quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O Rosto de Musidora (de Alma Welt)




O Rosto de Musidora
(dos Contos Secretos, de Alma Welt)


Depois de muito tempo, tomada de uma súbita nostalgia subo ao sótão do nosso casarão, à procura de não sei o quê. Ao entrar no aconchegante aposento sob o forro inclinado de belo madeiramento lanço os olhos primeiramente ao pequeno catre que foi o leito de Rôdo em sua infância e parte de sua adolescência, e onde eu costumava tantas vezes me deitar ao seu lado até o dia em que Solange nos flagrou juntos e tudo mudou. Mas não é isso que procuro agora. Dirijo-me à grande arca que meu pai colocou ali com as lembranças de sua vida privada que ele não quis deixar expostas na biblioteca com aquelas outras que ele podia compartilhar com todos.
Abro a pesada tampa de espessa madeira antiga do tempo dos escravos, e começo a retirar álbuns, fotos soltas, cadernos de anotações e... velhos postais. Um em especial chamou-me a atenção: mostrava uma diva do cinema mudo chamada Musidora, um rosto típico dos anos vinte, portanto uma beleza antiga, datada, com aquela boquinha pintada em forma de coração, e por cima do colo uma dedicatória em inglês a alguém desconhecido, com o seu autógrafo reproduzido e a data, 1921. Virei o postal e encontrei as seguintes palavras que me surpreenderam: “A ti, Werner, o retrato da minha famosa sósia dos tempos idos, que descobri aqui no Marché-aux-pouces. Também achas-me parecida com ela? O comerciante presenteou-me o retrato, pela semelhança... Ah! Que saudade deste mesmo mercado de pulgas! Maria. Paris 1959”.
Fiquei um tanto perturbada e... comovida. “Deste mesmo mercado”? O Vati tivera uma amante como eu sempre suspeitara! Isso explicava muita coisa embora aquele rosto não sendo propriamente o dela funcionava como uma falsificação, um último véu sobre o enigma da paixão romântica de meu pai que eu suspeitava existir e ansiava há muito tempo desvelar.
Comecei a me lembrar de como eu pressentia uma presença oculta dentro de meu pai, adorada por ele, e como esse pensamento me surgiu pela primeira vez durante um de seus inúmeros concertos para mim, assim eu pensava, só para mim. Ao piano ele se transfigurava tocando como um virtuose que ele era, mas tão comovidamente, eu percebi, ao descobrir uma certa lágrima, um dia, enquanto ele tocava. Depois, a falta de afinidades, evidente entre ele e a Mutti, e a apatia visível de minha mãe diante de um homem que nascera, a meu ver, para ser adorado!
Para mim tudo ficou claro naquele instante mas eu me pus a procurar mais evidências, outras fotos, à procura do verdadeiro rosto daquela que meu pai amara e que camuflara tão bem a sua presença que aparentemente só sobrara aquele pequeno rastro dúbio. Realmente não encontrei mais nada, a não ser uma profusão de postais que não pertenciam àquele quebra-cabeças. Como conseguiram eles despistar tanto uma família inteira? Que imenso segredo eles carregaram no coração? Por um momento, eu, filha de meu pai, me senti também traída. Ele nunca se abrira comigo a respeito daquilo, do seu amor, talvez do grande amor da sua vida! Ele me excluíra, então, de seu mais profundo segredo. Comecei a odiar aquele rosto de mulher, ainda que na sua falsa versão.
Passei uns dias perturbada, talvez órfã como nunca. Recomecei a sentir imensa falta de meu irmão, meu confidente, meu cúmplice, meu amado irmão. Que falta ele me fazia, como sou só e vulnerável (eu pensava) sem ele! Como posso ser agora “a chefe”, a líder dessa família, se sou uma fraca mulher, apenas uma filha sem pai, uma irmã sem irmão? Ah! Rôdo, por que és assim tão independente, até de mim? Porque passas tanto tempo longe de casa, o que procuras no mundo que já não tiveste aqui ao meu lado, nos meus braços, nos meus olhos? Sinto-me traída, duplamente traída e... abandonada!
Alguns dias depois resolvi voltar ao sótão para procurar melhor naquela arca alguma pista, alguma coisa que acalmasse meu coração. Não era possível que o verdadeiro rosto da musa de meu pai não se encontrasse perdido naquela montanha de fotos e postais. Eu precisaria, talvez, ter a paciência de ler as cartas do Vati dirigidas à minha mãe com sua quase ilegível letra de médico? Ou, melhor, encontrar talvez alguma carta de mulher, um rosto verdadeiro que escapara do provável despiste de meu pai, como afinal aquele retrato que queria ser uma máscara, aquele postal fanado, aquele camuflado rosto.
E encontrei!
Uma foto de família, uma típica foto, da família de minha mãe com inúmeras pessoas, homens, mulheres, adolescentes e crianças. Rostos para mim desconhecidos mas tão sugestivos que um bom observador desvendaria o provável destino de cada um.
Reconheci afinal minha mãe, um rosto melancólico como sempre. E então, estremeci! Ao seu lado, de mãos dadas com ela, uma adolescente.... o rosto de Musidora!

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01/09/2005

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