Retomo a minha vida no Brasil.,
em meu ateliê da rua... Aqui sinto-me realmente em casa. Creio que
não poderia viver muito tempo longe das margens da rua Augusta, esse “rio”
inglório, que, no entanto me é tão familiar, como se estivessem aqui as minhas
raízes.
Um amigo gaiato, um dia, a
propósito disso, disse, parodiando o
postulado eclesiástico : “Ex Iardinis nulla salvis.” Fora dos Jardins
não há salvação. Ah! Doce amigo! Ah! amigos e amigas da minha vida. Como os
amo, eu, que no entanto sou tão solitária. Essa é a contradição da minha vida:
não poder viver nem sem, nem com o ser humano muito perto. Tal como o
alcoólatra avançado, em relação ao álcool. Remédio e veneno, ao mesmo tempo. E
como amam esse veneno! Como amo o ser humano, do qual sinto que devo me
defender, não ferozmente, mas suavemente... para poder continuar falando
dele... e para ele, e ouvindo-o com paixão... e desconfiança.
Não quero mais envolver-me
amorosamente, por um bom tempo. Se
possível. Eis que toca o interfone.
–Sim, pode subir. Obrigada, seu
Ermírio.( seu Ermírio é um novo
porteiro, nordestino, muito simpático, que me pediu para escrever versos de
cordel, o que farei, certamente. )
Abro a porta para uma moça
encantadora. Judia, de olhos cor de mel, rosto como um camafeu hebraico ( existe
isso?), cerca de 28 anos, muito branca, leitosa... e voluptuosa em sua
sensualidade oriental. Sim, porque essa moça é sabra, como ela se define, após
cinco minutos de conversa. E... uma
pianista!. Ela diz:
–Hesitei um pouco, Alma, em procurá-la. Sabia que você é descendente
de alemães, Welt, não é mesmo? Eu fui muito influenciada por meus pais, em
Israel, para evitá-los, aos alemães. Meus pais herdaram de meus avós esse
trauma, que certamente não é meu. Não quero que seja. Já estive na Alemanha,
tocando. É a terra ideal da Música. Sobretudo para o piano. Fui bem acolhida.
Salvo por um único espectador que retirou-se, ostensivamente de um recital meu,
em Hamburgo. Na verdade, aquilo me chocou e estragou aquela cidade para mim.
Pareceu-me toda ela nazista, disfarçada, e que aquele homem representava o
verdadeiro rosto daquela cidade. Mas, nas outras, não voltei a ter essa
sensação... estranhamente, aliás. Não sei, desconfio um pouco da minha própria
formação... No entanto, assim que a vi, na galeria, Alma, assim, tão loira, tão
alemã no aspecto... e tão bela, não tive medo de você, senão uma enorme
atração... e admiração. Eu estava no seu vernissage. Você brilhava, era uma
estrela. Não ousei aproximar-me. A noite era sua e eu queria observá-la,
incógnita. Foi o que fiz a noite inteira. Voltei no dia seguinte à galeria,
para olhar melhor os seus quadros.
Maravilhosos! E eu passei a querer vê-la em seu ateliê e ... fazê-la
ouvir-me tocar, para si.
Olhei Tova, seus olhos brilhavam,
ela estava emocionada. Toquei suavemente o seu rosto. Essa pequena judia me
conquistara imediatamente. Será que foi por causa de suas homenagens à minha
pessoa? Não, ela me atrairia mesmo sem isso... Esse rosto tão doce. Essa
nostalgia no olhar, que parece sonhar com a terra prometida... do amor, ou da
musica. Esse rosto espiritualizado, de artista. Sim, eu queria ouvi-la tocar.
Imediatamente, se possível. Disse-lhe:
—Sim , Tova, quero ouvi-la
tocar. Sinto-me honrada, por isso. Estou ansiosa. Quando? Quando posso ouvi-la?
Ela olhou em volta e disse: —
Você não tem um piano aqui, que pena.
Seria sublime, neste momento, após ter-me tocado o rosto...Mas... você
não pode vir comigo agora? Venha, venha até o meu piano. Vou tocar para você,
só para você.
—Sim, Tova, deixe-me tirar esta
roupa de trabalho. Estou suja de tinta. Espere um pouco.– Entrei no meu quarto
e me troquei rapidamente. Percebi-me escolhendo uma bela roupa e passando um
leve baton. Porque estou me enfeitando?
Bem, o momento exige. É um momento precioso, de homenagem e encantamento.
Merece o meu cuidado. Uma pianista... e concertista internacional! Como a minha
vida é maravilhosa, por esses privilégios! Devo ser grata!
Saímos juntas e descemos no elevador,
olhando-nos nos olhos em silêncio. A esta altura, sinto conhecê-la há séculos,
e parece ... que ela a mim.
Entramos em seu carro e
tocamos para o Jardim Europa. Paramos em frente a uma belíssima casa em estilo
normando, com o telhado azul, de ardósia. Ao abrir a porta já avisto o enorme
piano de cauda. Tova encaminha-se rapidamente para ele, abre a tampa do
teclado, senta-se na banqueta, mas logo levanta-se, encabulada e pergunta:
—Você quer alguma coisa, Alma? Uma água, um suco, ou um café? E o que você
gostaria de ouvir?
–Não, Tova, quero somente
ouvi-la. Toque... o que você escolher
para mim.
Tova abaixou os olhos,
pousou os dedos sobre as teclas e tocou. Tocou divinamente um prelúdio de
Chopin, que eu ouvia desde a infância. Aquilo me fez dar um gemido e um soluço.
As lágrimas saltaram. Tova tocou e tocou. Deu todo um concerto para mim. Satie,
Ravel, Fauré, mais Chopin, Debussy, depois Poulenc. Eu estava no céu. Quando
ela parou, eu chorava tanto, que ela ficou preocupada, e levantou-se da
banqueta e correu a abraçar-me.
Ficamos abraçadas muito
tempo, em lágrimas, as duas. Sempre fui muito chorona. Mas de emoção, de
ternura, de alegria! A arte é tudo, o amor é tudo, o resto é nada...
Afinal, com os ombros úmidos,
nos desenlaçamos e olhamo-nos sorrindo, muito tempo. Tínhamos nos encontrado.
Perguntei: –Tova, com quem
você mora aqui? Essa é a casa dos seus pais?
—Não, Alma, moro aqui com o meu
marido. Não uso aliança, pois modifica o peso da minha mão, ao tocar. Há quem
diga que isso é um absurdo... ou o cúmulo da sutileza técnica... mas é assim,
comigo. Quanto a ele, não está no momento. Ele é banqueiro, Alma, passa o dia
no Banco, ou na Bolsa de Valores. Só volta à noite. Temos o resto da tarde para
nos conhecermos. Depois se você quiser ficar para jantar... meu marido, Davi, é
muito cortês. Certamente gostará de conhecê-la. Eu já falei de você para ele,
mas ele não viu a sua exposição. Ele não tem tempo para muita coisa.. Na
verdade, só para o dinheiro. Eu não me importo. Ele me deu esse maravilhoso
piano e posso tocar à vontade. Ele não interfere. Desde que eu vá a todos os
Bar Mitzva de seus sobrinhos e casamentos de sua família. E dance a Hava
Nagila, toda vez. No mais...Paga-me as passagens de avião, hotéis e tudo o mais
para os meus concertos. Na verdade não posso me queixar de nada. A não ser de
uma certa solidão espiritual e artística, nesta casa. Você sabe, dinheiro e
arte fazem uma união espúria, mas antiga e necessária. Cresci tocando um piano
de armário, em Israel. Mas desde que sentei frente a um Steinway negro... não
posso deixar por menos. Você sabe... mas, Alma, deixe-me contar algo
importante: pedi a Davi que me dê um quadro seu de presente.
Um
grande quadro, que já escolhi. Ele é um pouco avarento, mas disse-me que
negociará com você. Não quero que ele regateie, eu morreria de vergonha. Quero
que ele pague o que você pedir. Nem um tostão a menos.
—Tova- disse eu- pressinto que
será penosa essa transação. Não sou boa comerciante. Não aceito que pechinchem,
nem sei cobrar bem o meu trabalho. Por isso, os marchands fazem isso por mim.
Vou lhe dizer o que fazer: trocar o meu trabalho pelo seu. A minha arte pela
sua. Dê-me mais um concerto como esse, e escolha o quadro que você quiser. É o
mais justo... e satisfatório. E assim não meteremos dinheiro no meio desse
nosso encontro tão bonito.
Tova sorriu e segurou a minha mão. Eu senti
que naquele momento eu subira ainda mais no seu conceito. Seus olhos brilhavam.
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Ficamos esperando o rei
Davi, bebericando. Pontual, ele chegou num carro com motorista, e com a
indefectível pasta de homem de negócios. Esperávamos na sala, um pouco
solenemente... e coradas. Davi olhou-nos, pousou a pasta na mesinha de centro,
e trauteando uma cançoneta, estendeu-me a mão, ao mesmo tempo que me olhava e
beijava sua esposa no rosto. Reparei nos traços de ave rapinante, no nariz,
tipicamente judaico e nos seus olhos azuis acinzentados. Não deixava de ser um
belo tipo de judeu. Não como Paul Newman, mas...
Tova então disse:
–Davi, esta é Alma, a artista de
que lhe falei. Fui buscá-la no seu ateliê. Davi, Davi, você precisa ver o seu
ateliê, que lindo, que quadros! Por falar nisso, já escolhi o quadro que quero.
E você não precisa se preocupar. Já me entendi com Alma quanto ao pagamento.
Davi ficou de olho parado.
Olhou-a e a mim, por um momento, depois disse:
–Bem, Tova, posso saber os
termos dessa transação? Sim porque ainda não fui informado do preço da obra,
formas de pagamento, descontos, e tudo o mais, não é mesmo? Mas não falemos
disso agora. Vamos jantar primeiro. Alma, você vai experimentar a nossa comida
Kosher. Você vai gostar. Acomode-se. Tova mande servir o jantar – disse ele
tirando o quipá do bolso do paletó e pondo-o na parte de trás da cabeça, em
equilíbrio meio instável.
O repasto transcorreu
agradavelmente, em termos, pois o Davi era
reticente e irônico. Tinha um olhar de raposa e estava louco para me
espicaçar. Como sempre faço nessas situações, desarmo meu oponente reunindo
toda candura de que posso dispor, e adiciono uma pitada de ambigüidade. Os
predadores se desnorteiam. Já não sabem se sou uma ingênua total ou uma irônica
mais sutil que eles. Sempre dá resultado.
Mas, Davi, sentindo em mim uma
presa difícil, ficou mais instigado ainda. Como bom banqueiro fora do
expediente, resolveu tentar me comprar, só por dever de ofício... e para
comprovar sua visão do mundo que se resumia numa única premissa: Todo mundo tem
seu preço... e só os loucos não podem ser comprados. Tive pena da pobre Tova,
que eu agora percebia prisioneira de uma armadilha configurada por um grande Steinway
negro, e um estoque inesgotável de partituras, além, é claro, de contratos com
teatros e salas de concerto famosos, no mundo todo. Olhei Tova, e ela sorria
tristemente... a bela refém da arte, suave lírio do Hebron.
Alma—disse Davi—O que você
faz para viver? Me desculpe perguntar.
Sim porque é impossível viver de arte, mormente neste país. Veja Tova,
tem meu patrocínio, naturalmente. Claro que ela merece tudo isso. É uma grande
pianista, como você, provavelmente, já pôde perceber. Mas e você, Alma, já tem
algum patrocinador? Pode-se ir muito longe com isso. Você sabe, os artistas
precisam de partituras e pianos, de tintas e de telas, não é mesmo? Tenho muito
afeto por vocês artistas e até os invejo, um pouco. Vocês criam, não é mesmo?
Vocês têm esse dom. Nós, homens de negócios, só transformamos, ou transferimos.
Nada criamos, na verdade. Vocês têm o sopro divino. Ninguém pode tirar isso de
vocês. Mas, sem um bom empurrão, o boneco de Deus pode permanecer imóvel,
paralisado. É preciso pegar no tranco, como diz o povo, não é mesmo? O que quer
você , Alma, da vida? Fale-me de
você.
–Davi – disse eu- da vida eu
quero a Vida, a Arte e a Natureza.
“O amor que move o sol e as estrelas.” E
como já tenho tudo isso, nada mais quero, que ambição, deslocada, se não é
pecado, é defeito de caráter, não é
mesmo?
—Não, não é mesmo, Alma. Nunca
ouvi falar que ambição fosse defeito de caráter. Meus pais eram bons
moralistas, e cresci ouvindo deles: “Davi, você não tem ambição o bastante,
Davi. Você precisa tê-la em dobro, menino. Não se pode crescer, não se vai
longe sem ambição, Davi. Essa lição, afinal me serviu e... veja onde estou.
Tenho o meu próprio império e até mesmo minha própria pianista, não é mesmo,
Tova? No bom sentido, naturalmente. Note que pus no mesmo pé, o império e a
pianista, e sua música. É motivo de orgulho, claro, ter-me casado com Tova e...
ela não pode se queixar de falta de incentivo, não é mesmo, Tova?
Tova permanecia calada, com um
sorriso triste, meio constrangido até, percebendo, provavelmente, o equívoco de
um combate assim entre dois contendores com armas tão diferentes. Eu descortinava naquele momento, toda a
história patética e melancólica, da pequena prisioneira na torre do grão-duque,
que passava o dia a cantar, ou melhor, a tocar seu instrumento, na esperança do
cavaleiro andante passar embaixo, no sopé da torre, para começar a verdadeira
vida, do amor, senão da arte. Meu coração encheu-se de compaixão pela bela
princesinha judia e eu quis por um momento, não ser mulher e artista, mas um
cavaleiro armado da cabeça aos pés. Por empatia, imediatamente me senti muito
próxima de Tova e resolvida a salvá-la por amor. Sempre fui doida. Respondi a
Davi, em lugar de Tova:
–Senhor banqueiro, Tova deve
estar muito contente com o seu patrocínio e até mesmo grata, não é mesmo, Tova?
A gratidão é a virtude dos nobres. Quem disse isso? Bem, não importa. Mas você
conhece a fábula do lobo e do cachorro. Aquela, da marca da coleira. Pois é,
também não vem ao caso — (eu, de repente, me arrependi do que estava falando.
Eu certamente estaria magoando a pobre Tova. Eu não deveria subestimá-la para
defender-me de Davi. Isso não seria bonito ou válido. No entanto continuei):–
Bem, devo ser uma loba sarnenta, não é mesmo? É tarde demais para ser um pastor
alemão. Mas, falemos de Arte: Tova tocou divinamente, hoje. Senti-me muito
honrada, com um concerto completo só para mim. Jamais podia esperar uma coisa
dessa em minha vida. Por isso quero trocar a minha maior e melhor tela por um
novo concerto, já que o de hoje me foi ofertado de graça. Não sou tão generosa
quanto ela, pois se o fosse já lhe teria ofertado também uma tela.
Tova ficou um tanto espantada e confusa,
mas abriu afinal a boca, já que esteve calada o tempo todo até agora.
—Alma, Davi, parem com isso!
Vocês estão duelando há quase uma hora. Nunca vi coisa igual. E o pior é que
me elegeram para pivô dessa discussão
velada. Não concordo nem com um nem com outro. Não vejo as coisas assim... Mas
confesso que estou perturbada com esse diálogo de vocês. Não quero que nada
perturbe a torre de marfim que construí para poder exercer a minha arte. A música
para mim é tudo. Eis a questão. Os mestres precisam ser celebrados. Nós,
músicos, somos seus sacerdotes, apenas isso. Devemos cultuá-los, para que não
morram nunca. Para que sua música não morra. Veja o que aconteceu aos antigos
deuses. Os homens deixaram de cultuá-los, eles não morreram mas adoeceram e se
transformaram em neuroses. As doenças do espírito. Não é isso que Jung dizia?
Mais ou menos isso, me parece. Sou uma sacerdotisa da Música, se não uma Vestal dos grandes
Mestres porque durmo com o Davi. O resto não me interessa. Mas agradeço o seu
carinho, Alma, e o seu “patrocínio”, senhor meu marido. Agora vamos à
sobremesa, que está divina. Comamos e bebamos, que amanhã, talvez morramos.
Lembram-se da cantata Carmina Burana?
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Depois de ter sido levada até o
meu prédio por Davi e Tova, e me
despedido deles como novos amigos, fui deitar-me. Mas somente depois de digerir com a mente os acontecimentos e
diálogos, pude afinal conciliar o sono, murmurando Tova... Tova...
Acordei com uma sensação de
fome, e instintivamente levei a mão ao pescoço. Sorri aliviada e fui fazer o
café, para em seguida poder começar a pintar.
Depois de uma hora de trabalho,
o telefone toca. É Tova, com sua voz macia, sussurrante, que pergunta-me se
passei bem a noite. Diz que quer ver-me hoje, se possível. Digo a ela que hoje
não posso, pois tenho que terminar umas telas encomendadas, mas que a sua
encaminharei para sua casa brevemente. Vou cuidar da embalagem e do despacho, o
frete será pago pelo banqueiro,
certamente. Tova pareceu ficar um pouco frustrada. Pelo jeito quer mesmo ver-me
ainda hoje. Digo então, que venha ao meu ateliê no fim da tarde, assim não
perderia o dia de trabalho.
Passo um dia maravilhoso,
pintando ao som das minhas árias favoritas das óperas que amo. Parei de pintar
com o Lamento de Federico, da L’arlesiana de Francesco Cilea (è la solita
storia del pastore ...) que me confrange o coração com uma estranha nostalgia.
Começo a chorar copiosamente. Isso me acontece freqüentemente. Choro demais, de
comoção, com a beleza, com a poesia, com o sentimento do mundo, do amor. E
sinto uma dor profunda pelo sentimento do belo. Por que sou assim, por que a vida me dói, suavemente, sobretudo pela sua
beleza? Uma saudade, uma nostalgia de não sei quê, rege minha vida. Será de
vidas e amores passados? Certamente que sim. Ai, quanta dor, quantas perdas,
quanta beleza fruída... e perdida. Nesses momentos queria também morrer, não de
qualquer desespero, mas de suave tristeza, “malinconia”.
Afinal, no fim da tarde, tendo
o dia rendido boas pinceladas e um satisfatório avanço nas telas começadas,
toca o interfone, e, atendendo, mando subir
minha nova amiga. Percebo, com certa surpresa, meu coração bater mais
forte , quando abro a porta para recebê-la.
Tova entra, suave, deslizando...
Abraçamo-nos e reparo na sua boquinha de lábios túmidos, sensuais. Não resisto,
beijo-a nos lábios. Ela sorri e
retribui. Em seguida atraio-a com meus lábios, rodando as duas pelo ateliê numa
estranha valsa, até a porta do quarto. Ó lírio de Israel, ó Terra Prometida,
agora entendo seu chamado ancestral...
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De repente tive vontade de rir, pensando em Davi. Ele não poderia
comprar-nos. O que tínhamos uma com a outra, ele jamais poderia ter. Era também
inexprimível. Nada comparável a uma relação homem-mulher, mas muito mais sutil
e profunda.
Eu sentia agora que deveria
reinvindicar essa jovem judia como minha. Seria mais belo, e também mais
divertido. Eu iria disputá-la com Davi. Diria a ele:
“–Davi, seu banqueiro, sua mulher
agora me pertence. Ela não quer mais a sua coleira, eu a retirei, e agora ela
passeia livre pelo meu atelier. Ali não há um Steinway negro, mas ela dedilha
meu corpo com uma virtuose, e a musica escorre”. Ai, que fantasia imaginar-me dizendo isso ao
banqueiro!...
Não, não direi nada. A hora é
de ação. Firmar o meu domínio pela minha sensualidade. Deixar que ele veja com
os seus, o mel dos olhos de sua mulher sobre esta pintora aqui. Ah! Como tudo
isso me diverte. Não! Como tudo isso me entusiasma! Nunca antes senti a
dubiedade de um amor assim...
Olhei novamente Tova nos olhos
e certifiquei-me de que eu não me iludia. O mel de seus olhos realmente
escorria. Essa moça me amava. Ela estava apaixonada como eu. Derrubaríamos o
Banco.
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Tova não voltou para casa.
Permaneceu vivendo comigo por dois anos Circulávamos nos “meios”, incomodando
os escribas e os fariseus. Inseparáveis, nos vernissages, nos concertos e nas
festas. Acompanhava-a também, nos seus concertos, em geral beneficentes. Por
alguma razão as portas dos grandes teatros e salas de concerto estavam agora
fechadas para ela. Claro que nós sabíamos por quê. Além disso não havia mais
Steinway negro, senão seu velho piano de estante, que era o que cabia em meu
ateliê. Ainda assim eu continuava consciente do grande privilégio de ter essa
maravilhosa pianista tocando enquanto eu pintava. Eu a amava e era feliz. No
entanto, o primeiro ano foi de guerra psicológica por parte de Davi. Chegou a
ameaçar-me, mas envergonhou-se logo. Suas armas eram eficazes em relação aos
homens, nunca contra uma mulher como eu. Seria como ameaçar uma donzela com uma
luta de boxe. Era ridículo. Sentiu-se impotente depois de várias tentativas,
súplicas, ameaças, vociferações, vergonhas, tentativas de suborno. Sobretudo
isso. Até chegar na indefectível “proposta indecente”:
–Alma, quero fazer-lhe uma
oferta. Dou-lhe 1 milhão de reais se você me devolver Tova, e mais 1 milhão, se
vocês vierem juntas para mim. Que tal? É irrecusável!
Apreciei o seu cinismo.
Respondi-lhe:
–Davi, posso responder por mim,
não por Tova. Comigo ela é livre, pode escolher. Por mim a resposta é não. Você
já leu a fábula, já sabe. Mas, realmente não posso responder por Tova. Se ela
quiser voltar para você, nada poderei fazer. Não faço uso do poder. Tova começa
a se sentir triste longe do seu piano. Na verdade não poderei retê-la por mais
muito tempo. Eu a vejo chorar, às escondidas, à noite. E se ouvimos música em
rádio ou em CD, ela soluça de cortar o coração. Ela precisa tocar o seu piano,
ou vai fenecer. Precisa também daquelas grandes platéias. Já não posso
satisfazê-la, apesar
de
nos amarmos tanto. Se você disser a palavra certa, se tocar o seu coração, ela
irá com você. Mas lembre-se: Tova é uma jóia rara. O “último lírio do Hebron”
como eu a chamo. Você tem de respeitá-la, acima de tudo. E servi-la, sim .
Servi-la. Pois ela é uma princesa da música, essa é a pura verdade.
Davi olhou-me longamente, e percebi-o, pela primeira vez, comovido.
Senti que esse homem duro, esse homem de negócios , fora atingido. Estava
derrotado. Paradoxalmente, poderia agora conquistar sua vitória.
Com certa humildade, afinal,
agradeceu-me, beijando-me o rosto. Toquei minha face com a mão, onde ele a
beijara, e senti que eu, afinal, perdera Tova.
Naquela noite, Tova fez a sua
mala. Abraçamo-nos em lágrimas e levei-a até
o Davi que a esperava na portaria. Eles partiram sem nenhuma palavra
mais entre nós três. Tudo já fora dito.
Tudo já fora sentido. Por um momento, Tova me pareceu uma menininha
buscada pelo seu pai, um pouco envergonhada. Mas eu sabia que seu piano a
esperava e também as salas de concerto do mundo.
FIM
25/10/2002