sua adolescência, e onde eu costumava tantas vezes me deitar ao seu lado até o dia em que Solange nos flagrou juntos e tudo mudou. Mas não é isso que procuro agora. Dirijo-me à grande arca que meu pai colocou ali com as lembranças de sua vida privada que ele não quis deixar expostas na biblioteca com aquelas outras que ele podia compartilhar com todos.
Abro a pesada tampa de espessa madeira antiga do tempo dos escravos, e começo a retirar álbuns, fotos soltas, cadernos de anotações e... velhos postais. Um em especial chamou-me a atenção: mostrava uma diva do cinema mudo chamada Musidora, um rosto típico dos anos vinte, portanto uma beleza antiga, datada, com aquela boquinha pintada em forma de coração, e por cima do colo uma dedicatória em inglês a alguém desconhecido, com o seu autógrafo reproduzido e a data, 1921. Virei o postal e encontrei as seguintes palavras que me surpreenderam: “A ti, Werner, o retrato da minha famosa sósia dos tempos idos, que descobri aqui no Marché-aux-pouces. Também achas-me parecida com ela? O comerciante presenteou-me o retrato, pela semelhança... Ah! Que saudade deste mesmo mercado de pulgas! Maria. Paris 1959”.
Fiquei um tanto perturbada e... comovida. “Deste mesmo mercado”? O Vati tivera uma amante como eu sempre suspeitara! Isso explicava muita coisa embora aquele rosto não sendo propriamente o dela funcionava como uma falsificação, um último véu sobre o enigma da paixão romântica de meu pai que eu suspeitava existir e ansiava há muito tempo desvelar.
Comecei a me lembrar de como eu pressentia uma presença oculta dentro de meu pai, adorada por ele, e como esse pensamento me surgiu pela primeira vez durante um de seus inúmeros concertos para mim, assim eu pensava, só para mim. Ao piano ele se transfigurava tocando como um virtuose que ele era, mas tão comovidamente, eu percebi, ao descobrir uma certa lágrima, um dia, enquanto ele tocava. Depois, a falta de afinidades, evidente entre ele e a Mutti, e a apatia visível de minha mãe diante de um homem que nascera, a meu ver, para ser adorado!
Para mim tudo ficou claro naquele instante mas eu me pus a procurar mais evidências, outras fotos, à procura do verdadeiro rosto daquela que meu pai amara e que camuflara tão bem a sua presença que aparentemente só sobrara aquele pequeno rastro dúbio. Realmente não encontrei mais nada, a não ser uma profusão de postais que não pertenciam àquele quebra-cabeças. Como conseguiram eles despistar tanto uma família inteira? Que imenso segredo eles carregaram no coração? Por um momento, eu, filha de meu pai, me senti também traída. Ele nunca se abrira comigo a respeito daquilo, do seu amor, talvez do grande amor da sua vida! Ele me excluíra, então, de seu mais profundo segredo. Comecei a odiar aquele rosto de mulher, ainda que na sua falsa versão.
Passei uns dias perturbada, talvez órfã como nunca. Recomecei a sentir imensa falta de meu irmão, meu confidente, meu cúmplice, meu amado irmão. Que falta ele me fazia, como sou só e vulnerável (eu pensava) sem ele! Como posso ser agora “a chefe”, a líder dessa família, se sou uma fraca mulher, apenas uma filha sem pai, uma irmã sem irmão? Ah! Rôdo, por que és assim tão independente, até de mim? Porque passas tanto tempo longe de casa, o que procuras no mundo que já não tiveste aqui ao meu lado, nos meus braços, nos meus olhos? Sinto-me traída, duplamente traída e... abandonada!
Alguns dias depois resolvi voltar ao sótão para procurar melhor naquela arca alguma pista, alguma coisa que acalmasse meu coração. Não era possível que o verdadeiro rosto da musa de meu pai não se encontrasse perdido naquela montanha de fotos e postais. Eu precisaria, talvez, ter a paciência de ler as cartas do Vati dirigidas à minha mãe com sua quase ilegível letra de médico? Ou, melhor, encontrar talvez alguma carta de mulher, um rosto verdadeiro que escapara do provável despiste de meu pai, como afinal aquele retrato que queria ser uma máscara, aquele postal fanado, aquele camuflado rosto.
E encontrei!
Uma foto de família, uma típica foto, da família de minha mãe com inúmeras pessoas, homens, mulheres, adolescentes e crianças. Rostos para mim desconhecidos mas tão sugestivos que um bom observador desvendaria o provável destino de cada um.
Reconheci afinal minha mãe, um rosto melancólico como sempre. E então, estremeci! Ao seu lado, de mãos dadas com ela, uma adolescente.... o rosto de Musidora!
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01/09/2005
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
O Violino de Magritte (de Alma Welt)

"Un peu de l'âme des bandits"- pintura de René Magritte
Meu irmão Rôdo trouxe um amigo para o fim de semana na estância. Trata-se de um rapaz interessante, não sei se bonito, mas extremamente viril e seguro de si. Percebe-se isso por sua naturalidade e absoluta falta de interesse de provar o que quer que seja. Sua capacidade de conversar sem nunca falar de si mesmo ou revelar qualquer coisa sobre sua vida ou suas origens é invejável embora ao mesmo tempo seja um pouco misteriosa, não sei se de maneira positiva. Esse rapaz, no entanto, não parece dissimulador no seu mistério, e isso é o suficiente para me deixar intrigada e mesmo fascinada.
Comecei então a testar o rapaz de maneira sutil com pequenas distrações sensuais, como um botão da blusa esquecido de abotoar; uma saia fina sem calcinha por baixo, um vestido de tecido muito fino em cima da pele, etc. Mas sobretudo um ar vago e sonhador e gestos lentos e muito harmônicos. Nada, o rapaz continua como um hóspede modelo, educado, e interessado apenas nas coisas da estância contadas pelo meu irmão e por Galdério, nosso empregado e charreteiro, embora também pelas minhas observações sobre poesia e literatura em geral, que ele ouve com muita atenção mas sem maiores comentários. Não estou agüentando mais. Esse rapaz deve estar fazendo um tipo de jogo. Então resolvo jogar duro.
Já que estamos no verão e as noites estão muito quentes e claras, saio do meu quarto, tarde da noite, totalmente nua sob o belo luar. Sei que estou deslumbrante sob esta lua que tudo prateia. Saio pela varanda e caminho pelo gramado em direção à piscina. Mergulho fruindo a frescura deliciosa da água, dando braçadas que sei competentes e até elegantes, tudo isso para um possível olhar oculto, o do nosso hóspede enigmático.
No dia seguinte sento-me à mesa do café da manhã exibindo a mais completa naturalidade de quem dormiu a noite inteira sem nenhuma travessura, sem a sombra de um possível pecadilho, sem o rastro da provocação, dando o bom dia convencional ao hóspede e sentando-me à sua frente na mesa para sondar disfarçadamente o seu olhar. Ele terá observado a minha performance ontem à noite?
Rolando (eis o nome que escolhi para o rapaz) continua o seu jogo, seu enigma: não consegui chegar a uma conclusão a respeito, por exemplo, de ele ter ou não me visto sair nua ao luar, de ter-me visto nadar na piscina apesar do rumor das braçadas na água rompendo o silêncio reinante da nossa noite de grilos e sapos já quase despercebidos, pelo hábito.
Nas noites seguintes repito com variações a cena da nudez por acreditá-la, por experiência, irresistível. Mas sem nenhum resultado. Rolando não denuncia o menor vestígio de minha sedução, cuja natureza agora me parece um tanto óbvia, reconheço, e me envergonharia se não fosse o meu senso de humor que ainda me faz rir de mim mesma. Resolvo ser mais direta e inquirir o rapaz sobre a sua vida e experiências, pois começo a suspeitar de suas preferências no terreno do “amor”. Estou, digamos assim, quase desesperada.
Antes que possa fazer isso sou abordada por Rôdo, uma manhã, que tomando-me pela mão me conduz a um canto reservado do nosso jardim, como um passeio carinhoso de irmãos, e ali chegando me diz com seus magníficos olhos azuis pousados sobre os meus:
— Alma, irmãzinha, desista. Tenho acompanhado teus vôos noturnos, de feiticeira, ou melhor dizendo, de náiade ao luar. Confesso que eles são deslumbrantes e chego a invejar o homem a quem são dirigidos. Mas, Alma , minha bela irmã, desista. Rolando é um jogador de poquer como eu, e o melhor blefador que jamais conheci. Perto dele sou um amador. Vou revelar-te agora o significado de tudo isso pois a honestidade não é o forte entre nós jogadores, como você sabe. Pouco antes de virmos para cá eu falei a Rolando muito de você, minha irmã, como a maior sedutora natural que eu jamais conheci, em oposição àquelas pérfidas e destruidoras que você mesma me ensinou que se chamam “Lilithianas”, as filhas de Lílith, fatais, sobre as quais tu mesma tanto me quer prevenir nesta vida que eu levo de inúmeros leitos e paixões, que no meu caso são uma extensão de minha alma de jogador. Tu suspeitas que sou viciado no jogo, e portanto de natureza frágil, no final das contas, daí a tua preocupação. Mas posso te garantir, que Rolando vem me surpreendendo com a sua capacidade de dissimular, e jogar os jogos do amor. Sim ele está apaixonado por ti, mas sua alma de jogador é tão forte que ele dissimulará até a morte, ou pelo menos até o fim do prazo que combinamos. Nada do que você fizer poderá fazê-lo render-se até lá. Sim, minha querida, pois está em jogo uma soma muito alta, da nossa aposta, e mais do que isso: seu orgulho de jogador.
Surpresa e indignada quase esbofeteei meu irmão que no entanto abracei apertado, com o coração confuso. Eu estava desnorteada. Eu afinal fora o motivo mas não o prêmio da aposta! Sentia-me vagamente humilhada. O dinheiro e orgulho de apostador falara mais alto para aquele jovem fascinante do que a minha beleza e a minha pretensa força de sedução. Mas, como sedutora, não sou também uma jogadora, afinal? Eles iam se haver comigo. Eu faria Rôdo ganhar a aposta e ficaria tudo em família. Ou melhor, talvez por honra do jogo eu deveria cobrar uma comissão do prêmio final, em dinheiro, de meu irmão. Senti-me naquele momento como parte de uma quadrilha, e poeta que sou lembrei-me do quadro de Magritte que representa um violino de pé, na vertical, pousado sobre um colarinho postiço engomado, sobre uma mesa, e denominado: “Un peu de l’âme des bandits”( “um pouco da alma dos bandidos”) imagem com a qual me identificava naquele momento, naquela situação após a insólita revelação de jogo e mentiras tão perigosas.
Naquela noite eu anunciei que receberia minha Aline, e o fiz com uma alegria exuberante, cheia de candura ( “o poeta é um fingidor...”) e pela primeira vez vi a surpresa e a curiosidade intrigada no olhar de Rolando que movimentou-se rapidamente até o de Rôdo e voltou numa fração de segundo, eu percebi. Ele mordera a isca!
Nos dias seguintes, tomei um ar mais sonhador do que nunca, o que não foi difícil, pois bastava-me realmente pensar em Aline e antecipar uma possível chegada dela, o verdadeiro amor da minha vida. Rolando começou a ficar inquieto: as fontes profundas, ancestrais de onde emana o instinto predador masculino, ou mesmo o simples machismo, estavam ativadas e ele logo se denunciaria. Voltei a andar nua agora pelo jardim como uma Ofélia nua ao luar. Até que ele veio encontrar-me perto do caramanchão, lugar perigoso pois não visível de dentro da casa. Estaria eu caindo na minha própria armadilha? Ali diante dele, nua na noite clara, tive um estremecimento de frio ou de pudor, e quis fugir, mas era tarde demais e ele pegou-me pelo pulso com delicada firmeza e puxou-me para si, dizendo:
-O jogo acabou, Alma, vocês ganharam! Não agüento mais, quero a ti mais que ao dinheiro, ou o amor do jogo. Quero perder, faço questão de perder, diga isso ao Rôdo. Agora, Alma, dá-me o prêmio da minha derrota!
Diante de suas palavras, eu, vitoriosa e comovida, fui abraçando esse homem totalmente vestido por fora... pousando suavemente sobre ele como o violino de Magritte, o violino ereto e orgulhoso que era a alma dos bandidos...
25/04/2006
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Três fragmentos do romance O Retorno dos Menestréis, de Alma Welt

Alma e Josué voando no Pavão Misterioso (Xilogravura de autoria de Guilherme de Faria)
Segunda parte do romance O Retorno dos Menestréis, de Alma Welt
A CASA DE LUDGER
Capítulo primeiro
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Ludugero persiste
Despedimo-nos de Rafisa, emocionadamente. Eu a abracei como irmã e amante, e também como sua discípula dileta. O quanto eu apreendera com esta cigana, com esta maga predestinada, vocês, meus leitores, não poderão saber a não ser em parte. Rafisa não desprendeu seus olhos dos meus, nesta despedida, o fulgor e a insistência do olhar impressionante desta Anti-Medusa benévola aquecia o meu coração, e eu levaria este olhar comigo para sempre e o veria nas lindas noites do sertão estrelado, com também nas do meu Pampa, se me fosse dado um dia voltar às verdes pradarias do Sul.
O “Alma do Sertão” nosso Pavão motorizado, silencioso, subiu na vertical, pairando pela última vez sobre o carroção que fora como um lar para mim, por dezesseis dias, e sobre cujas inusitadas tapeçarias do Oriente eu rolara, abraçada a um corpo tão belo como o meu, mas moreno como sombra acolhedora no deserto, como oásis naquele sertão solar, embora estivéssemos no meio de um agradável bosque. Mas refiro-me à toda aquela viagem da minha alma pela essência seca do chão duro daquele nordeste, que não queria ser considerado um desterro desta Alma, mas seu retorno ao lar, sua casa paterna imponderável, que eu ainda não reconhecia em totalidade. Ai! Que destino o meu! Sou frágil, não cresci completamente, sou na verdade a femme-enfant que eu nunca quis reconhecer, em minhas perplexas contradições. Tenho medos como uma criança, quero ser protegida nos braços de um homem forte. E, no entanto, em que aventuras me meto! Por que sendas, por que trilhas o destino me arrasta, amada por homens e mulheres, mas sem pouso, sem um lar verdadeiro, de casa tão distante! Mas, não será assim todo destino humano? Desterrados do Pai, erramos na Terra, e não temos guarida a não ser como hóspedes passageiros, dependentes “da bondade de estranhos”, como disse Tennesse Williams, pela boca da dolorosa e bela Blanche Dubois, com quem tantas vezes me identifico. Sou patética eu sei, sou romântica e só quero ser amada até o apaziguamento total, por um homem perfeito, um príncipe, imagem projetada do irmão dos nossos sonhos ou de um pai eternamente jovem. Sou incestuosa portanto, e assumida. Deslumbrada na infância com a face invertida do meu espelho, onde enxergava não a minha face, mas a do lânguido Narciso, contra-face de sua ninfa Eco, ecoando, ecoando em círculos concêntricos, em torno de uma flor desesperadamente branca, curvada sobre suas águas.
Voávamos agora, voávamos, e Josué já consultava as suas incompreensíveis cartas, enquanto eu meditava sobre o mistério da cidade onde pousáramos e que eu não conhecera, e que talvez nem tivesse realmente me visto, a não ser nua, isto é, não reconhecera sua princesa, pois agora estava claro: Rafisa com suas artes mágicas me escamoteara aos olhos da população. Minha descida no Pavão não constaria jamais dos anais da cidade, eu agora tinha certeza, e não pude senão sorrir. Ah! Rafisa, um dia nos reencontraremos? Atravessarás este Brasil no teu carroção puxado pela égua Miranda, coitada, tão magra, e estacionarás no bosque mágico de minha infância, na estância, onde Rôdo e eu correremos ao teu encontro para o abraço comovido de amigos de sangue?
Voamos tanto tempo que, perdidos sobre uma planura inóspita e espinhosa, talvez ainda no sertão da Paraíba (Josué já não tinha certeza de nada) acabou nossa água combustível, até a reserva, sobrando somente o conteúdo do menor dos odres, o de beber. Nós estávamos em apuros. A realidade cobrava os seus direitos a estes dois sonhadores e tivemos que descer, “no vapor” como se diz, para não espatifar-nos contra o solo rachado de uma caatinga seca de cem anos. Descemos da barcaça, com o coração apertado, preocupados, pois a paisagem era terrível, desoladora, e só tínhamos um horizonte indefinido a toda volta, reverberante de calor, cuja linha indefinida ondulava como um delírio de febre terçã.
Quando pus os pés no solo, quase tive uma vertigem de calor, e pensei em primeiro lugar, na minha pele tão branca... Eu iria ficar sardenta, pela primeira vez, e para sempre? Senti dor no meu coração. Mas por quê, por outro lado, eu não me queimara nem um pouco até agora naquela viagem e naquele vento, e minha pele permanecia branca e sedosa como sempre? Aquilo era um mistério, que impressionava até o Josué que não era fácil de se admirar, com nada estranho. Ele, mesmo assim, parece que também pensara nisso, e retirou de sua mala misteriosa, uma sombrinha branca como eu e como o meu vestido rendado, e abrindo-a, entregou-a a mim, para começarmos a caminhada.
Andamos por uma hora sob o sol inclemente e sarcástico como os metais do “ Le Sacre du Primtemps” de Stravinsky, eu, com minha sombrinha branca também debruada de renda, e meu vestido alvíssimo, quase tanto quanto a minha pele, minhas sandalinhas finas de ouro e prata, que eram feitas somente para mostrar meus pés, finos, delicados, com os dedinhos segundos mais compridos que os primeiros, como as mãos, que inspirariam aqueles versos do cordelista Guilherme. Mas eu me refiro a isso tudo para ressaltar o absurdo da nossa situação. Eu era incompatível com aquele deserto, eu que era “filha das verdes pradarias floridas, dos campos de trigo louros como os meus cabelos, e do vinhedo, de uvas rubras como os meus lábios”*. Eu iria morrer esturricada e ficaria ali como uma ossada branca. E não seria identificada em minha brancura óssea, como não o fora Dom Sebastião no areal africano. Afinal eu também não era a “Esperada”? Estes pensamentos irônicos, quase delirantes, denunciavam meu ressentimento, minha amargura nascente. Josué não podia me proteger mais do que o fizera arranjando-me aquela sombrinha que comprara na feira de Princesa, e que diziam ser cópia da que a Princesa Isabel usara na sua passagem por lá. Bah! Tudo sonhos, tudo delírios. Fiora e Anunciada tinham razão eu não era feita para a rudeza deste sertão, eu o subestimara em sua crueza, em sua crueldade. E agora iria morrer!
Mas, então, mesmo numa hora tão penosa e angustiante como aquela, sob um calor de quase 50º Celcius, eu, lembrando-me do filme “Barbarella”, dos anos 60 (que eu vira em DVD), ali, sedenta, exclamei: “CHAMPANHE! CHAMPANHE!”, com minha sombrinha muito tesa e meu ar de lady. E caí numa gargalhada cristalina, nada amarga, que perdeu-se na vastidão daquele deserto.
Então, Josué, que me olhara espantado, neste exato momento apontou o dedo, estendendo o braço em frente, e gritou: “TERRA À VISTA! TERRA À VISTA!” Eu não acreditava, o mundo estava verde novamente, e eu me vi sob palmeiras e coqueirais, jaqueiras frondosas e sapotizeiros que cresciam juntos, sem conflito, às margens de uma cascata e sua piscina azul, no doce país de Cocayne*, digo, da Esperança.
Sim, eu bem tinha ouvido que só o humor salva...
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Ficamos uma semana desfrutando do paraíso e “transando” tanto sem camisinha como se o mundo estivesse redimido, e não houvesse punição para os incautos e os inocentes. Aliás eu já via com bons olhos a idéia de um bebezinho em meus braços, mamando em meu seio, e mergulhando com os botos como o menino da escultura grega de bronze no museu de Atenas, que tanto me impressionara, como a essência emblemática da Idade de Ouro, que eu pensava estar revivendo ali, naquele sertão verdejante, inaudito. Mas, afinal, um dia, enquanto eu acariciava meu ventre e o bico dos meus seios com um ar sonhador, Josué aproximou-se e disse:
—Alma, querida, temos de partir, o mundo nos espera, passaram-se sete anos e eu também só soube disso agora, fazendo cálculos com um aparelho que inventei e que tirei da minha mala de equipamentos. Se ficarmos aqui, seremos esquecidos pela humanidade, e tudo o que passamos antes terá sido em vão.
—Mas, Josué, — eu disse— o que passamos, mal me lembro, e que importância tem, se estamos tão felizes? Vem, toma-me, toma-me mais uma vez, mais mil vezes. Só quero isso, e depois... talvez, morrer em teus braços. Mas dá-me um bebezinho, vê meu ventre crescer, ausculta-o, fala com ele, beija-o através do meu umbigo, tira-o de dentro de mim com tuas mãos, lamba-o junto comigo. Vem, vem, vamos fazê-lo agora!
Josué olhou-me fixamente, abanou a cabeça, e mais uma vez deitou-se sobre mim, que vivíamos nus, e me possuiu docemente.
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Quando completou-se dez anos de nossa chegada a Cocayne (não me entendam mal, nada a haver com o que alguns estão pensando), eu estava mais jovem e saudável do que nunca, e não envelhecera nem um pouco, o que preocupava Josué, não sei por quê, e que para mim era maravilhoso, com o único senão de não poder admirar a minha beleza intocada, num espelho de cristal mesmo, que não havia ali, e somente poder mirar-me nas águas, aliás cristalinas da nossa piscina natural da cascata. Mas eu não engravidava e isso estava tirando-me o prazer da imortalidade e da juventude eterna, que eu já percebia que reinavam ali, naquele paraíso sertanejo. Comecei a aceitar a idéia de partir. Não há perfeição no mundo, e se eu não podia perpetuar-me e nem tinha telas e tintas para pintar, ou papel para desenhar e escrever meus versos, nem admiradores e leitores ávidos das minhas criações, eu não queria a Eternidade! Lembrei-me, das últimas palavras do grande Jean-Baptiste Corot, no seu leito de morte: “Espero que no Céu, haja pintura!”
Então, fiz um esforço imenso para superar a preguiça e o prazer do meu corpo em eterno deleite (eu não tivera sequer um piriri, ou uma dor de dentes, ou de cabeça, nem um simples resfriado, todos as aqueles anos, e me esquecera totalmente da ameaça de Ludugero). Nunca mais voáramos no Pavão, do que, confesso, estava com saudades. Josué com sua habilidade, conseguira levar água aos poucos, durante aqueles longos anos, até encher os odres do pavão num trabalho de Sísifo, ou melhor, de tonel das Danaides, pois o sol da caatinga fazia evaporar uma parte no caminho e mesmo dentro dos próprios odres de maneira que foram necessários dez anos para ter neles uma quantidade razoável para levantar vôo e escapar daquele deserto. Durante aqueles anos nenhuma vez eu o acompanhara nesse trabalho, pois nem sabia que ele fazia isso. Eu tributava suas ausências à sua vida de homem, que precisava afastar-se um pouco de sua mulherzinha e sair com os amigos, esquecendo-me completamente que ali não havia amigos, não havia ninguém. A verdade é que eu me alienara no meu sonho de dez anos, e não vira o quanto Josué se esforçara e até envelhecera um bocado, naquele esforço brutal, quase cotidiano, que eu ignorava. Tive um grande remorso, quando me dei conta de tanto sofrimento do meu homem. Para ele não houvera Paraíso, e sua sina de homem nunca fora renegada. Ele sim, era o herói, e lembrei-me de que isto queria dizer que ele seria capaz de descer aos Infernos por mim, e voltar, se é que ele já não vinha fazendo isso continuamente há dez anos. Decidi partir com ele.
Josué foi buscar sozinho o Pavão e sobrevoou Cocayne, acenando-me antes de descer sobre a grama entre os coqueiros. Naquele momento ele poderia ter se afastado e fugido, deixando-me ali para sempre. Mas isso nem lhe passou pela cabeça, ele me afirmou depois, quando perguntado por mim, que levantara essa dúvida, num lapso de um minuto em meu espírito. Ele me amava, eu era a sua princesa e ele não me abandonaria, jamais, no paraíso.
sábado, 19 de janeiro de 2008
A nova amiga (de Alma Welt)
(Dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Minha amiga Vânia me telefona bem cedo convidando-me a encontrá-la num barzinho aqui perto na Oscar Freire para tomarmos um café e botarmos o papo em dia. Jamais esperaria que ela tivesse uma segunda intenção e que esse telefonema tivesse as conseqüências que ora passo a narrar a vocês, meus confidentes leitores.
Depus a paleta, limpei os pincéis, dei uma última grande olhada na tela nascente no cavalete e passei a ocupar-me de uma caprichada toilette: banho, escova nos cabelos, e uma esmerada escolha de uma roupa “casual” mas elegante. Foi como se meu inconsciente captasse alguma coisa, um prenúncio, uma aurora. Saí depois de deixar um auspicioso e sintomático bilhete brincalhão para minha faxineira que chega sempre um tanto tarde devido à viagem que necessita fazer para chegar neste seu emprego. Minha querida Luíza, minha nova “mãe-preta”, como acostumei-me a chamá-la:
“Querida Luiza, fui ao encontro do “grande amor da minha vida!”. Tem comida na geladeira. Esquente e coma o que você quiser. Não me espere para o almoço. Pode matar a goiabada com queijo: Romeu e Julieta, é todo seu. Vou ao encontro da alegria. Beijos”
Alma
Duas quadras depois topo com minha amiga na mesinha da calçada mas não sozinha, há uma moça com ela. Estremeço: é linda, estendendo-me a mão à apresentação de Vânia que troca beijinhos comigo, aos gritinhos, como é do seu feitio. Perturbada, esqueço de soltar a mão da moça que no entanto não parece constrangida. Olha-me atentamente, parecendo também fascinada. Não ouvíamos mais o bábáblá de Vânia. Nossos olhos não mais se desgrudariam.
Prima de Vânia, Letícia é o seu nome, parece vir de longe, mas de um outro tempo, de dentro de mim mesma.
Vocês conhecem, leitores, o meu temperamento romântico e minha procura incessante pela felicidade amorosa. Trata-se de uma idiossincrasia, eu reconheço, nestes tempos tão pragmáticos que esperam tudo de uma artista jovem, “contemporânea”, menos isso! Entretanto, tenho cada vez mais a tendência, como vocês já perceberam, de assumir minha alma lírica, “sáfica”, no melhor sentido. Eis porquê cada vez mais exercito minha veia de sonetista, produzindo até mesmo alguns de timbre camoniano, como este:
Quando criança, o amor já desejava
E sonhando construía meus enredos;
Tornar-me escritora eu almejava,
Ser poeta e espalhar os meus segredos.
Ser pura, secreta e desbragada;
Confessional pelo mais puro pudor,
Abrir o coração, e, alargada,
Conter o essencial do meu amor:
Aquilo que devora e me conserva
Jovem para sempre enquanto morro
Um pouco a cada dia que percorro.
E assim, da Natureza alegre serva,
Manter do coração a chama eterna,
Heróica, ao sol acesa a vã lanterna.
E agora estava eu ali, à beira de um novo amor, feliz desde logo, de puro encantamento por uma adorável jovem, reflexo da minha própria beleza, juventude e alegria. Eu já estava novamente vivendo a glória de uma nova paixão, única razão legítima de se viver, o próprio sentido da vida, evanecente embora, segundo a experiência. Uma embriaguez eufórica, que produz frequëntemente, uma espécie de “apagamento", como o alcoólico.
Não sei dizer como nos desvencilhamos de Vânia. Só me lembro de caminharmos um quarteirão de mãos dadas, trêmulas de emoção. Depois a porta aberta do estúdio, com Letícia já atirando o sutiã para cima, numa explosão de peças deixadas pelo caminho, numa verdadeira corrida até o quarto onde nos atiramos uma sobre a outra, no imenso leito.
Nosso encantamento nos conduzia numa longa viagem, que fatalmente iria pela tarde e pela noite até o dia seguinte... pela eternidade.
Eu me esquecera de Luiza, a mãe-preta, que chegou e nos pegou juntas na cama. A pobre negra, uma mulher quase idosa, coitada, teria mesmo que ficar um tanto chocada... Mas a boa mulher recuou rapidamente da porta do quarto, com o meu bilhete na mão. E permaneceu discreta na cozinha, calada, de cabeça baixa. Fui ao seu encontro e encontrei-a assim, com lágrimas nos olhos, tentando limpar a pia. Segurei-a pelos ombros, ergui-lhe o queixo com dois dedos e disse-lhe:
–Luiza, querida, não fica assim. Lembra-te, sou eu, Alma, a tua “guria”, sempre a mesma, que adotaste como tua “filha branca”, não sou? Olha, não é melhor assim, uma bonita garota, pura afinal, do que um belo cafajeste, ou aproveitador, ou ainda um “macho” com o cabresto numa mão e a sela na outra, como diríamos lá no meu pampa? Vamos, vamos, não fica assim. Agora eu te peço, Luiza, toma aqui a tua diária e volta amanhã. Nada temas. Eu estou feliz, não é isso que importa a ti ?
Luiza, olhou-me sem entender. Tocou meu rosto com sua mão áspera de faxineira, e disse:
— Alma, eu não entendo isso. Duas moças... isso é pecado, minha filha! Você assim não casa, não vai ter filhos. Isso não leva a nada, minha filha!
Olhei seu rosto negro, seu cabelo pixaim que começava a ficar grisalho, suspirei e retruquei:
—Luiza, já fui casada, tu sabes disso. Não gostaria de repetir a experiência. Os homens interessantes ou são neuróticos ou são bêbados, é perigoso meter-se com eles. Tu mesma, não foste casada com um bêbado? Que te batia, que te fazia sofrer? Essa garota não baterá em mim e me fará feliz, eu te garanto.
Luiza abanou a cabeça, com lágrimas nos olhos, tocou novamente meu rosto, e murmurou:
—Que pena... Tão linda... que pena!
Luiza pegou sua bolsa e o dinheiro que lhe estendi, enfiou-o nela, retirou o avental e saiu de cabeça baixa visivelmente deprimida e chocada. Ela nos vira nuas na cama. Teria visto mais que isso?
Voltei para o leito onde Letícia permanecia adormecida. O seu maravilhoso corpo nu, tão entregue, numa bela posição, estética e natural ao mesmo tempo! Uma obra de arte! Sentada ao seu lado contemplei longamente o seu puríssimo rosto de menina. Esse rosto banhara-se de lágrimas de emoção, da pura emoção do nosso encontro, e eu bebera a suas lágrimas como elas as minhas. Estava tudo certo. O amor era lindo, e nós certamente não iríamos para o inferno, pois já estávamos no paraíso.
18/02/2004
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Divagações da Alma (de Alma Welt)
Há algo que nunca deixarei que acabe em nossa estância. Trata-se da charrete do Galdério, o hábito de irmos buscar nossos eventuais hóspedes na estaçãozinha de trem, uma das últimas Maria-Fumaça ainda na ativa no Brasil. Enquanto eu for viva lutarei pra a preservação dessa relíquia, tão cara a mim, que sou acusada de “antiquada” e passadista, por isso. O próprio Rôdo, meu querido irmão, sorri, irônico e condescendente, quando se toca no assunto. Ele, com sua paixão por carros esporte e seu amor pela velocidade, é sem dúvida bem mais “moderno” do que eu. Mas não se trata disso! É uma questão cultural, e eu tenho lutado desde a morte do Vati para que nada se modifique por aqui, e que o casarão não sofra nenhuma reforma, mesmo se mostrando nitidamente “decadente”, com rachaduras e musgo subindo pela fachada e paredes externas ( Rôdo compara-a , rindo, à Casa de Usher, de Poe). Minha luta ( reacionária talvez ) eu registrei no meu romance autobiográfico A Herança, ainda inédito. Acredito que o meu romance é atual e oportuno justamente por se situar na fronteira de dois mundos: a face tradicional e até arcaica do Pampa, e o mundo citadino, cosmopolita, da comunicação de massa, embora eu mesma não tenha comprado até hoje um celular (pasmem!). Escrevo à mão (só não com pena de ganso) antes de digitar, e somente a partir de 2001, quando fui contatada e “descoberta” pelo Guilherme de Faria, comprei um computador e aprendi a navegar na Internet. Confesso que fiquei praticamente viciada. A net é realmente a maior revolução desta virada do século, e me permite “ganhar tempo” enquanto as editoras me olham ressabiadas: “...essa escritora é profunda, tem o que dizer, na certa não venderá. As pessoas não gostam de refletir, nem de sofrer, nem mesmo de se comover, querem apenas se divertir: sua faceta ponderável para nós é a do seu erotismo. Mas ela não é suficientemente pornográfica. Será que venderá?’
Alma Welt permanece sob suspeita. Estarão os abutres esperando somente a morte da gaúcha doida, da “última romântica”? Tenho elementos para supor que sim.
Em compensação, uma rede de leitores, no boca a boca propaga minha literatura, “como musgo sobre a tundra” (expressão um tanto nórdica, minha mesma) E tenho recebido milhares de e.mails com manifestações de afeto e apreço. Isso é o que vale.
06/11/2006
Alma Welt permanece sob suspeita. Estarão os abutres esperando somente a morte da gaúcha doida, da “última romântica”? Tenho elementos para supor que sim.
Em compensação, uma rede de leitores, no boca a boca propaga minha literatura, “como musgo sobre a tundra” (expressão um tanto nórdica, minha mesma) E tenho recebido milhares de e.mails com manifestações de afeto e apreço. Isso é o que vale.
06/11/2006
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
sábado, 5 de janeiro de 2008
A Navalha e o Abismo (crônica de Alma Welt)
A Navalha e o Abismo
(de Alma Welt, 1972-2007)
Meu pai possuía uma navalha de barbear que me fascinava, em minha infância. Era um objeto magnífico, com cabo de marfim, dentro de um belo estojo, com a marca alemã em letras douradas: Abgrund & Sohn. Ele não a usava desde a sua juventude, quando deixara a barba crescer e eu só o conheci barbado, patriarcal, a princípio fulvo e grisalho, depois todo branco. No entanto ele guardava a sua navalha, que lhe era cara por alguma razão. Digo isso, por que, estranhamente, eu nunca lhe perguntei como a obtivera, se ganhara de alguém, se a comprara numa loja, ou se fora de seu pai, coisas assim. A razão da minha discrição, acredito, é que o objeto parecia secreto, a mim, que cheguei perto da obsessão, por um período, naquela época. Foi logo que descobri o estojo na gaveta de sua escrivaninha, na biblioteca. Eu o abri, e deslumbrada, num nicho em depressão sobre o veludo, dormia o objeto que me... “vertiginou”. Eu desnudei a lâmina, lentamente, com o dedo indicador toquei-lhe o fio, e imediatamente a minha carne se abriu quase até o osso, me pareceu. Dei um grito e nem sei como guardei o objeto agressivo, no estojo, empurrando a gaveta com a outra mão, para sair correndo buscar gaze e esparadrapo, para tratar-me, pois sabia que fizera algo errado e pretendia esconder o fruto da minha bisbilhotice. Eu consegui facilmente, de minha mãe e de Matilde, sob interrogatório, atribuindo o corte a uma inocente faca de cozinha. Meu pai percebeu a verdade, eu acho, pois a navalha dever ter ficado manchada do meu sangue. Mas ele nada comentou, para não abrir uma nova área de atrito com minha mãe. E escondeu a lâmina noutro lugar, eu depreendi. Com um meio sorriso, levantou o dedo, disfarçadamente, para mim, a um tempo com admoestação e cumplicidade, assim me pareceu.
Daí por diante fiquei praticamente assombrada pela navalha e seu perigo. Eu tomara a consciência traumática de sua ameaça, de seu... abismo. Sim, pois por alguma ilação poética, cuja propensão me era inata, eu associei a navalha a um abismo. Quando dali a não muito tempo eu descobri na estante da biblioteca, o livro intitulado “O Fio da Navalha", de W. Somerset Maugham, eu o devorei, para encontrar a resposta do enigma daquela lâmina. E, acreditem, apesar da ingenuidade do meu propósito infantil, eu a encontrei. Há mesmo uma associação entre o fio da navalha e o abismo, pois a metáfora de andar no fio de uma navalha incorre no perigo de abismar-se, talvez dividido ao meio, numa queda sem retorno. Na minha mente, porém, a própria lâmina era o precipício.
Entretanto aquele era um objeto material que continuava me atraindo, me chamando, me obcecando. Eu temia levantar à noite, sonâmbula ou não, ir direto ao seu novo esconderijo, que de alguma forma eu sabia, e precipitar-me sobre ele. O que era estranho é que eu não me via degolada, mas sentando-me nua na lâmina aberta, sobre o fio, e cortando a minha pequena vulva, num talho sangrento, que não se fecharia nunca. Quando afinal surgiu o sangue da minha menarca, por uma fração de segundo, inesquecível e terrificante, eu pensei ter feito aquilo: sentara-me na lâmina sagrada e proibida!
Eu agora estava no abismo de mim mesma, do meu desejo infinito, do misterioso sangue das minhas entranhas de mulher!
(de Alma Welt, 1972-2007)
Meu pai possuía uma navalha de barbear que me fascinava, em minha infância. Era um objeto magnífico, com cabo de marfim, dentro de um belo estojo, com a marca alemã em letras douradas: Abgrund & Sohn. Ele não a usava desde a sua juventude, quando deixara a barba crescer e eu só o conheci barbado, patriarcal, a princípio fulvo e grisalho, depois todo branco. No entanto ele guardava a sua navalha, que lhe era cara por alguma razão. Digo isso, por que, estranhamente, eu nunca lhe perguntei como a obtivera, se ganhara de alguém, se a comprara numa loja, ou se fora de seu pai, coisas assim. A razão da minha discrição, acredito, é que o objeto parecia secreto, a mim, que cheguei perto da obsessão, por um período, naquela época. Foi logo que descobri o estojo na gaveta de sua escrivaninha, na biblioteca. Eu o abri, e deslumbrada, num nicho em depressão sobre o veludo, dormia o objeto que me... “vertiginou”. Eu desnudei a lâmina, lentamente, com o dedo indicador toquei-lhe o fio, e imediatamente a minha carne se abriu quase até o osso, me pareceu. Dei um grito e nem sei como guardei o objeto agressivo, no estojo, empurrando a gaveta com a outra mão, para sair correndo buscar gaze e esparadrapo, para tratar-me, pois sabia que fizera algo errado e pretendia esconder o fruto da minha bisbilhotice. Eu consegui facilmente, de minha mãe e de Matilde, sob interrogatório, atribuindo o corte a uma inocente faca de cozinha. Meu pai percebeu a verdade, eu acho, pois a navalha dever ter ficado manchada do meu sangue. Mas ele nada comentou, para não abrir uma nova área de atrito com minha mãe. E escondeu a lâmina noutro lugar, eu depreendi. Com um meio sorriso, levantou o dedo, disfarçadamente, para mim, a um tempo com admoestação e cumplicidade, assim me pareceu.
Daí por diante fiquei praticamente assombrada pela navalha e seu perigo. Eu tomara a consciência traumática de sua ameaça, de seu... abismo. Sim, pois por alguma ilação poética, cuja propensão me era inata, eu associei a navalha a um abismo. Quando dali a não muito tempo eu descobri na estante da biblioteca, o livro intitulado “O Fio da Navalha", de W. Somerset Maugham, eu o devorei, para encontrar a resposta do enigma daquela lâmina. E, acreditem, apesar da ingenuidade do meu propósito infantil, eu a encontrei. Há mesmo uma associação entre o fio da navalha e o abismo, pois a metáfora de andar no fio de uma navalha incorre no perigo de abismar-se, talvez dividido ao meio, numa queda sem retorno. Na minha mente, porém, a própria lâmina era o precipício.
Entretanto aquele era um objeto material que continuava me atraindo, me chamando, me obcecando. Eu temia levantar à noite, sonâmbula ou não, ir direto ao seu novo esconderijo, que de alguma forma eu sabia, e precipitar-me sobre ele. O que era estranho é que eu não me via degolada, mas sentando-me nua na lâmina aberta, sobre o fio, e cortando a minha pequena vulva, num talho sangrento, que não se fecharia nunca. Quando afinal surgiu o sangue da minha menarca, por uma fração de segundo, inesquecível e terrificante, eu pensei ter feito aquilo: sentara-me na lâmina sagrada e proibida!
Eu agora estava no abismo de mim mesma, do meu desejo infinito, do misterioso sangue das minhas entranhas de mulher!
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Um caso da Alma (de Alma Welt)
(dos Contos Pampianos de Alma Welt)
Quando eu tinha dezenove anos, e portanto já estava órfã há seis (orfã de mãe, quero dizer), eu praticamente não tinha freios. A censura exercida pela Mutti (que na verdade eu introjetava muito pouco), não existindo mais, foi como uma comporta aberta para os meus desejos, que se confundiam com a minha própria noção de liberdade. O Vati, como já contei, experimentara criar-me como uma pequena pagã, e fora espantosamente ousado nessa sua experiência. Leituras clássicas e muito estímulo para as artes, eram a sua fórmula para dotar a minha sensualidade de um timbre distinto, nobre, portanto nada vulgar. Quanto ao que eu fizesse do meu corpo... seria simplesmente destino, desde que eu soubesse me defender, num sentido pragmático, de prevenção de maternidade indesejada, ou de sujeição voluntária por amor a um homem de caráter mais forte que o meu. Esse perigo havia, pois o timbre doce de minha personalidade, e uma certa “candura”, me podiam deixar vulnerável. Quanta vezes na vida eu me veria submissa, com certa volúpia quase masoquista! Quantas vezes eu seria atingida pela violência de desejos alheios, incontrolados e perigosos, maldosos mesmo. Entretanto, como o Vati previa, nada disso poderia verdadeiramente me destruir. Meu pai era um filósofo, e observava-me e à minha vida com uma distância contemplativa, como uma obra que ele criara, e que era uma obra de arte, a seu ver. O incrível, no entanto, é que corroborando essa visão, tendo a ver assim também a minha vida até hoje, e estou consciente de viver numa permanente dimensão poética.
“A vida, Alma, deve ser uma obra de arte, ou nada ser, minha filha. Chega de misérias psíquicas que se externam compondo existências miseráveis, farrapos anímicos que se arrastam pela vida”, dizia Werner Friedrich Welt, meu pai. Custei a perceber a nota de arrogância germânica que existia nesse seu axioma, no entanto mais romântico do que nazista. Pois meu pai rejeitava com sincera repulsa a doutrina nazi, que outrora meu avô, o velho Joachim Welt, professara mais ou menos secretamente.
Mas, como eu dizia, aos dezenove anos, eu, estando no auge de minha beleza, era uma verdadeira tentação para os homens que nos cercavam no cotidiano, portanto peões, jovens na sua maioria, mas que não ousariam se aproximar de mim, atravessar a linha ou o abismo, melhor dizendo, intransponível, social e cultural que nos separava. Entretanto a paixão de um jovem peão por mim se fez visível e foi, talvez, a sua desgraça. Mas é preciso que eu seja sincera e revele aqui também, o fato de que houve antes disso, pelo menos dois suicídios misteriosos de jovens peões da nossa estância, cuja culpa involuntária, por assim dizer, me foi veladamente imputada. Mas voltemos ao caso que devo aqui narrar e que já foi citado, nominalmente mas en passant , numa cena do meu julgamento, no romance “A Herança”. Refiro-me o caso do jovem peão Martim, filho do velho Alípio Galdiano.
Martim Galdiano, era um belo jovem peão, muito bem dotado para a profissão, cavalgando e jogando o laço como poucos e também a boleadeira, prática em vias de extinção pelo menos na nossa estância, dedicada mais à vinha e ao mate do que à boiada ou o charque, como antigamente, antes do meu avô. Martim era também um excelente dançarino, nas festas da peonada, e se exibia no fandango, na dança da lança, na dos punhais, e na das boleadeiras, com um virtuosismo entusiasmante, com um taconeo aliciador.
Sendo um verdadeiro sucesso entre as gurias, essa flor viril da peonada causava freqüentemente ciúmes perigosos nos outros jovens, e tinha às vezes que se bater à faca ou mesmo aos murros com alguns deles, por paixão despertada nalguma chinoca. Mas a desgraça realmente começara já nos seus quinze ou dezesseis anos, quando o jovem Martim, da mesma idade que eu, me viu mais de perto numa festa de galpão, durante o São João. O jovem perdeu a sua paz. A paixão que despertei, nele, ao dançar candidamente, sorrindo muito, principalmente durante a dança dos lenços, e a do pezinho, iria condicionar a sua vida daí por diante. Quanto a mim, reprimi a consciência desse fato até muito recentemente, como se não me dissesse respeito, por ser involuntário e por eu não ter nunca dado corda ou me aproximado do guri. Eu estava demasiado centrada em mim mesma e no meu irmão Rôdo. Além disso havia em mim, confesso, uma espécie de consciência aristocrática, de minha condição de filha de estancieiro de segunda geração.
Embora eu ainda seja jovem, recentemente começou a vir do fundo da memória essas imagens produzindo um certo desconforto, uma certa dor mesmo. Serei culpada de alguma forma pelo suicídio recente de Martim há tantos anos longe de seu pai e de nós, numa outra estância longe daqui? O ódio do velho Galdiano, que no entanto permaneceu entre nós, na estância, mesmo depois de aposentado (fato até certo ponto misterioso) e que me foi revelado no seu depoimento em meu julgamento, corrobora essa hipótese que poderia ser, talvez, pretensiosa.
Estou contando tudo isso aqui, neste momento, por uma razão perturbadora: acabo de receber esta manhã, uma carta lacrada, cujo nome do remetente me fez estremecer, e que não tive coragem de abrir até agora. O medo que tenho dela é maior que minha curiosidade. Faz dois meses que Martim se enforcou com seu laço de couro. Faz vinte anos que o velho Galdiano me odeia, e apenas dois que me revelou isso. Confesso que começo a ter, finalmente, um certo medo da vida...
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29/10/2005
Quando eu tinha dezenove anos, e portanto já estava órfã há seis (orfã de mãe, quero dizer), eu praticamente não tinha freios. A censura exercida pela Mutti (que na verdade eu introjetava muito pouco), não existindo mais, foi como uma comporta aberta para os meus desejos, que se confundiam com a minha própria noção de liberdade. O Vati, como já contei, experimentara criar-me como uma pequena pagã, e fora espantosamente ousado nessa sua experiência. Leituras clássicas e muito estímulo para as artes, eram a sua fórmula para dotar a minha sensualidade de um timbre distinto, nobre, portanto nada vulgar. Quanto ao que eu fizesse do meu corpo... seria simplesmente destino, desde que eu soubesse me defender, num sentido pragmático, de prevenção de maternidade indesejada, ou de sujeição voluntária por amor a um homem de caráter mais forte que o meu. Esse perigo havia, pois o timbre doce de minha personalidade, e uma certa “candura”, me podiam deixar vulnerável. Quanta vezes na vida eu me veria submissa, com certa volúpia quase masoquista! Quantas vezes eu seria atingida pela violência de desejos alheios, incontrolados e perigosos, maldosos mesmo. Entretanto, como o Vati previa, nada disso poderia verdadeiramente me destruir. Meu pai era um filósofo, e observava-me e à minha vida com uma distância contemplativa, como uma obra que ele criara, e que era uma obra de arte, a seu ver. O incrível, no entanto, é que corroborando essa visão, tendo a ver assim também a minha vida até hoje, e estou consciente de viver numa permanente dimensão poética.
“A vida, Alma, deve ser uma obra de arte, ou nada ser, minha filha. Chega de misérias psíquicas que se externam compondo existências miseráveis, farrapos anímicos que se arrastam pela vida”, dizia Werner Friedrich Welt, meu pai. Custei a perceber a nota de arrogância germânica que existia nesse seu axioma, no entanto mais romântico do que nazista. Pois meu pai rejeitava com sincera repulsa a doutrina nazi, que outrora meu avô, o velho Joachim Welt, professara mais ou menos secretamente.
Mas, como eu dizia, aos dezenove anos, eu, estando no auge de minha beleza, era uma verdadeira tentação para os homens que nos cercavam no cotidiano, portanto peões, jovens na sua maioria, mas que não ousariam se aproximar de mim, atravessar a linha ou o abismo, melhor dizendo, intransponível, social e cultural que nos separava. Entretanto a paixão de um jovem peão por mim se fez visível e foi, talvez, a sua desgraça. Mas é preciso que eu seja sincera e revele aqui também, o fato de que houve antes disso, pelo menos dois suicídios misteriosos de jovens peões da nossa estância, cuja culpa involuntária, por assim dizer, me foi veladamente imputada. Mas voltemos ao caso que devo aqui narrar e que já foi citado, nominalmente mas en passant , numa cena do meu julgamento, no romance “A Herança”. Refiro-me o caso do jovem peão Martim, filho do velho Alípio Galdiano.
Martim Galdiano, era um belo jovem peão, muito bem dotado para a profissão, cavalgando e jogando o laço como poucos e também a boleadeira, prática em vias de extinção pelo menos na nossa estância, dedicada mais à vinha e ao mate do que à boiada ou o charque, como antigamente, antes do meu avô. Martim era também um excelente dançarino, nas festas da peonada, e se exibia no fandango, na dança da lança, na dos punhais, e na das boleadeiras, com um virtuosismo entusiasmante, com um taconeo aliciador.
Sendo um verdadeiro sucesso entre as gurias, essa flor viril da peonada causava freqüentemente ciúmes perigosos nos outros jovens, e tinha às vezes que se bater à faca ou mesmo aos murros com alguns deles, por paixão despertada nalguma chinoca. Mas a desgraça realmente começara já nos seus quinze ou dezesseis anos, quando o jovem Martim, da mesma idade que eu, me viu mais de perto numa festa de galpão, durante o São João. O jovem perdeu a sua paz. A paixão que despertei, nele, ao dançar candidamente, sorrindo muito, principalmente durante a dança dos lenços, e a do pezinho, iria condicionar a sua vida daí por diante. Quanto a mim, reprimi a consciência desse fato até muito recentemente, como se não me dissesse respeito, por ser involuntário e por eu não ter nunca dado corda ou me aproximado do guri. Eu estava demasiado centrada em mim mesma e no meu irmão Rôdo. Além disso havia em mim, confesso, uma espécie de consciência aristocrática, de minha condição de filha de estancieiro de segunda geração.
Embora eu ainda seja jovem, recentemente começou a vir do fundo da memória essas imagens produzindo um certo desconforto, uma certa dor mesmo. Serei culpada de alguma forma pelo suicídio recente de Martim há tantos anos longe de seu pai e de nós, numa outra estância longe daqui? O ódio do velho Galdiano, que no entanto permaneceu entre nós, na estância, mesmo depois de aposentado (fato até certo ponto misterioso) e que me foi revelado no seu depoimento em meu julgamento, corrobora essa hipótese que poderia ser, talvez, pretensiosa.
Estou contando tudo isso aqui, neste momento, por uma razão perturbadora: acabo de receber esta manhã, uma carta lacrada, cujo nome do remetente me fez estremecer, e que não tive coragem de abrir até agora. O medo que tenho dela é maior que minha curiosidade. Faz dois meses que Martim se enforcou com seu laço de couro. Faz vinte anos que o velho Galdiano me odeia, e apenas dois que me revelou isso. Confesso que começo a ter, finalmente, um certo medo da vida...
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29/10/2005
domingo, 23 de dezembro de 2007
Sons de cristal (de Alma Welt- republicação)
Republico aqui, por achá-la oportuna, esta crônica de Natal de minha saudosa irmã e grande poetisa. (Lucia Welt)
SONS DE CRISTAL
(dos Contos Secretos de Alma Welt)
Volto a lembrar-me, com saudade, das nossas festas de Natal e fim de ano, na estância, durante a minha infância. Dias gloriosos, aqueles, em que me levantava cedo, em manhãs esplendorosas de verão, quase gritando de alegria por existir, e me sentir... tão feliz! As festas, para mim, começavam já nos preparativos, na cozinha, e na sala preparada, sobretudo com a montagem do nosso grande pinheiro de Natal. Matilde era a grande festeira, responsável pelo maravilhoso peru assado, guarnições, saladas e doces. O Vati cuidava da escolha dos vinhos, de nossa própria produção. A Mutti gerenciava tudo, a começar pela decoração da sala e a preparação condigna da grande mesa que nos congregaria a todos. Solange e Lúcia, minhas irmãs, as ajudavam, enquanto eu e Rôdo nos divertíamos em observar e bater palmas, ou simplesmente colher flores e fruir o clima adorável de preparativos natalinos.
Mas recordo particularmente o Natal dos meus treze anos, quando Rôdo, numa grande inquietação de sua libido de pré-adolescente, resolveu criar um pretexto para que eu o visitasse em seu quartinho do sótão, na ante-véspera do Natal, à meia-noite, quando todos estivessem dormindo.
Ali estava eu, como tantas vezes, naquele aconchegante ambiente de quarto de menino, que me fascinava com sua bagunça viril, onde seus gostos se mostravam todos: carrinhos, aeromodelos, miniaturas de motos e barcos, fotos e posters de montanhas e praias, algumas fotos pampianas típicas, de boiadeiros laçando ou lançando a boleadeira em pleno galope, cavalos maravilhosos, tudo o que um menino aventureiro amava, e... uma foto minha, linda, a minha melhor foto, que me enternecia por estar ali, entre as suas coisas amadas.Eu o abracei de uma maneira mais comovida, que o normal, embora sabendo que Rôdo não gostava de sentimentalismos. Mas naquela noite, em especial, por alguma razão eu queria chorar de felicidade de tê-lo como irmão, eu, que não me identificava em nada com minhas irmãs, e nem tinha certeza de amá-las. Puxei-o sobre mim, instintivamente, como uma pequena amante, mas estávamos sonolentos e adormecemos assim, vestidos e abraçados, sonhando com nós mesmos, abraçados, sonhando...
Acordamos sobressaltados pela voz aguda e agressiva de Solange. A megerinha gorda, diante de nós, de mãos na cintura, nos fuzilava com os olhos:
—Ah! Seus safados. Já agarrados de novo! Mamãe vai saber disso! Vocês vão ficar sem peru no Natal e sem sobremesa! Nem vão sentar à mesa, vocês vão ver!
Fiquei envergonhada por ela, não por mim. Pela mesquinharia de minha irmã que insistia em atormentar a minha vida, conspirando contra a minha felicidade, que, afinal, para mim, estava ali mesmo, junto de meu irmão. Retruquei, estendendo meus braços para ela:
—Solange, irmãzinha ciumenta! Queres abraçar-me também? Vem, vem Sol, que eu te farei feliz!
Solange ficou rubra de confusão e cólera, mas retirou-se correndo dali. Eu a desarmara. Olhei para Rôdo e ele rolava de rir, ofegante. Conseguiu afinal, dizer:
—Alma, tu tens cada uma! És sempre inesperada. Tu, abraçando a Sol! Não posso imaginar!
–Bem... ela não deixaria. Eu a abraçaria e até a beijaria se com isso eu a conquistasse, e ela parasse de nos perseguir. Por falar nisso, será que já estamos sem peru e sobremesa?
Rimos mais uma vez juntos, e eu estava tão feliz ali, com Rôdo, romanticamente nos braços do meu irmãozinho, que comecei a ouvir os sons da noite de Natal, o ruído dos cristais, das taças de vinho, e dos talheres de prata, das risadas felizes dos familiares que eu amava tanto, que não excluiria Solange, que via sorrindo para mim, gordinha e... até mesmo simpática. Eu não precisava nem mesmo da noite de Natal. Eu estava tão plena e feliz, que ouvia os seus sons de cristal, e não precisava mais que a véspera chegasse. Meu Natal era ali mesmo, naquele momento, presente para sempre, sentindo com meu pequeno seio nascente, as batidas do coração amado de meu irmão.
SONS DE CRISTAL
(dos Contos Secretos de Alma Welt)
Volto a lembrar-me, com saudade, das nossas festas de Natal e fim de ano, na estância, durante a minha infância. Dias gloriosos, aqueles, em que me levantava cedo, em manhãs esplendorosas de verão, quase gritando de alegria por existir, e me sentir... tão feliz! As festas, para mim, começavam já nos preparativos, na cozinha, e na sala preparada, sobretudo com a montagem do nosso grande pinheiro de Natal. Matilde era a grande festeira, responsável pelo maravilhoso peru assado, guarnições, saladas e doces. O Vati cuidava da escolha dos vinhos, de nossa própria produção. A Mutti gerenciava tudo, a começar pela decoração da sala e a preparação condigna da grande mesa que nos congregaria a todos. Solange e Lúcia, minhas irmãs, as ajudavam, enquanto eu e Rôdo nos divertíamos em observar e bater palmas, ou simplesmente colher flores e fruir o clima adorável de preparativos natalinos.
Mas recordo particularmente o Natal dos meus treze anos, quando Rôdo, numa grande inquietação de sua libido de pré-adolescente, resolveu criar um pretexto para que eu o visitasse em seu quartinho do sótão, na ante-véspera do Natal, à meia-noite, quando todos estivessem dormindo.
Ali estava eu, como tantas vezes, naquele aconchegante ambiente de quarto de menino, que me fascinava com sua bagunça viril, onde seus gostos se mostravam todos: carrinhos, aeromodelos, miniaturas de motos e barcos, fotos e posters de montanhas e praias, algumas fotos pampianas típicas, de boiadeiros laçando ou lançando a boleadeira em pleno galope, cavalos maravilhosos, tudo o que um menino aventureiro amava, e... uma foto minha, linda, a minha melhor foto, que me enternecia por estar ali, entre as suas coisas amadas.Eu o abracei de uma maneira mais comovida, que o normal, embora sabendo que Rôdo não gostava de sentimentalismos. Mas naquela noite, em especial, por alguma razão eu queria chorar de felicidade de tê-lo como irmão, eu, que não me identificava em nada com minhas irmãs, e nem tinha certeza de amá-las. Puxei-o sobre mim, instintivamente, como uma pequena amante, mas estávamos sonolentos e adormecemos assim, vestidos e abraçados, sonhando com nós mesmos, abraçados, sonhando...
Acordamos sobressaltados pela voz aguda e agressiva de Solange. A megerinha gorda, diante de nós, de mãos na cintura, nos fuzilava com os olhos:
—Ah! Seus safados. Já agarrados de novo! Mamãe vai saber disso! Vocês vão ficar sem peru no Natal e sem sobremesa! Nem vão sentar à mesa, vocês vão ver!
Fiquei envergonhada por ela, não por mim. Pela mesquinharia de minha irmã que insistia em atormentar a minha vida, conspirando contra a minha felicidade, que, afinal, para mim, estava ali mesmo, junto de meu irmão. Retruquei, estendendo meus braços para ela:
—Solange, irmãzinha ciumenta! Queres abraçar-me também? Vem, vem Sol, que eu te farei feliz!
Solange ficou rubra de confusão e cólera, mas retirou-se correndo dali. Eu a desarmara. Olhei para Rôdo e ele rolava de rir, ofegante. Conseguiu afinal, dizer:
—Alma, tu tens cada uma! És sempre inesperada. Tu, abraçando a Sol! Não posso imaginar!
–Bem... ela não deixaria. Eu a abraçaria e até a beijaria se com isso eu a conquistasse, e ela parasse de nos perseguir. Por falar nisso, será que já estamos sem peru e sobremesa?
Rimos mais uma vez juntos, e eu estava tão feliz ali, com Rôdo, romanticamente nos braços do meu irmãozinho, que comecei a ouvir os sons da noite de Natal, o ruído dos cristais, das taças de vinho, e dos talheres de prata, das risadas felizes dos familiares que eu amava tanto, que não excluiria Solange, que via sorrindo para mim, gordinha e... até mesmo simpática. Eu não precisava nem mesmo da noite de Natal. Eu estava tão plena e feliz, que ouvia os seus sons de cristal, e não precisava mais que a véspera chegasse. Meu Natal era ali mesmo, naquele momento, presente para sempre, sentindo com meu pequeno seio nascente, as batidas do coração amado de meu irmão.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
A Preceptora (de Alma Welt)
A Preceptora
(Dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Preciso contar a vocês, meus leitores, um episódio de minha adolescência, na estância. Tenho hesitado muito em contar este episódio, por motivos que eu mesma não compreendo bem, já que venho revelando nestas narrativas “secretas”, o mais recôndito de minha vida... e de minha alma, de uma maneira, espero, sincera, e não despudorada.
Eu tinha quinze anos, e minha beleza estava no auge, a tal ponto que a mim mesma me espantava... e comovia, como artista nata, que sempre fui. Por esse motivo, eu era homenageada por todos de minha casa, a exceção de Solange, claro, minha irmã mais velha, e talvez de minha própria mãe, que via esse fato, ao que parece, com temor e desconfiança. O certo é que minha mãe, percebendo o teor particularmente sensual da minha beleza juvenil, resolveu tirar-me da escola, pois descobriu que eu corria perigo diante de mim mesma e dos alunos adolescentes, que me assediavam. Resolveu então, que eu passaria a receber aulas particulares, na grande sala da nossa estância, de uma professora que ela contratou e que chamava, de uma maneira um tanto antiga, de “preceptora”.
Essa moça, de uns trinta e poucos anos, morena, magra, de rosto triste, sério, de cabelos presos e roupa sóbria como uma freira, inspiraria confiança em minha mãe. Começaram as aulas, tudo corria normalmente, e dona Luciana era uma excelente professora de diversas matérias, como matemática, geometria, física, etc. Quanto ao português e história, parecia-me que eu já sabia mais do que ela.
O fato é que dona Luciana, cujo semblante fechado, neutro, a princípio não atraía ninguém, foi-se abrindo, ao longo das nossas aulas, e passou a sorrir e a demonstrar um tom crescente de afetividade, até atingir aquilo que chamamos carinho. Ah! Vocês já podem prever o que aconteceu? Claro, vocês já me conhecem. Sim, eu sem querer, ou querendo sem saber, seduzia gradativamente a minha preceptora.
O primeiro sintoma do meu sucesso, foi o pedido que Luciana fez à minha mãe, para transferirmos as aulas para a mansarda do casarão, onde teríamos mais silêncio e concentração para as aulas, já que o salão era constantemente invadido por empregadas, irmãos e empregados da vinha procurando por meu pai, trazendo-lhe problemas, o que dispersava a nossa atenção.
Montamos a nossa sala de aula no sótão, aposento acolhedor, intimista, e com minúscula janela. Eu já percebia o timbre sub-reptício dessas manobras, mas, como sempre, sendo da minha mais profunda natureza aliar candura à lucidez, ironia à inocência, deixava-me levar por suas iniciativas, com minha passividade de sempre. Luciana estava cada vez mais apaixonada por mim, essa era a verdade visível a olho nu, pelo menos para mim. Essa moça conseguiria disfarçar isso por muito tempo? Eu me perguntava.
Uma tarde, Luciana, enquanto eu escrevia, fingindo-me concentrada, tamborilava os dedos levemente na mesa, denunciando uma certa tensão. Seu olhar fixo sobre mim, começou a parecer com o de uma ave rapinante, e... ela levantou-se afinal, caminhando decididamente em minha direção. Ergui os olhos, assustada realmente, como se ela fosse bater-me, quando agarrou-me pelos ombros, ergueu-me da carteira, e olhando-me fixamente nos olhos, exclamou:
–Não agüento mais, Alma, eu te amo, guria! Eu te amo! Estou apaixonada por ti!
E beijou-me súbita e ardentemente os lábios. Longamente. Eu permaneci passivamente, de pé, tendo meus lábios sugados, mordidos, por essa boca que percebi bela, também, surpreendentemente doce. Ela não tardou a enfiar sua língua em minha boca, para colher minha saliva, sugar o meu hálito, com uma sede infinita, antiga, que agora finalmente saciava.
Em seguida, empurrou-me para o pequeno catre que havia ali, atrás de um biombo chinês, esdrúxulo, herança da avó Morgado. Aquilo sempre estivera ali, e eu já o conhecia... com Rôdo. Ah! Se minha mãe soubesse! Luciana praticamente jogou-me sobre o catre e começou a despir-me, murmurando:
–“Alma, Alminha, deixa-me ver-te. Deixa-me ver a tua beleza. Essa pele, branca como um lírio. Quero ver-te uma vez, e depois posso até .. morrer. Mostra-me, Alma, mostra-me teu corpo!” – ela começou, imprudentemente, a arrebentar botões, a despojar-me de maneira afoita, do meu vestido. Deixei-a fazer o que quis. Logo eu estava nua, deitada à sua frente, largada, a olhá-la com um olhar que eu mesma gostaria de ver. Mais tarde ela me diria que os meus olhos verdes pareciam os de uma gata, nada inocentes, perigosos, e que brilhavam demais na semi-penumbra daquele canto do sótão. Ela então, arrancou seu próprio vestido, expondo a sua magreza tocante, seu corpo carente, sua fome de amor e carinho visível em seus ossos, em suas costelas, seus joelhos ossudos, suas mãos magras e nervosas, que pareciam renascer para as carícias. Essa mulher desabrochava diante dos meus olhos, suas formas agudas, quebradas, se abrandavam, e eu pude imaginá-la mais roliça, mais cheia e mais feliz. Deixei a sua boca e suas mãos ávidas percorrerem-me toda. Deixei que sua saliva me banhasse, como uma vaca à sua bezerra. Ela me banharia inteira, colocando-me até de bruço, para lamber-me por trás...e atrás. Deixei-a fazer tudo o que quis, gemendo... as duas.
Eu sentia que nutria seu corpo maltratado tanto tempo por ela mesma, ou pelo mundo. Eu sentia, por instinto, que podia assim, com minha volúpia, meu prazer, minha passividade ativa, transformar essa lagarta numa borboleta deslumbrante. Eu sentia o meu poder de jovem ninfa. E jamais me esqueceria... ou me arrependeria desses momentos.
Acariciei-a, então, mais ativamente, seu rosto, seus pequenos seios tardios, virgens, que tremiam, e que eu faria desabrochar.
Ela, a minha preceptora, chorava diante mim, como uma aluna, comovida e grata... para sempre.
Alma Welt
21/05/2006
(Dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Preciso contar a vocês, meus leitores, um episódio de minha adolescência, na estância. Tenho hesitado muito em contar este episódio, por motivos que eu mesma não compreendo bem, já que venho revelando nestas narrativas “secretas”, o mais recôndito de minha vida... e de minha alma, de uma maneira, espero, sincera, e não despudorada.
Eu tinha quinze anos, e minha beleza estava no auge, a tal ponto que a mim mesma me espantava... e comovia, como artista nata, que sempre fui. Por esse motivo, eu era homenageada por todos de minha casa, a exceção de Solange, claro, minha irmã mais velha, e talvez de minha própria mãe, que via esse fato, ao que parece, com temor e desconfiança. O certo é que minha mãe, percebendo o teor particularmente sensual da minha beleza juvenil, resolveu tirar-me da escola, pois descobriu que eu corria perigo diante de mim mesma e dos alunos adolescentes, que me assediavam. Resolveu então, que eu passaria a receber aulas particulares, na grande sala da nossa estância, de uma professora que ela contratou e que chamava, de uma maneira um tanto antiga, de “preceptora”.
Essa moça, de uns trinta e poucos anos, morena, magra, de rosto triste, sério, de cabelos presos e roupa sóbria como uma freira, inspiraria confiança em minha mãe. Começaram as aulas, tudo corria normalmente, e dona Luciana era uma excelente professora de diversas matérias, como matemática, geometria, física, etc. Quanto ao português e história, parecia-me que eu já sabia mais do que ela.
O fato é que dona Luciana, cujo semblante fechado, neutro, a princípio não atraía ninguém, foi-se abrindo, ao longo das nossas aulas, e passou a sorrir e a demonstrar um tom crescente de afetividade, até atingir aquilo que chamamos carinho. Ah! Vocês já podem prever o que aconteceu? Claro, vocês já me conhecem. Sim, eu sem querer, ou querendo sem saber, seduzia gradativamente a minha preceptora.
O primeiro sintoma do meu sucesso, foi o pedido que Luciana fez à minha mãe, para transferirmos as aulas para a mansarda do casarão, onde teríamos mais silêncio e concentração para as aulas, já que o salão era constantemente invadido por empregadas, irmãos e empregados da vinha procurando por meu pai, trazendo-lhe problemas, o que dispersava a nossa atenção.
Montamos a nossa sala de aula no sótão, aposento acolhedor, intimista, e com minúscula janela. Eu já percebia o timbre sub-reptício dessas manobras, mas, como sempre, sendo da minha mais profunda natureza aliar candura à lucidez, ironia à inocência, deixava-me levar por suas iniciativas, com minha passividade de sempre. Luciana estava cada vez mais apaixonada por mim, essa era a verdade visível a olho nu, pelo menos para mim. Essa moça conseguiria disfarçar isso por muito tempo? Eu me perguntava.
Uma tarde, Luciana, enquanto eu escrevia, fingindo-me concentrada, tamborilava os dedos levemente na mesa, denunciando uma certa tensão. Seu olhar fixo sobre mim, começou a parecer com o de uma ave rapinante, e... ela levantou-se afinal, caminhando decididamente em minha direção. Ergui os olhos, assustada realmente, como se ela fosse bater-me, quando agarrou-me pelos ombros, ergueu-me da carteira, e olhando-me fixamente nos olhos, exclamou:
–Não agüento mais, Alma, eu te amo, guria! Eu te amo! Estou apaixonada por ti!
E beijou-me súbita e ardentemente os lábios. Longamente. Eu permaneci passivamente, de pé, tendo meus lábios sugados, mordidos, por essa boca que percebi bela, também, surpreendentemente doce. Ela não tardou a enfiar sua língua em minha boca, para colher minha saliva, sugar o meu hálito, com uma sede infinita, antiga, que agora finalmente saciava.
Em seguida, empurrou-me para o pequeno catre que havia ali, atrás de um biombo chinês, esdrúxulo, herança da avó Morgado. Aquilo sempre estivera ali, e eu já o conhecia... com Rôdo. Ah! Se minha mãe soubesse! Luciana praticamente jogou-me sobre o catre e começou a despir-me, murmurando:
–“Alma, Alminha, deixa-me ver-te. Deixa-me ver a tua beleza. Essa pele, branca como um lírio. Quero ver-te uma vez, e depois posso até .. morrer. Mostra-me, Alma, mostra-me teu corpo!” – ela começou, imprudentemente, a arrebentar botões, a despojar-me de maneira afoita, do meu vestido. Deixei-a fazer o que quis. Logo eu estava nua, deitada à sua frente, largada, a olhá-la com um olhar que eu mesma gostaria de ver. Mais tarde ela me diria que os meus olhos verdes pareciam os de uma gata, nada inocentes, perigosos, e que brilhavam demais na semi-penumbra daquele canto do sótão. Ela então, arrancou seu próprio vestido, expondo a sua magreza tocante, seu corpo carente, sua fome de amor e carinho visível em seus ossos, em suas costelas, seus joelhos ossudos, suas mãos magras e nervosas, que pareciam renascer para as carícias. Essa mulher desabrochava diante dos meus olhos, suas formas agudas, quebradas, se abrandavam, e eu pude imaginá-la mais roliça, mais cheia e mais feliz. Deixei a sua boca e suas mãos ávidas percorrerem-me toda. Deixei que sua saliva me banhasse, como uma vaca à sua bezerra. Ela me banharia inteira, colocando-me até de bruço, para lamber-me por trás...e atrás. Deixei-a fazer tudo o que quis, gemendo... as duas.
Eu sentia que nutria seu corpo maltratado tanto tempo por ela mesma, ou pelo mundo. Eu sentia, por instinto, que podia assim, com minha volúpia, meu prazer, minha passividade ativa, transformar essa lagarta numa borboleta deslumbrante. Eu sentia o meu poder de jovem ninfa. E jamais me esqueceria... ou me arrependeria desses momentos.
Acariciei-a, então, mais ativamente, seu rosto, seus pequenos seios tardios, virgens, que tremiam, e que eu faria desabrochar.
Ela, a minha preceptora, chorava diante mim, como uma aluna, comovida e grata... para sempre.
Alma Welt
21/05/2006
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
O Amigo de Modigliani (crônica-fantasia de Alma Welt)
O AMIGO DE MODIGLIANI
Dirijo-me à Galeria, nervosa, na minha primeira exposição. Para a minha agradável surpresa, encontro-a bastante concorrida, os carros sendo manobrados com dificuldade, diante da entrada, cuja vitrine ostenta uma das minhas telas. Mulheres e homens elegantes, gente bonita e os indefectíveis ratos de vernissage que vêm para beber, ou aparecer. Tudo comme il faut.
Nos últimos meses trabalhei como louca para chegar aqui. Consegui interessar à velha marchand, experiente, pelo meu próprio trabalho, acredito. Ela aposta no meu talento e se considera minha “descobridora”. Ofereceu-me esta exposição individual, assim que examinou os desenhos que lhe levei numa pasta. Fez me elogios inusuais, de saída. Levou-me à sua casa para mostrar-me a sua coleção pessoal, fantástica. Ofereceu-me jantares, adotou-me. Percebi que a uma certa altura fazia gosto em deixar-me a sós com seu filho. Mas esse era nitidamente feminino, e só ela não percebia. Não que isso fosse um impedimento, tornou-se um amigo querido.
Agora estou aqui, excitada e feliz com tanto afluxo de gente que pára diante dos meus quadros com ares entendedores e que aproxima-se para me cumprimentar.
O longo que ostento foi me dado pela marchand e sinto-me bela com ele. Não deixei que produzissem muito meu rosto, porque não gosto de parecer uma modelo, sou uma artista de cara lavada, sem pintura. Ainda bem que não destoou do vestido. Os casais que se aproximam para os cumprimentos aproveitam para elogiar-me fisicamente, alguns gaviões também, mas esses em geral me incomodam.
Gosto de falar da minha pintura como todo bom artista, e procuro não deixar-me lisonjear em falso por bajuladores bem ou mal intencionados. Prefiro conversar com outros artistas, sobretudo os mais velhos.
De repente, vejo entrar na galeria um grupo espantoso: várias senhoras e senhores, velhos, velhíssimos, mas elegantérrimos, nitidamente europeus. Elas, com grandes chapéus e vestidos de griffe, umas fumando longas piteiras, outras abanando-se com os catálogos. Os homens, velhos imponentes, com ternos impecáveis conversam com elas diante das minhas telas, com nítido conhecimento. Falam francês, alguns com sotaques estranhos. A uma das mulheres ouvi chamarem de Marússia (isto me soou como um nome russo). Mas dentre todos destacava-se um senhor alto, magro, muito ereto para a sua idade, com uma cabeça de velha águia, um nariz espantoso, aquilino, e vasta cabeleira branca de maestro ou coisa parecida. Uma mistura de Karajan com Leo Bernstein. Maravilhosa figura. Senti-me atraída por ele ia me aproximar, mas ele tomou a dianteira e puxando a tal russa pela mão abordou-me no meio da galeria.
— Oh! Aí está "la jeune fille prodige", disse ele galantemente, estendendo-me a mão. — Marussia, vê como o talento se alia à beleza. Lembra-se da nossa Marie Laurencin? Ah! Eu pensava que já não se faziam musas pintoras como antigamente. "Je suis enchanté" (e beijou-me a mão).
Apesar da galanteria bem francesa, senti uma espécie de imponência nele. Dava-me a impressão de um velho Druida, a quem faltava somente o camisolão. Percebi que homens como esse mexem sempre um caldeirão mágico invisível, aonde preparam suas poções. Por isso sempre senti que o maestro Karajan parecia lidar com esse caldeirão, com aquela economia de gestos de quem está remexendo a sopa de onde brotava sua música. Mas voltemos a Eduard, esse era o seu nome.
Marússia e Eduard, do grupo de velhos foram os mais entusiastas da minha modesta pessoa. Eduard fez comparações fascinantes da minha pintura com a de membros da École de Paris que ele parecia conhecer com notável intimidade. Marússia também parecia conhecer tudo e todos. Eu estava fascinada pelos dois, mas principalmente pelo velho águia.
Lá pelas onze horas, anunciaram sua partida, mas convidando-me com ênfase para que me juntasse ao grupo deles a partir da meia-noite para uma festa em um apartamento próximo, na mesma avenida da galeria.
— Fiquei encantada: poderia ir à pé, desde que me desvencilhasse de alguns novos admiradores que me ofereciam carona, disputando-me para o fim da festa ou começo, como pensavam, certamente.
— Pedi licença para ir ao toalete e fugi pelos fundos da galeria, por um beco que já conhecia, saindo assim à francesa, já que a noite prometia ser franca e joyeuse.
Entrei no prédio indicado, chiquíssimo, cujo porteiro uniformizado parecia já esperar-me, dizendo:
— Ah, a senhorita é a pintora. Pode subir. Estão lhe esperando.
Subi, apertei a campanhia, a porta se abriu e de repente vi-me como num sonho ou delírio, em plenos anos trinta, no entre guerras, em Paris, no meio de espectros antiquíssimos que se moviam com elegância e coqueterie. Parecia uma verdadeira alucinação. Entre pesadas cortinas e poltronas estofadas, um grande piano de cauda pilotado por uma doce abantesma que dedilhava “Les feuilles mortes”, cantando com voz aguda, acompanhada por todos os presentes. Fantasmas velhíssimos, alegres e nostálgicos ao mesmo tempo. Chapéus, boás, piteiras, taças, champagne e mots d’esprit em abundância. Eduard recebeu-me com especial gentileza, juntamente com Marússia e puseram a fazer comentários lisonjeiros sobre a minha exposição e a compará-la com outras de Paris, daqueles anos. Tinham tantas memórias maravilhosas! Meus olhos se encheram de lágrimas quando Marússia me descreveu Nijinsky jovem, que ela conheceu ao vivo dançando “Le spectre de la rose”com Karsavina, em 1911, no Opéra de Monte-Carlo. Meus olhos se arregalaram, para seu deleite, ao ouvir a descrição da trajetória ascendente de sua saída de cena pela janela azul do cenário, ao final da dança. Descreveu-me, como ele caía exausto sobre colchões na coxia, com o coração aos saltos, dores lanscinantes, segurando o peito com as duas mãos, debatendo-se em espasmos enquanto lhe jogavam água fria, fumegante ao contato de seu corpo abrasado, martirizado. Depois recompunha-se, recuperava a “leveza” e voltava para os cumprimentos ao público que o ovacionava delirante. Comovida, para disfarçar, voltei-me então para Eduard, elogiando-lhe a postura elegante, sem barriga, notável na sua idade. Sem sorrir, ele abriu a camisa em plena festa dizendo:
— "Não se iluda, menina, não se iluda!"- e mostrou-me um terrível colete ortopédico, como um espartilho de barbatanas de aço, cheios de fivelas e cadarços, belo como um instrumento de tortura. A seguir, serviu-nos o champanhe e fez um brinde dizendo com o ar enfastiado:
“— La vie est belle, les femmes sont chères et les enfants faciles a faire!...”
Deixei escapar uma gargalhada.
.....................................................................................
Acordo meio ressacada no meu ateliê. Não me lembro bem como cheguei aqui. O telefone toca dentro da minha cabeça. Resmungando, atendo e é a voz característica de Eduard com seu sotaque francês:
— Olá, jeune fille. Comment-allez vous? Quero passar aí para levar-lhe uma coisa. Quando pode me receber? Dê-me sua direction!..
Respondo-lhe que me perdoe, que estou sem condições, mas que me dê seu telefone que ligo assim que melhorar.
Depois de horas e muito suco de laranja, quando começo a sorrir para os acontecimentos da noite em minha memória, giro pelo ateliê com os braços abertos na valsa clássica do espectro da rosa. Meu balé ainda está fresco em meu corpo, pois deixei-o há poucos anos para dedicar-me à pintura.
Saboreio agora a minha pequena glória, e quando o interfone toca, anunciando-me uma corbeille de flores. Recebo-a de peignoir, pelo porteiro que me olha indiscreto da cabeça aos pés. Retiro o cartão do envelope:
“Para a nova musa-pintora, Eduard.
"Antes que as flores percam o viço...”
Sorrio feliz... querido Eduard, meu novo amigo, um tanto amargo, mas que sensibilidade!
Preparo-me para pintar. Dizem que o pintor deve sempre pintar no dia seguinte à vernissage, para não parar nunca. Lembro-me de um outro velho sábio que me perguntou um dia:
— Alma, você pintou hoje? Pensei e disse: —Não, hoje eu não pintei. E ele: — O quadro que você não pintou hoje, você não pintará jamais. Só existe o hoje, aprenda isso.
Ao anoitecer recebo a visita anunciada de Eduard. Veio sozinho, é um velho solteirão. Marússia não é sua mulher. Nem sequer sua amante. Aliás, ele nem gosta muito dela como amiga. Eduard, ainda bem, corteja-me intelectualmente, se posso dizer assim. Esse é seu feitio. Ele só se atrai intelectualmente, e por artistas.
Põe-se a contar casos interessantes de Paris, de sua amizade com os pintores.
Conta-me para o meu espanto que foi amigo de Modigliani, que beberam juntos. Ele sobriamente, o outro... Quantas vezes ele o carregou para o ateliê e o entregou nos braços de Jeanne Hébuterne. Descrevia a beleza do rosto de Amadeo, apesar das bebedeiras. Jeanne o olhava com antipatia, como se ele, Eduard, levasse o seu marido para o mau caminho. Ele, então, a odiava.
Tudo isso me parecia insólito. Eduard era desmistificador numa medida calculada. Assim, o que sobrava sempre era um mito mais duradouro na memória. Percebi que a nossa amizade duraria se eu tivesse muita tolerância e não julgasse nunca moralmente o velho egoísta que ele era.
Ele era o anti-burguês "par excellence". E a sua escolha da minha pessoa, lisonjeava-me como artista verdadeira. Ele não me via como uma “burguesinha talentosa”, mas como alguém que dava continuidade às suas memórias da boêmia de Paris, no seu exílio provinciano. Tirava da manga (ou do caldeirão), como um mágico, casos e mais casos, sempre oportunos e engraçados, de seus amigos pintores, poetas e músicos, de sua juventude parisiense. Eu ria muito, deliciada.
Contou-me também que fora ao café onde, junto com Chain Soutine, bebia com Modigliani, numa mesinha de calçada, no dia seguinte à morte do pintor. Encontrara o toldo rasgado, um cordão de isolamento e a mesa quebrada encostada na parede. Jeanne havia se atirado, de manhã, de uns andares acima, da janela do ateliê deles, atravessando o toldo e estatelando-se sobre a mesa em que o marido costumava beber.
Nunca mais Eduard sentou-se naquele café. Eu ouvia essas histórias, creio que com um olhar sonhador, transportando-me àquele tempo, àquela cidade da minha fantasia. Eduard sabia disso. O velho mago era um sedutor de almas permanente.
Contava-me até mesmo uns casos inéditos de Picasso. Ele o conhecia com alguma cerimônia, não eram próximos. Picasso era um tremendo monstro sagrado até para os seus amigos mais íntimos. Um dia, num café, Picasso, diante de um drink que ele não tocava, e cercado de uma corte de amigos e conhecidos entre os quais Eduard, foi perguntado por uma senhora meio simplória:
— Pablo, o que você acha do impressionismo?
E Picasso respondeu:
— O impressionismo? Ah sim, é muito bom quando se precisa saber se devemos levar o guarda-chuva!
Gargalhada geral, e no dia seguinte a piada corria Paris inteira, pelo menos nos “meios”.
Eduard agora vinha quase todos os dias ao meu ateliê. Tive que pôr um freio, ou não trabalharia mais. Mas nossa amizade se consolidou, quando um dia Eduard apresentou-me sua irmã Margot. Ela era mulher do grande pintor Sanson Flexor. Sobre eles contou-me o seguinte: Margot e Sanson fugiam através da França ocupada. Tinham que atravessar uma fronteira vigiada pelos nazistas para sair do país. Tentaram atravessar à noite. Um holofote, um apito e foram pegos. Foram levados a um posto policial diante de um major alemão, que lhes disse que seriam fuzilados imediatamente. Flexor era judeu, da Bessarábia, que passara a infância em Berlim. Olhando bem o Major reconheceu um antigo colega de escola. Disse-lhe:
— Major, não está me reconhecendo? Sou eu, Sanson, seu colega de ginásio.
O Major olhou-o bem e disse: Ah! Sanson! Sim, é você, que vivia desenhando nos cadernos durante as aulas, um caso perdido, hein Sanson? O que você se tornou afinal?
— Major, eu me tornei um pintor, um artista, profissional. Eu pinto quadros, Major.
— Pintor, hein, Sanson. Muito bem. Então, vou lhe dar uma chance. Você vai desenhar o meu retrato já, aqui. Se eu gostar do retrato, se achar que está bom, que ele parece comigo, deixo-os passar, senão...
Pediu ao ordenança que lhe trouxesse um papel e um lápis e os pôs diante de Flexor, sobre a mesa. O pintor começou imediatamente a desenhar olhando intermitentemente o modelo. Logo depôs o lápis e entregou o papel ao Major. Este olhou, olhou, em silêncio, num terrível suspense. Então estalou os dedos e chamou o ordenança , passou-lhe o papel, perguntando-lhe:
—Então, cabo, o que você acha? Parece-se comigo?
—Sim, Major, parece sim, está muito bom. Tal e qual.
—Sanson, disse então o Major. Podem passar!
Anos se passaram. Presenteei quadros ao Eduard, mas defendia-me bastante de suas atitudes às vezes invasivas. Quanto à minha pintura, ele nada mais dizia, mas sempre isolava detalhes, enquadrando-os com as duas mãos sobre a tela no cavalete, em silêncio, olhando-me sugestivamente, o que, então, me irritava.
Ele começou a entrar em declínio. Suas dores físicas aumentaram, sua ironia também.
Um dia fez um comentário perspicaz, mas cruel sobre o retrato que eu pintava de uma amiga. A moça, presente, fechou-lhe a cara e encerrou-se chorando no quarto. Eduard, exasperado, implorou-me que interviesse, para que ela o desculpasse, dizendo:
—Se sua amiga não me perdoar, eu vou odiá-la.
Tinha a sinceridade de um "enfant-terrible".
...........................................
Afinal, chegou o tempo das Dores e dos Desencantos. Eu estaria ao seu lado no final, coisa que ele não pedia, mas esperava.
Ao lado de sua cama eu meditava sobre o significado de nosso encontro nesta vida. Eu, uma simples moça brasileira, pintora, jovem, e o amigo de Modigliani, que se dera ao luxo de odiar Jeanne Hébuterne, hoje uma musa histórica. Acabei encontrando estranhos signos nisso tudo. Mas prefiro calá-los em meu coração para que se transformem no "pure morceau de peinture" que o velho mago em silêncio reclamava.
Alma Welt
21/12/2001
_____________________________________________
Nota da editora:
Esta inusitada e encantadora "crônica-fantasia", como Alma a designou, foi recém-descoberta por mim na sua arca no nosso sótão, aqui no casarão. Trata-se mesmo de uma fantasia, malgrado o seu teor realista e verossímil, pois minha irmã, que morreu com apenas 35 anos em Janeiro deste ano, não tinha idade para ter sido a amiga jovem de um contemporâneo e amigo do grande pintor Modigliani (1884-1920). (Lucia Welt)
Dirijo-me à Galeria, nervosa, na minha primeira exposição. Para a minha agradável surpresa, encontro-a bastante concorrida, os carros sendo manobrados com dificuldade, diante da entrada, cuja vitrine ostenta uma das minhas telas. Mulheres e homens elegantes, gente bonita e os indefectíveis ratos de vernissage que vêm para beber, ou aparecer. Tudo comme il faut.
Nos últimos meses trabalhei como louca para chegar aqui. Consegui interessar à velha marchand, experiente, pelo meu próprio trabalho, acredito. Ela aposta no meu talento e se considera minha “descobridora”. Ofereceu-me esta exposição individual, assim que examinou os desenhos que lhe levei numa pasta. Fez me elogios inusuais, de saída. Levou-me à sua casa para mostrar-me a sua coleção pessoal, fantástica. Ofereceu-me jantares, adotou-me. Percebi que a uma certa altura fazia gosto em deixar-me a sós com seu filho. Mas esse era nitidamente feminino, e só ela não percebia. Não que isso fosse um impedimento, tornou-se um amigo querido.
Agora estou aqui, excitada e feliz com tanto afluxo de gente que pára diante dos meus quadros com ares entendedores e que aproxima-se para me cumprimentar.
O longo que ostento foi me dado pela marchand e sinto-me bela com ele. Não deixei que produzissem muito meu rosto, porque não gosto de parecer uma modelo, sou uma artista de cara lavada, sem pintura. Ainda bem que não destoou do vestido. Os casais que se aproximam para os cumprimentos aproveitam para elogiar-me fisicamente, alguns gaviões também, mas esses em geral me incomodam.
Gosto de falar da minha pintura como todo bom artista, e procuro não deixar-me lisonjear em falso por bajuladores bem ou mal intencionados. Prefiro conversar com outros artistas, sobretudo os mais velhos.
De repente, vejo entrar na galeria um grupo espantoso: várias senhoras e senhores, velhos, velhíssimos, mas elegantérrimos, nitidamente europeus. Elas, com grandes chapéus e vestidos de griffe, umas fumando longas piteiras, outras abanando-se com os catálogos. Os homens, velhos imponentes, com ternos impecáveis conversam com elas diante das minhas telas, com nítido conhecimento. Falam francês, alguns com sotaques estranhos. A uma das mulheres ouvi chamarem de Marússia (isto me soou como um nome russo). Mas dentre todos destacava-se um senhor alto, magro, muito ereto para a sua idade, com uma cabeça de velha águia, um nariz espantoso, aquilino, e vasta cabeleira branca de maestro ou coisa parecida. Uma mistura de Karajan com Leo Bernstein. Maravilhosa figura. Senti-me atraída por ele ia me aproximar, mas ele tomou a dianteira e puxando a tal russa pela mão abordou-me no meio da galeria.
— Oh! Aí está "la jeune fille prodige", disse ele galantemente, estendendo-me a mão. — Marussia, vê como o talento se alia à beleza. Lembra-se da nossa Marie Laurencin? Ah! Eu pensava que já não se faziam musas pintoras como antigamente. "Je suis enchanté" (e beijou-me a mão).
Apesar da galanteria bem francesa, senti uma espécie de imponência nele. Dava-me a impressão de um velho Druida, a quem faltava somente o camisolão. Percebi que homens como esse mexem sempre um caldeirão mágico invisível, aonde preparam suas poções. Por isso sempre senti que o maestro Karajan parecia lidar com esse caldeirão, com aquela economia de gestos de quem está remexendo a sopa de onde brotava sua música. Mas voltemos a Eduard, esse era o seu nome.
Marússia e Eduard, do grupo de velhos foram os mais entusiastas da minha modesta pessoa. Eduard fez comparações fascinantes da minha pintura com a de membros da École de Paris que ele parecia conhecer com notável intimidade. Marússia também parecia conhecer tudo e todos. Eu estava fascinada pelos dois, mas principalmente pelo velho águia.
Lá pelas onze horas, anunciaram sua partida, mas convidando-me com ênfase para que me juntasse ao grupo deles a partir da meia-noite para uma festa em um apartamento próximo, na mesma avenida da galeria.
— Fiquei encantada: poderia ir à pé, desde que me desvencilhasse de alguns novos admiradores que me ofereciam carona, disputando-me para o fim da festa ou começo, como pensavam, certamente.
— Pedi licença para ir ao toalete e fugi pelos fundos da galeria, por um beco que já conhecia, saindo assim à francesa, já que a noite prometia ser franca e joyeuse.
Entrei no prédio indicado, chiquíssimo, cujo porteiro uniformizado parecia já esperar-me, dizendo:
— Ah, a senhorita é a pintora. Pode subir. Estão lhe esperando.
Subi, apertei a campanhia, a porta se abriu e de repente vi-me como num sonho ou delírio, em plenos anos trinta, no entre guerras, em Paris, no meio de espectros antiquíssimos que se moviam com elegância e coqueterie. Parecia uma verdadeira alucinação. Entre pesadas cortinas e poltronas estofadas, um grande piano de cauda pilotado por uma doce abantesma que dedilhava “Les feuilles mortes”, cantando com voz aguda, acompanhada por todos os presentes. Fantasmas velhíssimos, alegres e nostálgicos ao mesmo tempo. Chapéus, boás, piteiras, taças, champagne e mots d’esprit em abundância. Eduard recebeu-me com especial gentileza, juntamente com Marússia e puseram a fazer comentários lisonjeiros sobre a minha exposição e a compará-la com outras de Paris, daqueles anos. Tinham tantas memórias maravilhosas! Meus olhos se encheram de lágrimas quando Marússia me descreveu Nijinsky jovem, que ela conheceu ao vivo dançando “Le spectre de la rose”com Karsavina, em 1911, no Opéra de Monte-Carlo. Meus olhos se arregalaram, para seu deleite, ao ouvir a descrição da trajetória ascendente de sua saída de cena pela janela azul do cenário, ao final da dança. Descreveu-me, como ele caía exausto sobre colchões na coxia, com o coração aos saltos, dores lanscinantes, segurando o peito com as duas mãos, debatendo-se em espasmos enquanto lhe jogavam água fria, fumegante ao contato de seu corpo abrasado, martirizado. Depois recompunha-se, recuperava a “leveza” e voltava para os cumprimentos ao público que o ovacionava delirante. Comovida, para disfarçar, voltei-me então para Eduard, elogiando-lhe a postura elegante, sem barriga, notável na sua idade. Sem sorrir, ele abriu a camisa em plena festa dizendo:
— "Não se iluda, menina, não se iluda!"- e mostrou-me um terrível colete ortopédico, como um espartilho de barbatanas de aço, cheios de fivelas e cadarços, belo como um instrumento de tortura. A seguir, serviu-nos o champanhe e fez um brinde dizendo com o ar enfastiado:
“— La vie est belle, les femmes sont chères et les enfants faciles a faire!...”
Deixei escapar uma gargalhada.
.....................................................................................
Acordo meio ressacada no meu ateliê. Não me lembro bem como cheguei aqui. O telefone toca dentro da minha cabeça. Resmungando, atendo e é a voz característica de Eduard com seu sotaque francês:
— Olá, jeune fille. Comment-allez vous? Quero passar aí para levar-lhe uma coisa. Quando pode me receber? Dê-me sua direction!..
Respondo-lhe que me perdoe, que estou sem condições, mas que me dê seu telefone que ligo assim que melhorar.
Depois de horas e muito suco de laranja, quando começo a sorrir para os acontecimentos da noite em minha memória, giro pelo ateliê com os braços abertos na valsa clássica do espectro da rosa. Meu balé ainda está fresco em meu corpo, pois deixei-o há poucos anos para dedicar-me à pintura.
Saboreio agora a minha pequena glória, e quando o interfone toca, anunciando-me uma corbeille de flores. Recebo-a de peignoir, pelo porteiro que me olha indiscreto da cabeça aos pés. Retiro o cartão do envelope:
“Para a nova musa-pintora, Eduard.
"Antes que as flores percam o viço...”
Sorrio feliz... querido Eduard, meu novo amigo, um tanto amargo, mas que sensibilidade!
Preparo-me para pintar. Dizem que o pintor deve sempre pintar no dia seguinte à vernissage, para não parar nunca. Lembro-me de um outro velho sábio que me perguntou um dia:
— Alma, você pintou hoje? Pensei e disse: —Não, hoje eu não pintei. E ele: — O quadro que você não pintou hoje, você não pintará jamais. Só existe o hoje, aprenda isso.
Ao anoitecer recebo a visita anunciada de Eduard. Veio sozinho, é um velho solteirão. Marússia não é sua mulher. Nem sequer sua amante. Aliás, ele nem gosta muito dela como amiga. Eduard, ainda bem, corteja-me intelectualmente, se posso dizer assim. Esse é seu feitio. Ele só se atrai intelectualmente, e por artistas.
Põe-se a contar casos interessantes de Paris, de sua amizade com os pintores.
Conta-me para o meu espanto que foi amigo de Modigliani, que beberam juntos. Ele sobriamente, o outro... Quantas vezes ele o carregou para o ateliê e o entregou nos braços de Jeanne Hébuterne. Descrevia a beleza do rosto de Amadeo, apesar das bebedeiras. Jeanne o olhava com antipatia, como se ele, Eduard, levasse o seu marido para o mau caminho. Ele, então, a odiava.
Tudo isso me parecia insólito. Eduard era desmistificador numa medida calculada. Assim, o que sobrava sempre era um mito mais duradouro na memória. Percebi que a nossa amizade duraria se eu tivesse muita tolerância e não julgasse nunca moralmente o velho egoísta que ele era.
Ele era o anti-burguês "par excellence". E a sua escolha da minha pessoa, lisonjeava-me como artista verdadeira. Ele não me via como uma “burguesinha talentosa”, mas como alguém que dava continuidade às suas memórias da boêmia de Paris, no seu exílio provinciano. Tirava da manga (ou do caldeirão), como um mágico, casos e mais casos, sempre oportunos e engraçados, de seus amigos pintores, poetas e músicos, de sua juventude parisiense. Eu ria muito, deliciada.
Contou-me também que fora ao café onde, junto com Chain Soutine, bebia com Modigliani, numa mesinha de calçada, no dia seguinte à morte do pintor. Encontrara o toldo rasgado, um cordão de isolamento e a mesa quebrada encostada na parede. Jeanne havia se atirado, de manhã, de uns andares acima, da janela do ateliê deles, atravessando o toldo e estatelando-se sobre a mesa em que o marido costumava beber.
Nunca mais Eduard sentou-se naquele café. Eu ouvia essas histórias, creio que com um olhar sonhador, transportando-me àquele tempo, àquela cidade da minha fantasia. Eduard sabia disso. O velho mago era um sedutor de almas permanente.
Contava-me até mesmo uns casos inéditos de Picasso. Ele o conhecia com alguma cerimônia, não eram próximos. Picasso era um tremendo monstro sagrado até para os seus amigos mais íntimos. Um dia, num café, Picasso, diante de um drink que ele não tocava, e cercado de uma corte de amigos e conhecidos entre os quais Eduard, foi perguntado por uma senhora meio simplória:
— Pablo, o que você acha do impressionismo?
E Picasso respondeu:
— O impressionismo? Ah sim, é muito bom quando se precisa saber se devemos levar o guarda-chuva!
Gargalhada geral, e no dia seguinte a piada corria Paris inteira, pelo menos nos “meios”.
Eduard agora vinha quase todos os dias ao meu ateliê. Tive que pôr um freio, ou não trabalharia mais. Mas nossa amizade se consolidou, quando um dia Eduard apresentou-me sua irmã Margot. Ela era mulher do grande pintor Sanson Flexor. Sobre eles contou-me o seguinte: Margot e Sanson fugiam através da França ocupada. Tinham que atravessar uma fronteira vigiada pelos nazistas para sair do país. Tentaram atravessar à noite. Um holofote, um apito e foram pegos. Foram levados a um posto policial diante de um major alemão, que lhes disse que seriam fuzilados imediatamente. Flexor era judeu, da Bessarábia, que passara a infância em Berlim. Olhando bem o Major reconheceu um antigo colega de escola. Disse-lhe:
— Major, não está me reconhecendo? Sou eu, Sanson, seu colega de ginásio.
O Major olhou-o bem e disse: Ah! Sanson! Sim, é você, que vivia desenhando nos cadernos durante as aulas, um caso perdido, hein Sanson? O que você se tornou afinal?
— Major, eu me tornei um pintor, um artista, profissional. Eu pinto quadros, Major.
— Pintor, hein, Sanson. Muito bem. Então, vou lhe dar uma chance. Você vai desenhar o meu retrato já, aqui. Se eu gostar do retrato, se achar que está bom, que ele parece comigo, deixo-os passar, senão...
Pediu ao ordenança que lhe trouxesse um papel e um lápis e os pôs diante de Flexor, sobre a mesa. O pintor começou imediatamente a desenhar olhando intermitentemente o modelo. Logo depôs o lápis e entregou o papel ao Major. Este olhou, olhou, em silêncio, num terrível suspense. Então estalou os dedos e chamou o ordenança , passou-lhe o papel, perguntando-lhe:
—Então, cabo, o que você acha? Parece-se comigo?
—Sim, Major, parece sim, está muito bom. Tal e qual.
—Sanson, disse então o Major. Podem passar!
Anos se passaram. Presenteei quadros ao Eduard, mas defendia-me bastante de suas atitudes às vezes invasivas. Quanto à minha pintura, ele nada mais dizia, mas sempre isolava detalhes, enquadrando-os com as duas mãos sobre a tela no cavalete, em silêncio, olhando-me sugestivamente, o que, então, me irritava.
Ele começou a entrar em declínio. Suas dores físicas aumentaram, sua ironia também.
Um dia fez um comentário perspicaz, mas cruel sobre o retrato que eu pintava de uma amiga. A moça, presente, fechou-lhe a cara e encerrou-se chorando no quarto. Eduard, exasperado, implorou-me que interviesse, para que ela o desculpasse, dizendo:
—Se sua amiga não me perdoar, eu vou odiá-la.
Tinha a sinceridade de um "enfant-terrible".
...........................................
Afinal, chegou o tempo das Dores e dos Desencantos. Eu estaria ao seu lado no final, coisa que ele não pedia, mas esperava.
Ao lado de sua cama eu meditava sobre o significado de nosso encontro nesta vida. Eu, uma simples moça brasileira, pintora, jovem, e o amigo de Modigliani, que se dera ao luxo de odiar Jeanne Hébuterne, hoje uma musa histórica. Acabei encontrando estranhos signos nisso tudo. Mas prefiro calá-los em meu coração para que se transformem no "pure morceau de peinture" que o velho mago em silêncio reclamava.
Alma Welt
21/12/2001
_____________________________________________
Nota da editora:
Esta inusitada e encantadora "crônica-fantasia", como Alma a designou, foi recém-descoberta por mim na sua arca no nosso sótão, aqui no casarão. Trata-se mesmo de uma fantasia, malgrado o seu teor realista e verossímil, pois minha irmã, que morreu com apenas 35 anos em Janeiro deste ano, não tinha idade para ter sido a amiga jovem de um contemporâneo e amigo do grande pintor Modigliani (1884-1920). (Lucia Welt)
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Capa do livro CONTOS DA ALMA, de Alma Welt- O desenho representa uma cena do mito de Eros e Psiqué na sua versão clássica, a do livro do escritor latino do II século, Lucius Apuleius, "Metamorfoses ou o Asno de Ouro" (Cupido e Psiqué). Note-se que, no desenho de Guilherme, a Psiqué é um retrato fiel da própria Alma Welt. O livro Contos da Alma encontra-se à venda em diversas livrarias de São Paulo, como a Livraria Cultura e Livraria da Vila, por exemplo, e o preço de capa é R$ 32,00.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Alma nostálgica, ou Carta da "Mentira Vital" (de Alma Welt)
Andrea querida
Minha morena, estás escorrendo, não é? Guarda um pouco desse caldinho para mim. Já imaginaste quantos hormônios e feromônios contém esse precioso fluido? Degustá-lo, bebê-lo deve reforçar a nossa feminilidade gloriosa. Por falar nisso, hoje não teve terapia, e passeei horas a cavalo com minha doutora Jensen, pelas pradarias. Fomos muito longe, e na nossa intimidade também. La Jensen é o máximo, que mulher incrível! Ela já esteve até na África, trabalhando, e sua experiência internacional de vida é algo que daria um filme maravilhoso.
Ela faz tudo para pôr-me para cima, o que no meu caso não é simples, pois ela sabe que não sou um caso de baixa auto-estima, mas tenho uma síndrome bem mais sutil e complicada. Ela diz que eu, como artista me auto-glorifico, chego mesmo a me auto-mitificar, e que isso é comum aos bons artistas, e que não é aí que reside portanto o meu “pathos” que ela denominou lisongeiramente de “weltiano”, universalizando o meu caso. Ela citou, enquanto cavalgamos a passo, a teoria da “Mentira Vital” de Otto Rank, segundo a qual, as crianças por volta dos quatro anos, ao tomar contato com as próprias fezes de uma maneira diferente, como algo decomposto que lhes sai de dentro, têm uma súbita consciência da própria morte, que lhes seria fatal pela angústia mortal se assomasse totalmente ao consciente. Então, segundo Rank, mecanismos naturais de defesa interpõem uma espécie de comporta entre inconsciente e consciente, estancando essa consciência fatal. Daí pra diante vivemos como se a morte não fosse nunca a nossa, e sim algo que só ocorre no outro. A isso ele chamou de “mentira vital”, que nos permite viver. Mas segundo ele, o Artista sofre de um defeito desse mecanismo de defeza, uma espécie de rachadura na comporta, por onde emanam eflúvios da consciência de morte, produzindo uma angústia criativa. Entretanto, essa rachadura tende a se alargar, como uma fenda numa comporta de represa. “Si non è vero...” Ai! Andreazinha, paga-se um alto preço por se ser artista. Eu às vezes queria ser apenas mulher, ou melhor, uma guriazinha de cabeça ôca, casadinha e com filhos, como minha mãe queria. Mas agora é tarde. Ao pôr-do-sol, no meu pampeiro, ao lado da doutora, eu soltei um gemido, e as lágrimas começaram a descer. Uma saudade, Andréa, uma nostalgia de tudo, do que vivi e do que não vivi! E queria me dissolver naquele poente como nos meus amores passados, presentes e futuros. E em ti, guria, que só conheço por dentro, e tão pouco, mas que és tão terna e compreensiva com esta doida Alma inquieta.
Então, a doutora apeou, estendeu-me os braços e disse: “Apeie, Alma, sentemos nesta relva e vamos esperar as estrelas surgirem. Elas relativizam tudo com a sua grandeza, com a sua distância e impassibilidade. Com sua eternidade, talvez. Vamos simplesmente olhá-las, como mãe e filha, abraçadas, minha querida”. Assim ficamos, eu chorando baixinho abraçada à minha doutora sábia, que chegou tarde demais para ser minha guru, e que parece querer somente consolar-me de uma dor perante a qual ela se sabe impotente. Uma mãe terna e velha, que não pode mais proteger a sua filha do mundo, da vida, da dor da vida.
Ao voltarmos para casa já anoitecida, Rodo nos esperava na varanda, sentado na cadeira de balanço, tomando um chimarrão, com música de piano, Chopin, no aparelho, o que só aumentou minha nostalgia. Fiz um esforço e pus música de fandango, e puxei meu irmãozinho para dançarmos juntos para a doutora Jensen que deu boas gargalhadas. Rimos muito, Andréa. E eu senti que por hoje me salvei. Sobrevivi. Quero minhas crianças, Andrea. Não podem me tirar minhas crianças. Também sou uma, não podem me deixar sozinha...
Tua Alma que ama e sofre
24/07/2006
________________________________________________________________-
Comentários
O poeta Cláudio Bento escreveu:
"Assino embaixo, Alma Welt é tudo isto e muito mais. Ele fazia uma literatura sem precedentes na história da poesia brasileira, na história do romance brasileiro, do conto brasileiro. O Brasil precisa banhar-se na luz e nas letras desta mulher talentosa e bela."
Solange Lima escreveu:
"Eu soube que Alma escreveu a série de "Cartas à Andrea" em e.mails. As duas amantes nunca se viram, nem ouviram sequer as suas vozes: nunca se telefonaram. Trata-se de um um romance digital- erótico- platônico, típico da nossa época virtual. A diferença está em que produziu, pelo talento e ardência da poetisa Alma, um extraordinário e belíssimo romance epistolar que teminou em tragédia. Sei disso porque conheci a Andrea e tive esse volume (alentado) nas mãos. Trata-se da coisa mais comovente que li nas últimas décadas. Insisti com a Andrea para o que o puiblique. Há problemas, pois há muitos momentos demasiadamente íntimos, e de um exacerbado erotismo, nunca visto na literatura feminina. Mas a meu ver por isso mesmo seria revolucionário..."
eliana mattos escreveu:
"Eis uma carta comovedora, pungente, típica do universo riquíssimo da poetisa Alma. Ela contém mesmo o embrião de sua morte, fruto da doença que cresceria nela: sua angústia da consciência profunda da própria morte, que vitimou tantos artistas através da História. Alma nos comove com seu talento, sua beleza interior e seu drama. Ela é sem sem dúvida, a maior poetisa surgida no final do século XX em língua portuguesa."
Minha morena, estás escorrendo, não é? Guarda um pouco desse caldinho para mim. Já imaginaste quantos hormônios e feromônios contém esse precioso fluido? Degustá-lo, bebê-lo deve reforçar a nossa feminilidade gloriosa. Por falar nisso, hoje não teve terapia, e passeei horas a cavalo com minha doutora Jensen, pelas pradarias. Fomos muito longe, e na nossa intimidade também. La Jensen é o máximo, que mulher incrível! Ela já esteve até na África, trabalhando, e sua experiência internacional de vida é algo que daria um filme maravilhoso.
Ela faz tudo para pôr-me para cima, o que no meu caso não é simples, pois ela sabe que não sou um caso de baixa auto-estima, mas tenho uma síndrome bem mais sutil e complicada. Ela diz que eu, como artista me auto-glorifico, chego mesmo a me auto-mitificar, e que isso é comum aos bons artistas, e que não é aí que reside portanto o meu “pathos” que ela denominou lisongeiramente de “weltiano”, universalizando o meu caso. Ela citou, enquanto cavalgamos a passo, a teoria da “Mentira Vital” de Otto Rank, segundo a qual, as crianças por volta dos quatro anos, ao tomar contato com as próprias fezes de uma maneira diferente, como algo decomposto que lhes sai de dentro, têm uma súbita consciência da própria morte, que lhes seria fatal pela angústia mortal se assomasse totalmente ao consciente. Então, segundo Rank, mecanismos naturais de defesa interpõem uma espécie de comporta entre inconsciente e consciente, estancando essa consciência fatal. Daí pra diante vivemos como se a morte não fosse nunca a nossa, e sim algo que só ocorre no outro. A isso ele chamou de “mentira vital”, que nos permite viver. Mas segundo ele, o Artista sofre de um defeito desse mecanismo de defeza, uma espécie de rachadura na comporta, por onde emanam eflúvios da consciência de morte, produzindo uma angústia criativa. Entretanto, essa rachadura tende a se alargar, como uma fenda numa comporta de represa. “Si non è vero...” Ai! Andreazinha, paga-se um alto preço por se ser artista. Eu às vezes queria ser apenas mulher, ou melhor, uma guriazinha de cabeça ôca, casadinha e com filhos, como minha mãe queria. Mas agora é tarde. Ao pôr-do-sol, no meu pampeiro, ao lado da doutora, eu soltei um gemido, e as lágrimas começaram a descer. Uma saudade, Andréa, uma nostalgia de tudo, do que vivi e do que não vivi! E queria me dissolver naquele poente como nos meus amores passados, presentes e futuros. E em ti, guria, que só conheço por dentro, e tão pouco, mas que és tão terna e compreensiva com esta doida Alma inquieta.
Então, a doutora apeou, estendeu-me os braços e disse: “Apeie, Alma, sentemos nesta relva e vamos esperar as estrelas surgirem. Elas relativizam tudo com a sua grandeza, com a sua distância e impassibilidade. Com sua eternidade, talvez. Vamos simplesmente olhá-las, como mãe e filha, abraçadas, minha querida”. Assim ficamos, eu chorando baixinho abraçada à minha doutora sábia, que chegou tarde demais para ser minha guru, e que parece querer somente consolar-me de uma dor perante a qual ela se sabe impotente. Uma mãe terna e velha, que não pode mais proteger a sua filha do mundo, da vida, da dor da vida.
Ao voltarmos para casa já anoitecida, Rodo nos esperava na varanda, sentado na cadeira de balanço, tomando um chimarrão, com música de piano, Chopin, no aparelho, o que só aumentou minha nostalgia. Fiz um esforço e pus música de fandango, e puxei meu irmãozinho para dançarmos juntos para a doutora Jensen que deu boas gargalhadas. Rimos muito, Andréa. E eu senti que por hoje me salvei. Sobrevivi. Quero minhas crianças, Andrea. Não podem me tirar minhas crianças. Também sou uma, não podem me deixar sozinha...
Tua Alma que ama e sofre
24/07/2006
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Comentários
O poeta Cláudio Bento escreveu:
"Assino embaixo, Alma Welt é tudo isto e muito mais. Ele fazia uma literatura sem precedentes na história da poesia brasileira, na história do romance brasileiro, do conto brasileiro. O Brasil precisa banhar-se na luz e nas letras desta mulher talentosa e bela."
Solange Lima escreveu:
"Eu soube que Alma escreveu a série de "Cartas à Andrea" em e.mails. As duas amantes nunca se viram, nem ouviram sequer as suas vozes: nunca se telefonaram. Trata-se de um um romance digital- erótico- platônico, típico da nossa época virtual. A diferença está em que produziu, pelo talento e ardência da poetisa Alma, um extraordinário e belíssimo romance epistolar que teminou em tragédia. Sei disso porque conheci a Andrea e tive esse volume (alentado) nas mãos. Trata-se da coisa mais comovente que li nas últimas décadas. Insisti com a Andrea para o que o puiblique. Há problemas, pois há muitos momentos demasiadamente íntimos, e de um exacerbado erotismo, nunca visto na literatura feminina. Mas a meu ver por isso mesmo seria revolucionário..."
eliana mattos escreveu:
"Eis uma carta comovedora, pungente, típica do universo riquíssimo da poetisa Alma. Ela contém mesmo o embrião de sua morte, fruto da doença que cresceria nela: sua angústia da consciência profunda da própria morte, que vitimou tantos artistas através da História. Alma nos comove com seu talento, sua beleza interior e seu drama. Ela é sem sem dúvida, a maior poetisa surgida no final do século XX em língua portuguesa."
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
As pequenas flores do riso ( de Alma Welt)
(dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Não suporto mais. Preciso voltar ao sul. Este apartamento, que eu chamo de ateliê, dentro de um condomínio burguês, em plena Oscar Freire, no meio dessas lojas sofisticadas, tudo isso começa a me enojar. Eu sei, meu estúdio é belo, eu o fiz assim. Mas nada disso tem a ver com as minhas raízes, que estão no campo, isto é, no Pampa, no meu casarão, no meio do meu jardim, do meu pomar e do vinhedo do meu avô; que me esperam, eu sei. E sei, porque se me ausento por longo tempo noto-lhes o ar de decadência. E se ali demoro, vejo tudo reflorescer, vivificar-se. Rôdo não se importa tanto: ele não pára, suas ausências são mais prolongadas que as minhas, ele roda o mundo. Ele diz: “Alminha, por quê perdes tempo nessa cidade? Ela te engolirá! São Paulo não é uma cidade, é um vício, uma dissipação. Prefiro os meus cassinos e pousadas, interligados pelas mais belas paisagens do mundo, que percorro, com o rosto ao vento, no meu Porsche. Por quê não vens comigo? Eu te farei viver outras aventuras. Lembras-te de quando éramos crianças? Eras tão curiosa e aventureira quanto eu, e devassávamos nosso pequeno pampa, num raio de pelo menos cinco quilômetros em torno do casarão. Alma, estás te desperdiçando, o que esperas? O prêmio Nobel da Literatura Sedentária? Vamos, venha comigo!”
Eu me abracei a Rôdo, e o cobri de beijos. Mas, isso foi sempre assim! Cada vez que o meu irmãozinho me dá um conselho, ou se estende num comentário sobre mim, sobre nós, eu me enterneço e beijo-o, beijo-o, até ele se cansar e me afastar, rindo, e dizendo-me “pegajosa”. Ai! Rôdo, como alguém pode ser tão exemplarmente viril, como tu? Eu te vi puxar uma faca, uma vez, quando ameaçado por um peão que me desrespeitara, e não demonstravas medo no olhar, mas, sim, fúria. E eu, entre sincera e brincalhona, exclamei o clássico “meu herói!” e cobri-te de beijos. Naquela noite me possuístes, e eu me senti tua para sempre. Que mais posso querer? Eu sou, ou fui, a amada de meu irmão-herói, que aventura mais posso querer?
Entretanto faço as malas, mais uma vez, para retornar às fontes. Preciso daquelas águas, daquelas flores. Minhas “pequenas flores do riso”, como eu as chamo. Ali, naquele jardim plantado por minha mãe, e sua melhor herança, as crianças parecem estar no seu elemento, seu habitat. Anseio olhar mais uma vez para Patrícia, Pedrinho, Hans e Christian, meus adorados sobrinhos, por ali, correndo, colhendo flores e as desperdiçando, como animaizinhos brincalhões, como filhotes. Ali, assim, eu tenho certeza de que a vida é bela, e que meu coração sofre apenas pelo progressivo esmaecimento dessa imagem, desse manancial.. A vida é um afastamento gradativo de uma fonte inefável de beleza: a Era do Sonho de nossa infância; e dói, dói estar tão consciente dessa viagem, sem volta, a não ser no mesmo sonho, prerrogativa divina, da ternura de Deus, que ele nos legou. Ele nos deu o Sonho, não perderemos nada, no final. E regressaremos, por fim, às pequenas flores do riso.
_________________________
22/08/2005
Não suporto mais. Preciso voltar ao sul. Este apartamento, que eu chamo de ateliê, dentro de um condomínio burguês, em plena Oscar Freire, no meio dessas lojas sofisticadas, tudo isso começa a me enojar. Eu sei, meu estúdio é belo, eu o fiz assim. Mas nada disso tem a ver com as minhas raízes, que estão no campo, isto é, no Pampa, no meu casarão, no meio do meu jardim, do meu pomar e do vinhedo do meu avô; que me esperam, eu sei. E sei, porque se me ausento por longo tempo noto-lhes o ar de decadência. E se ali demoro, vejo tudo reflorescer, vivificar-se. Rôdo não se importa tanto: ele não pára, suas ausências são mais prolongadas que as minhas, ele roda o mundo. Ele diz: “Alminha, por quê perdes tempo nessa cidade? Ela te engolirá! São Paulo não é uma cidade, é um vício, uma dissipação. Prefiro os meus cassinos e pousadas, interligados pelas mais belas paisagens do mundo, que percorro, com o rosto ao vento, no meu Porsche. Por quê não vens comigo? Eu te farei viver outras aventuras. Lembras-te de quando éramos crianças? Eras tão curiosa e aventureira quanto eu, e devassávamos nosso pequeno pampa, num raio de pelo menos cinco quilômetros em torno do casarão. Alma, estás te desperdiçando, o que esperas? O prêmio Nobel da Literatura Sedentária? Vamos, venha comigo!”
Eu me abracei a Rôdo, e o cobri de beijos. Mas, isso foi sempre assim! Cada vez que o meu irmãozinho me dá um conselho, ou se estende num comentário sobre mim, sobre nós, eu me enterneço e beijo-o, beijo-o, até ele se cansar e me afastar, rindo, e dizendo-me “pegajosa”. Ai! Rôdo, como alguém pode ser tão exemplarmente viril, como tu? Eu te vi puxar uma faca, uma vez, quando ameaçado por um peão que me desrespeitara, e não demonstravas medo no olhar, mas, sim, fúria. E eu, entre sincera e brincalhona, exclamei o clássico “meu herói!” e cobri-te de beijos. Naquela noite me possuístes, e eu me senti tua para sempre. Que mais posso querer? Eu sou, ou fui, a amada de meu irmão-herói, que aventura mais posso querer?
Entretanto faço as malas, mais uma vez, para retornar às fontes. Preciso daquelas águas, daquelas flores. Minhas “pequenas flores do riso”, como eu as chamo. Ali, naquele jardim plantado por minha mãe, e sua melhor herança, as crianças parecem estar no seu elemento, seu habitat. Anseio olhar mais uma vez para Patrícia, Pedrinho, Hans e Christian, meus adorados sobrinhos, por ali, correndo, colhendo flores e as desperdiçando, como animaizinhos brincalhões, como filhotes. Ali, assim, eu tenho certeza de que a vida é bela, e que meu coração sofre apenas pelo progressivo esmaecimento dessa imagem, desse manancial.. A vida é um afastamento gradativo de uma fonte inefável de beleza: a Era do Sonho de nossa infância; e dói, dói estar tão consciente dessa viagem, sem volta, a não ser no mesmo sonho, prerrogativa divina, da ternura de Deus, que ele nos legou. Ele nos deu o Sonho, não perderemos nada, no final. E regressaremos, por fim, às pequenas flores do riso.
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22/08/2005
terça-feira, 6 de novembro de 2007
O aeronauta (de Alma Welt)

O Balão de Alma Welt- litografia de Guilherme de Faria,P.A. 70x35cm, s/ papel Arches
(Dos contos Pampianos de Alma Welt)
Daqui, desta varanda sobre o pampa infinito, fico horas a observar os longes, comparando a nitidez da linha do horizonte de hoje com a de ontem, e a beleza das nuvens, do seu arranjo sábio, estético, no enquadramento da mente, daqui, deste ponto de vista privilegiado, cuja referência é aquele grande umbu ali, a meio caminho do infinito.
Talvez eu espere, também, um cavaleiro ao longe, vindo a trote, enrolado num pala, ou a galope, vindo nesta direção... do meu coração solitário e expectante
Mas eis que o cavaleiro veio do céu, não da linha do horizonte, mas de cima, de cima... numa aeronave, um balão colorido!
Veio pairando, descendo, descendo, até lançar sua âncora em pleno gramado do meu jardim. Tive somente de levantar-me da minha cadeira de balanço e caminhar dez passos até ele, para tocar a sua mão e observar os brancos dentes do seu sorriso, de perto, reparando no azul celeste de seus olhos puros, claros.
Ele se identifica, Rolando, balonista, catarinense, da ilha do Desterro, vindo, pois, de tão longe. Como pôde ele chegar aqui neste Pampa, na fronteira do país “del oriente”? Ele promete contar sua aventura, depois de saciar sua imensa fome, com o nosso charque hospitaleiro. Rôdo, meu irmão, está encantado, e vejo-lhe nos olhos a tentação de aventureiro que é, de partir com ele, esse possível companheiro de uma aventura que ele ainda não experimentou em sua vida jovem, movimentada.
Eu fico ali a observar estes dois jovens, protótipos da beleza viril, do que há de melhor nestas terras do sul, se posso dizer assim, sem incorrer em preconceitos. Ah!Eu queria nesses momentos ser assim um jovem másculo, para partir com eles, sem perigo de promiscuidade, de uma moça entre rapazes, num espaço tão exíguo, contraditório no meio daquela amplidão.
Rolando não tira os olhos de mim, que me afastei, novamente, e recoloquei-me no meu ponto preferido de observação, a minha cadeira da varanda. Percebo que ele quer desembaraçar-se da curiosidade e entusiasmo de Rôdo, e a pretexto de dividir um pouco do charque e do vinho, se aproxima de mim. Eu sorrio e aceito uma lasca e um gole, brindando a ele, o aeronauta, herói que veio do céu.
.....................................................................................
De noite rolo na cama, o calor não me deixa dormir, ou será a minha mente, melhor, meu coração inquieto? De calcinha somente, abro a porta do meu quarto, que dá para a varanda sobre o jardim, cujas touceiras brilha, fosforescentes sob o luar. Uma leve brisa do pampa evapora o suor do meu rosto, e faz um cafuné nos meus cabelos. Exponho meus pequenos seios a essa brisa que acaricia minhas aréolas e os bicos dos meus mamilos, que se tornam tesos. E eis que acontece o previsível: Rolando está ali, de repente, com a mesma idéia de fruir a brisa noturna desta noite predestinada. Só me resta permanecer natural em minha nudez, como e uma náiade do luar, e exclamar um singelo “oi” de saudação, como se ele fosse um indiozinho da mesma tribo, infantes da mãe Natura, sob as estrelas deste pampa.
Rolando se comporta de acordo e não desvia o olhar, para não parecer constrangido, ao contrário põe-se a conversar com naturalidade, a fala mansa, pousando intermitentemente o olhar sobre os meus mamilos, arrepiados pela brisa... agora deste olhar.
Então, ele finalmente me toca os ombros com suas as mãos fortes de balonista, e puxa-me para si, para os seus beijos, ternos, sábios, mas famintos. Depois, pega-me nos braços e carrega-me para o meu leito, onde vai fazer-me voar num balão noturno, numa barquinha de suave cetim, onde eu avistarei todas as estrelas do céu, e as sombras adormecidas do meu pampa, sob o meu olhar que voa, que voa, por esta noite querida, sem fim...
.....................................................................................
De manhã, ao despertar, já não encontro Rolando em meu leito. Ergo-me, ligeiramente ansiosa, e sem mesmo lavar o rosto corro até a varanda, como se soubesse o que veria.
Rolando está recolhendo a âncora, e faz-me somente um aceno, a mim e a Rôdo, enquanto o balão sobe e se desloca empurrado pelo pampeiro matinal. O aeronauta me deixara no porto, como tantas, marinheiro dos ares, que não me carregaria consigo, já que eu voara com ele toda uma noite, enchera-me de seu sumo concentrado, de aventureiro, e podia partir porque eu o esperaria, como todas, que ele voltasse um dia, daquela linha do horizonte, que eu avistaria, não como “ *un p´o de fummo”, mas com a tocha acesa do seu balão colorido, com a sua barquinha de vime transmutada em seda, numa noite mágica...
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Nota * : “um p´o de fummo”: alusão ao verso da famosa ária da ópera Madame Buterfly de Puccini.
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